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14/01/2011 mayer-2104417 Mãozinhas para cima para Mayer. Foto de Dudu Schnaider

Teve um tempo que eu bocejei forte para aquele papo datado de que música, assim como toda forma moderna de expressar alguma arte, entrou em um abismo de repetição e reprodução. Um loop infinito de mais do mesmo. Mas aos poucos eu começo a perceber que a cumplicidade do público vai além da domesticação feita pela padronização imposta por rádios e gravadoras. O público quer se sentir seguro, muito mais do que impressionado pelo artista. E é isso o que explica dois fenômenos interessantes na apresentação de Amy Winehouse no Recife na quinta-feira 13. O público não a queria ver cantar, mas sim “beber, cair e levantar”. E a imprensa em geral, formada por gente que também é público, ansiava tanto por isso que até noticiou um tropeço como sendo um “tombo”.

Essa expectativa em ver algo se repetir – Amy tropeçar, Janelle Monae dançar igual ao clipe e Mayer Howthorne “ser fofo” – garante que o mais do mesmo deu ao público o que eles precisavam para uma ótima noite. É o que explica, por exemplo, o desagrado do público em outras praças pela apresentação de Winehouse, que subiu no palco e só cantou, sem tropeçar ou errar. Uma conjunção que daria o argumento perfeito ao mais chato ouvinte de Bach de que “nada disso é música”. Mas é. Música que emociona mais pela teatralidade que pelas próprias canções, mas que cumpre suas centenas de funções que vão de combustão a escapismo social.

No entanto, isso tudo justifica muito bem algo que parecia até então incompreensível: a escolha do Brasil para o retorno da cantora dois anos após ela dizer “yes, yes, yes” para o “Rehab”. É um público carente de presença de ídolos tão novos ao ponto de fazer vista grossa ao show tenebroso que Amy apresentou. Assim como uma mídia carente de participar dos escândalos do alto escalão do pop mundial. Mayer estava lindo, Amy tropeçou, logo, foi uma ótima noite. Se fosse em qualquer contexto mais crítico, carreiras poderiam ter afundado de vez, como aconteceu com Britney. Capaz de, após esse “test-drive”, a cantora britânica decidir aguardar um pouco mais para dar ritmo a carreira. Afinal, toda a experiência musical da noite foi bem dispensável.

A exceção maior a tudo isso foi Mayer Howthorne. Indiferente aos gritos de “lindo”, pode ser considerado como salvação da noite. Sua música repleta de referências ao pop negro da Motown e sua banda que lembrava até os integrantes do Outkast merecia um tratamento mais refinado. Entre “Your easy lovin’ ain’t pleasing nothing” e “Just Ain’t Gonna Work Out”, ele fez um show curto, justificado pelo fato de que ele tem apenas um disco. Poderia ser em um teatro ou espaço menor, celebrando a própria cultura que ele faz homenagem nas músicas, lembrando um grande baile. Mas não foi dessa vez. É torcer que ele volte ao Brasil de forma mais merecedora.

RETROCESSO – Em uma indústria de shows que é amaldiçoada pelo fantasma da “meia entrada”, a tal “Pista VIP” – solução encontrada para compensar o prejuízo – parece assolar o público tanto quanto a tal carteirinha preocupa os produtores. É lamentável a opção da Raio Lazer em repetir essa prática nos eventos que promove no Recife (assim como fizeram com Iron Maiden e Black Eyed Peas). Dessa vez, o espaço entre o público “VIP” e aquele que realmente sabia cantar, curtia, queria dançar e ver os músicos de perto era assustador de tão longe. Com direito até a protesto de Mayer Howthorne no microfone, que pediu “mande esse pessoal aqui dá frente para trás do salão e deixem aquelas pessoas que estão dançando lá atrás chegarem aqui perto”.

A prática só escancara uma relação muito mais comercial e triste com a música que é prejudicial a todos. Do lado de fora isso ficava ainda mais evidente: os cambistas vendiam ingresso para “Front Stage” por R$ 150 (metade do valor cobrado na bilheteria). Perguntei a dois deles porque esse prejuizo e a surpresa da resposta foi que “não tem prejuízo, [mostrando o ingresso] tá vendo? É tudo cortesia, que o povo que ganha vem aqui e vende para nós”. Ou seja, criam uma área preferencial para um público que vai apenas para aparecer em coluna social, totalmente desinteressado por música e pelas atrações, que ainda se presta a ir lá vender o convite.

