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03/06/2010
joaom-7533274 João Marcelo, da Trama: “Tivemos sucesso com o Álbum Virtual”. Foto de Rogério Alonso

Gravar, reproduzir e distribuir: o problema que as gravadoras e editoras conseguiam resolver até metade da década de 90, já deixou de ser um problema. Enquanto uma considerável parcela dos artistas brasileiros ainda estão atrás de subsídios para dar conta dessa primeira etapa do processo, a gravadora Trama comemora dois anos de um formato diferente, que aposta exatamente no patrocínio pelo consumo. O Álbum Virtual, como é chamado, tem o slogan “de graça para você, remunerado para o artista”.

Sócio fundador e atual presidente da gravadora, João Marcelo Boscolli tem sempre cuidado de responder, ao longo da entrevista, “nada contra patrocínio público”. “Fácil não é”, avalia João, que vem de uma linhagem de músicos que desenha a própria música popular brasileira – seus pais, Ronaldo Boscolli e Elis Regina, dispensam apresentações assim como a irmã, Maria Rita – “mas se você considerar que [em um ano] o mercado lançou declarados 64 álbuns, nos estamos lançando 14”.

É um modelo que está bem longe de ser inédito, como admite o próprio Boscolli. “Nada mudou desde 1928, data de lançamento do primeiro programa de jazz apresentado coast to coast nos Estados Unidos, que era patrocinado pela Nabisco”, lembra o músico. “As pessoas ouviram de graça, patrocinados por uma marca, que olham sempre audiência e envolvimento emocional das pessoas com música”. Com essa proposta, a Trama já conseguiu aproximar empresas como Volkswagen, Audi e Brandili. A última, no ramo de tecelagem, aproveitou o patrocínio para lançar uma linha de camisas de artistas novos, a Xtreme Days.

A mecânica do Álbum Virtual começou com um sistema que a gravadora lançou no site Trama Virtual chamado de “Download Remunerado”. Nele, qualquer artista que se cadastrar no site pode participar de um esquema parecido com os royalties. Supondo que o valor reunido dos patrocínios cheguem a R$ 10 mil em um mês que o site registre 100 mil downloads, cada artista receberia R$ 0,10 por download. Parece pouco a princípio, mas através de campanhas e marketing direcionado, bandas como o Dance of Days (SP), já chegou a faturar R$ 2 mil por mês no site.

“É uma das propostas mais interessantes entre as formas de se distribuir música”, comenta o produtor Fabrício Ofuji, da banda Móveis Coloniais de Acaju, que teve o disco “C_mpl_et_” lançado no formato. “Desde 2003 que o Móveis disponibiliza MP3 grauita no site, então a parceria com a Trama foi algo natural para nós”. A banda bancou uma parte da gravação do disco, que teve produção de Carlos Eduardo Miranda.

“Hoje, com mais de 500 mil músicas baixadas, acho que tivemos êxito com o Álbum Virtual”, completa o produtor, lembrando que o disco ainda foi lançado em formato físico depois. A banda usou o patrocínio para financiar versões diferenciadas do disco, como um formato digipack, que é vendido nas lojas e shows. “Acho importante essa flexibilidade”, comenta Ofuji, “é um projeto da Trama, mas pode ser usado como plataforma por outros artistas, como foi com o Macaco Bong e o Autoramas”.

“Mas é tudo muito específico de um nicho”, explica o analista de mídias sociais Luiz Rangel. “Apesar de ser um modelo com resultados positivos, seria difícil ter esses números com artistas que tem pouca relação com a internet, como um medalhão da MPB ou um forrozeiro pé-de-serra”, comenta. Rangel lembra o fato de que um grupo como o Dance of Days, e o emocore, gênero que está inserido, nasceu e existe basicamente na internet.

O Álbum Virtual opera nesse espaço, trabalhando imagens de artistas com imagens de marcas maiores. Entre os lançamentos, além de bandas que estão em sintônia com a web, como Cansei de Ser Sexy e Móveis Coloniais de Acaju, estão artistas como Ed Motta e Tom Zé. “Outros selos e gravadoras, como a Warner, estão nos apoiando e em breve iniciaremos outros lançamentos”, defende Boscolli, com a promessa de que “serão centenas”.

