Page 179 — Pop up!

  • Anunciado desde o começo de 2005 na edição Nordeste do Claro Q é Rock, a banda Rádio de Outono lançou finalmente seu primeiro disco. A banda foi uma das mais rodadas de pop-rock do Recife no ano, fazendo shows seguidos em quase todos os fins-de-semana. O excesso pode causar a impressão que eles acabariam lançando um disco com pouca novidade, mas o material que já circula na cidade surpreende. Tem uma família grande, maior que a própria banda, que dá uma força enorme na produção.

    A Rádio de Outono é uma banda de pop rock (pop’n’roll, como eles chamam), sem guitarras. Atrativo que convida pouco para conhecer o som que, pela falta de expectativa, acaba agradando bastante. Algumas grudam feito chiclete, com letras simpáticas, que não falam sobre nada demais, de maneira despretensiosa, descompromissada e engraçada. O charme é mesmo um pianinho, as vezes escondido no palco, mas que conquista qualquer curioso de passagem.

    Mas no CD a coisa cresce. E muito. O tempo, deverás demorado, para lançar o disco parece ter sido descontado na produção. A Rádio de Outono que vai chegar na casa das pessoas – e sem muita dificuldade nas rádios – é bem diferente da que estava nos palcos. Cheia de efeitos na voz, nas guitarras e, aparentemente, muito mais que um teclado fazem uma banda difícil de associar com a Rádio de Outono que chegou antes aos ouvidos via festinhas locais.

    As sete músicas vem numa embalagem absurdamente simpática, com azuis e rosas claros e a foto de um igualmente simpático radinho dos tempos da vovó. Junto com as músicas e o tal pianinho que conquistam mais que a voz da cantora Bárbara Jones, faz do CD uma chave que abre portas na programação de qualquer eixo do Brasil.

    Publicado originalmente em 30.11.05

    Seção – Discos

  • Se todo século tem um mal, o do século 20 nasceu na Alemanha, quando estudiosos de comunicação começaram a definir os conceitos do que seria uma indústria cultural. Basicamente, a arte sendo produzida em larga escala, para ser vendida a atacado nas lojas. A crítica se fundamentava no fato que uma música de Beethoven, vendida em discos em larga escala, para experiências diferentes na casa de cada consumidor, perdia sua aura de arte. É quando a música ganha sua divisão entre o erudito, que vira sinônimo de restrito, e o popular, produzido em massa.

    A raiz de toda a música popular hoje está no blues. “Nela você pode encontrar facilmente o jazz, rock, rap, hip hop, funk, gospel, quase todos os gêneros”, explicava durante sua última passagem pelo Recife o lendário Deacon Jones, blueseiro americano. Ele fez questão inclusive de desenhar uma árvore, onde o blues dava fruto a outros gêneros. É esse exagero todo mesmo. A música foi uma das primeiras a nascer do povo e ganhar o interesse dos centros culturais, depois de anos da tradição soberana européia.

    Sua história começa ainda no século 19, com o canto falado dos primeiros escravos negros americanos, um pouco influenciados por nativos africanos que dividiam o mesmo sofrimento deles. É uma associação perigosa, já que hoje muitos cantores de blues tentam afastar os conceitos da música que tocam da melancolia e tristeza. Um dos primeiros registros do blues foi feito em 1912, com a música “Dallas Blues”, do violinista branco Hart Wand. De lá pra cá, não faltam nomes. BB King, Muddy Waters, T-Bone Walker, Willie Dixon, John Lee Hooker, Howlin’ Wolf e Elmore Jones, para citar, são alguns deles.

    Mas o blues sempre teve uma aura erudita, porque, no mesmo período de sua formação, nascia também em Nova Orleans o jazz. Diferente do blues, que é uma música mais lenta e falada, o jazz é swingado, dançante e contestador em muitas formas. Foi a manifestação popular predominante pelos próximos 20 anos, quando deu espaço para o “cool jazz”, uma forma mais lenta e “inteligente” da música.

