Cachorro Grande: Pista Livre

A banda Cachorro Grande, do Rio Grande do Sul, não podia ter escolhido nome melhor para o novo disco, “Pista Livre”. Existe hoje uma certa cumplicidade nacional para que eles se transformem na próxima grande banda de rock do País, da parte tanto dos produtores como da mídia. O momento é o mais oportuno, já que este é o primeiro a ser lançado por um selo de distribuição nacional, que chega com um prêmio Tim de melhor banda independente no bolso.

Com produção de Rafael Ramos, o mesmo que levantou a moral de Pitty, “Pista Livre” mostra um Cachorro Grande diferente do conhecido pelos dois primeiros discos da banda. O som afogado em influências sessentistas continua, assim como os terninhos e boinas no visual dos rapazes, mas agora com um som bem mais nítido, mostrando qualidade de gravação bem superior. Mesmo no disco anterior, lançado pela revista Outracoisa, a produção deixava muito a desejar.

O baixo bem amarrado chega até a ganhar destaque da guitarra Rickenbaker ligada a amplificadores valvulados, instrumentos datados que são assinatura da Cachorro Grande. Em entrevista por telefone, o vocalista Beto Bruno explica que essa evolução foi bem natural para a banda. “Gostamos de bandas que sempre mostravam uma diferença grande entre discos, como o Beatles. Achamos legal seguir a mesma linha”.

As músicas estão mais tranqüilas e menos gritadas do que o Recife conheceu na apresentação do Abril pro Rock em 2003. Momento que, segundo Beto, vai demorar a sair da memória da banda. “Eu preciso voltar urgentemente para o Recife e tomar um caldinho de Sururu! Não sei como estou conseguindo viver sem isso”, brinca. Piadas a parte, o show aqui foi o primeiro publico que a banda conheceu que já sabia cantar as músicas deles.

Das 13 faixas, se destaca “Novo Super-Herói”, uma auto-referência que o Cachorro Grande faz. Na letra, um cara que “tocava numa banda tipo anos 60, comprou uma guitarra e andava de lambreta”, é também a mais agitada, que dá sinais que o “clima de lado b” da banda ainda vai demorar a ir embora.

Publicado originalmente em 06.06.05

Amadorismo dá o tom do Mada 2005

NATAL – Se para o festival Mada, a música é o alimento da alma, muita gente encerrou a maratona de três dias de show com fome, muita fome. Depois de 23 bandas independentes passarem pelos palcos com a enorme responsabilidade que é reunir um público estimado em 15 mil pessoas (todas interessadas apenas na atração final da noite), a sensação final é de que o conceito de qualidade precisa começar a ser nivelado por baixo.

Ao contrário da edição do ano anterior, que revelou muitas promessas para o rock nacional como o Gram, as bandas de 2005 mostraram que chegou a alta estação da entressafra para os talentos da música. Apresentações cheias de erros de continuidade, desafinos e pouca presença de palco deram o tom amador deste ano. Dos três dias, apenas quatro nomes merecem ser guardados para posteridade.

Na quinta-feira, Zackarias Nepomuceno, da Paraíba. A sexta-feira, que veio para salvar o festival com excelentes apresentações do Planet Hemp, Mundo Livre e Astronautas, também apresentou duas boas promessas: a banda punk paulista Luxúria, que sem medo de tocar cover do Ramones conquistou o público e a baiana Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicletas. No encerramento, Columbia mostrou um pop rock melancólico que fica entre o Ludov e Leela, mas com identidade bem mais forte. Boa aposta para uma futura presença no domingo do Abril pro Rock 2006.

Depois de um mês de chuva intensa em Natal, o clima parecia ter dado uma trégua para o evento. Mas, quem acompanha a carreira do Mundo Livre S/A, sabe que apenas o Cordel do Fogo Encantado exerce mais poder sobre as águas do céu que eles. Mesmo com a falha de começar o repertório com uma música inédita e, em seguida, três pouco agitadas, a banda recifense conseguiu, debaixo de uma chuva forte, manter público de 500 pessoas (e crescendo), já cansadas do longo show do Planet Hemp até às 4 horas da manhã. O público de Natal corre o risco de ter sido o último a ver uma apresentação dos rappers. Logo após o show, durante uma entrevista para o canal a cabo Multi Show, o vocalista principal Marcelo D2 garantiu que a banda estava, definitivamente, encerrada. O segundo vocal, B Negão, não confirmava, mas afirmava apenas que “para mim, foi o último show. Não toco mais com Planet”.