Em termos práticos, comparado com um programa de patrocínio como o da Petrobras, que ano passado destinou R$ 1,3 milhões para gravação de discos, os valores trabalhados pelo projeto da Trama não são tão diferente. “Temos no nosso plano operacional a meta de faturar R$ 900 mil até o final do ano”, revela Bôscolli. A ação, apesar de operar em fase de testes por dois anos, só entra em atividade comercial de fato a partir de agora, após a abertura do modelo ao público.

“Ser de nicho não é exatamente uma crítica”, complementa o analista Luiz Rangel. “O que aconteceu aqui é que uma gravadora entendeu como seu público específico funciona e encontrou uma maneira de trabalhar com ele”, complementa, com a provocação de que “o modelo pode não funcionar para outras gravadoras, mas caba a cada uma delas pensar em seu formato”.

Written by Bruno Nogueira 6 Comments Posted in Reportagens Tagged with Álbum Virtual, Trama 03/06/2010
pata-4541420 Pata de Elefante. Foto de Danilo Christids

O Pata de Elefante nunca teve suas referências rurais realmente declaradas. Mas não apenas o nome, mas nas fotos de divulgação e o clima de faroeste spaguetti sempre falaram pelas músicas instrumentais do trio gaúcho. “Na Cidade”, disco que marca a saída deles da Monstro Discos para a Trama, mirando público e ambições maiores, faz esse trabalho de transição para o ambiente urbano. Sem fugir do que fez a banda tão atraente: música sem palavras para – isso mesmo – cantar.

“Na Cidade” explica, sem usar palavras, algo que era muito fácil de sentir ao assistir o Pata de Elefante se apresentar ao vivo. E é o fato de que essa é, hoje, uma das melhores bandas instrumentais do país. A mistura de rock com surf music e folk, com usos criativos de Wah Wah’s – pedal que não muda a nota, enquanto muda ela entre grave e agudo, fazendo um som que soa igual ao nome do instrumento – e teclado. O Pata não caiu no clichê do sortuno ao usar o tema cidade e fez um de seus discos com clima mais para cima.

“Grandona”, terceira faixa, mostra como eles conseguem ser instrumental e pop de uma forma que muitas bandas próximas, como o Macaco Bong, ainda encontram dificuldades. O Pata de Elefante é sempre mais sobre diversão que masturbação guitarrística para cansar o ouvido. “Pesadelo nos Bambus”, quinta na sequência, é o momento urbano local, com a faixa batizada a partir de um dos inferninhos mais clássicos de Porto Alegre. A mixagem final do disco, feito no lendário estúdio Abbey Road, deixou que as músicas ficassem encorpadas como costumam soar ao vivo.

Apesar de ter notadamente mais referências – o disco todo poderia passar como uma trilha sonora de filme, com cada faixa traduzindo um momento de tensão diferente – o clima rock da banda está em “Sai da Frente”, música que já podia ser conferida nas apresentações do grupo. Na verdade, todo o repertório de “Na Cidade” pode ser identificado por quem acompanha o Pata de Elefante com afinco. Para não perder a oportunidade do convite da Trama, o que a banda fez foi reaproveitar uma parte de seu acervo ainda não registrado.

Talvez uma audição mais acelerada e preguiçosa possa encontrar um disco que tem variações demais de clima em cada música. Mas o divertido dos últimos lançamentos da banda é perceber como eles trabalham bem o conceito de álbum. Sem palavras, “Na Cidade” consegue contar várias histórias. E, sem letras, a gente acaba reproduzindo o som delas, “cantando”, enquanto escuta.

Pata de Elefante – Na Cidade
Gravadora: Trama
Para baixar: Álbum Virtual
Para ouvir: Grandona

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Written by Bruno Nogueira 3 Comments Posted in Discos Tagged with Álbum Virtual, pata-de-elefante, Trama 19/05/2009

Em um mercado profetizado que a grande renda do artista seriam os shows, a maior crítica que era feita aos Móveis Coloniais de Acaju é de que o grupo brasiliense não era uma banda de discos. O incomodo crescia na medida que eles traziam para o mercado independente o conceito de espetáculo, enquanto a maioria das bandas tocava como se estivessem trancados em um estúdio. Ou pior, como se nem suas próprias canções os empolgassem. Entre os pessimistas, aquela orquestra de sopros podia sair correndo de uma ponta a outra do palco quanto quisesse, que o público se lembraria apenas do alvoroço, mas não das músicas.

