Cobertura: Bananada 2008 – Terceira Noite | Pop up!

No último dia, o corpo já cansado não responde tão rápido às exigências do cérebro. O café da manhã foi acompanhado com o Fabrício Nobre, Lucho (do Ministério do Trabalho, sempre presente nos festivais), Damaso (do Se Rasgum, dividimos o quarto do hotel) e a Claudinha, da festa Criolina. A tentativa deles de entrar na Abrafin colocou em questão mais uma vez o formato dos festivais de música. Porque eles precisariam acontecer uma vez por ano? E por que não uma vez por semana? Se um evento regular tem como foco promover a nova música brasileira, então porque deixá-los de fora do debate? Questões para complicar quem gosta de pensar no assunto.

Meu plano era assistir ao novo Indiana Jones, mas uma rápida ida ao caixa eletrônico se transformou num longo passeio por Goiânia. Eu e Damaso nos perdemos, rodamos um bocado e chegamos no mesmo lugar que saímos, só que pelo outro lado. Que é onde estava o posto e o caixa. Para garantir que eu estaria vivo na viagem de volta, acabei abortando a idéia e indo dormir. Acabei perdendo a hora… cheguei no Bananada já no fim do primeiro show.

Falando em formato
Eu disse antes que o Bananada tinha o formato ideal para festivais independentes. Agora eu explico. No terceiro e último dia o festival recebeu o menor número de público. Natural de um domingo fim de feriadão. Mesmo assim, todos os teatros ficaram cheios durante as apresentações já que o espaço era mais econômico. Investir numa grande área de convivência que não tenha necessariamente a ver com os shows parece ser mesmo a melhor idéia. Com isso, o festival também virou um bom programa de domingo para quem não estava atrás de barulho.

A peneira também ficou mais rígida. Meus destaques são o Bad Folks (PR), Amp (PE) e A Grande Trepada (RJ). No campo do genial, talvez até passando o Curumim, está o Lendário Chucrobillyman (PR). E a constatação de como o MQN reina em casa. Show dos mais insanos, para superar uma apresentação mais fria que eles tinha feito no último Goiânia Noise. E, como eu já abri a cobertura aqui revelando, a algazarra roqueira da festa de encerramento com a Banda da Eline.


The Bad Folks – Foto de Cláudio Cologni

Não conheço Curitiba, mas as impressões que a cidade deixa sempre me pareceram bem curiosas pelo que escuto de quem volta de lá. E por um bom tempo eu sempre imaginei uma cidade cheia de bandas exatamente como o Bad Folks. Num nível muito mais de gosto pessoal, essa foi a banda que mais me cativou na programação inteira do Bananada. Não sei dizer se existe um folk elétrico, mas ao vivo é mais ou menos isso que esse trio faz. Com alguns ecos de Frank Black e Teenage Fanclub e uma postura mais punk no palco e country no sotaque. “Impossible”, o disco que eles lançaram em 2008, ainda não saiu do repeat aqui.

[audio:badfolks.mp3]

Uma das coisas mais legais de todos esses três dias do festival veio do fato que eu precisei sair de Pernambuco até o Centro Oeste do Brasil apenas para constatar que a Amp é, certamente, a banda mais foda de rock a surgir nos últimos meses no país. E esse ainda foi o show de número nove deles. Stoner rock que já começa com um som completamente maduro para os menos de seis meses de vida deles como quarteto. Prefiro eles cantando em português, mas seja qual for o idioma escolhido, não espero um ano para que eles sejam headliners dos próximos festivais.


Amp – Foto de Cláudio Cologni

A Grande Trepada deveria ser a banda mais antiga de todo os festival. É formada em parte pelos caras do Canastra. E, assim como o Canastra, não poderia deixar de ser menos divertido de se assistir ao vivo. O contrabaixo estava lá, gigante no palco, com o rockabilly frenético, com uma forte pegada country graças ao impagável contraste entre agudo e grave nas vozes do Eduardo e Marcio Garcia.


The Big Trep – Foto de Cláudio Cologni

Enquanto isso, só o nome do Chucrobilly já era suficiente para que eu desacreditasse no show antes mesmo de ver qualquer coisa. Referencia direta ao português Legendary Tigerman, que também é um one-man-band, e um dos piores shows que já assisti até hoje em festival. Eu estava conversando com alguém quando Helder, do Sweet Fanny Adams me puxa pelo braço falando “você precisa ver isso, cadê sua câmera?”. O curitibano já estava no palco e, a medida em que me aproximava pelos camarins, vinha um flashback da noite anterior com gente se espremendo para conseguir assistir algo.


Até Jesus foi one man band – Foto de Cláudio Cologni

O Chucrobilly tem o impacto natural que toda banda-de-um-homem-só causa. Afinal, ele está lá sentado sozinho numa bateria, tocando outros três instrumentos, cantando através de um microfone cheio de gambiarras para modificar sua voz. As músicas rápidas, numa pegada country, começavam a delinear o clima de festa programado para o dia. O nível de demência insana já ultrapassando os limites permitidos pela estafa fazia o corpo dançar contra a vontade do próprio dono.


Isso na camisa do Nobre é cerveja – Foto de Cláudio Cologni

E parecia que esse nível já tinha atingido seu máximo na loucura que foi o show do MQN. No Noise, minha expectativa de ver a banda tocando em casa era grande e acabou não sendo tão correspondida. Compreensível, considerando o tamanho da bronca que os integrantes estavam lidando para coordenar os três dias de um festival pelo menos quatro vezes maior. Nobre ensopado de cerveja, o público já louco se jogando literalmente no palco, numa algazarra que eu não via há muito tempo num show de rock.

Foi uma pena enorme minha bateria ter descarregado essa hora. Porque o Bananada não poupa o público de surpresas por um segundo sequer. A versão trash-rock do que eu passei anos assistindo no Quanta Ladeira durante o Carnaval do Recife ganhou vida sob o nome de “Banda da Eline”. Pretexto puro. Era todo mundo – mesmo – no palco, descarregando toda a energia que sobrou do festival numa insanidade sem tamanho. E o mais incrível: as músicas estavam sendo tocadas todas direitinhas, mesmo quando tinham três ou quatro guitarras a mais e um grupo de vocalista se esbarrando um por pedaço de microfone.


Todo mundo é da Banda da Eline – Foto de Cláudio Cologni

Quando tudo terminou, pelo menos para mim, já pelas três da manhã, restavam apenas um pouco menos de duas horas de sono. Tempo que eu precisava poupar para chegar ainda de madrugada na rodoviária, pegar um ônibus para Brasília e de lá um vôo para o Recife. Cheguei direto para o trabalho, que nessa segunda seguiu até às 23h. To até me devendo sono, mas não arrependimento. Até o próximo festival.

No fim de semana subo todos os vídeos para cá. E depois disso tem uma surpresa. Preciosidade que eu consegui lá em terras do centro-oeste.

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