    John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker e Louis Armstrong são os nomes que vão fazer você pensar em jazz já na primeira audição. Além do clássico e do Cool, foram deles que também nasceram o “bebop”, uma formação de banda mais curta, com músicas mais rápidas. Junto com o blues, na década de 50, os dois ritmos deram origem às bases do rock’n’roll. “My baby rocks me with a steady roll”, foi a música de Leo Mintz onde o DJ Alan Freed batizou o ritmo.

    Nesse ponto, a produção de musical na industria fonográfica ganha uma proporção muito grande. Bill Halley, Johnny Cash, Chuck Barry, Ray Charles, Buddy Holly, Dion and the Belmonts, Berry Gordy e Elvis Presley foram apenas alguns, dos tantos que em pouco menos de dez anos conseguiu transformar o rock em um número quase sem fim de ramificações, como o soul, surf, rockabilly e muitas das raízes onde nasceram os gêneros mais contemporâneos da música com guitarras.

    Enquanto os Estados Unidos presenciava um nascimento de novos ritmos periféricos, como o punk e o hip hop, o Brasil começava a dar sua contribuição na música popular. Na década de 50, Dick Farney, Ismael Neto, Johnny Alfa e Maysa foram os precursores do estouro que viria com Vinícius de Moraes. Foi com “Chega de Saudade” que a bossa nova entrou no mapa da música internacional, uma construção extremamente complexa e, ainda assim, com um forte apelo popular. Ineditismo que espantou todo o mundo.

    Ainda assim, era uma música da classe média alta. O samba, verdadeiro popular brasileiro, só viria a chamar atenção anos mais tarde. Seus principais formadores foram Noel Rosa e Lamartine Babo. Juntos, os dois ritmos viraram parte do cotidiano brasileiro nos “Festivais da MPB”, que a televisão passaria a apresentar. Foram lá que nasceram os ídolos de hoje. Elis Regina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Gilberto.

    A música popular brasileira foi marcada ainda por uma forte dualidade. O Rio de Janeiro era o cenário do refinamento, da bossa nova, música da praia e classe média alta. Na São Paulo cosmopolita, nascia a jovem guarda, mais influenciada pelo rock americano. As constantes disputas eram a grande atração nos programas de TV e grandes shows. Com o fim da ditadura, ambos os ritmos começaram a ganhar uma falsa aura de velho, quando o Brasil abria suas portas para a toda a cultura americana e européia, que predomina na música até hoje.  

    Publicado originalmente em 30.11.05

  • Nem sempre é correto dizer que a música erudita é clássica. O nome, na verdade, remete a um período estético que começou em meados do século 18. Mas a produção musical sempre pediu essa divisão, que tem origem no sacro e no profano. Por isso, a série “explicando…” sobre música se divide em duas partes, abordando aqui o período anterior à cultura popular de massa. As palavras-chave dão dicas de compositores e/ou suas obras para pesquisas aprofundadas nos temas.

    Século 5 – Música medieval A experiência musical, como conhecemos, nasceu dentro da igreja, em meados do século 7. Chamava-se “cantochão” e, como o nome sugere, era apenas cantada em coro, sem acompanhamentos. Os instrumentos eram usados apenas nas manifestações de dança, em salões de acesso exclusivo aos “troubadours” franceses. As canções eram ainda monofônicas, com uma única melodia, formato que ainda levaria ainda séculos inteiros para evoluir.

    Palavras-chave: Organum, Moteto, Trouvères, “Benedicamus Domino”, “Regi regum”, Machaut

    Século 15 – Música renascentista A partir do século 15, a música começa a acompanhar esteticamente as artes plásticas. Influenciados por um novo pensamento contestador, os artistas começaram a quebrar certas regras e o profano passa a ganhar destaque na música. As composições mais refinadas, entretanto, ainda aconteciam dentro da igreja. Foi lá, nesse período, que nasceu o estilo “a capella”. Surgiu também, sob influência de Lutero, os primeiros hinos escritos em alemão, que permitiam que o público também cantasse durante as apresentações abertas.Nas ruas da França, nasciam as primeiras experiências de instrumentos usados para acompanhar canções populares. Composições alegres, ritmadas e, pela primeira vez, com vários acordes. Permitindo um desenvolvimento grande da dança e o nascimento dos movimentos do balé.É graças a esse contexto que os instrumentos passam a exercer influência tão grande quanto a voz. No século seguinte, 16, cresce o interesse dos compositores em escrever músicas exclusivamente instrumentais. Começam a ser criados instrumentos variados, como o alaúde, viola e trompete. Na Inglaterra, são feitas também as primeiras experiências com teclados.