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O primeiro significado por trás do nome do segundo disco deles, lançado no formato Álbum Virtual da Trama, com produção de Carlos Eduardo Miranda, é o de encontrar essa outra metade. “C_mpl_te“. Todas as oportunidades que a banda teve de se pronunciar a respeito, aproveitou para reforçar que seria um álbum de canções, pensado para ouvir em casa. Para garantir, chegaram a lançar uma versão ao vivo de cada faixa, algumas até com andamento diferente e mais acelerado. No final das 12 músicas essa angustia deles pelo formato canção é totalmente sanado.

C_mple_te não reinventa a roda sob nenhum aspecto. É um álbum pop que tem como tema central o amor, composto e produzido seguindo regras bem perceptíveis. Soa, acima de tudo, como um disco de trilhas sonoras. Da mais lenta “Adeus” até aquelas que parecem feitas apenas para os shows, como “Sem Palavras“, a imagem de reencontros e desencontros apaixonados parecem completar essa experiência do móveis com o ouvinte-indivíduo. Com a parede de sopros mais baixa e a voz de André Gonzales valorizada, a banda constrói diálogos na forma de canção. Quase como se estivesse perguntando ao fim de cada faixa se você não concorda com o que acabou de ser dito.

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É um repertório que já garante a eles, fácil, pelo menos uma das três primeiras posições entre os melhores discos lançados este ano, mesmo sabendo a quantidade da novidades programadas para o segundo semestre. A sequência de hits “Lista de Casamento” / “O Tempo” / “Cão-Guia“, descarrega energia bruta e traz uma maturidade sonora até então nunca experimentada nesse contexto dos festivais onde o Móveis nasceu. Elas trazem o resumo de tudo que aconteceu e são as que dão mais segurança para arriscar essa futurologia. Dá para ouvir e vislumbrar que o naipe de metais parou de correr, mas a fanfarra continuou.

O Móveis encontra o equilibro entre esses dois mundos, o gravado e ao vivo, sem medo de usar efeitos e recursos que delimitam o disco como uma experiência totalmente própria e a parte. “Café com Leite” e “Para manter ou mudar” são dois desses “momentos fone de ouvido” que podem causar estranhamento aos antigos fãs. No entando, “C_mpl_te” não é sobre encontrar aquela mesma banda que é vista no palco, mas sim um produto derivado daquela apresentação. Encontrar um novo ponto de vista sobre uma banda que tem uma identidade tão forte está entre os grandes prazeres desse disco.

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Mas talvez a maior contribuição desse trabalho sejam as provas que ele dá que o formato álbum não se esgotou. O Móveis não conseguiria existir em termos de audição individualizada apenas com um ou dois singles. Toda a obra se completa e, com pouco de otimismo, ao fazer isso dá direções para onde deve rumar a música popular brasileira em termos de longo prazo. Dá para baixar de graça no site da Trama, mas esse é para aguardar um pouco mais e comprar.

Written by Bruno Nogueira 11 Comments Posted in Discos Tagged with Complete, Moveis Coloniais de Acaju, Trama 29/04/2009

Essa eu deixei passar batido, totalmente, com a correria que foi o começo de Abril. A Nuda, depois de mais algumas turnês pelo centro-oeste e sudeste, também passou por São Paulo e foram parar no estúdio da Trama. Eles participaram do quadro “10 horas no estúdio” no programa Radiola. O resultado foi a inédita Maruimstad. Mais acelerada que o normal da banda e brincando ainda mais com os timbres agudos. Vicia num instante.

Com a música, a Nuda avança umas cinco casas no tabuleiro em busca do que seria a estética do indie rock brasileiro. Uma mistura do que vem lá de fora com algo criado aqui dentro. Enfase no “criado”, porque vale lembrar que eles não estão no clichê de “jogar outros gêneros no caldeirão”, mas sim trazendo algo que consegue passar fácil por novo e curioso. Quem curtiu, pode também baixar a faixa.

