Três letras que fazem uma diferença enorme « Pop up!

Da colunda Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Muita gente adora repetir o verso, mas são poucos hoje que lembram o sentido dele. “Lá no Alto Zé do Pinho é do caralho”. Fiquei impressionado com o tempo que levei para me dar conta da maior carência do Recife-música hoje. Três letrinhas que, sem ela, o sentido de “cena” não faz tanto sentido. Fez as contas? Estou falando do cenário.

O Alto Zé do Pinho era uma favela. Sem rádio, sem televisão, leitura diária de jornal então, nem se comenta. Mas, de repente, em meados de 80, todos ali estavam ouvindo Smiths, New Order e outros bambas da época. Cheio de referências, influências e pluralidade. Era realmente do caralho. Fim de semana era dia de ir para lá, estar vivendo aquilo e as bandas que nasceriam daquele caldeirão fervendo de cultura.

Sou muito novo. Vivi essa história daí só pela boca dos outros. Mas minha época também já passou. Era ali no bairro do Pina, onde ficava a Soparia. Sem saber o que fazer? Vai pra lá, tá cheio de gente, coisas acontecendo, a bandinha ali do canto vai estourar em seis meses. Todo mundo sabe, só está esperando acontecer.

Todo mundo estava lá. Todos que antes freqüentavam o Cantinho das Graças (carinhosamente chamado de Cantinho da Desgraça quando virou um pointe de pagode). Entre eles Chico Science, Otto, Fred 04 e outras figuras que, na época do Pina, já eram folclóricas na cidade. Podia não estar acontecendo nada, mas, simplesmente estar ali, parecia ser uma coisa importante. Parecia certo.

É o que falta. Essa impressão que as coisas estão paradas precisa ir embora. Muita coisa está acontecendo e nenhum lugar servindo de cenário para isso. No primeiro semestre entrevistei Rappin Hood e ele soltou um “queria muito conhecer o Alto Zé do Pinho”. O Sudeste perdeu a referência do que está acontecendo no Recife. E, provavelmente por isso, as novas bandas causem tão pouco fascínio lá fora.

Fica a dica para quem é produtor cultural na cidade (provavelmente nove de cada dez pessoas). Está na hora de articular um novo lugar para as coisas acontecerem. Para alguém chegar de fora na cidade e dizer “eu sei que rola isso no Recife, vamo nesse bar que falam tanto”. Hoje, se um paulista ou carioca chega aqui na quarta ou quinta, no máximo ele vai ao Burburinho e a diversão não está nada garantida. O próprio Garagem já perdeu a atmosfera dos shows de punk rock de sete anos atrás, quando ainda era o Galetus. Ir para lá as três da manhã não muda em nada o programa de ninguém.

Saideras

*Zumbis no Recife
Guarde minhas palavras e os trocados desde já. Vai ter um show da Nação Zumbi na primeira quinzena de dezembro, no Clube Português. A data está sendo fechada. Se você ainda não ouviu o Futura, que vai mandar no repertório, não faz idéia do que está perdendo.

*Mesmo que nada
A oportunidade criada pelo projeto Gororoba na Moeda já é o mesmo que nada. O som está sofrível, as bandas estão perdendo 60% de qualidade e se queimando na chance de ganhar público novo. Muito trabalho bom já recebeu comentários do calibre “é essa banda aí que falam tanto?”.

*Demorô, Já é
Quem se liga nas festas da cidade, já notou que “a casa onde ficava o Irmã Bertrice” (nome estranho esse) já é o novo ponto certo para jogação animada. O que ninguém atentou ainda é que o lugar, que fica ali na Rua do Lima, tem um palco enorme. Tá faltando o que para darem um tempo nos DJs e colocarem bandas ali?

*Da casa
Será que essa nota será liberada? Dia 03, quem for conferir o show de Otto na Teatro da UFPE (você tava sabendo que vai ter, né?) fique atento para garantir seu exemplar da revista Giro. Isso mesmo, o site tá saindo do monitor e virando papel. Parece até que tem um texto meu lá. 🙂

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