Page 39 — Pop up!

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O Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, tem um significado quase místico no cenário do novo rock brasileiro. Foi lá que o monstro da cena independente ganhou vida, personaficado na forma dos festivais Goiânia Noise e Bananada; e do selo que lançou quase todas as bandas que ainda importam no país até agora. Hoje, os palcos que ocupam o que antes eram duas caixas d’água da cidade, são uma das silhuetas da própria Abrafin, a Associação Brasileira dos Festivais Independentes. Passear por lá, de noite, é também uma atividade de contemplação.

Enquanto os poucos privilégiados a entrar no local antes de começar o show descansam em uma das mesas de plástico, 11 figuras seguem frenéticas num eterno vai e vem do portão até o palco. Os integrantes da banda Móveis Coloniais de Acaju tinham vivido um dos momentos mais importantes de suas carreiras em menos de 24 horas, mas nem tiveram tempo ainda de processar toda a informação. De um show que foi além do lotado em Brasília, com direito a apoio do governo local, eles tinham lançado o novo disco, C_mpl_te, com a cidade inteira já cantando todas as músicas.

Mas os heróis locais dormiram menos de cinco horas e partiram direto para a capital vizinha de ônibus. Acompanhados pelos Black Drawing Chalks, Macaco Bong e Galinha Preta, a comitiva carregava toda comissão de frente do independente nacional, com direito ao próprio Fabrício Nobre, que nessa hora não era nem vocalista do MQN, nem presidente da Abrafin, mas produtor contratante do show do Móveis.

É muita informação para ser processada em pouco tempo. Cumprimentos de integrantes da já finada Bois de Gerião, da dupla Lucy and the Popsonics, entre outros de toda a cena da capital nacional – e até o Senhor F, Fernando Rosa – passaram quase como um vulto até esse momento. Sem descanso, eles seguem para um lado e para o outro, carregando o equipamento, montando o próprio palco, afinando o próprio show. São 11 músicos e 11 roadies ao mesmo tempo, numa espécie de micro-empresa musical. Facilita, mais também complica. No Habibs mais próximo, o empresário Fabrício Ofuji desenbolsava o montante para alimentar uma frota inteira com dezenas de pizzas e esfihas… e um kibe.

No pique de quem tomou uma injeção de café, eles não demonstram sequer sinal de cansaso. Quando terminaram de montar tudo e de fazer a passagem de som – e devorar as pizzas, claro – foram direto para as mesas para dar essa entrevista. E, dela, sairam direto para o palco já para fazer o show. Quem também participou dessa conversa, além da banda e o empresário Fabrício Ofuji, foi o gente finissima Tiago Agostini, que também estava lá a convite deles, mas com o distintivo da Rolling Stone.

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TEVE ALGUM MOMENTO QUE “DEU UM CLIQUE” E A BANDA DEIXOU DE SER UM HOBBY E VOCÊS DECIDIRAM SE DEDICAR COM MAIS SERIEDADE?

ANDRÉ – A banda começou em 98, no dia 10 de outubro. Começamos completamente sem pretensão, algo bastante jovem por conta de referências de bandas da cidade mesmo, como o Bois de Gerião. Mas em 2003, a gente tocou no Brazillian Music Festival…

ESDRAS – … a gente ganhou um concurso para tocar no festival. Ai mudamos nossa lógica de trabalho, procuramos um produtor, etc. Foi um festival grande que teve em Brasília, com Alanis Morrissete e Simply Red. Selecionaram uma banda através de um concurso e ganhamos a parada. Obrigatóriamente a gente teve que virar uma banda que precisou arrumar iluminador, produtor, etc, pelo menos para fingir que era uma banda séria. Porque eles ficavam sempre perguntando ‘cadê o produtor?’ Só falo com o técnido de som de vocês’.

