Page 194 — Pop up!

  • Até hoje fico impressionado e me repetindo q tomei uma cerveja com ele.Visto de longe, na tela de um Faustão, Martinho da Vila nem parece que é gente como a gente. Com 68 anos de idade e 38 de carreira, escreveu sambas que já atravessam gerações. Alguns refrães, como “vai vadiar”, a gente já pode correr o risco de dizer que, hoje, já se nasce no Brasil sabendo. Mesmo assim, o repertório dele não esgota. Pesquisador, mostra agora a segunda etapa de sua busca por novas poesias em “Brasilatinidade”.

    Na varanda da piscina do hotel, Martinho esbanja uma simplicidade que afasta qualquer mito criado na imagem dele. De sandálias e camiseta, ele rende na cerveja, mas não economiza no cigarros – três cigarros durante uma conversa de 40 minutos. Tranquilo, ele dá a receita do novo disco, “fiquei pensando nas línguas, achei legal usar essa temática, de misturar a cultura latina”.

    Nas 15 faixas, ele pega poesias da Itália, Espanha e até Romênia, traduz e dá contexto e som nacional. “Meu barato era fazer uma mistura, sem descaracterizar”, explica. Para ajudar a imprimir os arranjos de uma identidade externa no samba, Martinho contou com a presença de Robertinho do Recife. “De cara não achei que seria conveniente, até porque conhecia apenas o trabalho dele com guitarra. Mas descobri que ele tem um talento fora de série”.

    Não demora muito para descobrir a genialidade e intimidade que Martinho da Vila tem com a música. “Gosto de pegar o mote da música quando estou batendo papo. Outro dia, um amigo pediu um suco de maracujá num bar e, na hora, comecei a pensar numa letra”, recorda fazendo referência a faixa nove do disco.

    Para as músicas que traduzem poemas de fora, Martinho contou com a participação de artistas do país de origem de cada uma delas, todos cantando no idioma local. A exceção é “Dentre Centenas de Mastros”, de influência romena. A canção também é a única que é mais distante sonoramente do samba. “Foi um trabalho enorme para encontrar uma canção romena que combinasse com o projeto”, lembra o sambista, sempre empolgado com o resultado de suas pesquisas.

    Mas longe de ser entusiasta, Martinho conhece bem os riscos de lançar um trabalho erudito. “Existe uma resistência quando eles acham que é requintado demais, algumas rádios até se recusam a tocar”, reflete. A preocupação veio do trabalho anterior, o “Lusofonia”. Mesmo com influência da chula de Portugal, um ritmo tão próximo do chote, a recepção não foi tão boa quanto esperada.

    Para lançar “Brasilatinidade”, Martinho da Vila se prepara agora para lançar o DVD do disco. “Fizemos várias imagens nos países que inspiraram as músicas, junto com os artistas convidados”, explica. Fora a apresentação em São Paulo, para a gravação do material, a primeira turnê foi marcada na Europa e ainda está sem datas para começar a rodar o Brasil.

    Publicada originalmente no dia 06 de abril de 2005

    Seção – Reportagens

  • Zezé di Camargo e Luciano representam hoje um pesadelo da música que todo artista adoraria estar vivendo. Com tiragem média de 20 milhões de discos vendidos, a dupla sertaneja chegou num ponto onde liberdade de criação é uma burocracia desnecessária. Seu novo disco chega num formato totalmente padronizado de harmonias, melodias, timbres de voz e até imagem da capa. Um momento raro na indústria fonográfica onde “mais do mesmo” vira sinônimo de sucesso absoluto.

    Graças a sucessos que fizeram da dupla parte do imaginário da cultura popular, eles estão bem longe da pressão de inovar para sobreviver e conseguir se manter nas rádios. Isso faz de “Zezé di Camargo & Luciano” um disco bem básico, onde os fãs não vão se surpreender, nem se decepcionar. Para quem achar que a fórmula está errada, eles abrem o CD com uma poesia de Zezé di Camargo, onde ele diz que quem o critica é porque não entende o Brasil.

    Ao contrário do prelúdio, as 14 faixas seguintes seguem modestas. A escolhida para trabalho de divulgação, “Fui Eu”, já canta nas rádios a história de um homem abandonado porque não teve seu amor reconhecido. A dupla assina a autoria de duas músicas presente no disco, “Fica de uma vez” e a auto-referencial “Agora Agüenta Nóis”, onde eles cantam que o sertanejo é a cara do Brasil.

    O romantismo das letras dá espaço para faixa 11, “Vai dar tudo certo”, letra de Valdeci da Silva Aguiar que fala de religião e, como sugere o titulo, esperança em Deus. A presença cristã é só mais uma prova do poder que a dupla tem de se impor. Qualquer outro artista brasileiro que mostrasse opções políticas e religiosas de maneira tão aberta como Zezé di Camargo & Luciano tem feito – com exceção talvez de Roberto Carlos – seria motivo de polêmica. Mas, como tudo que os sertanejos tocam viram ouro, o mote é apenas motivo de sucesso.

