Que fim levou a crítica? | Pop up!

opiniao_do_caetano-arnaldo_branco-9967575 Arnaldo Branco, gênio como sempre

Alguém mais percebeu que a crítica de música praticamente sumiu dos periódicos regulares (revistas e jornais) no último ano? Comecei a perceber isso com maior frequência nos jornais pernambucanos, por ser os que tenho acesso mais fácil. Em um ano em que se celebrou o lançamento de 170 discos no estado, nenhum deles fez parte de qualquer esforço retórico, seja para o bem ou para o mal. Com o tempo, e como mostraram alguns amigos, me dei conta que a tendência não é apenas local.

No lugar da crítica entrou o serviço e a entrevista. Fulano lançou disco – ou como alguns jornais teimam em publicar, “o disco de Fulano chegou nas lojas” (lojas?) – e ele tem tantas faixas, tantos minutos, tais participações especiais… e aqui está Fulano para falar de tudo isso. Com uma série de perguntas que buscam reforçar uma única idéia: foi lançado um produto, ele é de tal forma, boa tarde para você. Em uma matéria esquisita o Diario de Pernambuco se eximiu totalmente do exercício crítico indo perguntar aos artistas locais o que eles tinham achado dos discos dos amigos. Tipo matéria de TV, onde o mais legal é você tal artista falando, do que o conteúdo de fato do que está sendo dito.

Esse é um cenário muito ruim. Entre as diversas funções importantes da crítica, está aquela de criar uma comunidade de conhecimento, dialogando a partir de códigos que conectam artista e público (FRITH, 1996) e o de reforçar a identidade cultural de uma comunidade (MARQUES DE MELO, 2003). Como todo exercício retórico, cria estímulos, proporciona conversas e reações do público (BRAGA, 2006), faz a cultura circular ainda mais. Somo ainda a minha defesa que a crítica se transformou em um produto de consumo de igual valor que os produtos que avalia. Se lê crítica para fomentar o debate com maior frequência hoje do que para promover o consumo dos próprios produtos.

E nem vou entrar no mérito de Michel Teló ou outras controvérsias mais óbvias. No caso de Pernambuco, entre alguns dos principais desses 170 discos lançados, alguns definitivamente mereciam avaliação. Como As Novas Lendas da Etnia Toshi Baba, do Mundo Livre, que se dividiu entre regravações de canções não lançadas e das poucas inéditas, algumas com discurso cansado e datado daquela época do copyright. Ou mesmo como Fernando Catatau se estabeleceu como imagem do produtor nordestino e, mais ainda, definiu o timbre da região e copiou e colou ele em vários desses discos.

Considerando ainda a oportunidade que alguns discos, principalmente Moto Contínuo e Bandarra, respectivamente de China e Tibério Azul, trazem uma oportunidade de mapear um novo imaginário pop jovem do estado. Como existe uma abertura estética – aqui em seu sentido mais amplo – para redefinir um Pernambuco musical. Como os Elefantes da Rua Nova de Caçapa rompe com a construção instrumental que se transformou em convencional e parece abrir todo uma nova perspectiva para o gênero.

Enfim. Convivi um período com jornalistas da cidade que declaradamente optaram por não falar mal – para evitar contratempos – do que era lançado em qualquer período. Hoje, se evita também falar bem. Talvez essa seja uma etapa necessária para a formação de uma nova crítica. A falência de conteúdos tradicionais como porta de entrada para novas maneiras de fazer esse esforço retórico. Eu consigo enxergar com clareza crítica nas comunidades no facebook e, de um certo modo, até no Twitter. Como isso vai se legitimar, entretanto, é algo que só o tempo pode responder.

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