Tim Festival 2006 « Pop up!

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RIO DE JANEIRO – Na Grécia antiga, filósofos como Aristóteles passaram a vida definindo o que era a catarse. Já nesse nosso tempo hipermoderno, a dupla Daft Punk dedica sua carreira praticando a catarse. Um verdadeiro ritual de purificação da alma através de uma descarga .emocional, visual e chapante, como nesta inesquecível última edição do Tim Festival, na Marina da Gloria no Rio de Janeiro.

Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, dupla que forma o Daft Punk, são os personagens certos para fazer a reflexão do fim do festival. Mesmo com um show restrito no formato profissional, mesclando (literalmente) os sucessos de seus três discos de estúdio, eles mostraram que a repetição, hoje, ganha um novo sentido quando o que importa é a performance do palco.

Do alto de uma enorme pirâmide, com uma atmosfera de disco voador, eles eram quase imperceptíveis usando capacetes de robôs. Controlavam a mistura do som, as batidas e o jogo viciante de luz que marcava o ritmo para o público. Todos pulavam e vibravam sob o comando das frases “ write it, cut it, paste it, save it, load it, check it, quit it”. Resultado de uma apresentação tão envolvente foi o encerramento repentido, mesmo após 1h30 de show, sem direito a bis.

Antes do Daft Punk, quem declarava o inicio do Tim Festival era a paulistana Céu. Show bom, no clima certo de receptividade da que deve ser a melhor voz do novo repertório brasileiro. Depois dessas duas atrações, o resto não passou do curioso. Com a exceção talvez do Devendra Branhart, que fez uma apresentação lamentável de músicas folks com cara de puro truque.

Noite feminina
No sábado, o clichê na boca do povo é que aquela seria uma noite das mulheres. Principalmente pelo show de Patti Smith. Uma apresentação que exigia um mínimo de contexto do público para entender que ela era uma das principais bases do rock and roll. Sem isso, e principalmente depois da apresentação do Daft Punk, ficaria apenas na repetição enfadada do formato guitarras e bateria.

Mas não para Patti Smith. Com toda elegância de quem cospe metade da água do corpo durante uma hora de palco, ela entoa hits como Because the Night para provocar delírio num público que varia muito de idade. Por isso, o mais do mesmo acabou caindo em Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. Mesmo com um show mais rock, pesado e performático, a banda ficou devendo um pouco de tempero. O boato que circulava era que, naquela hora, a catarse mesmo estava no show do TV On The Radio, no palco vizinho.

O Tim Festival encerrou com seu maior público no domingo. Todos declaradamente para ver os Beastie Boys. Prova disso foi o show confuso e quase vazio que o gaúcho Marcelo Birck fez para abrir a noite. Parecia que a noite teria clima de ressaca de fim de festa. E quando, no Tim Stage, o DJ Shadow trazia o MC mais chavão que já pisou no Brasil (gritando somente “Are you Ready?” a cada dois minutos), a teoria estava perto de se confirmar.

Mas o falador saiu. O DJ entrou com um set matador e que esquentou bastante o ambiente de ansiedade. Quando os Beastie Boys entraram, o ciclo da catarse estava completo. Um quase desespero de pessoas pisoteando o show com força, querendo ser ouvidas. Das três noites, o hip hop foi de longe o mais divertido do Tim Festival. Um show aberto, cheio de dialogo para um publico que não tinha dificuldade de entender o idioma inglês.

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