Por trás de um festival « Pop up!

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Vista do backstage no Abril Pro Rock. Foto de Rafael Passos

Durante todos os anos que trabalhei como jornalista, sempre escrevendo sobre cultura e principalmente música, me incomodou um fato: o silêncio constante que envolve o universo dos festivais de música. Eu acreditava que em 2011 eu completaria uma espécie de transição completa. Deixaria de ser jornalista, de estar do lado da pergunta, para virar produtor e ficar do lado da resposta. Mas isso não aconteceu. As coisas não são tão preto e branco assim e me descobri nessa região cinza que tanto critiquei no passado de pessoa envolvida em várias etapas do processo da música. E perceber isso me deixou bem mais a vontade para falar (e não encerrar de vez esse blog).

Após essa maratona de um mês inteiro de shows do Abril Pro Rock, preciso fazer justiça aqui e explicar que esse silêncio que existe e que me incomodava tem um só motivo: DÁ UMA BAITA CANSEIRA fazer um troço desses. Comecei no APR em 2008 como curador do festival, já naquele próprio ano me arriscando em uma ou outra colaboração com os bastidores. Quatro anos depois, fiz de quase tudo que tem para se fazer no evento. De negociação de cachês a captação de patrocínio, assessoria de imprensa e até um pouquinho de montagem e direção de palco. Mandando banda correr para sair, outra correr para entrar, mudar luz, cenário, entrar vinheta e… de lá sair correndo para ajudar um gringo quase morrendo de ensolação no calor desgraçado do Nordeste.

A produção de um evento como o Abril Pro Rock começa sempre no público. São 19 anos de festival e por isso existem histórias, lendas e construções simbólicas de quem espera muito da programação. Antes de acontecer uma edição, já começam a falar das atrações do ano seguinte no Orkut. A maioria artistas que, sozinhos, custam mais caro que o festival inteiro. Outros que não tem nada a ver mesmo mas fazem parte daquela ansiedade que só quem é fã entende como funciona. Isso é culpa daquele tal silêncio. Ninguém sabe quanto custam as coisas, como as bandas circulam, como funciona o processo.

Um festival como o Abril Pro Rock custa em média uns R$ 800 mil. Isso é mais barato que o cachê do Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Foo Fighters, Queens of the Stone Age ou qualquer outra banda desse porte que você consiga imaginar. O festival destina mais de 50% de seus recursos nas mais de 30 bandas que tocam nele. É a soma dos cachês, passagens aéreas, alimentação dos artistas, hospedagens, fora os extras como exigências de camarim e até excesso de bagagem. Tem artista que o excesso de bagagem custa mais que o cachê. Uma banda que ganha um cachê de R$ 5 mil custa mais que o dobro disso ao evento no passar da régua.

Por isso montar a programação é como montar um castelo de cartas. Encaixa com cuidado aqui, retira com carinho dali e qualquer suspiro maior desaba tudo. Dos planos A, B e C do evento, nenhum de fato se concretizou, mas sim uma soma das três possibilidades. De banda que desiste de viajar depois de acertar todos os detalhes financeiros, como o Mastodon, a turnês que mudam tanto de datas que chegam a não acontecer mais, como Devendra Branhart. E isso é o que vai desenhando o restante das atrações, sempre tentando casar com o que tem de principal já fechado.

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Vista do público. Foto de Rafael Passos

Enquanto a gente começa a ter uma idéia do que vamos conseguir por na programação, vamos correndo paralelamente atrás de dinheiro para fazer tudo acontecer. Esse ano o festival teve patrocínio da Petrobras, que cobre cerca de 35% do custo total do evento. E, mesmo parecendo pouco, é na verdade um dos maiores apoios que um evento consegue hoje em dia. Todo o restante vem abaixo disso. Essa é uma parte da magia toda da coisa que ainda passa longe de minha compreensão. Muita coisa se faz de boca a boca e muda no caminho. Alteram valores, apoios, etc. Sempre existem vários atravessadores no processo e conseguir um contato direto na fonte do patrocínio parece ser algo extremamente valioso e raro.

Em produção dificilmente o conjunto inteiro do que está acontecendo joga no mesmo time. Existe ameaça constante de patrocínio cair, de banda desistir da programação, de fornecedor cancelar o serviço. A tensão aumenta enquanto se aproxima o festival a um ponto que, mesmo após anunciada a programação completa, sempre se convive com a sensação que tudo vai mudar. Esse ano, por exemplo, o local do evento mudou após termos divulgado que seria no Centro de Convenções. Tudo parte desse vai e vem de interesses que falei agora. E é nesse momento que começam a surgir matérias, entrevistas, perguntas do público e mais ansiedade por mais detalhes do festival.

Nunca curto me repetir, mas faço questão dessa vez: dá uma baita canseira. Passei cinco dias seguidos sem ver minha filha quando chegou a semana do evento. E isso porque todo o restante da equipe não dividiu a produção com outro emprego, então passaram ainda mais tempo imersos no local do festival, até que ele encerrasse, sem ver a vida lá fora. No final, valeu bastante a pena. Fiquei extremamente satisfeito e feliz com o resultado do Abril, que deve ser um dos melhores festivais independentes a acontecer esse ano. Como saiu nos jornais, o evento “recuperou o fôlego”. Mas a minha metáfora favorita foi de que demos um passo atrás ano passado, para avançar três passos nesses. E bola para frente. Que venha o Abril Pro Rock 20 anos em 2012!

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