Page 197 — Pop up!

  • Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

    Próximo dia 11, uma segunda-feira, sai o resultado do festival Claro que é Rock. Cinco bandas do Nordeste (exclui-se aí Salvador) que poderão tocar com o Placebo e, com sorte, participar do evento final no Rio e São Paulo. Também vai ser o dia onde eu vou decidir se acredito ou não se esses concursos de banda, pelo menos aqui no Recife, funcionam ou têm alguma utilidade.

    Lembro quando estava cobrindo o festival de World Music da Phillips, no Marco Zero, quando Paulo André me falou pela primeira vez do Microfonia, na época ainda sem nome. Eu fiquei eufórico durante uns dois segundos, espaço de tempo onde ele falou “de repente é uma oportunidade das bandas X e Y tocarem no Abril pro Rock”. Eu não deixei minha empolgação morrer e insisti no motivo que tinha me deixado tão alegre. Disse “e com certeza deve aparecer uma banda que ninguém viu ainda e que pode mudar muita coisa!”.

    Se tivesse que responder agora, eu diria que não acredito nos concursos. Não acredito que de 388 bandas inscritas, ganharam justamente as que já estão fazendo shows todo santo sábado na cidade. Eu também não acredito que exista algum protecionismo ou favoritismo, bem longe disso na verdade. O problema, para mim, é que estamos tristemente engessados no cotidiano dos nossos fins de semana.

    Lembro que conversei com alguns dos jurados na época e me disseram que o critério usado era a originalidade. “Tinha muita banda que tocava igual ao Angra, descartamos logo”. Isso é uma coisa que me dá muito medo, porque já estragou a cena de Pernambuco no passado. Antes, nada era considerado original se não tivesse um tambor tocando. Depois, nada era considerado original se não tivesse um tambor tocando.

    Fica então a pergunta: Recife não pode fazer rock igual ao Angra e isso ser bom? Aliás, a gente não pode fazer rock igual ao Radiohead e ainda ser melhor? Aliás, abrasileirando a coisa, porque o samba daqui não pode ser tão legal quanto o de Seu Jorge? Lembro que uma vez o Mundo Livre dizia que tocava samba-rock. Precisamos mesmo desesperadamente encontrar “o som do Recife”? As bandas de São Paulo que ganham destaque nacional estão tocando rock e não “o som de São Paulo”. Bairrismo desse tipo nunca é bom e só atrasa.

    Porque se o concurso for feito apenas para encontrar uma coisa desse tipo, estamos perdidos. Eu conheci essa semana um cantor de bar que diz ter criado um ritmo chamado Pernambuxé, deveríamos então dar logo o prêmio a ele. Caso contrário, podíamos ser saudáveis e sensatos e parar de analisar mercado e sim música. Música que não precisa ter cara de canto nenhum e apenas ser de qualidade. Já pensou se Chico Buarque fosse música de carioca? Podíamos então instituir logo o fim da MPB.

    Molhando o bico

    » Em abril chega às bancas o primeiro número da nova Bizz. Para alegria do país, ela volta a ser reeditada. Vamos ter o privilégio, inclusive, de receber um lançamento exclusivo no Abril pro Rock. Não foi divulgado ainda se ela será mensal ou se será feita apenas no esquema de “especiais”. E para não esquecer que o rock está em baixa, a primeira capa será sobre a própria revista.

    Seção – Coluna

  • Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

    A pergunta que mais me foi feita essa semana que passou foi qual minha opinião sobre o Abril pro Rock. Confesso que dificilmente elaboro respostas em um bate-papo, sempre falando a primeira coisa que me passa na cabeça. Acho que, num mesmo dia, dei três respostas opostas sobre o que tinha achado dos shows. Aproveito agora a vantagem que às vezes não tenho no jornal, por ser mais imediato, para fazer uma reflexão maior sobre o evento.

    Para isso, vamos levantar aqui quatro dados fundamentais: 1) Como já falei antes, organizar show no Recife não é prazeroso. Todo mundo quer entrar de graça, beber de graça, levar o cd de graça e se não conseguir, reclama. 2) Nada no mundo jamais será unânime. Então quem conseguir as façanhas anteriores, pode acabar reclamando também. 3) Discurso batido entre 10 de cada 10 artistas: um show é uma troca entre público e palco.

