Três metas para a sustentabilidade | Pop up!

Semana passada o Lumo Coletivo me convidou para participar de uma das mesas de debates que faziam parte da programação do Grito Rock Pernambuco. O tema era a sustentabilidade do mercado autoral e, além de mim, estavam presentes os músicos Zé Rocha e Cannibal (Devotos), além do apresentador Roger de Renoir. O texto abaixo foi a minha fala. Não exatamente como está, afinal eu não estava lendo. O processo foi inverso e transformei o que disse lá em texto. Destaquei três pontos que qualquer músico precisa ter mais atenção quando quer trabalhar sua sustentabilidade.

Resolvi falar sobre três princípios que estão, de certa forma, relacionados quando as palavras música e mercado aparecem juntas… E que tem a ver com esse papo que o pessoal do Lumo Coletivo preparou para hoje, antecipando os shows do Grito Rock.

A primeira coisa é sobre a própria cadeia produtiva. Se vamos pensar em medidas para o mercado autoral, precisamos saber que esse mercado está conectado. O processo de composição de um músico muitas vezes pode ser solitário, mas quando ele decide entrar em estúdio e levar aquilo adiante, ele começa a se envolver com diversos outros agentes. O cara que vendeu os instrumentos, o dono do estúdio de ensaio, o de gravação, a casa de shows, a loja de discos, o artista que vai fazer a capa, a gráfica onde ela vai ser impressa. Você pode não perceber de cara, mas não vai estar sozinho.
cadeia-2651552 Essa cadeia funciona como esse desenho acima. Ela tem seus extremos, mas não tem começo, nem fim. A lógica se divide melhor em produção, circulação e consumo. O processo pode começar com uma produtora, que pensa em lançar um determinado tipo de música, ou até com uma loja, que acha que vai se dar bem se alguns artistas locais se juntarem de alguma forma. Aqui no Recife, por exemplo, isso aconteceu com a loja Passa Discos. O processo de produção teve inicio lá, quando eles então fizeram vários shows e depois lançaram um disco.

Isso é a primeira coisa. Você precisa entender quem faz parte desse processo, onde estão essas pessoas, como elas estão trabalhando, etc.

A segunda coisa é que esse processo é um processo de comunicação. Um diálogo. Vocês precisam aprender a criar diálogos com esses outros agentes da cadeia produtiva. E isso não significa encontrar com eles na mesa de bar para reclamar que a situação está feia. Porque a situação não está feia. Pelo contrário, estatisticamente, nunca se produziu e se consumiu tanta música quanto hoje em dia. O que está com problemas são certos aspectos desse processo, principalmente no que diz respeito a indústria do disco. Mas isso eu vou falar na terceira coisa.

Antes deixa eu falar sobre alguns exemplos práticos. Um estúdio de ensaio pode entrar em acordo com uma casa de shows como o Burburinho e até o bar vizinho. E quem tocar lá pode ganhar desconto de ensaio. Enquanto o estúdio pode, de repente, articular uma noite mensal no bar, onde ele convidaria algumas bandas que ensaiam lá para tocar ao vivo. O mesmo vale para uma loja de instrumentos. Afinal, você vende o instrumento para o cara ensaiar no estúdio e depois tocar no bar. A moeda de troca está no trabalho de cada um e esses sistemas cooperativos não são nenhuma novidade. Acontecem em todo canto.

Para isso funcionar, vocês precisam assumir a música como um trabalho. Todo mundo que trabalha dedica o “expediente” a uma atividade. Então tire X horas por dia para se dedicar apenas a seu trabalho com música, igual faria com qualquer outro emprego. Tem oportunidades sobrando por ai. Agências de publicidade que precisam de jingles. Nós temos um dos principais pólos de desenvolvimento de jogos, e eles precisam de trilhas sonoras para esses jogos. Casas que não oferecem shows, mas tocam música de fundo; as possibilidades se limitam a sua criatividade em olhar para esse quadro e encontrar possibilidades.

A terceira coisa é ter uma compreensão do que você tem para oferecer. Eu vejo o tempo inteiro bandas surgindo na cidade e, com menos de um ano, já aprovando projeto em lei de incentivo para lançar um disco. Caso alguém ainda não tenha percebido, a indústria do disco está mesmo em crise. Mas a música não. Disco é feito para quem conhece sua música possa ouvi-la. Por hora, se preocupe em fazer que sua música seja conhecida. A maioria das suas bandas favoritas levaram anos para lançar o primeiro disco. Cannibal, aqui na mesa, levou 10 anos para lançar o primeiro do Devotos. Não é só porque é fácil, que você vai fazer.

Eu tive a oportunidade, ano passado, de entrevistar o diretor criativo do maior festival de música no mundo hoje, o South by Southwest. E ele falou uma das maiores verdades que já ouvi. Ele disse que “a melhor coisa que você pode ter é alguém que ame sua música”. E é nisso que vocês precisam trabalhar. Não é apenas sonoridade, mas é um conceito. Pense nas bandas que você NÃO gosta e tente explicar porque vocês não gostam delas. A primeira coisa que vem a mente é o conceito. Isso também funciona ao contrário. Hoje, uma banda como o Devotos, consegue ser respeita e venerada sem nem precisar ser ouvida, de tão forte que é o conceito que eles construiram naturalmente.

Quando você tem alguém que ama sua música, você desenvolve algo chamdo “relacionamento criativo”. As pessoas multiplicam aquilo que você criou, aumentando naturalmente seus ouvintes. Seja gravando seu show com o celular e publicando no Youtube, seja tirando fotos e disponibilizando pela internet. Coisas que, em outra época, você precisaria pagar caro para conseguir. E, para encerrar, isso se reforça com algo que falei no começo: é um processo de comunicação.

Não é deixar de lançar discos para colocar as músicas no MySpace. MySpace, Youtube, Flickr, Orkut, não são canais unilaterais. São redes sociais. Eles estão te dizendo quem ama sua música. E você precisa conversar com essas pessoas diariamente, fazer com que elas se sintam próximas de você. Não monte um perfil no MySpace e pronto. Converse com as pessoas, responda perguntas, faça perguntas, crie diálogos. Não esqueça que, nessa cadeia inteira de elementos, o mais importante é o consumidor final. Não porque ele paga por sua música, mas porque ele ama ela.

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