    Publicada originalmente no dia 06 de abril de 2005

    Seção – Reportagens

  • O homem tigre do blues

    O Legendary Tiger Man, atração internacional no domingo do Abril pro Rock deste ano, é um ótimo exemplo de como a cultura globalizada só chega no Brasil se for empurrada pela onda do ‘mainstream’ (resumida geralmente na MTV). Apesar de independente, a banda de um homem só já percorreu todos os principais palcos da Europa e Estados Unidos desde o lançamento do primeiro CD em 2002. Só agora, três anos depois, chega a nosso País para enfrentar um novo público não apenas no sentido geográfico, mas também no próprio estilo de música.

    “Já tive bastantes concertos em grandes festivais , entre bandas diversas e, em geral, os resultados foram muito bons”, comenta o português Paulo Furtado, dono do alter-ego do lendário homem tigre, que confessa não estar nada intimidado com a nova experiência. Ele dá a receita para o público e diz que “basta manter-se aberto e receptivo”. Ele mesmo, que ainda não tem referência da música de Pernambuco, vai dar o exemplo, “espero vir carregado de música nova quando voltar daí”.

    Furtado apresenta o blues para o Abril pro Rock, novidade que vai causar impacto em quem chegar no evento procurando novidades dançantes. A principal curiosidade nas apresentações dele, infelizmente, não vai acontecer aqui. Nos shows, ele literalmente ilustra as músicas em vídeos que produz em Super 8. O trabalho é parecido com o que é feito aqui pelos grupos Mídia Sana e Yellow, que poderiam encontrar, nessa presença internacional, um porta aberta para finalmente embarcarem nas próximas edições do principal festival da cidade.

    Para quem quiser saber onde vai estar pisando, o Legendary Tiger Man disponibiliza todas as músicas do primeiro disco no seu site pessoal. A promessa para quem for conferir é de 50 minutos de música intensa, rude e crua.

    Publicada originalmente no dia 04 de abril de 2005

    Seção – Reportagens

  • Essa foi importante. Descobrimos o dia do primeiro show de brega no Recife!

    Quem ligar a TV ao meio-dia, horário da programação local do Recife, não vai ter dúvidas. O brega está em todo o lugar. Os mais puristas podem até não aceitar, mas o ritmo já é a marca da música popular da cidade. Uma cultura que se espalhou com tanta rapidez que pouca gente consegue traçar quando foi que tudo começou. A reportagem da Folha de Pernambuco descobriu. No dia 11 de março, o brega completou dez anos de vida.

    Foi no bar Fina Flor de Peixinhos, com data estratégica para atrair quem tinha acabado de receber o salário. No palco, a primeira festa “Noite do Brega” abria com um DJ que tocava sucessos da época, preparando para a principal atração da noite, a banda Labaredas. No público, o sucesso já anunciado, quatro mil pagantes, fora convidados. “Na época, não tinha nenhuma banda por aqui que fizesse o que fazíamos. Ninguém queria assumir o rótulo de brega. Por isso tocamos sozinhos até às 5h da manhã”, lembra Mitó, vocalista do grupo.

    Esses dois elementos principais já tinham seu espaço certo na cidade. O Fina Flor organizava a festa “show em dose dupla”, com duas bandas por noite. O Labaredas estava na estrada desde 83, tocando em cabarés e bares da cidade. “No ano seguinte, fizemos uma festa para gravar o primeiro disco do Labaredas no clube Bela Vista e às 18h tivemos que fechar as portas, porque não cabia mais gente no lugar”, comenta Eurico, que ajuda na produção até hoje.

    E o público não parou de crescer. Os festivais de brega chegaram a reunir 70 mil pessoas, com shows de Reginaldo Rossi e convidados. Nesse mesmo dia, representantes da Sony levaram os artistas locais, incluindo o Labaredas, para o patamar das grandes gravadoras.

    VINCULADA – O Swing que veio do Pará
    Não muito longe do Recife, em Belém do Pará, o brega já tinha uma história antiga e bem mais controversa. “Os bregas eram os nomes que davam aos cabarés de mais baixo nível por lá”, explica Joelma, vocalista da banda Calypso, que reforça ainda que “por isso, ninguém que fazia música jamais quis alguma associação com esse nome”. Na cidade, um outro ritmo tão romântico quanto o do Labaredas, porém mais dançante, ganhava o gosto do público nas casas de show.

    Em 2000, a banda Calypso trazia para o Recife esse ritmo estampado no nome do grupo. “Nossa inspiração maior era a música do sul do Caribe, que ficou popular na voz do cantor americano Roy Orbison”, comenta Joelma. Se a associação com o brega fechava portas no Pará, por aqui fez com que a banda tivesse público certo e casa lotada já no primeiro show.

    O diferencial do Calypso foi a força que a banda teve em romper barreiras sociais no Recife. Eles repetiram o sucesso de público que tinham na Exposição de Animais quando tocaram para uma platéia de classe média alta no Classic Hall.A banda abriu espaço para toda a cena de Belém do Pará embarcar no Recife, fazendo uma mistura de ritmos que deu origem a atual cena.

