Page 180 — Pop up!

  • “Aqui o negócio é participar”. Na terra do frevo e maracatu, não se engane, todo dia é dia de samba. Ali, por trás da Secretaria de Educação e Cultura, no centro da cidade, o Pagode do Didi é ponto certo de quem tem samba no pé e no “fraseado” há 24 anos. Perto de completar um quarto de século, a casa abriga uma figura de mala e terno, ou chinelo e camiseta, todos sob o mesmo ritmo. Quem dá as boas vindas é Carlinhos, 38 anos, filho de Didi, hoje mestre de cerimônias da noite. Tem gente até onde a vista alcança, suficiente para não negar que é no Recife que está a segunda maior roda de samba do País, legitimado pela Fundação de Cultura do Rio de Janeiro.

    Por trás do balcão pequeno, na barzinho que serve de quartel general, Didi corre preocupado no espaço curto. De lá, ele não faz idéia, mas já imagina que as duas ruas que cruzam a casa estão lotadas. “Todo sambista de fora quando vêm para o Recife, faz questão de visitar o pagode”. Não tem confusão no nome não. Na tradição que nasceu na Vila de Santa Isabel, pagode não é gênero e sim o nome do lugar onde tem a roda de samba. No Pagode do Didi, a trilha sonora vai da velha guarda ao romantismo moderno.

    “Cada dia tem um tema diferente. Segunda é o pagode da sopa; terça o pagode dos amigos;quarta o da tradição; quinta o das mulheres; sexta é o “point” do samba e no sábado o pagode da velha guarda”, enumera Carlinhos. Ele é o principal porta voz, enquanto Didi coordena a cozinha para garantir que não falte cerveja, que está sempre gelada. A apoteose acontece no dia do “point”, a sexta-feira, quando às 19h encerra o expediente e todo mundo segue direto para lá.

    “Todo mundo pode chegar aqui na roda, pegar um instrumento e entrar no ritmo”. Carlinhos não esconde o orgulho que sente pela iniciativa do pai. “O pessoal pede muita dica para ele, que ensina a tocar alguma coisa, como fazer do jeito certo. A gente já tirou muita gente da rua que tava perdido e deu uma oportunidade aqui na roda”. O reconhecimento é tanto que uma loja especializada em instrumentos já garante um suprimento de cordas e manutenção da mesa de som. Tudo profissional.

    O Pagode do Didi tem seu hall na fama injustamente retratado por um pequeno quadro de fotos num canto da parede. Bezerra da Silva, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Beth Carvalho e o grupo Fundo de Quintal são a linha de frente de medalhões do samba que, quando estiveram no Recife, fizeram questão de fazer uma parada lá. “Bezerra da Silva morava perto, vinha aqui várias vezes”, lembra Carlinhos.

    A energia da casa é muito forte. Já tiveram um jornalzinho informativo, que circulava toda quinzena entre os clientes do bar. Próxima quinta, ela será sede da primeira reunião para formar a Associação dos Pagodes de Pernambuco e, se não perder o ritmo, lança em janeiro um CD com músicas de artistas que começaram lá e hoje são famosos. “Apesar do reconhecimento dado pela Fundação de Cultura do Rio de Janeiro, a gente tem muito pouco apoio do governo daqui, por isso tem que fazer as coisas um pouco devagar”, lamenta Carlinhos.

    Os clientes mais atentos já notaram que, logo ao lado da roda de samba, uma faixa convida “visite o nosso site”. O Pagode do Didi já é dono de um espaço muito bem articulado na Internet. Design simples e bem funcional, vem com 15 seções que, por sua vez, dão mais opções ao navegante. Sem exagero, tem de tudo. De piadas e charges (dos funcionários e clientes), o site tem o cardápio do bar, informações sobre os funcionários e até músicas para download.

    Quem visita o Pagode do Didi pode também ser fotografado por alguém da casa e entrar num álbum de foto específico de cada noite, igual outros sites que fazem cobertura de festas. Quem mantém o site é  Carlinhos, filho de Didi. “Uma empresa fez pra gente e ensinou como atualizar de casa. Sempre tem coisa nova para colocar no ar”. Também tem espaço para venda de camisas com a marca da casa.

    A maior dificuldade de quem tem um espaço na grande rede não chega nem perto do Pagode do Didi. O site é recheado de anunciantes, dos mais criativos possíveis.

    SERVIÇO
    Endereço do site: www.pagodedodidi.com.br

    Publicado originalmente em 17.11.05

    Seção – Reportagens

  • “Se você não for ver esse show, tudo que posso dizer é que você é um idiota”. São poucos os jornais que têm essa abertura num texto diário do caderno de cultura. Menos ainda são os jornalistas dispostos a assumir uma postura tão contestadora ao próprio leitor. Mas a tirada, junto a perguntas do calibre de “é verdade que você é um cretino arrogante?” servem apenas de tempero no livro “Disparos do front da cultura pop”, de Tony Parsons.

