RecBeat 2010: Cobertura

Gutie, produtor do Rec-Beat; e Gabi Amaranto, do Pará. Foto de Caroline Bittencourt

Fazer festival no olho do furacão de um dos maiores carnavais do país parece jogo ganho. E, em termos práticos, é o que acontece quando se trata do Rec-Beat. Em sua 15a edição, o evento aconteceu mais uma vez no “polo mangue” do Carnaval do Recife, durante quatro dias onde atraiu um público médio de 8 a 10 mil pessoas por noite. Talvez em um contexto diferente onde fosse pago, as atrações da programação não chamariam mais do que mil pessoas. E esse é o principal mérito do evento, promovido pelo paulista Antonio Gutierrez: promover um econtro de ótimas bandas com pessoas que, naturalmente, não iriam ao encontro delas.

O Rec-Beat já passou por diversas mudanças de conceito. Da última vez que entrou de acordo, decidiu não trazer mais nomes de grande porte e diminuir um pouco de espaço onde acontece, a favor de ter uma folga maior de público. Opção acertada e celebrada por quem ainda lembra das noites sufocantes na tentantiva de se assistir a Nação Zumbi tocar no bairro histórico do Recife Antigo. Mesmo assim, esse ano fechou a programação com uma trinca dos melhores discos de 2009. Passaram por lá Lucas Santanna, Céu (SP) e Cidadão Instigado (CE).

Os grandes – pelo menos no contexto do festival – não tem muito a acrescentar. Fizeram respectivamente os melhores shows de cada um de suas noites. Com o destaque principal para a resposta de público do Cidadão Instigado. Esse foi o show que oficialmente lavou a alma de Fernando Catatau, que colecionava uma série de apresentações no Recife que eram atrapalhadas por fatores externos.

Mas é a novidade que sempre chama mais atenção. Na segunda noite do festival, Gabi Amarantos, do Pará, trouxe o que ela chama de “tecno-melody”, uma evolução do tecnobrega. Com direito a versão de “All the Single Ladies”, de Beyoncé, cantada em português – é aquela mesma que foi gravada por Preta Gil, que no refrão diz “hoje eu tô solteira” – e um show que, por uma hora, só fez repetir as mesmas cinco músicas, arrancou verdadeiro delírio do público.

Ainda na fileira das novidades, a Caldo de Piaba, que vem do Acre, fez uma das apresentações mais impressionantes. Misturando Carimbó com o Imunização Racional de Tim Maia, fizerma show instrumental que prendeu a atenção do público até o final. Quem também não tinha vocalista é a Diversitrônica, com uma parede sonora altíssima, fazendo uma das cinco apresentações mais legais de todo o festival. É música eletrônica, mas totalmente tocada por uma banda, quase sem programação.

O festival conseguiu a boa façanha que foi apresentar um novo artista pernambucano a sua própria terra. Zé Manoel é a promessa lançada pelo Rec-Beat que deve circular ainda mais este ano, impulsionado pelo ótimo show que fez na primeira noite. Ainda nas pratas da casa, o festival consagrou o ótimo momento da banda Volver que, mesmo no horário cedo, teve a melhor resposta de público entre todas as atrações. A comissão de frente do palco cantou todas as músicas sem errar e fez até fila para conseguir autografo do grupo que, hoje, está morando em São Paulo.

O Rec-Beat trouxe conceito e frescor ao Carnaval de Pernambuco, que em seus outros polos apostavam de extremos como o samba carioca de Diogo Nogueira e ao emocore do NxZero. O encerramento, com uma big band reunindo integrantes das bandas Eddie e Orquestra Contemporânea de Olinda, tocou até perto do sol nascer. Tudo em clima bem familiar, sem violência, mostrando que boa música foi suficiente para criar o ambiente de um festival de graça, no meio da maior festa do país.