ANDRÉ – O Ofuji tava trabalhando nesse festival na assessorial de imprensa. A gente já se conhecia antes de colégio e tal, mas ai nessa época ele entrou e começou a fazer assessorial também para a banda. E logo depois ele assumiu o posto de produção.
O segundo momento foi o disco Idem. A gente já podia falar de profissionalização e entender a banda não só como uma banda. Porque o disco foi lançado por a gente de forma independente, até chegamos a conversar com alguns selos, mas foi um projeto que a banda acreditou. E ai fizemos o show de lançamento organizado por nós mesmo e percebemos que eramos capaz de produzir shows também.

Daí em 2005 a gente fez o primeiro Móveis Convida. A banda tinha vários potenciais incubados e foi descobrindo isso com essas necessidades. No lançamento do Idem já tinham tres potenciais produtores de eventos como sao hoje em dia, mega experientes. A banda virou um modelo de negócios referencia porque é o lado artístico e burocrático junto.

ESDRAS – O estalo foi um processo. As coisas vão acontecendo, ficando mais interessantes. Sempre é um processo. É um trampo nosso.

BRUNO – A banda foi tocando, demandando mais ensaios e dedicação. E ai veio a necessidade da gente se profissionalizar. Porque isso tava tirando tempo e dinheiro de outras coisas, então pensamos que isso tinha que dar certo. Foi bem natural.

ANDRÉ – Já a parte artistica, o show principalmente, foi um processo. A gente foi descobrindo nossa performance, nossas interações e isso resultou no que a gente é hoje…

ESDRAS – … É, a gente sempre foi muito de inventar moda a cada show. Nesse de 2003 o iluminador inventou de içar o vocalista no meio do show.

ANDRÉ – Uma hora antes de tocar tavam os caras me leventando num palco de mais de 12 metros de altura e eu morro de medo de altura. Morro de medo… Teve show que a gente foi de Branca de Neve e os Sete Anões. A gente entrou com um bolo e eu sai de dentro dele vestido de Marilyn Monroe.

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E EM RELAÇÃO A FAMA? TEVE ALGUM MOMENTO QUE VOCÊS CHEGARAM A PENSAR “CARAMBA, TÁ ACONTECENDO. TÁ MAIOR DO QUE A GENTE PREVIU”?

ESDRAS – Tocar no Mada foi muito importante, foi um festival que apostou na gente. A gente encarou como sendo muito bem recebido. Dos anteriores para o Mada teve um salto de posição no festival. Não teve nenhum BUM, FOI AGORA. A gente tava sempre trabalhando todo dia e as coisas foram acontecendo, etc.

E HOJE A BANDA JÁ FUNCIONA COMO UMA EMPRESA. COMO É ESSA DIVISÃO DE VOCÊS, ONDE CADA UM FICA RESPONSÁVEL POR UMA ÁREA?

FÁBIO – A banda é uma empresa, já temos um CNPJ. Foi de nossas conquistas em 2008. É uma banda empreendedora, a diferença é essa. O Móveis reune muito bem o lado artístico e o burocrático. Acho que a gente tem até potencial para virar uma grande empresa.

OFUJI – Tentamos aproveitar que somos uma banda de muitos integrantes. O Gabriel é arquiteto de informação, então ele trabalha no nosso site. O Borém e o André são designers, tem quem trabalha com a parte de finanças, etc.

ANDRÉ – Isso tambem foi um processo natural de organização. Porque é muita gente, se a gente nao conseguisse de organizar seria um problema. Tem bandas de quarto pessoas que nao conseguem ensaiar! A gente tem vários amigos que perguntam como a gente dá conta dos ensaios. Na época que isso era um hobby apenas, era um problema.

ESDRAS – No final das contas, todo mundo bota a mão na massa. A gente nao faz porque somos mega-não-sei-o-que, mas porque somos muitas pessoas e a gente quer tocar. Se a gente nao fizer isso a gente nao toca.

VOCÊS COMEÇARAM GRAVANDO AO VIVO, DEPOIS MUDARAM PARA UM PROCESSO DENTRO DO ESTÚDIO. QUAIS FORAM OS PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DESSAS DUAS EXPERIÊNCIA?

