Precisamos aprender a ser pequenos « Pop up!

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Demorei a escrever outro texto para a coluna de propósito. Durante os quase dois meses que passaram tive a oportunidade de assistir a dois shows de artistas pernambucanos que tocaram fora do Estado e queria, de alguma forma, transmitir a experiência disso. O primeiro foi em São Paulo, com Cordel do Fogo Encantado, Lenine e, de certa forma, Otto. O segundo, mais recente, aconteceu em Natal, durante o Festival Mada. A conclusão foi uma só: Recife precisa aprender a ser uma cidade menor do que pensa ser.

Foram dois shows extramente bem organizados e que tinham em comum uma noção de espaço geográfico de fazer inveja. Para se ter uma idéia, o Palco Pernambuco conseguiu casa lotada na mesma noite que Roberto Carlos, Sandy e Junior (separados, ela com jazz e ele com funk. Uma apresentação bem curiosa para quem curte música e consegue se livrar dos preconceitos) e o rapper Ja Rule. Já no Imirá, a mesma façanha: 12 mil pessoas para ver um monte de show nada interessante na areia da praia.

O segredo do sucesso está nessa noção de espaço. Recife tem uma frustração imensa com tamanho: temos que ter o maior shopping, maior livraria, maior aeroporto, maior festival, ninguém é pequeno aqui. Show de Mundo Livre só acontece em palco para 10 mil pessoas, de um rapper que ninguém conhece, para 18 mil. Se alguém faz uma festinha que dá certo, no mês seguinte quer competir com o Abril pro Rock, sempre nessa lógica de precisar ser imenso, precisar ser maior, enfim.

Imaginem o clima maravilhoso que não ia ser assistir a Nação Zumbi numa estrutura super organizada, de primeira qualidade, com espaço para 3 mil pessoas? Ia estar lotado, principalmente com gente que gosta mesmo do som e não que foi por obrigação conjugal ou amizade. Os donos do espaço não iam ter prejuízo, porque poderiam contar com público cheio todo fim de semana, dando espaço para investir em estrutura.

No lugar disso, encontro frequentemente declarações “tive prejuízo, só deu seis mil e preparei um show para 18 mil”. Putz. Seis mil é muita gente. E o pior é que até os shows menores estão entrando nesse clima. Parece uma obrigação de ser pequeno independente e grande independente. Quando uma banda começa a fazer sucesso, cria uma regra de só tocar no Ancoradouro, Centro de Convenções ou então São Paulo. Deve ser frustrante para quem resolver fazer as malas para encontrar um estádio lotado e descobrir que, lá, os shows legais acontecem com apenas 2 mil pessoas assistindo.

E, com isso, chegamos ao problema central. Não podem existir dois shows grandes na mesma noite no Recife. Se Nação e Mundo Livre tocarem no mesmo sábado, mas em palcos diferentes, um deles vai ficar com esse clima de vazio. O que é engraçado, já que é um clima vazio para um lugar que, na verdade, está cheio de gente. E o produtor, frustrado, desiste, xinga o concorrente, as outras bandas, etc. Vira o paradoxo, Recife quer ser pequena para ter esse clima de fofoca de vilarejo, mas não quer ser pequena para hospedar shows.

Publicado originalmente em 03.06.05

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