Agora vai

Dois meses inteiros sem nenhuma atualização de verdade. Na minha cabeça tinham se passado uns nove meses, de tantas coisas que aconteceram nesses últimos dias e que, inevitavelmente, fizeram o Pop up perder um pouco de prioridade. Para os que ainda não sabem, eu vou ser pai. Alice só nasce em julho, mas já é a menina mais babada do mundo inteiro. Preparando a chegada dela, em fevereiro, eu me mudei mais uma vez e passei a maior parte do tempo arrumando o novo apartamento. Nesse meio tempo, uma tonelada de consultas médicas indicaram que meu coração tinha virado uma grande bola de bacon e meu sangue se transformou em barbecue positivo. E no caminho para uma vida saudável ainda apareceu uma pedra. Uma pedra nos rins.

Provavelmente todo mundo que tem o costume de chegar até aqui em busca de novidades também já conhece o novo Nagulha. Um portal criado pelos coletivos Fora do Eixo e que eu tive o prazer de ser convidado para escrever nele, junto com ninguém menos que Alex Antunes. A oportunidade de trabalhar junto com um dos caras que eu cresci lendo foi o motivo principal para entrar no projeto. Alguns dos textos que já publiquei lá vão aparecer aqui ao longo dessa semana, para fazer esse meu retorno ser menos dolorido que as pedrinhas dos… melhor eu esquecer isso.

Vale lembrar também que o Abril Pro Rock está chegando. E desde janeiro estamos na correria para deixar tudo pronto, na curadoria da programação que eu faço junto com o Gui Moura. Esse ano foi legal ver que, com a exceção de um único cara indignado por sua banda ter ficado de fora, absolutamente todo mundo no twitter está elogiando a escalação. Isso, fora a constante correria e trabalheira do doutorado, foi o que me deixou afastado do blog esses dias. Mas “agora vai!”. Não repare que, ao longo do dia, a atualização será mais burocrática, com texto sobre coisas que já passaram, só para eu não esquecer de registrar.

Recbeat 2010: Programação

O festival Recbeat divulgou a programação que vai compor um dos palcos mais legais do Carnaval do Recife. Durante a coletiva, o produtor Gutie não colocou nesses termos, mas parece que esse ano eles seguiram a risca a lista de melhores discos que foi divulgada em revistas, blogs e etc. Vai ter Cidadão Instigado e Lucas Santanna e por pouco não teve também Otto. Outra característica legal dessa edição é a descentralização. Tem muito mais bandas de lugares distintos, fora as internacionais. Incluindo a Caldo de Piaba (foto), que é uma das apostas do Pop up para 2010.

Uma parte das atrações também se apresenta no Sesc Pompéia, em uma edição paralela que será chamada “Pompéia-Beat”. Apesar de ser contra do que chamou de “coisa fast food”, sobre ter edições em outras cidades, Gutie disse que até metade do ano deve anunciar um “drops” do Recbeat na Europa, com parte dessa programação. Sem mais enrolação, confere ai a programação do festival!

  • Sábado 13.02 – 20h

Radistae | PE
Zé Manoel | PE
Renegado | MG
Lucas Santtana | BA
Puerto Candelária | Colombia

  • Domingo 14.02 – 20h

A Banda de Joseph Tourton | PE
Volver | PE
Magic Slim | EUA
Atração a ser anunciada
Gabi Amarantos | PA

  • Segunda 15.02 – 20h

Diversitrônica | PE
Stela Campos |  SP
Madensuyu | Bélgica
Atração a ser anunciada
Ojos de Brujo | Espanha

  • Terça-feira 06.02 – 20h

Mestre Galo Preto | PE
Caldo de Piaba | AC
Cidadão Instigado | CE
Cabezas de Cera | México
Original Olinda Style (Eddie + Orquestra Contemporânea de Olinda) | PE

Sopro de novidades na cena do Recife

A entresafra no Recife estava entrando naquele estado crítico onde começavam a surgir shows da “volte de” alguma banda que todos já tinham esquecido e a formação de super grupos (banda + banda) no desespero de que algo novo aparecesse nos palcos da cidade. Agora o fôlego para novos sons parece ter sido recupado e dado forma a novas bandas que, aos poucos, começam a chamar atenção em curtas apresentações e movimentam o burburinho – sem trocadilho – na noite.

