Category: Discos

Recebo uma tonelada de discos, baixo outra tonelada. Aqui eu posso escrever com mais tranquilidade

Mula Manca & a Fabulosa Figura – Amor e Pastel

Mula Manca e a Fabulosa Figura

Não vale a pena falar de “Amor & Pastel” como segundo disco da Mula Manca, agora “Fabulosa” Figura. Considerando que o primeiro circulou pouco pela cidade e trazia uma banda que não era tão interessante, então melhor esquecer. Esse é realmente o primeiro, para uma nova banda que surge na cidade. Música popular brasileira no sentido mais tradicional, com samba e bossa marcando o ritmo de letras criativas e despretensiosas. O lançamento oficial é hoje, data que o CD chega também nas lojas, com show no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco.As considerações para um disco positivo são várias. Talvez a estrada que a banda já pode somar – cinco anos desde a primeira formação – e principalmente um projeto paralelo de sucesso, que conseguiu fazer com que eles, sob a alcunha de Seu Chico, passeasse por um público mais maduro. “Naquela época teve mais pressa, menos tempo, menos conhecimento do que fazer”, confirma Lula, teclado e voz do grupo. Com novo nome, a banda perde a referência a Quixote e também o que tinha de mais chato: a pretensão de misturar a experiência da literatura com a música.Apesar de mais adulto, “Amor & Pastel” não é careta. Vai lembrar – mesmo que bem de longe – um pouco do que o Mombojó tem feito no novo disco. Uma mistura que passa pela tropicália, pelos novos baianos e jovem guarda, modernizando o passado em 12 boas músicas. Já tem pelo menos um hit certo para grudar feito chiclete no repertório da cidade, chamado “Dinheiro”. A faixa entra de graça para download na Internet. Até o fim da semana, o disco inteiro fica disponível lá para quem quiser conferir antes de comprar.A Mula Manca transformou o disco em um quebra-cabeças que é montado a partir de participações especiais. O principal destaque é “Deita Aqui” com a voz impagável da paraibana Eleonora Falcone. Ela poderia ter tido até mais participações em outras faixas. “Amor & Pastel” tem ainda presença da banda Parafusa, com Diogo Andrade, Lucas e Juliano; da percussão de Urêa, da Eddie; Públius, da Azabumba; Fernando, do Suvaca di Prata; e dos músicos Tom Rocha e Rico. Os baixos das músicas foram gravados por Júnior Areia, do Mundo Livre S/A.

Por fim, Mula Manca & a Fabulosa Figura agora também carrega uma grife. Além de gravado no elogiado estúdio Mr. Mouse, teve masterização em São Paulo por Carlos Freitas, que já imprimiu sua assinatura em artistas como Marcelo D2 e Ivete Sangalo. É material para fazer a frente de Pernambuco na Música Popular Brasileira, como já vem sido feito pelos cantores Lenine e Júnio Barreto.

Foto é de divulgação. Crédito de Ivan Alecrim

LCD Soundsystem – Sound of Silver

LCD Soundsystem

Quando me disseram essa semana que o novo disco do LCD Soundsystem era muito melhor que o primeiro, minha reação foi “preciso ouvir de novo, tem algo errado”. Na hora, mantive minha opinião: super chato. Mas quando voltei as faixas aqui no computador, pensei que todo mundo que me falou bem estava ouvindo o disco em algum MP3 player desses portáteis. Veio o estalo… peguei um fone e descobri o segredo. James Murphy é um gênio. “Sound of Silver” deve ser o primeiro álbum feito para ouvir com fone de ouvido. Todos os barulhinhos saindo direto de uma caixa de som perdem a graça.

E quem é esperto se ligou que isso não deixa o disco individualizado. Muito pelo contrário. Get Innocuous abre o repertório com barulhinho insuportavelmente grudante e, se ouvido num volume ensurdecedor, é capaz de criar alucinação. Consigo imaginar uma festa inteira – começo, meio, banheiro e fim – apenas com esse “Sound of Silver”. Afinal, tudo que a gente escuta no exagero dos volumes de um fone de ouvindo cai perfeitamente na pista de dança. Feito para doer nos ossos, são nove faixas que são muito melhores que aquele primeiro disco duplo inteiro.

Tem pelo menos uns cinco hits certos. E todo eles em sequência. Na segunda música eu já estava com uma tremedeira na perna, pensando “preciso tocar isso muito algo em algum lugar”. Como passava das 23h, eu não tinha muita opção. E é por isso que eu preciso dizer que esse novo disco do LCD Soundsystem tem alguma coisa de nervoso. “Aperriado”, em bom pernambuquês. Era quinta-feira e eu não tinha dinheiro para sair pela cidade com um pendrive na mão para pedir desesperadamente para alguém tocar isso bem alto. E de tanta falta de opção, fui abrir uma cerveja.

