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02/05/2011 apr20111-8273646 Vista do backstage no Abril Pro Rock. Foto de Rafael Passos

Durante todos os anos que trabalhei como jornalista, sempre escrevendo sobre cultura e principalmente música, me incomodou um fato: o silêncio constante que envolve o universo dos festivais de música. Eu acreditava que em 2011 eu completaria uma espécie de transição completa. Deixaria de ser jornalista, de estar do lado da pergunta, para virar produtor e ficar do lado da resposta. Mas isso não aconteceu. As coisas não são tão preto e branco assim e me descobri nessa região cinza que tanto critiquei no passado de pessoa envolvida em várias etapas do processo da música. E perceber isso me deixou bem mais a vontade para falar (e não encerrar de vez esse blog).

Após essa maratona de um mês inteiro de shows do Abril Pro Rock, preciso fazer justiça aqui e explicar que esse silêncio que existe e que me incomodava tem um só motivo: DÁ UMA BAITA CANSEIRA fazer um troço desses. Comecei no APR em 2008 como curador do festival, já naquele próprio ano me arriscando em uma ou outra colaboração com os bastidores. Quatro anos depois, fiz de quase tudo que tem para se fazer no evento. De negociação de cachês a captação de patrocínio, assessoria de imprensa e até um pouquinho de montagem e direção de palco. Mandando banda correr para sair, outra correr para entrar, mudar luz, cenário, entrar vinheta e… de lá sair correndo para ajudar um gringo quase morrendo de ensolação no calor desgraçado do Nordeste.

A produção de um evento como o Abril Pro Rock começa sempre no público. São 19 anos de festival e por isso existem histórias, lendas e construções simbólicas de quem espera muito da programação. Antes de acontecer uma edição, já começam a falar das atrações do ano seguinte no Orkut. A maioria artistas que, sozinhos, custam mais caro que o festival inteiro. Outros que não tem nada a ver mesmo mas fazem parte daquela ansiedade que só quem é fã entende como funciona. Isso é culpa daquele tal silêncio. Ninguém sabe quanto custam as coisas, como as bandas circulam, como funciona o processo.

Um festival como o Abril Pro Rock custa em média uns R$ 800 mil. Isso é mais barato que o cachê do Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Foo Fighters, Queens of the Stone Age ou qualquer outra banda desse porte que você consiga imaginar. O festival destina mais de 50% de seus recursos nas mais de 30 bandas que tocam nele. É a soma dos cachês, passagens aéreas, alimentação dos artistas, hospedagens, fora os extras como exigências de camarim e até excesso de bagagem. Tem artista que o excesso de bagagem custa mais que o cachê. Uma banda que ganha um cachê de R$ 5 mil custa mais que o dobro disso ao evento no passar da régua.

Por isso montar a programação é como montar um castelo de cartas. Encaixa com cuidado aqui, retira com carinho dali e qualquer suspiro maior desaba tudo. Dos planos A, B e C do evento, nenhum de fato se concretizou, mas sim uma soma das três possibilidades. De banda que desiste de viajar depois de acertar todos os detalhes financeiros, como o Mastodon, a turnês que mudam tanto de datas que chegam a não acontecer mais, como Devendra Branhart. E isso é o que vai desenhando o restante das atrações, sempre tentando casar com o que tem de principal já fechado.

apr2011-2-1769463 Vista do público. Foto de Rafael Passos

Enquanto a gente começa a ter uma idéia do que vamos conseguir por na programação, vamos correndo paralelamente atrás de dinheiro para fazer tudo acontecer. Esse ano o festival teve patrocínio da Petrobras, que cobre cerca de 35% do custo total do evento. E, mesmo parecendo pouco, é na verdade um dos maiores apoios que um evento consegue hoje em dia. Todo o restante vem abaixo disso. Essa é uma parte da magia toda da coisa que ainda passa longe de minha compreensão. Muita coisa se faz de boca a boca e muda no caminho. Alteram valores, apoios, etc. Sempre existem vários atravessadores no processo e conseguir um contato direto na fonte do patrocínio parece ser algo extremamente valioso e raro.