Enquanto isso, na pista comum, era praticamente inviável assistir qualquer coisa do show se não fosse pelo auxílio dos telões. Teve até quem desistisse. Um casal, que seguia caminho oposto a da fila para entrar no show, não deixou de expressar o descontentamento. “Paguei R$ 200 para vir aqui, não é um preço barato. Mesmo se eu ficar encostado na grade que separa as pistas, não consigo ver o palco”, desabafaram. Para constar, no Rio de Janeiro, o mesmo show produzido pelo coletivo “Queremos” formado pelo público (entenda melhor aqui) não tem separação de público preferencial.

Written by Bruno Nogueira 52 Comments Posted in Reportagens Tagged with Amy Winehouse, Cobertura, Janelle Monae, Mayer Howthorne, Recife Summer Fest 17/11/2010 5159872702_f5f48814ca-3922976 Vespas Mandarinas ao vivo no DoSol. Foto de Nicolas Gomes

Alguém gritou “Toca Forgotten!” e “Toca Ludov!”, enquanto um grupo de garotas morria de espernear quando Chucky Hipólito fazia sinal de coração com as mãos. Tem banda que significa uma coisa para o público e outra para o restante dos músicos e demais envolvidos na história. O Vespas Mandarinas é isso. De um lado, a expectativa de ver a próxima grande banda do rock nacional por amigos produtores e integrantes de outros grupos. Do outro, o esquisito resultado do encontro entre alternativo e a mídia de massa. Quem sai ganhando, para o bem dos Vespas Mandarinas, por enquanto, é o público desse segundo perfil.

É normal criar grande expectativa para um grupo como esse. Podem ser novos, mas os integrantes estão nessa tempo suficiente para pular – mesmo que não queiram – algumas etapas do começo de uma banda. É o que justifica eles estarem na programação de mais de um festival antes mesmo de completarem 10 apresentações. Essa pressa pode ser prejudicial. Se, por um lado, o público já sabe cantar todas as músicas como se as ouvissem por mais de uma década, pelo outro, a falta de um disco ainda pesa contra os Vespas. Tudo é legal, mas ainda falta aquele hit que você sai cantando do show.

No show que fizeram no festival DoSol, o placar entre público e bandas da cena só mudou de lado quando entrou Fábio Cascadura no palco, cantando músicas do sempre excelente disco Bogary. Nessa hora a gurizada ficou um pouco perdida no excesso de informação, enquanto a ala mais velha ficava empolgada de ver essa coisa de encontro da cena independente ficar ainda maior. O frontman do Cascadura, por sinal, parece ser uma soma perfeita ao formato dos Vespas. Não apenas por ser dono de uma das melhores vozes de todo esse universo de bandas, mas pelo potencial que tem de fazer um álbum inteiro de hits.

Conversando depois com Thadeu Meneghini (ex-Banzé) e Chuck, eles falaram que a maior vontade do Vespas é se tornar uma banda de participações especiais. Possivelmente, fechando temporadas inteiras de uma turnê sempre acompanhada de um nome conhecido do rock nacional. Assim como a ansiedade de colocar eles logo entre as atrações de outros festivais, essa pode ser uma opção que pode comprometer o ritmo de uma nova banda em conquistar sua marca mais importante, que é a identidade.

Written by Bruno Nogueira 6 Comments Posted in Blog Tagged with Cobertura, Festival DoSol, Vespas Mandarinas 09/11/2010
bdc-dosol-9926120 Black Drawing Chalks ao vivo no festival DoSol. Foto de Rafael Passos

Talvez tenha sido a platéia gigantesca do SWU, ou os quase 80 shows que fizeram esse ano, mas algo fez com que o Black Drawing Chalks mudasse recentemente. Fora do palco continuam as mesmas figuras tímidas e divertidas, mas quando os instrumentos estão plugados, uma transformação toma conta de todo o ambiente. Os 30 minutos em que se apresentaram no festival DoSol não foram suficientes para dar conta do fato que eles são, oficialmente, uma banda que está a parte de tudo que acontece hoje na cena independente. Arriscaria dizer que até acima.

Existe sintonia em absolutamente tudo que acontece no palco. Parece orquestrado, do momento quando o baixista Dênis violenta ferozmente o instrumento incitando delírio puro no público até a disputa quase sanguinária entre as guitarras de Renato e do vocalista Victor Rocha, cada segundo do show é imperdível. “My Favourite Way” agora está de igual para outros hits como “My Radio” e até a nova “Red Love”, que causam comoção igual no público.

Se considerar que é uma banda de origem totalmente fora do eixo (sem trocadilhos!), talvez seja possível arriscar também que nenhuma banda independente no Brasil chegou tão longe cantando em inglês desde o Sepultura. Existir tão bem dentro desse contraste entre um gigantesco SWU e um evento para duas mil pessoas, como foi o DoSol, mostra o tipo de sinergia que a cena independente tem potencial de alcançar nos próximos anos. Se depender do desempenho no palco, da qualidade das músicas e postura da banda, o Black Drawing Chalks pode ser fácil a banda simbolo dessa mudança.

