Sua banda toca quem? « Pop up!

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

É difícil hoje alguém montar a banda pela iniciativa estética. Trabalhar acordes, experimentar timbres e variações nasais. Hoje, quem compra uma guitarra, tem na cabeça que quer aquilo que sua banda favorita faz. E depois de muito feijão com arroz dizer que está fazendo aquilo mesmo, mas com identidade própria. Conversa que todo mundo já ouviu de bolo e não está preocupado em repetir. Chega embalado na frase “fazemos um som banda do zé”, dita pela própria banda do zé.

Existe uma verdade nisso. Uma mais triste que a atitude da banda do zé. Existem artistas que não são artistas, mas sim gêneros. Quantas bandas você nunca ouviu que são a cópia exata de Renato Russo? Aliás, vamos inverter o quadro. Você consegue dizer o que o Legião Urbana toca sem falar o nome do vocalista? Complicado. E nem venha com essa história que não se liga a gênero, porque está todo mundo vendo você ali na prateleira da Livraria Cultura.

No Recife, a situação se complica mais. O fenômeno que era tão adorado há 10 anos, pouca gente consegue explicar o motivo de tanta controvérsia hoje. É ele mesmo. O tal do Manguebeat. Ele que hoje povoa um universo tão grande em livros e teses acadêmicas que vão da comunicação a sociologia. Apesar do que se gosta de imaginar, o manguebeat não constitui realmente um gênero musical. Tampouco uma cena. Poderia dar pinta de inteligente agora colando algumas referências, mas dá muito mais gosto observar. Então se acomode na cadeira.

O ponto principal desse raciocínio é, claro, o inicial. A banda Nação Zumbi. É verdade que Jorge du Peixe passou alguns anos ainda seguindo a imagem do antigo vocalista, mas desde que Chico Science morreu que a banda toca mesmo é samba rock. Essa mescla de gêneros, por sinal, é flertada por todo mundo aqui. Mundo Livre, Otto, Mombojó, China, para citar os mais famosos. Logo, não existe criação musical dentro do que se conhece por Manguebeat depois do caranguejo exagerar no pitu (perdão pela maldade).

Depois podemos observar o que existe de criação fora desse ponto inicial. Nesse semestre, assisti a quatro shows de bandas independentes que faziam o dito som do mangue. A reação do público é sempre a mesma. Viva Chico. Aliás, da própria banda. Quem toca manguebeat ainda se prende a um conjunto de referências imagéticas todas ligadas diretamente ao fundador da banda. Você não precisa usar camisa florida para cantar samba, mas precisa usar aquele chapeuzinho de malungo, como se encher a música de alfaia e zabumba não fosse suficiente.

É engraçado pensar como Chico Science pregou em determinado momento um marasmo cultural onde todo mundo se identificou fácil (se identifica até hoje). A resposta que ele mostrou era ele próprio. Uma série de expressões estéticas na forma de moda, comportamento, palavras e música que faziam que ele quebrasse esse marasmo. Era como ele fazia o mundo refletir nele. A reação foi esquisita. Ninguém resolveu fazer o seu, mas sim o dele. E ele foi embora antes de falar “peraí, né assim não”.

A complicação vem, talvez, porque durante esse fase alguns outros artistas locais escreveram o manifesto manguebeat. Passou essa impressão de cena, que não é associado a artistas como Renato Russo ou os caras do Audioslave. Estes ficam mesmo na música. Com o manguebeat acontece uma necessidade de seguir aquelas frases repetindo o esquema sonoro e estético em geral do que Chico Science fazia. Coisa que foi se somando num bairrismo estranho e incômodo na cidade. Mas isso já é assunto para outro texto.

O lado bom é saber que existe pouca banda tocando Chico Science. Menos do que, por exemplo, as que tocam Renato Russo. Mas, ainda assim, é um fenômeno interessante de se observar. Existem outros casos, claro, menores. Rage Against the Machine, Nirvana, Audioslave, Green Day. São todas bandas inseridas num gênero, mas que elas próprias são referência maior que o ritmo que tocam. E a sua banda, toca quem?

Saideras:

* A coluna estréia hoje seu espaço para notinhas. Espaço clássico para fofocas, tricotagens e notícias em primeira mão. Pode mandar a sua, mas não vamos dar espaço para correio amoroso anônimo.

* Quem faz parte do 75% do Recife que entra em desespero com as festas de arcoverde pode começar a juntar dinheiro. Agora, em agosto, o grupo Coco Raizes vai fazer um festival grande na cidade para comemorar nove anos. Só atração local.

* A nova edição da revista Outracoisa chega próxima semana nas bancas com o CD “Selo Instituto na Coleta Seletiva”. Além das participações de Lúcio Maia & Jorge du Peixe, estão músicas do Bonsucesso Sambaclube.

* Chega no Recife próxima semana a jornalista Cláudia Assef. Para quem não conhece o nome, ela escreveu o disco Todo DJ já sambou (meio regular, diga-se de passagem). Além de palestra na Livraria Cultura ela vai botar som na festa Discology junto com DJ Camilo Rocha, Paulo Renato Lopes e Renato L.

* Paulo André, da Astronave (Abril pro Rock), recusou essa semana de trazer para a cidade a dupla Tetine, de funk, e Sidney Magal. O motivo foi o assunto já tratado aqui na coluna. Falta espaço de médio porte para fazer shows com infra-estrutura. Para o funk, claro. Magal não veio pelo conflito de perfil.

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