Nuda – Maruimstad – 4.66 MB
Downloads: 407

Written by Bruno Nogueira 5 Comments Posted in Blog Tagged with Nuda, Trama 14/07/2008

Já tem um bom tempo que quero falar da Duffy.

Antes, a grande notícia por trás desse disco: o catalogo da Rough Trade no Brasil, que havia se perdido na mão da Trama, agora está com a Universal. Talvez isso não faça diferença para eu e você, que baixamos música por ai, mas ainda somos minoria. E numa gravadora decente, as músicas tem mais chance de circular em rádios e TVs. O que me lembra: preciso fazer um post aqui sobre rádios.

De volta a ela. O Times não precisava ter juntado Duffy e Adele no mesmo saco apenas para dizer que elas seriam as próximas Amy’s. Basta ouvir cinco segundos de “Rockferry”, faixa que abre a batiza o disco de estréia da loirinha gaulesa. Antes mesmo do primeiro sinal de sua voz, acordes e toda informação anterior a isso – encarte, fotos, letras – já são recheadas de um tom fundo do poço que soa bastante recente para muitos. Quando sua entonação anasalada entra, fica impossível não ceder a comparação.

Mas ao mesmo tempo que ela se enquadra nesse caso da diva-auto-destrutiva-enquanto-gênero, Duffy coloca em cheque questões mais profundas de autenticidade. Dá pra curtir uma fossa ouvindo essas músicas. Dá mesmo, sem problemas. “I’m moving to Rockferry tomorrow / And i’ll build my house, baby, with Sorrow”. Assim como Amy, as duas evidenciam uma questão pouco cantada pelo soul, de que não existe fila de espera para o fundo do poço. Amy tem 25, Duffy 24 anos de idade.

A diferença é que a pose de uma está em fugir da re-habilitação, enquanto Duffy deseja a superação. “You got me begging for mercy / why won’t you release me?”. É ai que entra a questão: arrumar encrenca, ficar subnutrida e afundar em drogas virou a música de Amy Winehouse. As pessoas esperam muito mais essa performance de “eu preciso urgentemente de uma rehab”, que os versos, que agora não funcionam com uma cantora que esteja indo apenas ok no cotidiano.

E é por isso que Duffy não é uma próxima Amy. Ela é potencialmente mais, se esse público estiver interessado em ouvir mais música e menos colunismo sensacionalista. E ela canta isso, mesmo sem perceber, nas entrelinhas de versos como “I will never be your stepping stone / I’m standing upright on my own”. A música de Duffy dá brechas para essas interpretações, sem apontar para nenhuma certeza se ela está afundando ainda mais ou escalando até o topo.

“Rockferry” está longe de ser uma estréia. Funciona assim apenas no sentido convencional de que as pessoas ainda precisam de um álbum completo para legitimar um artista. Antes disso, Duffy esteve na edição deste ano do South by Southwest e no palco do Coachella. Seu primeiro hit “Mercy” – que é pista pura, anotem essa – já apareceu em trilhas de Grey’s Anatomy, ER e do filme Sex and the City (essa referência você não precisa anotar).

Sua embalagem mais pop faz que ela soe em certos momentos como uma KT Tunstall com maldade. O que tira um pouco do ótimo que esse disco mereceria. O excesso de açúcar certas horas tiram o potencial que Duffy teria de ser uma artista mais comentada. Ou talvez isso seja apenas ingenuidade minha em achar que existe parte relevante do público que está atrás de música e não de colunismo. Para não encerrar me repetindo, fica ainda o fato do ótimo gosto de Duffy. Aqui tem ela fazendo um cover do Ready to the Floor do Hot Chip:

Duffy – Ready to the Floor

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Written by Bruno Nogueira 5 Comments Posted in Discos Tagged with Cover, Duffy, hot-chip, Ready to the Floor, Rockferry, rough-trade, Trama, Universal eu-1284188 Jornalista, professor, pesquisador e pai. Música, mídia, redes sociais… e boa gastronomia! 🙂

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