O som do Pasquim « Pop up!

pasquim-8429451

A simples idéia de um bate papo entre Ziraldo e Chico Buarque já parece ser algo inspirador. Pensar, então, que ele e toda a toda turma do Pasquim reuniu, sob organização de Tarik de Souza, algumas das principais conversas que eles tiveram não apenas com o carioca, mas também figuras como Raul Seixas, Luiz Gonzaga e Waldick Soriano faz de “O Som do Pasquim” um adição certa a qualquer biblioteca de música que se preze. Daqueles para se ter mesmo quando não vai ser lida uma página de todo o livro.

Quando foi lançado originalmente em 1976, a coleção de entrevistas ganhava a metáfora de um álbum de fotos de verdades sobre a Música Popular Brasileira. Eram declarações de um Chico Buarque que dizia não saber tocar e um Caetano Veloso que afirmava não ter musicalidade. E, entre isso, o desgosto mutuo entre gerações como a de Agnaldo Timóteo, que descascava tanto o sambista quanto o tropicalista com adjetivos que a gente não guarda nem para aquele motorista que corre sobre uma poça d’água ao nosso lado em dia de chuva.

Mas seu relançamento, agora pela editora Ediouro / Desiderata, ganha um novo significado. Em tempos de fim de diploma de jornalismo, armado com a nostalgia de uma publicação feita com bom humor e, ainda assim, ultrapassava a tiragem de 250 mil cópias, o “Som do Pasquim” escancara a falência do jornalismo musical brasileiro. Ao mesmo tempo que gera tanto facínio ler as palavras de um Waldick Soriano afirmar que hippie é marginal e maconheiro safado, por isso devia morrer, vem também um forte sentimento de desilusão. Esse nível de intimidade entre entrevistador e entrevistado nunca mais vai voltar a acontecer.

Não vão acontecer nem mesmo com a geração mais nova. Seja a de jornalistas, que se acostumou a não procurar mais o entrevistado, mas esperar que o departamento de divulgação do próprio marque uma entrevista, seja dos próprios artistas, que travestidos com o manto de profissionalismo, agora só falam frases de efeito pré-formatado e sem conteúdo. Comparar as declarações de Caetano em 1971 – “Não sou bom músico, sou só um bom sujeito” – com as que foram replicadas no atual lançamento de seu Zii e Zie é perceber que aquele artista não existe mais. Virou uma espécie de robô, tal qual aqueles que fazem as mesmas perguntas sem significado.

Talvez essa reedição de “O Som do Pasquim” sirva também de metáfora para o espelho de Lewis Carrol. E que o robô o atravesse em busca de um coração de verdade nesse reino do antigamente. Se não chegar a tanto, poderia estar na bibliografia para salvar o curso de jornalismo. Vale ouro como técnica de entrevista. Mas uma que é sem regras. Começa sem lead, ultrapassa as 10 páginas de conversa e encerra com leitor fiel e sensação de dever cumprido. E quando o entrevistado ainda diz que viu um disco voador, ai sim que você publica. Afinal, sem isso, sobre a provocação: se Raul Seixas aparecesse hoje em uma redação, falando a mesma coisa, sem assessoria de imprensa e sem entrevista marcada, teria virado materia de jornal?

As entrevistas são acompanhadas sempre com as ótimas ilustrações do cartunista e compositor Antonio Nássara (que também abrem esse post), citado indiretamente no livro, sempre que falam de sua marchinha mais famosa, o “Alá-lá-ô!”.

  • Hotsite oficial do livro
  • Compre na Livraria Cultura

Random Posts

  • Sexy Donkey « Pop up!

    “Acredite”. O drama no título do site do CSS (será que agora teremos que chamar a banda de “ex-Cansei de […]

  • Amps e Lina « Pop up!

    Série com quatro textos sobre os dois anos do projeto da Trama para comercializar música na internet patrocinando o consumo […]

  • funk « Pop up!

    Oct 16, 2007 3 Comentários Não é apenas a violência, impunidade e corrupção que não muda no Brasil. Além dessa […]

  • Móveis Convida « Pop up!

    Apr 09, 2009 9 Comentários O Móveis Coloniais de Acaju nunca foi exatamente o modelo de banda que a gente […]