Em produção dificilmente o conjunto inteiro do que está acontecendo joga no mesmo time. Existe ameaça constante de patrocínio cair, de banda desistir da programação, de fornecedor cancelar o serviço. A tensão aumenta enquanto se aproxima o festival a um ponto que, mesmo após anunciada a programação completa, sempre se convive com a sensação que tudo vai mudar. Esse ano, por exemplo, o local do evento mudou após termos divulgado que seria no Centro de Convenções. Tudo parte desse vai e vem de interesses que falei agora. E é nesse momento que começam a surgir matérias, entrevistas, perguntas do público e mais ansiedade por mais detalhes do festival.

Nunca curto me repetir, mas faço questão dessa vez: dá uma baita canseira. Passei cinco dias seguidos sem ver minha filha quando chegou a semana do evento. E isso porque todo o restante da equipe não dividiu a produção com outro emprego, então passaram ainda mais tempo imersos no local do festival, até que ele encerrasse, sem ver a vida lá fora. No final, valeu bastante a pena. Fiquei extremamente satisfeito e feliz com o resultado do Abril, que deve ser um dos melhores festivais independentes a acontecer esse ano. Como saiu nos jornais, o evento “recuperou o fôlego”. Mas a minha metáfora favorita foi de que demos um passo atrás ano passado, para avançar três passos nesses. E bola para frente. Que venha o Abril Pro Rock 20 anos em 2012!

Written by Bruno Nogueira 17 Comments Posted in Blog Tagged with Abril pro Rock, produção 24/08/2010 sobule-4227079 Os fãs de Jill Sobule pagaram pela gravação do disco dela

Artigo publicado na Revista Continente. Edição 115 (julho/2010)

Existe uma chance muito grande de você nunca ter ouvido falar em Jill Sobule. Cantora e compositora que nasceu em Colorado, como muitos outros que tentaram a sorte com a música e chegaram “quase lá”, Jill é o que a indústria da música chama de “one-hit-wonder”. Ela só conseguiu ter uma música, lá no distante 1995, nas paradas de sucesso e nas rádios, impulsionada pela trilha sonora do filme “As Patricinhas de Beverly Hills”. Depois disso, foi recusada por duas gravadoras e chegou a assinar com outras duas que abriram falência logo depois. Mas um sucesso foi suficiente para ela.

O que Jill percebeu é que aquela única canção, “I Kissed a Girl”, fez com que ela conquistasse uma mina de ouro que poucos artistas conseguem dar a devida atenção. Uma base sólida de fãs. Quase 15 anos depois de tentar o modelo antigo para sobreviver de música, a cantora lançou o site “Jills Next Record” e convidou o público a patrocinar seu próximo álbum. A meta era conseguir US$ 75 mil para todo o processo que incluia contratar o produtor com quem ela mais queria trabalhar em estúdio. Mesmo com pouca fama, Jill conseguiu o dinheiro em menos de dois meses. 54 dias para ser exato.

O plano de Jill poderia parecer um absurdo para muitos que esbarrassem por acaso em seu site. Para atingir a meta proposta, a cantora ofereceu vários pacotes de patrocínio que variavam de US$ 10 (onde o doador ganhava uma cópia digital do mesmo) e US$ 50 (ganhe o CD semanas antes de todo mundo com um “obrigado” personalizado no encarte) a valores como US$ 1 mil, onde você ganha uma música tema personalizada, para pôr na sua secretária eletrônica, por exemplo; e US$ 5 mil, onde ela viajaria até sua casa e faria um show particular.

A cantora chegou a, por pura brincadeira, criar um selo único de patrocínio no valor de US$ 10 mil. Nele, o comprador poderia cantar uma faixa no disco. Para a surpresa de Jill, uma fã no Reino Unido comprou esse selo, viajou até Los Angeles e agora a voz dela está lá no álbum “California Years”. O disco recebeu resenha positivas em todas as revistas especializadas, com direito a Rolling Stone americana tratar o retorno dela como uma artista mais sábia e com grande potencial pop. O modelo usado por Jill Sobule, chamado de crowdfunding, começa a se desenhar como uma das novas tendências quando se trata de produção cultural.

A ideia de uma economia de colaboração não é exatamente nova. O sociólogo americano Peter Kollock a desenvolve desde o começo da década de 90. Alguns dos princípios que ele trata falam de presentes e bens públicos no ciberespaço para que exista uma cooperação online. Valores fundamentados em “reciprocidade, prestígio, incentivo social e incentivo moral”. Isso explicaria, entre outras coisas, por que alguém distribuiria de graça algo que custou de dinheiro. Mas também diz muito sobre a nova participação do público no processo editorial.