Written by Bruno Nogueira No comments Posted in Blog Tagged with Black Drawing Chalks, Cobertura, Festival DoSol 09/11/2010
auto-dosol-4210916 Autoramas ao vivo no DoSol 2010. Foto de Rafael Passos

São quase 15 anos de Autoramas. Nessa altura do campeonato, seria preciso um assassinato ou alguma tragédia similar para qualquer coisa que eles façam no palco fique abaixo do nível do excelente. Sempre se fala muito sobre como ser uma banda tão boa, experiente e rodada não ajudou os Autoramas a ultrapassar a barreira do universo independente. Mas eu acredito que essa é uma banda que existe para dar razão ao fato que esse é um universo que não precisa ser ultrapassado. Esse show serviu para ilustrar, inclusive, como o meio independente ainda sofre dos mesmos problemas que diz ter superado em comparação a realidade de grandes bandas e gravadoras.

Explico: Os Autoramas não trouxeram o show acústico que andam fazendo para o festival DoSol. “É uma apresentação pensada para teatros”, explicou mais tarde Gabriel Thomaz. O resultado disso foram 30 minutos da mais honesta harmonia entre pop e rock, com o público inteiro na palma da mão. Rever esse show tantas vezes deixou a sensação de que falta um disco novo. “Teletransporte” é de 2007 e ai que está a pegadinha. Ninguém produz tanto quanto eles, não apenas em termo de qualidade, mas de quantidade também. Existem nada menos que 12 – doze! – trabalhos lançados entre splits, CD’s e álbuns internacionais nesses três anos.

O show teve um pouco disso com, por exemplo, músicas de “Brasil na CIEE”, que foi lançado em portugal. Mas mesmo com essa produção extensa, fica a sensação de que apenas um álbum é suficiente para virar a página de uma banda. Reflexões a parte, fica de destaque a opção da produção do evento em por a banda no espaço menor. O aperto e proximidade entre público e banda rendeu o melhor clima de toda a noite. O rock, sempre que acompanhado da claustrofobia do calor e aperto, atinge sua potencia máxima. E Autoramas na potencia máxima é sinal de noite histórica.

Written by Bruno Nogueira 2 Comments Posted in Blog Tagged with Autoramas, Cobertura, Festival DoSol 08/11/2010
cog-dosol-9012013 Camarones ao vivo no festival DoSol 2010. Foto de Rafael Passos

É fácil duvidar do potencial do Camarones Orquestra Guitarrística. Bom vendedor que é, o produtor potiguar e tecladista da banda Anderson Foca sempre fala de sua mais nova banda com tanta empolgação que deixa qualquer um com pé atrás. Chega uma hora que você cede ao pensamento “esse cara fala tanto que deve ter algo errado aí”. Isso, claro, para quem só escuta falar. Depois do intensivo que essa ano tem sido para a banda – estão chegando no show de número 60 em breve – quem fala hoje sobre o Camarones é a própria banda, ao vivo, no palco. Jogaram em casa e fizeram um dos melhores shows do festival DoSol 2010.

É impressionante o quanto a banda se transformou em apenas um ano. Se comparado com a apresentação que eles fizeram em abril – na programação paralela do Abril Pro Rock, última que vi – com essa, o avanço é assustador. Ganharam mais presença no palco e o impacto da parede sonora se tornou uma característica marcante do show. É possível dizer que, após os tropeços causados por vários fins inesperados e mudanças em bandas (e um certo afastamento do Calistoga para se aproximar a uma cena própria deles, dos vegan), Natal passa a ser muito bem representada mais uma vez na cena independente.

Tenho, inclusive, a impressão que o Camarones vai conseguir criar uma categoria nova de rock instrumental dentro dessa cena. Uma que é diferente da feita pelo Pata de Elefante e do Macaco Bong, que se aproxima “de leve” com que está começando a ser feito pelos baianos do Vendo 147. Não vou me aventurar em criar neologismos ou reinventar definições nessa altura do campeonato, mas me limitar a dizer a que, do começo ao fim, não tem uma música ruim em todo show. Comandar um público sem usar palavras não é tarefa fácil e quando levanta a bola, o Camarones só manda saques certeiros por trinta minutos sem interrupção. Daqueles que você segura até vontade de ir ao banheiro para ver o que acontece até o final.

Written by Bruno Nogueira 6 Comments Posted in Blog Tagged with Camarones Orquestra Guitarristica, Cobertura, Festival DoSol eu-8002226 Jornalista, professor, pesquisador e pai. Música, mídia, redes sociais… e boa gastronomia! 🙂

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