Malvadeza braba « Pop up!

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Desalma por Priscila Lima

Vou correr o risco de ser polêmico aqui e dizer de cara que eu não acredito muito em Thrash Metal. Aliás, em nenhum tipo de metal extremo. Mas calma aí que eu vou me explicar. Sempre que escuto uma banda nova ou então desconhecida, respondo com um suspiro carregado de desdém. Penso na primeira geração da nova onda do metal britânico – Motorhead, Iron Maiden, Judas Priest – e na geração que foi influenciada e formada com base no que eles fizeram. Estou falando da turma da Bay Area. Metallica, Megadeth, Testament, Machine Head. O Slayer, que era tipo um vizinho da turma. Pode ser excesso de pseudo-saudosismo, mas nada, principalmente no Brasil, me faz pensar que vai chegar na metade desse caminho.

Ouvir o Desalma, que foi formada no Recife em 2007 apenas, é como levar um tapa forte na cara. Daqueles que deixam a bochecha vermelhona, ouvindo só o zumbido do “deixe de frescura, hômi”. São três caras que, fora do palco, parecem meio desengonçados e bobões. Estão sempre rindo e curtindo a noite, com camisa preta de banda e aquela cara de menino bom, criado pela avó em prédio sem varanda. Você imagina que uma visita lá na casa deles é acompanhada por três toneladas de álbum de fotos de bebês. “Essa aqui foi quando ele ganhou a primeira roupinha de super homem e ficava correndo o tempo inteiro pela casa”.

Soa preconceituoso sim. Não sei se por eu ser o tipo de cara que também sofre essa mesma taxação eu me sinta mais a vontade para falar isso. O fato é que todas essas idéias caem por terra quando eles empossam os instrumentos no palco e descarregam um pedacinho da melodia do inferno na terra. Sério, tem malvadeza pura ali. Do tipo que é capaz até de gerar lendas sobre cada uma das figuras que faz careta enquanto toca e canta. Se falarem que eles comeram um gatinho bebê vivo no meio do show, eu vou atestar que foi verdade. Se disseram que o estrondo do bumbo da bateria se dá graças a 15 pintinhos que eles colocam dentro para receber as batidas, vou te dizer também que é verdade.

Fragmentos, Corpo Seco, Desalmo e Em Chamas são os nomes de algumas músicas que podem ser ouvidas no MySpace deles. É violência pura para os ouvidos. Daquela que faz você se sentir bem por estar vivo. Do tipo que faz cada show valer 100% de sua noite. A velocidade das canções é claustrofobica. E quando você se percebe enclausurado pelas batidas pesadas no baixo e os 15 pintinhos morrendo e explodindo sangue na bateria (ops) vem a voz esmagadora de Igor Capozzoli criando ondas de tremor nesse ambiente enclausurado. É a trilha sonora perfeita para o apocalipse do cotidiano.

Desalma me faz acreditar no Thrash Metal. Me faz acreditar que essa terra distante onde vivem os monstros não é uma ilha pequena onde só cabem os reis do metal. Mas um continente vasto a ser explorado com sagacidade e diversão como em Brutal Legend – aquele joguinho com Jack Black, sabe?. Se não conhece, corra para conhecer. Desalma me faz acreditar que essa nova geração não morreu em referências mais pobres e subproduções que dão prestígio ao puro lixo que é Limp Bizkt e o metal de patricinha do Avenged Sevenfold. Aliás, troque os gatinhos e pintinhos de dentro da bateria por essas bandas. E todas as outras bandas inspiradas e geradas a partir dessas figuras.

Sinto um misto de desânimo e felicidade ao precisar ter saído do Recife para conhecer o Desalma. Só ouvi e vi eles pela primeira vez em Natal, no sempre excelente festival DoSol. Desanimo por não perceber algo grande assim surgir na minha cidade. Feliz por perceber que, mesmo até chegar lá, eles já tinham passado por outros estados e encabeçado uma turnê com os paulistas do Claustrofobia. Investimento e reconhecimento caminhando junto. Espero poder ouvir falar sempre mais e melhor deles daqui para frente.

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