Esse desvirtuamento do processo das cadeias produtivas mostra que, se o público não está interessado em ficar apenas aguardando pelo consumo, ele talvez se interesse em participar também das várias etapas de produção. Jill Sobule assinou o nome de quem patrocinou seu disco como “produtores executivos”, e isso faz parte da relação de prestígio na economia da colaboração, que é proposta pelo professor norte-americano Howard Rheingold.

“É a preocupação que a contribuição de um indíviduo cresça ao ponto que seja visível por toda a comunidade”, explica o professor. “Como consequência, cada uma das características que encorajam reciprocidade – interação, persistência, conhecimento de causa e forte ligação na comunidade – também funcionam para promover a criação de reputações em uma comunidade”, completa Kollock em seu ensaio. O processo todo se torna um novo ciclo. O público contribui para ser notado e, ao ser notado, promove um consumo maior na comunidade onde está inserido.

Foi o que percebeu o jornal The New York Times. O periódico é conhecido por promover o que chama de “fundo para os casos de maior necessidade”. São matérias especiais, sobre casos específicos de pessoas com problemas de saúde e desemprego, que ao ser públicadas podem receber doações dos leitores. O jornal faz a parte burocrática de repassar para instituições ou indivíduos relacionados ao assunto e publicar os nomes e histórias das pessoas que ajudaram. A iniciativa fez que os editores experimentassem um passo adiante na colaboração.

Usando o site Spot.Us, o jornal conseguiu reunir US$ 6 mil dólares de cerca de 100 leitores interessados em uma matéria sobre o tapete de lixo formado no Oceano Pacífico. Entre os doadores estavam Craig Newmark, fundador da Craiglist, e Jimmy Wales, co-fundador da Wikipedia. O dinheiro permitiu que uma repórter embarcasse em uma viagem junto a um navio que iria inicialmente estudar o impacto que o lixo estava causando na fauna. Vários sites, além do Spot.Us, se dedicam hoje a promover o crowdfunding, ou o financiamento pelos fãs, como o Creat a Fund, Cat Walk Genius (voltado para moda) e Sell a Band.

Este último foi o que permitiu que a banda americana We Are The City lançasse o primeiro disco. Um trio recém saído de uma escola no município de Kelowa teve duas opções quando decidiu sair do amadorismo: pedir um emprestimo ao banco ou fazer um pedido aos fãs. Os fãs foram mais rápidos e menos burocráticos, conseguindo os US$ 3.500 pedidos pela banda, que retribuiu a arrecadação fazendo vídeos para cada uma das pessoas que contribuiu e os publicando no site YouTube.

Apesar dos casos de sucesso, o Crowdfunding está longe de ser uma solução para a indústria. O cineasta Kevin Smith dedicou uma grande parcela de tempo esperando doações de fãs para seu filme “Red State”, uma paródia de terror sobre a igreja batista homofobica dos Estados Unidos. Após ver que sua arrecadação estava longe do necessário, decidiu avisar aos seus quase 2 milhões de seguidores no twitter que “o único dinheiro que vou precisar dos fãs agora será nas bilheterias”, oficializando que seu projeto sairia da independência – uma das marcas autorais de Smith – e seria entregue para uma produtora de Hollywood.

O mesmo aconteceu com a banda de rap Public Enemy. Inspirados pelos casos de financiamentos pelos fãs, decidiram entregar ao público a conta do próximo disco, que nunca chegou a ser a paga. O pedido deles também não foi modesto. Queriam US$ 250 mil para produzir um disco e, em abril deste ano, divulgaram que tentariam fazer um com US$ 75 mil (coincidência ou não, o mesmo valor da cantora Jill Sobule).

Apesar de alguns desses exemplos já estarem completando a primeira década, o crowdfunding ainda não tem nenhum grande caso brasileiro. Em parte porque o novo artista brasileiro ainda encontra uma grande barreira no tato com o próprio público e, no caso das empresas de mídia, porque diferente do que acontece em países de primeiro mundo, muitos jornais aqui sobrevivem de patrocínio público. Mesmo a política não se motivou com o recente caso da campanha de Barack Obama para presidente, que teve parte do financiamento angariado pelo público, através da internet.

