Fim dos tempos: A revolução da chatice « Pop up!

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Ana de Hollanda. Nossa Ministra da Cultura, pelo menos por enquanto

Duas confusões interessantes, em campos quase opostos, de observar nessa nova transição de gestão da cultura no governo de Dilma Houssef. Creative Commons retirado do site, ex-funcionário do Ecad contratado e demais confusões criadas e a cultura comprova o quanto é frágil em nosso país. Ana de Hollanda conseguiu fazer a única coisa que Dilma esperava que ela não fizesse, que foi criar o “buzz” negativo sobre a nova presidente e provocar até protestos e gritos de desespero de um grupo que – até então – estava jogando a favor nessa história de continuidade do PT no Governo Federal.

A primeira confusão, mais séria, é perceber como cientistas e analistas políticos, em geral, não conseguem compreender o que está acontecendo. Matemáticamente falando, é a pasta com o menor orçamento, menor equipe e menor influência dentro do governo gerando agendamento constante na mídia. Porque? Qual a importância disso? Como é possível? Fora dos cadernos tradicionais dos jornais, cultura passa a ser tratado como algo esquisito. A maior crise nos primeiros 100 dias de Dilma no poder, segundo a imprensa, diz respeito a uma classe economicamente irrelevante reclamando de cargos não tem muito poder.

Sob um olhar frio, este é um ministério que sequer escoa dinheiro para nenhuma área. O MinC não patrocina, somente isenta os impostos de uma proporção mínima (4% por empresa) em favor de um suposto incentivo a participação privada na produção cultural nacional. Os poucos recursos que saem da Funarte não se equiparam nem a um escândalo menor de mensalinho. E a questão de autoria passa por uma aprovação de lei que, no histórico geral de nossa cultura em instância política, nem seria aprovada mesmo. A sigla, confusa, difícil tanto de explicar quanto de entender, retirada de um site – por razões totalmente lícitas e institucionais e não ideológicas, como fazem parecer – só acrescenta tempero nessa confusão.

Do outro lado, está a confusão gerada nos artistas. O artista brasileiro hoje, com o máximo de aspas possível, “tenta se organizar políticamente” da mesma forma caótica que somente a arte consegue existir. Em listas como o PCult (Partido da Cultura) e Rede Música Brasil (a tentativa ainda em estado primário de criação de uma possível Ancine da música) se debate e reclama aleatoriamente sobre tudo e sobre o nada. Se constrói muito pouco, se avança menos que isso. Os artistas – principalmente os da música – estão bem chateados, mas ainda não sabem explicar exatamente o motivo. No geral, impera o medo de perder o dinheiro em forma de promessa política que Juca Ferreira deixou ao ir embora.

Se os cientistas políticos não entendem que o alarde acontece porque o dinheiro público é o único que promove a cultura no país e que mesmo através da Rouanet, o Ministério da Cultura se transformou na maior gravadora de discos do país; do outro lado, os artistas não conseguem entender que o governo Lula acabou (assim, em negrito, para tentar criar impacto). Quem votou em Dilma pensando em Lula, viu barba e dedos a mais quando não devia na nova presidente. Gestão de continuidade é contexto de uma mudança mais branda, mas toda mudança de gestão é, acima de tudo, uma mudança. Chegaram até a formular, ingenuamente, um movimento do “Fica Juca” para um político sem partido e até um a favor de Tom Zé no ministério.

Da perspectiva de quem trabalha com música todos os dias, minha opinião mais sincera sobre tudo isso é que nunca, em nosso país, cultura virou um negócio tão chato. Com medo de perder a fatia do bolo – que, na verdade, está mais para uma passada de dedo na cobertura – a nossa parcela mais promissora, os artistas independentes que atingiram aquela classe média entre o consagrado e iniciante, passaram a reclamar genericamente e produzir porcamente sua arte. Durante nosso período político mais sombrio, a ditadura militar, os artistas brasileiros conseguiram criar uma revolução cultural fazendo nada além de cantar boas músicas e escrever nossa melhor literatura e cinema. Não sinto falta da ditadura – nem poderia, já que não a vivi – mas sinto falta de boa música chegando no mesmo ritmo desses debates.

Mas parece que isso não vai acontecer. A revolução da chatice é construida em reclamações aleatórias e sem foco, com limite de 140 caracteres, em busca do nada. Resta torcer para que a profecia e Lennon e McCartney, na letra de Revolution esteja certa:

You say you got a real solution
Well, you know
We’d all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well, you know
We’re doing what we can
But when you want money
for people with minds that hate
All I can tell is brother you have to wait
Don’t you know it’s gonna be all right
all right, all right

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