    Figura quase folclórica no jornalismo cultural inglês, Parsons ficou famoso não só com seus textos agressivos mas bem esclarecidos, mas principalmente por ter vivido os anos 80, época que mais fez diferença para o rock internacional e nunca perde a morda. Seu livro é a reunião de alguns dos eventos mais importantes da música e cultura pop em geral, como o surgimento do Sex Pistols, a explosão de David Bowie e a polêmica que é o filme “Laranja Mecânica” na Inglaterra.

    Os textos fazem do livro fundamental para quem se interessa por música e cultura em geral, mostrando o olhar da época na grande mídia internacional. A escrita de Parson não envelheceu nesses 20 anos. Muito pelo contrário, continua anos à frente e serve de crítica a um jornalismo preguiçoso, praticado com freqüência cada vez maior na cultura.

    O título do livro não chega a ser um exagero. Tony Parsons esteve de fato no front de um pop em excesso. É o principal ponto baixo do livro, que merecia uma introdução explicando o contexto em que cada matéria foi publicada originalmente. Perde-se um pouco da importância do primeiro registro de artistas como Kylie Minogue, afinal, nem todos os personagens conseguiram manter a fama e sobreviver no século XXI.

    Como ponto mais que alto, o livro encarta uma entrevista feita na segunda-feira seguinte ao fim de semana do suicídio de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana. Uma entrevista menos polêmica, mas bastante importante que Tony Parsons conseguiu fazer com exclusividade com a mãe do músico.

    Publicado originalmente em 31.10.05

    Seção – Reportagens

  • Finalmente, chegou o dia oficial em que a MP3 mudou significativamente o mercado fonográfico no Brasil. Pode anotar o nome da banda, Cansei de Ser Sexy, que andava mais falada que ouvida. Depois de colocar suas músicas em formato digital online, descolaram um contrato com uma gravadora de grande porte, distribuição e até matérias fora do país. Ponto não só para a banda, mas também pela iniciativa da Trama, que entrega agora o homônimo nas lojas.

    “Começou como brincadeira, a gente gravou as músicas em apenas um dia só para colocar no site”, lembra a vocalista e figura de frente da banda, Luisa Lovefoxxx. Aliás, sobre o nome dela, vale lembrar também que a Cansei de Ser Sexy é uma banda como não existe faz tempo. Trabalha na música um conceito que mistura moda, comportamento, figurinos, nomes e fotologs. “A banda só tem dois anos, mas já aconteceu muita coisa surpreendente”, continua.

    Transição longe de ser dolorosa. Quem acompanhou esse processo da banda, pelo o site Trama Virtual, vai perceber mudanças fortes nas músicas. “É porque agora foi bem gravado, né!”, comenta Luisa. “Agora cada uma das três guitarras foi gravada em separado, tem até bateria eletrônica, o CD foi pré-produzido e mixado”, enumera, “até os volumes estavam no lugar certo”. O mais importante dessa mudança, ela faz questão de deixar frisado: “A gente fez tudo do jeito que quis”.

    A parte complicada – e necessária na fama – também já entrou na rotina da Cansei de Ser Sexy. Nos fóruns da Internet, muita gente já começa a falar mal da conquista da banda. “De repente a gente tava na capa do jornal e o gráfico das pessoas que tinham raiva da gente começou a crescer”, comenta. “Mas eu posso garantir que nada mudou na banda. A gente tá sempre junto todo dia, continuamos os mesmos”.

    E de todas as novidades que a banda traz (trilha de seriados americanos e participação em games), o mais legal vem no próprio CD. A caixinha encarta também um CD-R, virgem, com a mensagem “Faça bom uso dele”.

    “Minha arte é chamada egocêntrica-soft-pornô”. Musicologicamente falando, não tem realmente nada de novo ou que chame atenção na Cansei de Ser Sexy. Um electro-rock que, desta vez, está bem amarrado, recheados de efeitos e repetições. Os mais ligados no gênero vão lembrar logo de Fischerspooner, Audio Bullys e uma grande quantidade de referências da pista das boates. A novidade (muito boa) são brasileiros fazendo isso com competência e aceitação.

    Pode ser o primeiro disco da banda, mas as 12 faixas não vão chegar na mão de quem ainda não ouviu pelo menos uma das músicas. É o típico “produto seguro” da indústria, tudo graças a então dor de cabeça que eram as MP3s. O melhor do disco da Cansei de Ser Sexy não está na música, mas sim no recado que traz: as gravadoras estão despertando para o potencial da Internet.

    Publicado originalmente em 31.10.05

    Seção – Discos

  • Não tem nada de novo para a música em “You could have it so much better”, novo disco do Franz Ferdinand. É a exata mesma sensação de ouvir o primeiro disco. Ainda bem. E não é porque ele está circulando pela Internet desde setembro, mas sim a textura velha que, sem motivo nenhum, pareceu ser a grande novidade de 2004. São 13 músicas, todas hits fáceis, que vão garantir mais um ano inteiro para o plano do vocalista Alex Kapranos de fazer as garotas dançarem nas festas. Ainda bem.

