Coquetel Molotov 2009. Primeiro dia, parte dois « Pop up!

Cobertura feita para o portal Conexão Vivo, publicada nos dias do festival

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Toda essa impressão de que o Coquetel Molotov tinha triplicado de proporção fez ainda mais sentido quando se entrava no Teatro Guararapes. Palco meticulosamente montado com um telão aguardando o público que, aos poucos, começavam a já reservar seus lugares nas primeiras fileiras. Teatro sem lugares marcados geralmente é sinônimo de confusão. No festival, foi de tranqüilidade. Permitia um transito de vai e vem por quem não estava interessado em assistir um show inteiro (afinal, a maioria ainda estava ali por Beirut).

Jam da Silva era um nome pedido a bastante tempo, não apenas ao Coquetel, mas a outros festivais, entre os círculos de artistas e produtores da cidade. Mesmo assim, foi uma escolha arriscada da produção do evento. Uma apresentação, gratuita, que ele tinha feito semanas antes em Olinda tinha deixado bastante a desejar para quem assistiu. E a expectativa era que talvez o show irregular se repetisse. Mas já na primeira música, ficou claro que os problemas aconteceram porque a proposta de Jamilson – verdadeiro nome de Jam, que já tocou com toda geração dos anos 90 em Recife – era para um palco de teatro.

Foi o show mais refinado de todo o festival. Tão interessante de ver quanto de ouvir, com todas as trocas de instrumentos que aconteciam na frente do público. A música de Jam é mais experimental e carregada de informação, quase sempre dialogando com projeções no telão por trás da banda. O público estranhou no começo, sempre silencioso e incerto de quando deveria ou não aplaudir. Uma resistência pequena que, até o fim da apresentação, já tinha sido quebrada. Ele foi aplaudido de pé, mostrando que o retorno a Pernambuco tinha valido mesmo a pena.

Sua proposta sóbria e mais séria foi quebrada logo em seguida por Thiago Pethit e Tié. Uma dupla que ainda não está nas colunas mais descoladas dos jornais, nem nos programas de TV e sequer nas rádios. Mas que foram recebidos por um público que hoje ignora todas as mediações, que esperavam numa ansiedade traduzida em gritos histéricos e letras na ponta da língua. Suas músicas, uma versão com jeito de Brasil da banda norte-americana Magnetic Fields, acabaram dividindo opiniões entre as pessoas que assistiam no meio do teatro. Uns achando exagerado demais, outros certos de aquela era a diversão que procuravam para aquela noite.

Controvérsia a parte, Pethit e Tié trouxeram para o teatro o clima de festa que estava nos shows que aconteceram no auditório mais cedo. Animação que serviu de combustível para Sebastien Tellier, super figura com cara de cantor brega de motel barato, que entrou fingindo ser um zumbi. Até o final do show, ele já tinha se jogado no chão diversas vezes, se insinuado e brincado com todas as primeiras fileiras do teatro. Sua música, carregada principalmente nos sintetizadores, foi responsável por um dos melhores shows de toda a noite. Esse vai ser aquele show que muita gente vai continuar contando depois de várias edições do festival.

Teria sido o grande show, mesmo só com seis músicas, não fosse o choro e desespero de várias pessoas quando Beirut foi anunciado. A banda, que ficou ainda mais famosa no Brasil após ter sua música Elephant Gun como tema da série Capitu, parecia a salvação de uma geração que foi deixada órfã pelos Los Hermanos. Abriram o repertório com Nantes, que foi trilha também do “Beirutando na Praça”, outra invenção que rodou o Brasil – e no Recife teve a banda Eddie como principal participante – e que ajudou a somar toda essa histeria nas pessoas.

Beirut – que se apresentou como uma “pílula” do festival baiano Perc-Pan dentro do Coquetel – compensou os outros shows curtos do teatro. Tocaram por mais de duas horas, tempo em que os seguranças montaram uma verdadeira brigada para garantir que o palco não fosse invadido. Show alegre, onde os integrantes se divertiam a cada canção, esse – mais do que qualquer outra atração que o festival já trouxe em outras edições – deve ser o grande marco dessa nova geração do Recife. Daqueles shows que marcam uma cena, que passa a ser dividia entre antes e depois e, claro, entre “eu vi” e “você não”.

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