Written by Bruno Nogueira 23 Comments Posted in Blog Tagged with Continente, crowdfounding, produção 15/06/2009

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Com o Porto Musical começando nesta quarta-feira, o texto que Derek Silvers publicou recentemente em seu site parece providencial. Para quem não o conhece, Derek é o fundador da CDBaby, um dos cases de maior sucesso no mercado independente dos Estados Unidos. Ele faz discos sob-demanda para bandas e, aos poucos, foi crescendo uma estatística interessante de que quem está vendendo pouco são as grandes gravadoras. Em seus 15 anos de trabalho, ele já esteve em diversas conferências similares ao Porto, como a Womex e SWSW e escreveu esse guia abaixo, que ele chamou de “O TAO da promoção: é tudo sobre eles e não sobre você“.

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Written by Bruno Nogueira 3 Comments Posted in Blog Tagged with conferencia, Porto Musical, produção 08/06/2009

Poucas bandas sabem usar o Twitter como uma ferramenta para se comunicar com os fãs. A maioria incorpora o espírito geral da rede social e publica 140 caracteres de informação que é, na maior parte das vezes, entediante para quem não está convivendo com eles. Dando uma conferida rápida percebe-se que boa parte do conteúdo é de promessas sem sentido. “Queremos gravar”, “Queremos tocar”, “Estamos planejando”, etc.

Deveria ser óbvio que a ferramenta é focada no agora. “Estamos no meio da gravação”, “Vamos tocar esse fim de semana em sua cidade” e sentenças do tipo deveria ser mais comum – e, com isso, resta a provocação de que a banda precisa estar sempre produzindo e circulando, para não cair no esquecimento – e, claro, a criação de dialogos. Alguém te deu uma arroba? Mande a arroba de volta. Esse é um dos segredos no Twitter do Marcelo Camelo, para citar um exemplo. Ele responde todo mundo que fale qualquer coisa com ele. E ai fica aquela sensação de estar mais próximo de um ídolo.

Duas ferramantas ajudam a manter essa atualização mais interessante. O primeiro é o FileTwt, que permite o envio de arquivos de até 20mb, gerando um link direto para postagem no microblog. Com isso é possível enviar músicas – ou trechos de músicas, quem sabe, no meio de um ensaio? – sem a burocracia de serviços como o rapidshare. O segundo, ainda mais focado, é o SongTwit, que gera automáticamente um player do iMeem, quando um arquivo de audio é enviado. Isso pode ser feito de três formas: escolhendo uma música na biblioteca do site, direcionando para o endereço onde existe o arquivo ou enviando o próprio arquivo de audio.

Written by Bruno Nogueira 17 Comments Posted in Blog Tagged with MP3, produção, Twitter 01/05/2009

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Leo Salazar, produtor do Recife que já trabalhou com as bandas Eddie, Mula Manca e a Triste (e depois Fabulosa) Figura e Devotos, entre outras, terminou recentemente sua especialização em gestão de negócios. E, claro, focou seu trabalho final na área da música. Além das bandas, ele já fez parte da equipe de produção de vários festivais – e até já me expulsou de camarim de banda durante um Festival de Inverno, quando eu tava lá dentro roubando cerveja 😛 – por isso, juntou a experiência dessas duas esferas de produção com o material teórico do curso.

O resultado é Música Ltda, que ele agora disponibiliza para download. O trabalho trata o negócio da música a partir do ponto de vista de que a banda pode se comportar como uma pequena empresa. Não por acaso, um modelo que tem funcionado com todos os principais nomes do cenário independente hoje – o Móveis Coloniais de Acaju, o Macaco Bong e até o Lucy and the Popsonics. Eu comecei a ler já e to achando bem interessante.

O índice é gigantesco, por isso não faria muito sentido colar aqui. Mas o trabalho dele se divide nos capítulos 1- O Negócio da música, 2- Empreendedorismo, 3- Finanças, 4- Marketing e, no final, apresenta um Plano de Negócio. É leitura fundamental para quem tem banda ou quer trabalhar com música. O link para download segue logo abaixo:

Música Ltda – O negócio da música para empreendedores – 744.01 KB
Downloads: 4269

Written by Bruno Nogueira 16 Comments Posted in Blog Tagged with Download, livro, produção, Produção Fonográfica eu-8772694 Jornalista, professor, pesquisador e pai. Música, mídia, redes sociais… e boa gastronomia! 🙂

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