Radistae, essa da foto, encabeça esse time de novidades. É formada por Yuri Queiroga – que recentemente chegou até o Grammy Latino, quando produziu o disco de Elba Ramalho – Chico Tchê, Gabriel Melo e Pernalonga. Junto nesse quarteto tem o dna de DJ Dolores e Aparelhagem, Academia da Berlinda, Bonsucesso Sambaclube e Faces do Suburbio, só para citar algumas. O nome é referência a um antigo pico de surf em Olinda, o que completa a equação para decifrar o surf music feito por eles. Apesar de carregarem uma forte referência a Dick Dale e The Pops, o repertório deles vai de Kraftwerk a Luiz Gonzaga em versões próprias. Aliás, porque é que até agora não tinha uma banda de surf music assim no Recife?
Para ouvir: www.myspace.com/radistae

Ex-Exus: Talvez seja difícil para quem é da cidade observar os Ex Exus como uma banda nova. O processo de transição da antiga banda “Comuna Experimental” para “Ex-Comuna” e, por fim, “Ex-Exus”, foi tão rápido que o desatento que os vê no palco demore a perceber diferenças entre elas. Eu já fui um desses desatentos e, por isso, demorei a conhecer de fato o som e o show da banda. Ao contrario das bandas que deram origem, que eram experimentalistas ao cubo, o Ex Exus arredondou as bordas da música e faz um rock provocador e divertido. É criativo sem cair no clichê do inteligente e harmonioso para se ouvir até sem pensar.
Para ouvir: www.myspace.com/exexus
Para baixar: Terroristas Freelancers (EP)

Albuquerques: Já se foi o tempo que podiamos dizer que o Recife não era uma cidade roqueira. A Albuquerques, formada por Vinicius Del Toro, Leo Bresani, Walman, Igor Capozzoli e Chaps, segue ao pé da letra a cartilha do stoner rock. As quatro músicas disponíveis no MySpace deles trazem de efeito colateral uma grande necessidade por mais. Eles chamam ainda mais atenção no repertório por ele estar todo em português, coisa difícil de fazer quando se pensa em Queens of the Stone Age e Danko Jones. Parece bobo, mas é uma diferença que pode fazer eles chegarem bem mais longe que as vizinhas Amp e Vamoz. É ouvir e torcer.
Para ouvir: http://www.myspace.com/albuquerquerockband

Rails: Essa é outra que parece até injusto de chamar de banda nova, com o histórico dos integrantes. Lulu Oliveira, Kennedy Costa e Murilo Nobrega estiveram em uma dezena de grupos no Recife, de todos os gêneros possíveis, desde o final da década de 80 até agora. Rock mais tranquilo, com uma pegada pop viciante e todo cantado em inglês, que traz essa carga da idade nas referências mais madura.
Para ouvir: http://www.myspace.com/railsrecord

Wassab: Para encerrar no mesmo pique do Radistae, essa é outra banda instrumental que vem de Olinda. Gilú, Hugo Lins e Juliano Holanda são os nomes que você costuma ler nos encartes da Orquestra Contemporânea de Olinda, Mundo Livre S/A e Naná Vasconcelos. Eles já estão até com um disco gravado, que deve ser lançado esse ano.
Para ouvir: http://www.myspace.com/wassabpe

Espera um pouco!

Popup! está fazendo, logo mais, cinco anos! :) Por isso o blog está em modo “back to basics”, preparando algumas mudanças para comemorar o aniversário! Aliás, por falar em aniversário, hoje é o meu! 28 anos, to começando a me sentir velho!

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