    Palavras-chave: Josquin, Madriguais, Tocata, “Nosso Deus ainda é uma cidadela segura”, “A caçada do rei”

    Século 17 – Música barroca Dois marcos fundamentais são considerados como princípio do período barroco. O primeiro é a construção dos primeiros violinos e sua contribuição para o segundo marco, o surgimento das óperas. Giulio Caccini publicaria em 1602 seu “La Nuove Musiche” (a nova música), como ficou conhecida a nova forma de composição que usava, pela primeira vez, instrumentos contínuos para acompanhar uma única voz, no lugar do tradicional coro. É dele também a primeira ópera registrada na integra, a “Eurídice”. Antes dele, Jacopo Peri escreveu também “Dafne”, que se perdeu. A primeira grande ópera, entretanto, foi “Orfeo”, de Claudio Moteverdi. Um grande corpo musical, formado por 40 instrumentos, que acentuam os impactos dramáticos da história. O ponto alto do barroco é com o surgimento de Bach e suas cantatas. O compositor escreveu mais de 200 cantatas sacras, obras para solistas e coro, acompanhados por uma orquestra. A música instrumental ganha então tanto prestígio quanto a vocal. A relação é tão forte que a morte de Bach é considerado o marco final do barroco.

    Palavras-chave: Haendel, Vivaldi, Camerata, Música Monódica, Fuga, Suíte

    Século 18 – Música clássica No latim, “clássico” é usado para definir o cidadão ou escritor da mais alta classe. Por isso que seu uso é sempre associado, mesmo na música, a algo de grande valor. Os musicólogos preferem delimitar o período estético então com a letra “C” sempre maiúscula. A partir daqui, as mudanças nesses períodos da música já não são mais registradas com grande facilidade, sempre com a época anterior mostrando muitas semelhanças com a seguinte. É marcado principalmente pelas composições de Mozart e do Quarteto de Cordas, ambas bem mais simples do que era feito no barroco. A orquestra clássica era formada por duas flautas, dois oboés, duas clarinetas, dois fagotes, duas trompas, dois trompetes, dois tímpanos e uma grande quantidade de cordas. Geralmente 20 violinos, quatro contrabaixos, seis violoncelos e oito violas. Mais tarde entraria também o piano. O grande ponto alto do classicismo foram as sinfonias, que eram sonatas escritas para orquestra.

    Palavras-chave: Beethoven, Mozart, os filhos de Bach, Lieder

    Século 19 – Romantismo É o período mais popular da música erudita. Schubert, Chopin, Wagner, Brahms, Tchaikovsky e Strauss são todos nomes dessa época. A emoção passa a ditar regra nas composições, traduzidas em longas notas e referências da literatura de ficção. A orquestra cresceu enormemente, junto a experiências com volume sonoro e possibilidades e misturas com contrastes de timbres. Os compositores escreviam para instrumentos de madeira, como o corne, substituindo inclusive alguns de percussão. O piano também ganhou um grande papel na música instrumental, principalmente com as composições de Chopin. Mas o grande marco do romantismo foi a chamada “música programática”, a que conta uma história através de um programa. Os melhores exemplos são as óperas de Beethoven e Wagner, as duas maiores forças desse período.

    Palavras-chave: Lied, “Nova Música”, “Tristão e Isolda”, poema sinfônico, música incidental

    Século 20
    O pluralismo da discussão artística e expressões estéticas, a partir desse século, é enorme. Na música, entram os termos impressionismo, expressionismo, pontilhismo, serialismo, neoclassicismo, música concreta, aleatória, microtonalisdade, atonalidae, etc. Foi quando começou também a discussão sobre a industria cultural e cultura de massa. O surgimento do blues, jazz e da música popular como é conhecida hoje.