    Talvez pela falta de impacto e surpresa, “You Could have it…” não chega a superar seu antecessor na primeira audição. Precisa de um pouco mais de tempo. O que era dor de cabeça das gravadoras, virou estratégia de jogo baixo. Franz Ferdinand circulou por tempo suficiente para fazer deste CD uma necessidade para quem gosta de rock’n’roll da fórmula mais simples. Não tem nada de novo e, de novo, vai ser esse o principal motivo das vendas.

    Mas é claro que, para o Franz Ferdinand, o novo disco tem sim muita coisa diferente. Agora que a brincadeira deu certo, a banda decidiu tirar os efeitos em excesso das músicas, deixando tudo a cargo dos instrumentos num formato mais fácil de se imaginar em apresentações ao vivo. “Do You Want To”, a de trabalho, já cansou no repertório de festas, com a ótima introdução “quando eu me acordei hoje a noite / eu disse “vou fazer alguém me amar” / e agora eu sei que é você / você tem tanta sorte”.

    Ainda assim, não faltam boas coisas para se encontrar nas faixas. Elas vêm na seqüência “You’re the reason i’m leaving”, “Eleanor put your boots on” e “Well that was easy”. Mostram a flexibilidade do Franz Ferdinand em trabalhar hits num tom bem próximo e de referência descarada aos Beatles. A terceira é para mostrar como isso ainda consegue ser feito com uma roupagem contemporânea sem soar clichê demais, caso dos conterrâneos de palco Strokes e Kings of Leon, que não sobreviveram tanto no segundo disco.

    Lá fora, o Franz Ferdinand está sendo paquerado por todas as grandes gravadoras e uma segunda versão deste disco já começa a ser distribuído pela Sony. Aqui, para também ter novidade, “You Could Have it So Much Better” vem com disco duplo. O segundo é um DVD curtinho, mas merecido. São vídeos da banda no estúdio, entrevistas, clipes e galerias de fotos. A contrapartida do brinde, claro, é o preço final do CD. Um tanto salgado.

    Leia também:
    • Strokes – First Impressions of Earth

    Publicado originalmente em 26.10.05

    Seção – Discos

  • “Gates of Metal Fried Chiken of Death” é disco feito sob medida para aquele se vizinho chato e cabeludo que fez circular por todo prédio a pesquisa dizendo que o heavy metal é hoje o gênero mais erudito da música. Bateria na velocidade da luz, guitarras virtuosas e um vocal lirico que até deixa um tanto a desejar, mas na embalagem final, funciona direitinho. Toque a faixa nove que ele com certeza até arrisca bater cabeça. A letra, traduzida, fala assim “O cientista maluco é lelé / você vai ficar igual / ao Tião Macalé”.

    O esperado aconteceu. Depois da turnê com o Sepultura, do show apoteótico no Abril pro Rock e sucesso de sobra na programação da MTV, o Massacration gravou um disco por um selo de grande porte, a Deckdisc (mesmo de Pitty e Ultraje a Rigor). Personagens de uma encruzilhada onde são igualmente odiados e adorados por figuras tarimbadas do metal brasileiro, esse primeiro disco chega como uma piada de ótimo gosto ao gênero. Passaria totalmente despercebido, salvo raros momentos.

    “Fried Chiken…” abre inclusive com uma justa homenagem. Uma introdução na voz de João Gordo que copia sem medo a música “Dier Eier Von Satan”, da banda Tool. No original, uma letra em alemão supostamente demoniaca que, na verdade, é uma receita. Aqui não entra reflexão, o rato de porão fala em português claro “misture a clara dos ovos”. Foi ele, inclusive, quem assinou a produção do disco com 13 faixas, repertório bem maior do que é conhecido da banda.

    Sem controvérsias ou polêmica, é um disco de fato para os headbangers. Música bem executada, tocada com bastante peso e participação especial de Sérgio Mallandro. Ele aparece em voz quase incidental em “Metal Glu Glu”, que está longe de ser a mais divertida. Nessa hall, entram “Metal Milkshake” (“Hot Dog / Milkshake / Sunday / Mayday”) e a agora já clássica “Metal Bucetation” (“Suck my sacred balls”).

    E mesmo para os mais chatos, talvez até aquele tal vizinho cabeludo, “Fried Chiken…” é sinal claro que a industria fonográfica está se recuperando do baque. Quando um independente de grande porte se permite o custo de lançamento de um disco desses, com um preço nada merecido, é prova que as coisas vão bem. Some isso ao fato que, brincando, o Massacration conseguiu inserir o heavy metal (o sério) novamente na programação da MTV.

    Publicado orignalmente em 19.10.05

    Leia mais:
    • Entrevista com Massacration
    • Show do Massacration no Abril pro Rock 2005

    Seção – Discos

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