Sobre a arte da polêmica « Pop up!

Atualizado às 16h05

Eu lembro quando me chamaram de polemista pela primeira vez. Foi quando eu ouvi o disco Metropolitano da banda Eddie e achei que de alguma forma tudo aquilo muito errado. Escrevi isso no jornal e o circo estava armado. Cheguei a receber até ameaça de morte e minha chefe na época ainda me proibiu de cobrir show da banda com medo que o pior acontecesse quando me vissem lá. Nem foi para tanto. Lembro de ter ido a um show deles dias depois, onde tinha um desses telões em que você manda um SMS para todo mundo ver. Mandei um assim “Bruno Nogueira tinha razão”. A gente riu um monte.

Mas era também meu começo no jornalismo e essa situação acabou virando também uma primeira impressão. Daquelas que ficam. E a partir dali, qualquer virgula que eu digitasse por um eventual espirro virava motivo de debate entre as pessoas. Teve um lado bom. Me fez sentir lido pelas pessoas – algo que não deveria ser comum, escrevendo em um jornal popular, geralmente comprado pelo caderno de Esportes e Polícia – e, consequentemente, mais preocupado com o que exatamente eu escrevia. Apesar de nem antes, nem depois, ter sido realmente polêmico.

Volta e meia a fama volta. Quando acontece, eu tento brincar ou, de alguma forma, usar a meu favor (já descolei algumas entrevistas difíceis por causa disso). Mas eu não sou polemista é por total falta de talento mesmo. Acho que apertar nas feridas exige um grau de inteligência e bagagem que eu não atingi. Engraçado que até conheço alguns jornalistas que tem isso, mas nunca fizeram grande polêmica na carreira. Alexandre Matias é um deles. E ele me diz até que evita isso sempre que possível.

Thiago Ney, da Folha de São Paulo, não é um deles.

É pelo lado negativo da fama de polemista que eu não entendo, simplesmente não entendo, como alguém pode ter tanto desejo de trilhar esse caminho tão imediatamente. A coleção de pérolas pontua toda sua produção no caderno Ilustrada, na Folha de São Paulo. De falar que ninguém precisa de Bob Dylan, porque graças a Deus nós temos o Be Your Own Pet (aquela banda que acabou outro dia, sabe qual?); ao mais famoso texto sobre a relação da Petrobras com os Festivais Independentes. Mais tarde, soltou em uma conversa a frase que encerrou o papo. “Não preciso ir a um festival para saber como ele é e como funciona”.

Claro.

Agora veio outra dessas grandes. No blog da Ilustrada, ele decidiu dar uma de ovelha negra da família e criticar a atitude do jornal em convidar vários jornalistas e artistas para um debate sobre jornalismo cultural. E ele faz isso da seguinte forma: “Queria saber o que o Cacá Diegues fez de relevante nos últimos 30 anos que o credencia a vomitar a respeito de cultura”. Talvez por Cacá Diegues não ser uma banda que acabou com menos de três anos, e ainda assim melhor que Dylan, ele não saiba que nas últimas três décadas ele dirigiu alguns dos filmes mais importantes do cinema nacional. Entre eles, o maior recordista de bilheteria no país, Deus é Brasileiro.

Claro, o filme é uma merda, mas o sucesso que ele fez é matéria prima para o debate do jornalismo cultural. A relação de gosto, de proeza estética versus mercado e a própria avaliação estética.

O texto tem mais pérolas. Como não fazer o esforço de ler o texto enviado pela própria Ilustrada falando que os jornalistas não devem seguir tabelas e roteiros ao escrever, e mandar o comentário final no esforço inútil de ironia, “Já colocamos as instruções no quadro de avisos da redação da Ilustrada e prometemos segui-las. Valeu pelos toques!”. Sem instruções, Tiney. Sem instruções. Lê o negócio antes de fazer piada em cima dele. É quase uma sugestão tão ridícula quanto “escuta o disco antes de falar que é ruim”. Mas conferir é algo que ele não faz, já que comenta sobre os textos de Simon Reynolds, uma das figuras mais interessantes do jornalismo cultural, com a maior cara de quem nunca o leu.

Sempre faço questão de reforçar por aqui essas cagadas do grande jornalismo nacional. Meio que na tentativa de reforçar o coro do apocalipse dessa imprensa. Mas to começando a pensar em mudar de foco e lançar a campanha: Folha, me contrata no lugar dele!

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