BORÉM – O Miranda falou que não tendo vídeo, nao sabia se justifica fazer uma produção ao vivo. Que não compensaria apenas por ser uma produção mais simples…

ANDRÉ – Mas ai a gente falou “pô, vamos fazer ao vivo e vamos fazer o discão!”

BRUNO – A vantagem disso é que o disco foi muito bem gravado. Pegamos os melhores microfones, a melhor pele de bateria, melhor estúdio, melhor tudo. O projeto era bem mais simples, mas era bem mais barato. Depois virou um processo mais caro, mas também bem mais trabalhado. Tenho certeza que valeu a pena. Essa estratégia de lançar as músicas antes, ao vivo, valeu muito a pena por que a gente acabou ganhando outro produto.

BORÉM – Falando da sonoridade, eu acho que é uma mudança muito drástica do que a banda era no Idem e do que é o Móveis ao vivo. O novo está muito bem produzido, com muito efeitos em vozes, guitarras, etc. É um disco composto e arranjado pelo Móveis, mas com o olhar de um produtor. Uma proposta artística. Estamos lançando um produto que é uma cara do Móveis, enquanto nosso show é outra, por exemplo.

ESDRAS – O Idem, que foi produzido pelo Rafael Ramos, representa um retrato de seis anos da banda. Sem muita produção até então. Naquela época já entramos no estúdio na hora de gravar. Foi legal pra caramba, mas com o Miranda a gente passou quase um ano trabalhando nesse disco. Até chegar o final demorou muito. E o resultado é o Móveis fazendo canções e com nossa cara. Isso era algo que ele sempre falava, que a gente tinha que trabalhar a cara da gente.

ANDRÉ – O Miranda trouxe foco para a banda. Deu um norte pra gente seguir. Ele deu 40gb de música pra gente ouvir antes de começar o processo. E sempre foi muito aberto, falando que a gente precisava fortalecer a identidade da banda e criar um album com unidade e com uma cara própria.

ESDRAS – No primeiro encontro ele já sacou como ele queria a cara do disco. Nós já tinhamos umas musicas prontas e pensavamos que o repertório sairia dali e já começariamos a gravar já no mês seguinte. E ai de cara o Miranda chegou e só destacou cinco, que nem eram as que a gente mais gostava, nem as que estavam mais prontas. Eram as versões mais toscas. Eram músicas muito ruins. E a gente só tinha mostrado porque o Miranda tava vindo para brasília e a gente precisava mostrar trabalho e falamos “ó, vamo dá um migué aqui nele e tal, pegamos uma músicas para parecer mais”. Ai qdo ele ouviu, pirou nelas e só falava “vei, essa é uma das melhores”. Tinha música que a gente tinha tocado ao vivo e já considerava como nossa e ele falou “essa é muito ruim” e acabaram saindo.

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COMO FOI ESSE MOMENTO DE MOSTRAR AS MÚSICAS PARA O MIRANDA, COM ELE DIZENDO QUE NÃO CURTIU?

ESDRAS – Foi “engole o choro! a gente chamou ele para isso!”

ANDRÉ – É, a gente viu duas opções. Ou não trabalha com ele, ou confiávamos no que ele estava falando. Não dá para ficar batendo de frente, também. Tem que deixar ele fazer o trabalho dele, afinal esse disco é também um disco dele.

ESDRAS – …do mesmo jeito que ele dava total liberdade para a banda, em certas músicas ele era bem sincero. Falava “vei, eu nao sei tocar nada. Nao sei como você deve fazer acorde, nao vou falar de arranjo. Eu vou falar ‘tá bom’ ou ‘tá ruim’. E vou te mostrar como pode ficar bom”.

Tinha música que ele reconstruia toda, botava introdução no meio, mandava uma parte com sopro. Algumas horas a gente ficava confuso. No final tinhamos 10 músicas, estavamos terminando uma e faltava fazer outra. Dai ele foi embora, marcou os estúdios e etc, e fizemos a música da noite para o dia. Chamavamos ela internamente de “12″. É a última do disco.