    VINCULADA – Controvérsias do novo brega do Recife
    Curiosamente, as bandas que começaram o Brega no Recife não querem mais ser associadas ao ritmo. Os motivos variam tanto, que fica difícil identificar porque existe toda essa controvérsia. Em geral, o discurso é divido em duas vertentes. Uma, das bandas do Pará, que preferem dizer que tocam uma evolução do Calypso, com novas influências de outro ritmo caribenho, o Zouk. O segundo, defende uma visão mais radical, que até se admite brega, desde que as novas bandas sejam classificadas em outro ritmo.

    Uma das bandas que mais atrai público hoje na cidade, o Swing do Pará, prefere deixar a polêmica de lado. “Não nos preocupamos em sermos chamados de brega”, comenta a vocalista Scheila, que reuniu um público de 10 mil pessoas no show de aniversário, banda pode ser considerada hoje o carro chefe da nova cena brega no Recife, que está sendo chamada de tecno brega. Mesmo assim, Scheila explica que o que é tocado aqui ainda está longe do tecno brega do Pará, “o ritmo é muito mais rápido, as danças já estão bem diferentes. Mesmo assim, Recife já é a segunda capital do Brega no país”.

    O brega nasceu e sobrevive dessa constante mistura de ritmos, sempre se reinventando e enfrentando a polêmica de ser aceito. A postura que o Swing do Pará adota hoje foi a mesma que o Labaredas fez quando ninguém na cidade queria assumir o novo ritmo. Com isso, o brega completa 10 anos de idade ainda com cara de novidade, com força para render muitas outras dezenas de anos.

    Publicadas originalmente no dia 23 de março de 2005

    Seção – Reportagens

  • Eles se uniram para trazer de volta à vida o mais puro heavy metal clássico, e estão conseguindo. Nem lançaram um disco, mas depois de excursionar com o Sepultura, conseguiram fechar shows em todos os principais festivais do Brasil. O único problema é que, até alguns meses atrás eles nem eram uma banda de verdade. O Massacration – sátira que o grupo Hermes e Renato, da MTV, faz ao metal – estréia o especial da Folha de Pernambuco para você ficar por dentro de tudo que vai rolar no Abril pro Rock.

    Atrações internacionais à parte, o grupo tem sido responsável pelas maiores comoções em fóruns na Internet, como o Orkut. Tem gente que está adorando e tem quem diga que a brincadeira só vai tirar o espaço para as bandas de verdade. “Não acho que ninguém rouba espaço de ninguém. Quem tem talento consegue aparecer. Para mim, isso é desculpa de quem não tem”, se defende Fausto Jasmim, o Hermes do programa. Ele explica que “na verdade, a gente sempre gostou de tocar. O Massacration e nossas outras bandas são apenas uma maneira que encontramos de fazer isso em nosso programa”.

    Ele não revela quanto o grupo está ganhando por show, mas não esconde que a fórmula está dando certo. “Entramos em estúdio ainda esse ano para lançar o primeiro CD do Massacration. Não vamos fazer só música, mas sim reunir nossas brincadeiras e um pouco de teatro na história”, adianta. Até lá, o grupo segue nos shows com apenas cinco músicas que se misturam com brincadeiras no palco. A apresentação no APR deve durar 40 minutos.

    Nesta mesma noite, vários fãs do Shaman vão estar presentes no pavilhão do Centro de Convenções. A banda é exemplo sério das brincadeiras feitas pelo Massacration. Mesmo assim, Fausto se revela tranqüilo. “As pessoas entendem o que a gente faz. É uma sátira com o universo inteiro do metal, não só uma banda”. Para não correr o risco, o grupo estreou ontem na MTV um espaço até então inédito na emissora: um programa apenas com clipes de todos os estilos de Heavy Metal. O apresentador garante “quem for fã de metal, vai curtir”.

    VINCULADA – Amantes do metal indignados
    A atração inédita do sábado do Abril pro Rock é, também, a mais controversa de todo o festival. Os fãs de metal já ganharam a desmerecida fama de serem radicais na opinião, mas o argumento usado agora é bastante lúcido: O Massacration sequer é uma banda. O estudante de direito Emanuel Júnior, de 21 anos, é um dos headbangers indignados pela presença dos comediantes. “Não é porque eles estão tirando onda do metal, mas sim pelo fato que nem os integrantes levam a sério esse trabalho como música. A produção do evento poderia ter dado o espaço para alguma banda que realmente quer divulgar seu trabalho”, comenta.

    Paulo André, a frente da escolhas para o Abril pro Rock, se justifica dizendo que “podia ser pior, podia ser o Coração Melão”, em referência a banda de Axé que o grupo Hermes & Renato também satirizou, “melhor que seja a de rock!”, conclui. Emanuel, que vai pagar R$ 20,00 para poder assistir aos shows, discorda. “Este ano vou só pelo Sepultura. Existem muitas bandas independentes de São Paulo e Minas Gerais que eu gostaria de ver, mas que não vão tocar porque o espaço foi dado ao Massacration”.

    Publicadas originalmente no dia 16 de março de 2005

    Seção – Reportagens

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