    Publicado originalmente em 23.11.05

    Seção – Reportagens

  • Nos últimos dois anos, o rock independente pernambucano que conseguiu destaque foi o que decidiu contestar, mesmo de forma errada, os discursos e sonoridades do manguebeat. Essas bandas foram a frente da programação local de shows, que já encerra 2005 engessada e sufocada, procurando novidades. O próximo ano deve testemunhar uma volta a valores mais próximos do cotidiano da cidade, com boas promessas de novos destaques. O Sinhô Pereira é um nome que vale a pena anotar.

    “Rádio de Pilha”, o disco de estréia, chega já descarregando uma experiência de quatro anos de banda. Produção profissional, 100% made in Pernambuco. Um dos raros exemplos onde o dinheiro do Funcultura não é jogado fora com discos locais. Um som forte, cantado em português, “Visão Periférica” já faz valer o CD, com interferências de scratchs de hip hop, guitarras altas e uma voz convidativa às outras 10 faixas seguintes.

    A banda ainda experimenta um pouco e mostra potencial para o foco que decidir seguir. “Cidadão Planetário” e “Em Órbita” são exemplos mais compassados se comparados com o geral do disco. Outra que entra nesse time é a que dá nome ao disco. O Sinhô Pereira prefere falar de problemas, mas faz isso fugindo do lugar comum, sem apontar culpados ou dar carão no ouvinte. Fala do ponto de vista deles mesmo, no meio das pessoas. “Nos familiarizaram com a fome”.

    Uma das passagens mais curiosas do Sinhô, “Voa Avião”, usa um coro de crianças do Projeto Rebento e Gilmar Vagalume. É, provavelmente, o que mais marca a criatividade da banda. Além do tradicional berimbau e percussão forte, a banda vai além no sax, trompete e batidas eletrônicas. E eleva a décima potência com caixa de café, apito e tonel, misturando com os instrumentos mais tradicionais.

    Esse primeiro registro pode ser encontrado na Livraria Cultura e nas lojas Oficina do Som e Flowers. Quem tem pressa de ouvir, fica a dica que a banda coloca todas as músicas na Internet. O endereço é o www.sinhopereira.com.br.

    Publicado originalmente em 16.11.05

    Seção – Discos

  • O som da locomotiva nos primeiros segundos de abertura do CD brinca com a foto do encarte, que não casa em nada com o nome da banda. Não tem como ter idéia do que esperar da ViladaFábrica depois que aperta o “play”. Surpresa agradável e até necessária na música do Recife que já começava a ficar previsível demais. “Terceira Travessa da Linha Férrea” é a estréia oficial dessa banda de Jaboatão dos Guararapes que tem um pé forte no Cool Jazz, com uma já tradicional mistura de influências.

    Existe um potêncial bem evidente na banda. ViladaFábrica pode ainda não estar no seu formato ideal, mas as 11 músicas que encartam o primeiro disco são uma boa promessa para o som da cidade no próximo ano. Principalmente por essa semelhança fácil com o Jazz mais esperto e swingado. Soa bem nos instrumentais e na voz leve. O pacote fecha com poesia no lugar da letra. Mais surpresas que surpreendem.

    O ViladaFábrica escorrega apenas no próprio discurso. Certas horas o texto fica mais pesado e agressivo, não combina com a proposta que a banda mostra no início. Mas, são deslizes pequenos e compensados muito justamente pelo quarteto compensa. Em “Deusa Terra”, quinta da lista, grava “Hay Man” incidental, música do Ave Sangria. A novidade do Cool Jazz é também memória, só para somar pontos para eles.

    O primeiro registro já mostra resultados. “Terceira Travessia…” ganhou um prêmio da Associação de Zines de Pernambuco, selecionado entre outros independentes da cidade. Não precisa correr muito para encontrar a música do VilaDaFábrica, o trabalho está espalhado pelas lojas da cidade e a banda começa a participar, timidamente, na programação local.

    Publicado originalmente em 08.11.05

    Seção – Discos

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