Pato Fu – Toda Cura para Todo Mal « Pop up!

“No supermercado / eu tento escolher / o mesmo sabor que você / deve gostar”. Os versos em “Anormal”, música que abre “Toda Cura para Todo Mal”, novo disco do Pato Fu, chegam recheados de uma ironia. Depois de tanto tempo sem gravar ou mandar notícias as pessoas vêm procurando a banda que vá substituir o trio paulista. Tarefa difícil. Nenhum desses potenciais candidatos conseguiu chegar no supermercado até agora e o caminho deles acaba de ficar mais longo.

A volta à independência, mesmo que parcial (o disco é produzido pela banda, mas distribuído pela Sony/BMG), fez muito bem ao Pato Fu. O risco das rédeas soltas são sentidas em dois momentos mais experimentais, a estranha “Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié” e, em “Simplicidade”, com efeitos em excesso nas vozes, causam muito estranhamento. A segunda, se chegar nas rádios, corre o risco de fazer o ouvinte desatento mudar logo de estação.

Mas são os únicos pecados do disco. Nas dez músicas restantes, ele está realmente impecável. O Pato Fu aproveita que não precisa mais ter medo de soar pop e faz isso com muita competência. A voz de Fernanda Takai parece até um descanso para os ouvidos, mostrando que mulher no vocal não é suficiente para substituir a banda. Precisa mais que beleza e presença, precisa saber conduzir o instrumento que carrega na garganta.

São músicas de várias faces, cabem para momentos sozinhos e festas animadas, sem soar MTV demais. Em alguns momentos as letras soam bobas demais, como em “Estudar Pra Quê?”, onde a voz parece estar lá apenas de pretexto para as experiências sonoras. O tipo de música que se aprende a cantar sem sequer saber a letra. É também um dos momentos mais agitados do disco, que é descartado fácil.

“Toda Cura para Todo Mal” tem também um momento instrumental, chamado de “!”. Uma das passagens mais divertidas do CD, com um rock agitado pelos gritos e palmas de uma platéia que não está realmente lá. É talvez o momento onde o Pato Fu brinca com a postura que indústria e público exige deles, de manter a irritante necessidade que os anos 80 voltem. Usa acordes que se repetem como as músicas da época e terminam com várias risadas.

O disco encerra como um banho de água fria para bandas como o Ludov e Leela. Eles tem os elementos certos, mas ainda falta muito feijão com arroz para conseguir se trancar numa casa e sair com um disco da qualidade desse, como o Pato Fu fez. Uma boa lembrança que as coisas não precisam acontecer tão rápido assim.

Publicado originalmente em 09.07.05

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