Parece fácil para um jornal de Pernambuco dizer que as bandas do estado fizeram os melhores shows, mas o canal MTV serviu de álibi no sábado, quando fez uma entrevista com a banda Rádio de Outono. Não fosse suficiente, até esticou para uma brincadeira com o tecladista Juliano, em Natal, emprestado da Parafusa. A postura profissional até mesmo da parte do The Playboys conseguiu garantir um destaque merecido no evento.

As pessoas envolvidas com o Mada que tem contato com a imprensa fazem uma questão constante de comparar o evento ao Abril pro Rock. Conseguiram, no sábado, um trunfo financeiro impressionante. O festival conseguiu reunir, no show do Paralamas do Sucesso, público de 12 mil pessoas. A arena do Imirá, na orla de Natal, ficou lotada de uma ponta a outra. Uma organização que deixa bem pouco a desejar, o Mada começa a conquistar espaço entre os festivais mais importantes do País. Segue um caminho que deveria servir de exemplo para o Recife, dando atenção a uma programação centrada no seu contexto geográfico: a população local e não para atrair pessoas de regiões vizinhas ou, mais complicado, do País.

Publicado originalmente em 30.05.05

Começo modesto no 7o Mada

NATAL – A sétima edição do Tim Mada estreou sua primeira noite de maneira modesta, mas sem deixar de mostrar a influência social que exerce numa cidade de 900 mil habitantes, como Natal. Num dia muito pouco estratégico (meio de semana e final de mês), cerca de 4 mil pessoas circulavam pela área do Arena Imirá mostrando pouca disposição para os shows e mais interesse em circular pelo evento.

A notícia que circulava na tarde do primeiro dia é que a banda inglesa Fiction Plane havia cancelado o show por burocracias com visto de passaporte. Melhor para Natal, que teve o show de um grupo totalmente desconhecido trocado por outra atração do Recife, o Mundo Livre S/A.

Quem abriu a noite foi a vencedora da promoção da revista Laboratório Pop, a carioca The Feitos, com um show desinteressante para um público bem pequeno. Foram os escolhidos para fazer barulho no local e avisar as pessoas lá fora que, com atraso de 40 minutos, o festival tinha começado. A postura curiosa das pessoas que ficavam apenas em frente do palco olhando o que acontecia permaneceu durante os shows do Kohbaia e Experiência Ápyus.

O primeiro surto de animação da noite veio com a paraibana Zackarias Nepomuceno. A banda, que tem parte dos integrantes da Star 61 que venceu a etapa Nordeste do concurso Claro que é Rock, tem pose andrógena, mas músicas que passam longe do glam rock. Tocaram inclusive um cover de Roberto Carlos, que foi o responsável por chamar atenção do público para o que estava acontecendo ali.

Em seguida, os pernambucanos do The Playboys foram os primeiros da noite a se prejudicar com a chuva. As mensagens da banda, de alguma forma, não funcionaram bem que os jovens potiguares. Quando o vocalista João Neto brincou falando “é um absurdo cobrar taxa de estacionamento nos shoppings de Natal”, teve gente que fez até careta, tentando entender se era uma piada ou uma coisa séria.

Depois da meia noite a arena estava lotada, com exceção do espaço da Feira Mix, com pouquíssimos estandes (um deles de duas recifenses). A tenda eletrônica mostrava que o forte de Natal, com certeza não é a dance music. Momento mais triste que todos os DJs da noite terem tocado a manjada “Satisfaction” de Benny Bennassi foi só o público adorando isso.

Um problema na agenda do Barão Vermelho fez com que a atração da noite tocasse antes da Camisa de Vênus. Sem nenhum disco novo para rechear o repertório, os dois nomes de peso da noite conseguiram causar uma comoção: duas rodinhas, bem tímidas, na frente do palco, de gente dançando. A primeira fez uma apresentação bem padrão, cantando várias músicas da época de Cazuza. Já Marcelo Nova emplacou algumas de Raul Seixas, mas também ficou no formato de “só clássicos”.

Publicado originalmente em 28.05.05

Mada 2005

Começa hoje em Natal o Mada, Festival Música Alimento da Alma, evento que entra no seu 7º ano de vida. Serão 23 bandas, entre independentes pouco conhecidas e grandes nomes nacionais, como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Planet Hemp que tocam em três dias de show. Na escalação estão três presenças de Pernambuco: Rádio de Outono, The Playboys e Astronautas, além da internacional Fiction Plane. A Folha vai cobrir todos os dias do evento.

