Recife Summer Soul – Cobertura « Pop up!

mayer-9977389

Mãozinhas para cima para Mayer. Foto de Dudu Schnaider

Teve um tempo que eu bocejei forte para aquele papo datado de que música, assim como toda forma moderna de expressar alguma arte, entrou em um abismo de repetição e reprodução. Um loop infinito de mais do mesmo. Mas aos poucos eu começo a perceber que a cumplicidade do público vai além da domesticação feita pela padronização imposta por rádios e gravadoras. O público quer se sentir seguro, muito mais do que impressionado pelo artista. E é isso o que explica dois fenômenos interessantes na apresentação de Amy Winehouse no Recife na quinta-feira 13. O público não a queria ver cantar, mas sim “beber, cair e levantar”. E a imprensa em geral, formada por gente que também é público, ansiava tanto por isso que até noticiou um tropeço como sendo um “tombo”.

Essa expectativa em ver algo se repetir – Amy tropeçar, Janelle Monae dançar igual ao clipe e Mayer Howthorne “ser fofo” – garante que o mais do mesmo deu ao público o que eles precisavam para uma ótima noite. É o que explica, por exemplo, o desagrado do público em outras praças pela apresentação de Winehouse, que subiu no palco e só cantou, sem tropeçar ou errar. Uma conjunção que daria o argumento perfeito ao mais chato ouvinte de Bach de que “nada disso é música”. Mas é. Música que emociona mais pela teatralidade que pelas próprias canções, mas que cumpre suas centenas de funções que vão de combustão a escapismo social.

No entanto, isso tudo justifica muito bem algo que parecia até então incompreensível: a escolha do Brasil para o retorno da cantora dois anos após ela dizer “yes, yes, yes” para o “Rehab”. É um público carente de presença de ídolos tão novos ao ponto de fazer vista grossa ao show tenebroso que Amy apresentou. Assim como uma mídia carente de participar dos escândalos do alto escalão do pop mundial. Mayer estava lindo, Amy tropeçou, logo, foi uma ótima noite. Se fosse em qualquer contexto mais crítico, carreiras poderiam ter afundado de vez, como aconteceu com Britney. Capaz de, após esse “test-drive”, a cantora britânica decidir aguardar um pouco mais para dar ritmo a carreira. Afinal, toda a experiência musical da noite foi bem dispensável.

A exceção maior a tudo isso foi Mayer Howthorne. Indiferente aos gritos de “lindo”, pode ser considerado como salvação da noite. Sua música repleta de referências ao pop negro da Motown e sua banda que lembrava até os integrantes do Outkast merecia um tratamento mais refinado. Entre “Your easy lovin’ ain’t pleasing nothing” e “Just Ain’t Gonna Work Out”, ele fez um show curto, justificado pelo fato de que ele tem apenas um disco. Poderia ser em um teatro ou espaço menor, celebrando a própria cultura que ele faz homenagem nas músicas, lembrando um grande baile. Mas não foi dessa vez. É torcer que ele volte ao Brasil de forma mais merecedora.

RETROCESSO – Em uma indústria de shows que é amaldiçoada pelo fantasma da “meia entrada”, a tal “Pista VIP” – solução encontrada para compensar o prejuízo – parece assolar o público tanto quanto a tal carteirinha preocupa os produtores. É lamentável a opção da Raio Lazer em repetir essa prática nos eventos que promove no Recife (assim como fizeram com Iron Maiden e Black Eyed Peas). Dessa vez, o espaço entre o público “VIP” e aquele que realmente sabia cantar, curtia, queria dançar e ver os músicos de perto era assustador de tão longe. Com direito até a protesto de Mayer Howthorne no microfone, que pediu “mande esse pessoal aqui dá frente para trás do salão e deixem aquelas pessoas que estão dançando lá atrás chegarem aqui perto”.

A prática só escancara uma relação muito mais comercial e triste com a música que é prejudicial a todos. Do lado de fora isso ficava ainda mais evidente: os cambistas vendiam ingresso para “Front Stage” por R$ 150 (metade do valor cobrado na bilheteria). Perguntei a dois deles porque esse prejuizo e a surpresa da resposta foi que “não tem prejuízo, [mostrando o ingresso] tá vendo? É tudo cortesia, que o povo que ganha vem aqui e vende para nós”. Ou seja, criam uma área preferencial para um público que vai apenas para aparecer em coluna social, totalmente desinteressado por música e pelas atrações, que ainda se presta a ir lá vender o convite.

Enquanto isso, na pista comum, era praticamente inviável assistir qualquer coisa do show se não fosse pelo auxílio dos telões. Teve até quem desistisse. Um casal, que seguia caminho oposto a da fila para entrar no show, não deixou de expressar o descontentamento. “Paguei R$ 200 para vir aqui, não é um preço barato. Mesmo se eu ficar encostado na grade que separa as pistas, não consigo ver o palco”, desabafaram. Para constar, no Rio de Janeiro, o mesmo show produzido pelo coletivo “Queremos” formado pelo público (entenda melhor aqui) não tem separação de público preferencial.

Random Posts

  • Próximo da lista « Pop up!

    Para quem gosta de festivais, o próximo no calendário é o Mada, em Natal. Fica aqui um “Guia Radiola de […]

  • Pop up!

    Pode acreditar, não é bairrismo. A música mais legal que é feita hoje no Brasil, está toda concentrada no Nordeste. […]

  • Page 178 — Pop up!

    Yamandú Costa já disse nessas páginas que “uma hora, todo mundo se cansa da música ruim e vai atrás do […]

  • Mada 2008 – Programação « Pop up!

    Mais um festival que acontece em agosto e já divulga a programação completa. Dessa vez o Mada – Música Alimento […]