E NO MEIO DESSE PROCESSO A BANDA FOI FICANDO CADA VEZ MAIS FALADA E MAIS VISTA, TOCANDO EM TODOS OS PRINCIPAIS FESTIVAIS DO PAÍS. CHEGARAM A RECEBER PROPOSTA DE GRAVADORAS?

BORÉM – A gente chegou a receber uma proposta em 2007. Mas conversar com todos, desde major a selos. Mas nenhuma tinha muito sentido, nem pra gente, nem para a gravadora.

ESDRAS – Mas na Trama a gente muita liberdade, porque já tinhamos colocado o Idem para baixar lá. O lance foi liberdade mesmo. A gente falou que queria fazer um vídeo de cada música e colocar na internet antes de lançar o disco, eles falaram “massa!”. Deram incentivo para todas as nossas idéias. Inclusive para nossa idéia de disponibilizar na internet e vender barato depois.

OUTRA COISA QUE FOI FICANDO MARCANTE FOI O FORTE APELO VISUAL DOS SHOWS. ISSO CHEGOU A PESAR QUANDO COMEÇARAM A PENSAR COMO SERIA ESSE NOVO DISCO?

ESDRAS – Pensamos em fazer uma coisa separada mesmo. Esse é o disco, o show é outra coisa. Vamos criando e variando as músicas com o tempo.

BRUNO – Teve um processo muito importante que foi o da arte do disco. Coordenado pelo Borém, Renato e André, mas que teve a participação de todo mundo. A gente fez uma oficina de dois dias, cortando fotografia, parecia aula de educação artística. E dali eles tiraram alguma coisa. O conceito do “Complete” também está presente ai. A partir dessa arte a gente também está pensando no show. Já tem alguns elementos de cenário, de figurino. A gente tá testando esses elementos, vendo o que funciona. É espontaneo mesmo…

BORÉM – Acho que o visual vem a reboque da música. A música é o mais importante. Pensamos como vamos tocar a música, como vamos nos relacionar quando tocamos a música. E ai entra a relação com o público. Eu acho que visual não tem como não ser, principalmente pelo número de cabeças que tem no palco. É uma coisa visualmente forte, é uma multidão. Somos uma banda que tem um nome for a de lugar, um humor meio ácido também. O caso visual era botar alguma coisa que de certa maneira está fora de seu lugar, como as lixeiras como abajur, no nosso palco atual.

NOS VÍDEOS QUE ANTECEDIAM O DISCO, DAVA PARA VER A BANDA EM UM PROCESSO MATEMÁTICO, ESTRUTURANDO A MÚSICA NO QUADRO. AQUILO ERA SÉRIO MESMO OU SÓ TIRAÇÃO DE ONDA?

TODOS – Era sério mesmo!

ESDRAS – Tinha horas que o Miranda nao estava no estúdio. Falava “vou ali comprar uma coca e umas revistas”. Quando isso acontece, entravamos naquela lá. Falavamos “vamo repetir essa trecho aqui nessa outra parte!”…

ANDRÉ –  … só que a parte que repetia mudava o lado, indo para outro tom, então não encaixava. Então ficávamos lá construindo a estrutura da música.

BORÉM – Quando aconteciam essas discussões o Miranda falava “bah! nao sei porque vocês tão discutindo isso, sou eu que decido no final”. No final daquele vídeo, a proposta do André é exatamente a mesma com que começamos a discussão. Ele teve a mesma idéia com que a gente começou tudo.

ESDRAS – Na banda nem todo mundo sabe harmonia, nem sabe escrever melodia, nem todo mundo sabe escrever letras. Então a gente botou um quadro no estúdio para cada um ir escrevendo suas idéias.

Nessa hora do papo, um dos integrantes chegou puxando os outros. “Já é o show da Galinha Preta! As músicas são curtas, termina rápido”. Nessa, Esdras já levanta da mesa falando “tem problema não, a gente chega lá no palco e toca!”.

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