Page 7 — Pop up!

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Fui ver o show do Restart no Recife por pura curiosidade morbida. Acabei lembrando desse texto que fiz para o A Tarde mas não tinha postado aqui.

Se considerarmos tudo que faz parte do processo onde uma música é feita, embalada e um grupo de pessoas se torna fã dessas canções, em um plano aberto que envolva toda a história da cultura pop, a imprensa sempre esteve envolvida na formação de cenas, gêneros e demais formas de embalagens. A mesma imprensa que, em tom tedioso, disse no começo do milênio que não tinha nada de novo na crescente onda “emo”. Seja pelas referências musicais ao punk da california do meio dos anos 1990, ou do comportamento emprestado da cena gótica dos anos 1980.

Como seus antepassados, afirmar pertencer de um movimento era concordar com imposições muitas vezes sociais e comportamentais. É comum ver o punk que não se afirma punk, ou o indie que diz que isso nem existe, apenas como ferramentas de comportamento que fazem parte de suas cenas. Afinal, não existe atitude mais punk que negar o próprio punk. Mas os emos vão negar que fazem parte da denominação por um deslize do lado de cá, dos que observam, que é o de encontrar quais parametros os definem.

Algo deu terrivelmente errado. O emo de hoje – coloridos, como alguns preferem ser chamados – cresceram em proporção que não era prevista ou planejada por ninguém. As revistas de música não falam deles, as bandas não estão nos festivais de rock. Apenas quando estouram em trilha de novela e assinam em gravadora é que vão aparecer na programação de festivais de verão.

Suas músicas continuam fora dos sites e blogs da moda, pelo menos em um sentido positivo. É um dos raros casos onde o rock se tornou, pela primeira vez, inimigo do rock. O público emo, para ver um show de sua banda favorita, muitas vezes precisa encarar uma programação que vai de Pitty a Ivete Sangalo, as vezes até comprando um abadá. Algo um tanto profético, ainda mais quando conectamos as raizes disso tudo ao movimento punk que, por conveniencia, já nasceu afirmando sua morte.

Essa falta de conjunturas, conspirações e de um modelo faz de um caso como oda “Família Restart”  – banda paulista surgida em 2008 que, em apenas um ano, já somava mais de 2 milhões de acessos no MySpace – algo tipo um alienigena para ser dissecado e examinado. Fenômeno do público, como entusiastas das novas mídias gostam de classificar, que vai contra o que é imposto por todo o aparato da mídia como conheciamos até o final dos anos 90, como a TV e o Rádio.

Afinal, como todas essas pessoas ficaram sabendo da existência da banda sem que a mesma estivesse presente em lugar nenhum? Some a isso o potencial de transformação que é parte dessa nova cena. O emo estoura no Brasil como um movimento depressivo, enrustido e terminal; apenas para se transformar em uma explosão de comportamento alegre, colorido e, em alguns dos casos, até de forte liberdade sexual. Não existem fórmulas para delimitar o comportamento dessa cena.

As bandas, o público e o cenário em que participam se re-inventam em uma velocidade que a mídia – que agora não pode mais ignorar – sente dificuldade em acompanhar. É um movimento que tem toda a profundidade permitida em 140 caracteres de um depoimento via twitter, escrito em uma variação do português que só eles entendem. “Akele excrito axim”.

O suspiro de tranquilidade vem do fato que, enquanto jornalistas, pesquisadores, empresários de gravadoras e etc tentam compreender, formatar e embalar a nova geração musical; público e bandas seguem despreocupados com tudo isso. Diferente de punks, headbangers e góticos de histórias passadas, esses garotos só são emos ou coloridos porque nós estamos preocupados em chamá-los assim.

Por sinal, o show do Restart é realmente uma bosta 😛

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