De voadora na caixa dos peitos | Pop up!

Já passava de meia noite em Pirenópolis. A cidade do interior de Goiás, terra do Seu Francisco e seus dois filhos famoso, recebia a 12a edição do festival Canto da Primavera. Estávamos n’A Confraria do Boxexa, no número 38 da rua do Rosário provando o famoso pingole da casa. Basicamente um picolé afundado em cachaça. Muito bom. Na mesa, eu conversava com Talles Lopes e Ivan Ferraro, respectivamente presidente e vice da atual gestão da Abrafin, sobre a postura agressiva que o Fora do Eixo – coletivo que ambos faziam parte – precisava contornar. O gancho era o caso China. E a sugestão era de serem mais “elegantes” no modo de agir.

Uma semana mais tarde, enquanto eu via minha sugestão ir por água abaixo em um video onde Pablo Capilé gesticulava, bradava, usava frases de efeitos e seguia toda a cartela do populismo político e decretava guerra – diplomática? – ao estado de Pernambuco, comecei a relembrar os detalhes de toda essa historia que vi nascer de perto. Lembrei do nosso primeiro encontro, no Goiânia Noise 2007, quando Capilé disse que eu cheguei de voadora na caixa dos peitos quando ele me incentivou criar um coletivo de jornalistas e blogueiros. Na época respondi que só criaria uma associação se fosse para proibir a entrada dele.

Antes de começar essa pequena série de textos, decidi levantar algumas dúvidas. Qual é exatamente esse rancor de Pernambuco? É China, que não mora mais no estado, nem tem sua carreira autoral como foco de seu sustento, reclamar que gostaria de ganhar mais cachê? Isso me parece um pedido até valido. Eu queria ganhar mais dinheiro como professor também. Seria Fred 04 reclamando do download ilegal? Mas essa não é uma reclamação tão comum aos artistas dos anos 80 e 90? Isso é rancor?

Seria a saída do Abril Pro Rock e Recbeat da Abrafin? Dois festivais que nunca tiveram grande atuação na associação além de emprestar o peso de suas marcas? Me parece bem pouco, ainda mais com a falta de bons argumentos ao questionar a relevância de toda musica local nos últimos dois anos. Anos da Orquestra Contemporânea na manchete do NY Times, de Spok re-significando o frevo no Brasil, de tantos outras coisas. Mas bem, sou o menos indicado para defender a moral da música pernambucana aqui. Minhas opiniões são sempre mais polêmicas nessa área.

Minha duvida maior é com o rancor – sim, esbraveado, cuspido e gritado – que o Fora do Eixo tem ao único estado do Brasil que o governo pagou para uma turnê pelo interior para implementar o modelo econômico solidário deles em outras comunidades. A pauta era “porque o Fora do Eixo não teve sucesso ao entrar em Pernambuco?”. A resposta é por ser o estado a personificação do rancor? Não teria a ver então com o modelo de entrada na região? Nos estados vizinhos, o Fora do Eixo “converteu” historias de sucesso prévias, como o Festival Mundo em João Pessoa e o DoSol em Natal. No Recife, a aposta era um cara gente boa vindo atrás de uma namorada. E desconhecedor da cidade, resolveu fazer ações em lugares que não funcinariam nem com toda verba do Carnaval, caso tivessem.

Uma terra onde os jogadores principais já eram grandes. E onde a oferta já era maior que a demanda. Uma das primeiras ações do coletivo Lumo foi criar mais um festival em um estado que já tinha 12 festivais. Essa entrada equivocada não é avaliada no Congresso. Pelo contrario, reforçada como bem sucedida, mas não percebida. E é somente uma, das varias possibilidades de não ter dado certo. Entre as minhas favoritas estaria o “porque não, horas”. Porque rancor? Porque não quis ser Fora do Eixo? Somos obrigados a ser? Não podem existir dois, três, quatro, cinco modelos bem sucedidos? Lembro de ter ouvido Bruno Kayapi, do Macaco Bong, responder a Márvio dos Anjos, do Cabaret: “ou está com a gente, ou está contra a gente”. É isso mesmo produção?

Considero Capilé, Talles, Ivan e tantos outros que se juntaram ao Fora do Eixo mais tarde, como Fabrício Nobre e Foca como bons amigos. Mas o excesso de frase de efeito e populismo usado por Capilé no congresso me deu a inquietação que faltava para voltar a escrever aqui. E nos próximos textos seguem as minhas crônicas Fora do Eixo. Tentando entender o que aconteceu com a cena independente do Brasil. Sejam bem vindos de volta ao Pop up. 🙂

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