Transborda 2010: Segunda noite « Pop up!

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Lucas Santanna ao vivo no Transborda, em Belo Horizonte. Foto de Tiago de Caux

Uma coisa é preciso ser dita a favor dos coletivos. Somente em um ambiente amigável de troca de informações, tecnologia e know how que um festival como o Transborda poderia nascer já tão grande. Quando vislumbrado pela primeira vez pela turma do Coletivo Pegada, certamente essa noite do sábado deve ter surgido como imagem de inspiração para o que queria ser alcançado. Cerca de três mil pessoas na praça, para uma programação de bandas ainda um tanto desconhecidas, comprometidas unicamente com a diversão e boa música. Foi-se o tempo em que dar os primeiros passos era um fardo.

Devo dizer que todo festival que acontece em praças públicas deveria se preocupa sempre em ter boa parte de sua programação durante a tarde. Parte do clima legal do Transborda era ver o pôr-do-sol sentado na praça, acompanhando os shows, encontrando amigos, sem a tradicional claustrofobia dos galpões e lugares fechados. Clima de família e, de fato, ocupado por algumas delas. Aliás, é incrível essa relação do povo de BH com as praças e espaços públicos. Além do movimento (falei no post abaixo) que transforma a praça em praia, existe um outro que é contra as grades colocadas em eventos. Ontem, no começo da noite, um representante ainda manifestou seu protesto tentando derrubar as grades que cercavam o transborda.

Durante essa ocupação (e re-significação, como bem lembrou Ney Hugo, do Macaco Bong, no palco), o público estava mais frio e era possível visualizar algumas “muralhas de observadores”. O começo das apresentações foi marcado principalmente pela empolgação dos populares bebados da cidade, que dançavam, corriam e tentavam descolar uma cerveja em troca de palavras balbuciadas sem sentido. Resultado também da escolha em ter quatro bandas instrumentais, que demandam mais atenção, durante a programação. Era também possível ver aquele “efeito Carnaval” no Transborda, com pessoas que jamais estariam frente a uma programação daquelas se não fosse de graça em área central. Fora de seu gueto, o independente se deu bem com o público.

O primeiro nome mineiro a chamar atenção foi a Mekanos, de Poços de Caldas. Com a mesma pegada de bandas como Vampire Weekend, o rock animado e cantado em português deles está pronto para circular. É o tipo de banda que, após entrar em um bom circuito de shows, tem potencial para ir além. Deram vez a pedrada do Macaco Bong, que apareceram para substituir o rapper Linha Dura, que não se apresentou na noite anterior. Show mais alto do dia, os Bongs atingiram um nível de profissionalização que mantêm qualquer apresentação deles sempre no patamar elevado. Difícil ver uma apresentação deles que não seja, no mínimo, excelente.

Tanto barulho acabou deslocando um pouco a qUEbRApEdRA, banda de MPB e voz feminina que se apresentou em seguida. Podia ter sido agrupada com outros nomes mais tranquilos do dia, mas acabou afogada entre o Macaco Bong e Vendo 147. A banda baiana já é reincidente e foi quem começou a quebrar um pouco do gelo do público. Quando o repertório atingiu o já famoso medley com músicas de Black Sabbath e AC/DC era possível ver gente dançando e feliz até em pontos bem distantes do palco. Foram eles quem abriram a porta para o bom clima da noite que começaria em seguida.

Entre os nomes locais a boa surpresa foi ver a ótima relação que o Dead Lovers Twisted Heart tem com o público mineiro. Show mais agitado e dançante da programação, eles aproveitaram a bola levantada pela Vendo para dar o saque da diversão. Mas uma vez oscilou pesado de clima com a Constantina que, ao convidar membros do Macaco Bong para a presentação, perdeu um monte da identidade que seria apresentada ali. Soava como algo especial ter aquele encontro, mas a informação demandava uma explicação e contextualização maior para o público. Teve até quem, sem entender, se questionou porque algumas músicas do Macaco Bong se repetiam.

Se o público espontâneo dava impressão de Carnaval, a música de Lucas Santanna trouxe o clima completo. A noite foi do baiano, que já é reincidente na noite mineira. Foi quando o gelo do público finalmente derreteu e grandes blocos de pessoas dançavam até onde a vista alcançava do palco. A vista, por sinal, era digna de cartão postal. A fonte d’água ligada ao fundo, iluminação forte na praça e uma multidão dançando em frente ao grande palco. Nessa hora, a turma contra as grades e tapumes realmente teve razão. Dosar um pouco a paranóia da prefeitura local ajudaria a fazer o cenário ainda mais bonito.

A noite terminaria bem já ai. Mas Jupiter Maçã decidiu dar sua benção ao festival. Quem acompanha com frequência a passagem de Flávio Basso em festival sabe que é realmente difícil pegar ele em boa forma, sem tropeçar o alcool por cima das músicas e fazer uma apresentação por vezes lamentável. Não foi assim no Transborda. Em sua melhor forma, com muito pique, deu o fechamento rock’n’roll a festa na praça. De lá, o festival migrou para a “Utópica Mercenária”, onde as bandas Pequena Morte e Do Amor arrastaram a festa até às 4h da manhã.

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