Em 2004, passaram pelo espaço do show cerca de 20 mil pessoas. “Um dos principais motivos foi a presença do Sepultura, que nunca tinha tocado aqui no Estado”, avalia a produtora do evento Ana Lira. Este ano, a expectativa é um pouco menor, uma média de 5 mil por dia. Além das apresentações, o evento conta ainda com uma feira mix, com estandes de artesanatos, produtos alternativos e selos independentes. “É onde os contatos acontecem”, comenta, “o pavilhão da mix é bem na entrada no show. Então quem for, não vai deixar de conferir”.

Para pegar todo o público alternativo de Natal, o Mada também terá uma tenda eletrônica. Serão 11 DJs, dois deles de renome nacional (Murphy e Anderson Noise). No sábado, o espaço vai hospedar a Festa Ploc, já tradicional nas noites cariocas revivendo os anos 80.

Outra diferença que marcou o Mada é que, ao contrário do que acontece no Abril pro Rock, os dois palcos tEm estrutura igual. “A banda do interior do Estado vai tocar com o mesmo som que é disponibilizado, por exemplo, para o Barão Vermelho”, explica Ana Lira, que ainda reforça “todos os dias, os shows começam pontualmente às 20h30”.

Programação
Quinta
- Jane Fonda (RN), Nervoso (RJ), Folcore (RN), ThePlayboys (PE), Zackarias Nepomuceno (PB), Experiência Apyus (RN), Kohbaia, Barão Vermelho, Marcelo Nova e Camisa de Vênus

Sexta – Astronautas (PE), Luxúria (RJ), RoneiJorge e os Ladrões de Bicicleta (BA), Du Souto (RN), Seu Zé (RN), Adriano Azambuja (RN), Karpus e Phonopop (DF), Planet Hemp (RJ), e Fiction Plane (UK).

Sábado - Alphorria (RN), Som da Rua (RN), Os Bonnies(RN), Rádio de Outono (PE), Brinde (BA), Columbia (RJ), Vanguart (MT), Plebe Rude (DF), e Paralamas do Sucesso (RJ).

Kelly está na fase menina

Nos seis meses que passou sem gravar, Kelly Key ganhou oportunidade na televisão de conhecer um novo público. Um de visão mais simples, que já dava atenção a músicas como “Adoleta”, mas sem entender o duplo sentido em “não quero mais brincar. Quero le peti, peti, polá”. É onde ela investe agora no terceiro disco de estúdio, o segundo a levar o próprio nome da cantora. “Fiz uma pesquisa no meu site e vi que a maioria dos meus fãs tinham entre 12 e 15 anos de idade”, explica em entrevista por telefone.

O investimento da gravadora Warner no produto é bem alto. Quem assina parte da direção artística é ninguém menos que o finado Tom Capone, responsável por tudo que dá certo na empresa. Trabalho que teve continuidade nas mãos do igualmente competente Alexandre Wesley. “O resultado já tá dando muito certo, porque já comecei a receber muitos e-mails de minhas fãs que ouviram os singles, dizendo que estão se identificando com as letras”, comenta empolgada a carioca de 22 anos que passa boa parte do tempo livre escrevendo no seu blog.

Com cara de “disco de menina”, o CD que tem encarte cheio de estrelas brilhantes vem com 14 faixas. Apesar dela prometer que agora está mais certinha, as letras continuam no tema “estou afim de você”, só que dessa vez sem maldade ou duplo sentido. Faz ainda três versões, uma de “Barbie Girl”, música que resume toda a cara do disco, onde ela aparece em várias fotos com cara de boneca. Outra da também internacional “Trouble” e uma que tem sentido a mais para quem é de Pernambuco, da música “É Chamego ou Xaveco?” do Calypso.

“Adoro o Calypso já faz muito tempo!”, comenta empolgada, “aquela “me usa” é praticamente a música da minha vida”, completa, cantando um trecho pelo telefone. “Já faz tempo que usam minhas músicas em outros ritmos, principalmente forró, por isso resolvi experimentar fazer o contrário”, comenta. “Chamego…” aparece no disco em versão R&B, no melhor estilo Beyoncé.

A mistura de ritmos que ela faz (arrisca até uma bossa nova), encerra com três remixes. Nelas, o produtor Umberto Tavares aparece de DJ, junto com o parceiro de estúdio Mãozinha. Os dois já assinaram vários trabalhos de black music, o que dá a eles experiência para não fazer feito e garantir um dos pontos altos do disco.

Publicada originalmente em 26.05.05