    O quarto, mais importante, é que é inegável a importância músico-social que o Abril pro Rock tem no Recife. Tanto que, passadas duas semanas, ele ainda é assunto nos jornais locais, listas de discussões e fóruns em geral. Levando todas essas coisas em consideração, acredito que, este ano, o festival finalmente encontrou seu foco. Mas o que acho mais engraçado é que o Abril pro Rock foi bom exatamente pelos motivos que todo mundo resolveu reclamar.

    Para começar, o preço. Eu, pessoalmente, teria pago até mais que R$ 40 para ver um show do Placebo. Considerando que o grande público do Abril é de estudantes, maioria dos nove mil presentes pagou R$ 20 para ver, de quebra, Los Hermanos e mais cinco shows que, polêmicas à parte, foram bem legais. Não fosse suficiente, o festival conseguiu que quatro mil pessoas pagassem os mesmo valores no domingo para ver um show que rolou de graça no carnaval, junto a outras bandas que tocam todo fim de semana por R$ 5 na cidade.

    Em segundo lugar, a escalação. Paulo André acertou em deixar a utopia de lado e ter chamado bandas que tem público garantido. É fato: se Sepultura e Shamam fizessem um show por dia aqui, daria sempre umas três mil pessoas (a prova foi que todos esperaram pelo atraso de 2 horas da atração do sábado). Esse ano deu ainda dois tapas na cara do público do Recife. Quem garantiu que ia vaiar o Massacration se divertiu bastante na apresentação e a presença do Legendary Tigerman é mais uma prova de que Recife ainda não tem ouvido para conhecer novidades em ocasião de show. Tem que tocar na rádio, passar na mtv, ter fotolog, etc. Prova disso é o Gram, que já tinha esse disco ano passado, mas não teve metade da tietagem que rolou aqui quando tocou no Mada, em Natal.

    Ainda na escalação, a reclamação geral: É bem verdade que DJ Dolores está sempre lá, assim como Mombojó e essas figuras marcadas do mangue. Mas eu, sinceramente, chamaria a produção do evento de idiota se eles fizessem o maior show de rock da cidade e não colocassem as bandas que eles produzem no palco. É o privilegio de ser o dono da bola. O Coquetel Molotov faz isso de maneira mais descarada e ninguém reclama. Seria inocência demais acreditar que, em qualquer lugar do mundo, aconteça o contrário.

    Este ano, se tenho reclamações, é mesmo com o público. Chegou a ser ridículo constatar que os fãs do Placebo (os caras pintam a cara, são super Glam Rock e sempre associados a homossexualismo) sejam menos afetados que os do Los Hermanos (sempre fazendo pose de armorial, sandalinhas de couro e camisas de clima tropical). Fiquei todo marcado porque resolvi ficar na frente do palco. Os caras tocam aqui todo fim de semana e, ainda assim, teve gente chorando, esperneando e jogando confete como se fosse o próprio fim do mundo. E, insisto, eles tocaram aqui não faz nem 4 meses, antes disso, outros 4 e vai diminuindo o espaço de tempo.

    Mesma coisa no sábado, quando o público headbanger se fechou completamente para as apresentações excelentes do Retrofoguetes e MQN e, depois, reclamam quando falam que tem cabeça fechada. No domingo, a “galera mangue” também desmereceu a performance de Daniel Belleza e, principalmente, do Volver.

    Deixo ainda uma última reflexão, só que esta para a organização: o público do domingo é sempre pequeno. Porque então não excluir o dia e aproveitar a grana para dar um gás ainda maior nos shows da sexta e do sábado?

    Molhando o bico

    Entre as entrevistas que fiz durante o evento, conversei com o dono da Monstro Discos (que é filho do dono da gravadora Trama). Pedi a ele um comentário sobre a polêmica que muitas bandas do selo dele que venceram o concurso iam contra o regulamento do Claro que é Rock. A resposta foi curta e grossa: “F***-se o regulamento”. Na semana seguinte, todas as bandas que citei foram desclassificadas.
    Publicado originalmente em 25.04.05

    Seção – Coluna

  • Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural
    Antes de tudo, acho que uma apresentação é sempre saudável. Afinal de contas, a proposta é criar interesse de você que está lendo para voltar sempre, sabendo pelo menos quem é essa pessoa que se meteu a falar tanta bobagem das coisas que deveriam ser tomadas com tanta seriedade. Meu nome você já descobriu antes de chegar aqui, sou jornalista, editor do site independente Vitrolaz, crítico de música da Folha de Pernambuco e faço pós-graduação em crítica cultural na UFPE. Sou bem novo sim, e fico com tanto pé atrás quanto você quando lê o que eu escrevo, justamente pela pouca estrada.

