Pitty – Chiaroscuro « Pop up!

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Com sorte, talvez Priscilla Leone nunca tenha parado um dia sequer para pensar na crise de identidade imposta a ela pelo restante da indústria da música, mesmo quando está com o modo Pitty ativado. Mas desde Anacrônico que ela permaneceu a única sobrevivente relevante de uma geração inteira de artistas independentes que tinham entrado para alguma gravadora. A encruzilhada é formada por um público que não pode envelhecer, o próprio coro dos independentes que hoje a perde como atração para os festivais de verão e a questão do qual é, afinal de contas, a atual cara do rock brasileiro? Chiaroscuro, lançado pela Deckdisc, infelizmente ainda não responde nenhuma dessas questões.

O disco guarda esse tom quase autista de quem diz “deixa eu fazer como eu sei” e, por isso, segue exatamente o mesmo ritmo do trabalho anterior, mesmo sendo lançado com quase cinco anos de diferença. É interessante notar que essa tem sido uma opção comum a todos os artistas de publico jovem da Deckdisc, em não dar nenhum passo a frente ou recuar a experiência musical, mas continuar no caminho que é mais conhecido pelo público como uma forma de procurar segurança. Foi assim com a Nação Zumbi em Fome de Tudo e está sendo assim com a Pitty. Vale lembrar que ela, junto com o Matanza e o Cachorro Grande, já seguiam caminhos mais cuidados escolhando lançar ao vivos no lugar de inéditas nos últimos dois anos.

Mesmo nesse ritmo mais lento, de quem não consegue surpreender com o esforço de 11 faixas, Chiaroscuro é um bom disco. Tem pelo menos quatro grandes músicas, incluindo o atual single Me Adora, que está com clipe na MTV. Descontruindo Amélia, Fracasso e Assombra completam a parte boa de ouvir bem alto, como a própria cantora tem instigado os fãs em seu blog. Mesmo assim, não chegam a justificar um álbum inteiro. Mas, novamente, experiementar um formato menor não era algo esperado do contexto dela e da gravadora que está no momento. Talvez um reflexo de um resultado negativo dos dualdisc – aqueles discos duplos com DVD – e os singles em vinil.

Mesmo que essas sejam escolhas pessoais – o que é bem provável, conhecendo a desprentensão que a própria Pitty tem no sucesso gritado ao seu redor – Chiaroscuro levanta questões. Em um ambiente que atinge grande público, é um dos poucos discos rock “de resistência” ao modelo Bonadio que fechou até a tampa do caixão dos Titãs. Mas se essas músicas são o nosso rock sério, elas não causam mais o mesmo impacto naquele fã do disco Anacrônico, hoje na faixa dos 20 anos de idade. Pitty continua dialogando melhor com um público mais jovem que, por sua vez, não parece ser o mesmo interessado no clima de grêmio estudantil dos festivais independentes.

Sem querer, ela acaba traduzindo um monte da postura mal resolvida da música jovem brasileira. Uma que prega uma autenticidade difícil de ser encontrada. E quando uma cantora como Pitty consegue demonstrar, mesmo que em quatro ou cinco faixas de um disco inteiro, só expõe mais complicações. É rock melhor e mais autentico que um NxZero, mas ouvido pelo mesmo público, sem a originalidade de um Cidadão Instigado, mas ouvido pelo mesmo público. Só por levantar tantas questões sem fazer nenhum esforço, seguindo o autismo do “como sei fazer”, Chiaroscuro já é um disco que vale a pena ouvir com atenção.

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