Transborda 2010: Primeira noite « Pop up!

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Leptospirose (SP) no palco do Transborda

Vou começar com um breve momento de deslumbre: Belo Horizonte é uma das cidades mais bonitas que já vi. E tudo que falam sobre as praças daqui serem as mais bonitas do país é certamente verdade.

A primeira noite do festival Transborda, em Belo Horizonte, começou um tanto complicada. Apesar de existir uma vontade da população jovem em ocupar espaços públicos para eventos, a insegurança de órgãos como a Prefeitura ainda torna o processo bem lento. O festival acontece na Praça da Estação (apelido local da Praça Rui Barbosa, por ser lá a antiga estação central da estrada de ferro que cortava o Brasil, hoje abrigando o Museu de Artes e Ofícios). A vista do lugar, em dias comuns, é cortado por longos chafarizes de água, o que já rendeu um movimento local, chamado de “Praia da Estação”, onde as pessoas apareciam de sunga e biquini para tomar banho de sol.

Durante o Transborda, uma das fontes estava desligada para dar lugar a dois grandes palcos – lado a lado – onde acontecem os shows. A insegurança em ceder o local era visível nos diversos tapumes que fechavam o acesso ao museu, evitando contato do público com o prédio histórico, e também na demora da entrega do alvará de funcionamento do festival, o que resultou no atraso de quase duas horas para começarem as apresentações. Com hora marcada para encerrar, vigiada atentamente por vários funcionários da prefeitura devidamente identificados no local – e desnecessáriamente acompanhados da guarda municipal – o público foi o mais prejudicado ao perder dois shows. Um da banda Julgamento (remanejada para o domingo) e o do rapper Linha Dura (que mudou para o sábado).

Desatentos a esses detalhes de bastidores, o público foi o que mais chamou atenção nessa primeira noite de festival. Calculei uma média de 800 pessoas circulando pela praça com um visível interesse em ver coisas novas acontecendo na cidade. Se misturavam em duas categorias principais: os que se deixavam seduzir pela música e dançavam, pulavam e cantavam em frente ao palco e os que confraternizavam constantemente na noite (confesso que nunca vi tantos abraços distribuidos em uma noite de festival). O clima de boas vibrações total. Nunca se encontrava aquele típico chato do show, que fica em pé, em frente ao palco, observando sem reação tudo que acontece. A cumplicidade entre as pessoas e o palco já é ponto alto da noite mineira.

Os três shows que restaram para a noite foram salvos pela banda paulista Leptospirose. Antes deles, Cidadão Comum e Cães do Cerrado mostravam que o rock local é bem acima da média do que se assiste nos shows de abertura em festivais de outros estados. Confesso que cheguei em Minas pensando que essa era a terra de algumas das bandas mais legais que já ouvi na vida, como Sepultura e Pato Fu, e isso deve ter elevado mais a expectativa e a pressão nos nomes locais. Ambas as bandas estão no ponto para circular, com boa consciência do palco, mas ainda faltam aquele fator magia que faz você querer estar ali em cima, fazendo parte de tudo.

Era o caso da Leptospirose, banda de Bragança (interior paulista). A figura esquisita do vocalista Quique Brown, com jeitão de Frank Zappa From Hell, já inspirava insanidade nas pessoas antes mesmo da primeira música começar. Incrivelmente alta, rápida, suja e agressiva, as músicas hipnotizavam qualquer um que chegasse perto. Até os funcionários da prefeitura baixaram a pose, abriram sorriso e se deixaram contagiar pela festa. O dedilhado pesado e rápido do baixo se juntava a dança maluca da bateria com gritos de grind e hardcore no palco. A mistura não deu em outra: estourou uma das caixas de retorno, que começou a fumaçar trazendo um divertido elemento cênico para o show.

Tudo encerrou pontualmente às 23h30. Mas a festa continuou no “Nelson Bordello”, inferninho local que parecia concentrar até mais pessoas que na praça. Isso porque, paralelo aos shows do Transborda, o duelo de MC’s que já é tradicional da cidade fez o encontro de públicos da noite. Era a festa “Yes We Can”, comandada pelo coletivo Pegada, com bandas e DJ’s dispostos a ver o sol nascer. Por conta da longa viagem cheia de escalas – levei quatro vezes o tempo normal para chegar em BH – encerrei a noite sem encarar a longa a fila para ver o que rolava por lá. Mas hoje tem mais.

Preciso comentar: senti falta de ver as pessoas que criticaram o festival antes dele acontecer. Reclamar e falar mal sempre é feito com mais respeito quando se dá as caras para ver o resultado atingido pelo pessoal.

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