    Mas vivemos na era Google, nosso querido oráculo. O conhecimento está a três cliques de distância, com limite apenas de sua criatividade. Se eu disse o nome de uma banda hoje, em duas horas você vira fã daqueles mais psicopatas, que já ouviu todas as discografias e gravações perdidas. Pede licença para o amigo no MSN, diz que vai atender ao telefone quando na verdade vai procurar a resposta para a pergunta que ele fez, para justificar que você nem é tão fã assim e só tem pose.

    Então seria perder tempo se eu usasse esse espaço fazendo resenhas, críticas de discos e tudo mais que você já encontra aos montes por ai – aliás, que já encontra aqui mesmo no Giro. Este espaço vai ser para o colunismo no sentido mais literal. Minhas opiniões pessoais sobre as coisas que acontecem ou deixam de acontecer na cidade, sempre relacionado à música. E já deixo avisado que sigo a filosofia de Lester Bangs no filme Quase Famosos: “seja honesto e impiedoso”, então nada de ficar de babação por qualquer coisa, só porque “é da terra”. Eu dou valor ao que é nosso, desde que seja bom.

    Agora que já dediquei três parágrafos ao meu ego, vamos ao que interessa. Pouca gente está ligada nisso, mas a casa de shows Dokas vai fechar. O lugar foi palco de alguns dos shows mais legais que a cidade já teve e hospedou os principais festivais de metal do Recife. Lembro de um momento histórico, no show do Hanagorik, onde as pessoas estavam subindo pelas paredes e caindo pela janela, porque não tinha mais espaço para entrar.

    Foi bonito sim, mas é exatamente por isso que o lugar vai fechar. Não vale a pena fazer show em Recife por um motivo definitivamente triste: o público é péssimo e extremamente mal educado. Todo mundo quer, de alguma forma, entrar de graça, ganhar o CD da banda de graça, beber a cerveja do bar de graça. Quem não consegue reclama com um discurso de que a organização é ruim, que tudo é um roubo e volta para casa dizendo que em Recife não acontece show legal.

    Talvez o melhor exemplo de todos seja o festival Abril pro Rock. Quem lidera nas reclamações muito à frente da escalação das bandas é o preço dos ingressos. Pode perguntar ao seu amigo porque ele não vai. Dificilmente a resposta vai ser “porque não gosto de nenhuma banda”, mas sim “porque eu acho um roubo pagar R$ 20 para ver 10 bandas, boa maioria de outros estados”, por mais absurda e paradoxal que seja uma afirmação dessas.

    Chega a ser desmotivante para as bandas terem que se inserir num cenário onde ninguém quer consumir o que eles produzem. Já passamos da fase da arte pela arte. Se até então eram as bandas que sumiam, agora são os palcos que estão preferindo virar restaurantes ou lojas de carro. Certa vez, no agora finado espaço, me disseram “enquanto existir o Dokas, vai existir metal no Recife”. Será que esse é o prelúdio do fim? Quando pensar nisso, leve em consideração que a culpa é, em parte, sua. 🙂

    * Molhando o bico

    » Saiu à nova edição da revista Outracoisa, que está começando a perder qualidade. 80% das matérias falam de coisas que simplesmente não interessam para quem está fora do Rio de Janeiro. Uma delas chegou ao cúmulo de listar as barraquinhas de cachorro-quente da cidade. E depois reclamam que não vende nos outros estados. Mas vale a pena pelo CD de Quinto Andar, grupo comandando pelo rapper De Leve.

    Publicado originalmente em 28.03.05

    Seção – Coluna

  • Faz vergonha não poder ir para um show e se sentir seguro. Sexta-feira, enquanto o Los Hermanos se apresentava no Clube Internacional, uma fileira inteira de carros era arrombada nos espaços externos usados como estacionamento. Enquanto a preocupação da organização com a segurança conseguiu levar policiais para dentro da casa de shows, a Secretaria de Defesa Social se esquece que também precisa trabalhar do lado de fora.

    Todos os últimos shows que aconteceram na cidade fizeram parte dessa história. Nação Zumbi no Clube Português, Engenheiros do Hawaii no Catamarã, são outros dois que encerraram com vários carros arrombados. Como a grande arma da SDS contra o crime é a Lei Seca, podemos ter a consciência tranqüila que, na hora do roubo, os ladrões estavam todos sóbrios.

    Recbeat
    A programação do Recbeat causou controvérsias nas rodas de conversa do Recife. Só que muita gente esquece que em festival independente a gente vai para conhecer novas bandas e sons. E não para ver o ídolo do Disk MTV. Num papo rápido, o produtor Gutie disse ainda que não considera a grade fechada e alguma surpresa pode surgir. Fica a sugestão da coluna: Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta.

    Anti-Jabá
    Foi aberta uma votação pública para pressionar os deputados a aprovarem a lei contra a prática do Jabá. Isso significa que da próxima vez que uma gravadora der um carro de presente para um gerente de rádio, ele pode ir para a cadeia. É um passo pequeno e significativo para ouvirmos música boa nas programações locais. Para participar, basta acessar www2.camara.gov.br

    Parcerias
    Para ajudar a trazer bandas internacionais para o Porto Musical, a programação do evento fechou parcerias com várias organizações culturais interessadas em divulgar seu país. A Flemish Authorities, da Bélgica, traz o Think of One e o Bureau Export de La Musique Française traz o Bumcello. Um exemplo de como não é complicado fazer shows internacionais.

    Seção – Coluna

  • Não foi o pop dos anos 90, indies, nem a música com interferências eletrônica ou regionais. Quase ninguém se deu conta, mas o que acabou virando moda foi mesmo o gênero “mpb-rock-em-cima-do-muro”. Começou com o surto do Los Hermanos e hoje as bandas que mais chamam atenção de público e crítica são a Nervoso, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Cidadão Instigado, Columbia e a lista segue, sem ter medo de soar pop demais.

    Recife, por sinal, está muito bem nessa onda. Mombojó, Parafusa, Mula Manca e a Triste Figura, Del Rey e, forçando um pouco a barra, até a Rádio de Outono. O mais curioso é que essas são as músicas mais simples. Ninguém parece estar muito interessado em inovação ou rebuscamento. Por isso, não dê ouvido ao exagero que fazem com forçada invasão de referências que a mídia do sudeste persiste. Confie nos palcos.

    No embalo
    Procurando por sons interessantes no festival Cultura Independente, uma banda conseguiu ser realmente surpreendente: a Circo Vivant. Trompete, trombone, teclado, baixo, guitarra e voz, climão de Roberto e Erasmo com circo, que não tem medo de parecer com Los Hermanos na época boa – aquela onde eles ainda faziam melodia. A banda já se apresentou no Pátio do Rock e, ao vivo, parecem ser ainda mais promissores que no primeiro CD Demo. Quem quiser conferir, é uma ótima aposta para 2006. As músicas estão no site www.tramavirtual.com.br/circo_vivant.

    Falando em moda
    O jornalista paulista Lúcio Ribeiro deve ter gostado da comida típica do Recife. Ele vai voltar a cidade pela terceira vez em menos de cinco meses com sua festa “Popload”. De tanto querer lançar modas na sua coluna, ele decidiu fazer parte do mundo fashion e chega direto de uma apresentação no São Paulo Fashion Week. Aqui, ele toca na abertura da Comtex, feira importante para a indústria têxtil e mercado de roupas do Nordeste.

    Na Internet
    Ninguém faz a menor idéia ainda de quem seja Ewerton Assumção. Sua música, “Vou te excluir do meu orkut” foi a mais comentada na rede nessa última semana. Já tem até a letra no portal Terra. Quem também vazou na rede foi “Meds”, novo disco do Placebo, bem regular, sem hits certos e que promete passar batido.

    Publicado originalmente em 24.01.06

    Seção – Coluna

Random Posts

  • Interpol em São Paulo – Pop up!

    “Rosemary, heaven restores you in life” Paul Banks deve ter ficado triste quando ouviu a voz dele se confundir com […]

  • Recbeat 2008 – Primeiro dia « Pop up!

    Público do Recbeat na primeira noite  Abertura muito legal ontem, a do Recbeat. O festival começou pontual, mesmo que isso […]

  • Bandini – Pop up!

    Entrevista: Eduardo Ramos Eduardo Ramos é melhor conhecido como o ex-empresário do Cansei de Ser Sexy. O cara que foi […]

  • Page 188 — Pop up!

    Wilson Simoninha largou a faculdade de Direito já no último período para ser músico. Coisa que não se faz, a […]