Em North American Scum – e nessa hora eu já estava ouvindo o disco pela quarta vez – eu me dei conta que, no fundo, esse “Sound of Silver” é muito mais para vodka que cerveja. Na minha opinião, essa música é a melhor de todo o disco. É a nova Daft Punk Playing at My House, com direito a mensagem política. Alías, uma coisa que ficou clara ainda na primeira vez que ouvi é que James Murphy anda muito mais deprê. E acho que prestar muita atenção nisso – coisa que fiz no começo – também deixa a gente deprê. Ele está cheio de “nós somos o lixo da America do Norte”, “nós contra eles” (no velho trocadilho do ‘us’, que é nós em inglês, com a sigla U.S, de United States).

Se tem algo que não mudou, nessa overdose toda de músicas, foi a que da nome ao disco. Eu não explicar muito bem o motivo, mas acho que é pq a voz grave não funciona com o LCD, que é tão agudo. E tem esse batidão quase 7 melhores da jovem pan. Voz grave, com baixo grave por trás, com batidão baixo astral = algo errado. E se isso é o que dá nome ao disco, bom, então tem algo ainda mais errado. Mas, paciência. Um para nove é uma boa proporção, maior que muito disco legal até.

O que pega de surpresa é a última música. Essa sim, a realmente deprê do disco. E talvez uma das melhores de todas. “New York I Love You” é linda, lentinha, com um clima de nariz fungando de tristeza. A frase título se completa no refrão com “but you bringing me down”. Lembrei de uma entrevista que li com James Murphy que o título era “o rei de Nova York”. Se a relação do “rei” com a cidade está mal e isso significou um disco tão bom… então fique mal James Murphy. Fique muito mal. Nós agradacemos.

Sound of Silver só chega nas lojas daqui uns meses. Mas já vazou todo na Internet. Faz um esforço que não é difícil encontrar ele para baixar! =)

Carbona – Apuros em Cingapura

Carbona

Fazer rock, simples e direto, no Rio de Janeiro não é trabalho fácil. A confirmação vem de cinco, de cada cinco bandas que falam no assunto. Perto dos 10 anos de estrada, a Carbona é um exemplo clássico disso. Para começar, nunca é apenas rock. É “Bubblegum”, “rock de praia”, “surfcore”, uma fila de definições confusas. Em cima dessa onda, o trio brinca de se redefinir. No oitavo disco, “Apuros em Singapura”, lançado pela revista OutraCoisa, eles lançam a fase ” 3.0″ (referência no próprio site deles). Mais rápido, forte, maduro e agora 100% em português.

Com tanto tempo de experiência, Henrique Badke, Melvin e Pedro Roberto já devem ter um mural de diplomas sobre como fazer músicas que grudam. Elas tem aquele “efeito repeat”, que quase nos força ouvir cada canção pelo menos três vezes seguidas. Guitarras fortes, músicas com energia positiva. Em “Vide Bula”, que abre os trabalhos, vem a primeira surpresa. A marca registrada da banda, o vocal anasalado e agudo, foi embora. A medida que fica mais “hard rock” (fugir de subgêneros ainda vai ser difícil), a Carbona ganha nova personalidade.

Ouvir os oito discos da banda em seqüência é um exercício perigoso. Poderia levar uma mente maldosa a pensar que o Carbona são – e de certo modo eles são mesmo, por terem influências semelhantes – precursores da febre do emocore no Brasil. Talvez, por terem sobrevivido tanto tempo, a banda consiga representar espírito de épocas diferentes. O rock adolescente que era feito nos anos 90 contra o que é feito agora. Reflexões que, num papo rápido, eles avisam logo que não estão muito interessados.

“O Rio tem traços culturais muito forte, por causa do samba e agora com o funk, são músicas que estão muito presentes na cidade”, comenta Badke, vocalista e guitarrista da Carbona. “Por isso, o rock sempre aparece como coadjuvante. E é inevitável que exista uma união forte em todos os sub-gêneros do rock”, explica. “Se a gente fosse dividir aqui o punk rock do emo e do guitar rock, não ia sobrar quase nada”, completa.

Sobreviver nesse cenário de fusão é a maior conquista da Carbona. “Quando comecei em 1993, ainda com outra banda, eram tempos mais difíceis, a dica é ter força de vontade”, lembra Henrique Badke. De shows no extinto Dokas, no Recife, até esse momento atual, o trio carioca já passou por quase todas as etapas do rock. E acerta o passo agora, abrindo mão de lançar disco como artigo de luxo e fazendo parceria com a revista OutraCoisa. Nas bancas e acessível.

Carbona – Apuros em Singapura
Selo: OutraCoisa
Preço: R$ 15

Hell on Wheels – The Odd Church

Hell on Wheels

Quando o coletivo Coquetel Molotov começou a organizar os primeiros shows na cidade, a referência ainda era de um bando de adolescentes agitando uma festa. Quando entrou o papo de “formação de público”, a conversa amadureceu, mesmo que pouco. Mas agora a coisa é realmente séria. Público formado, donos dos melhores elogios que a cidade ofereceu nos últimos anos, o trabalho do coletivo entra num novo nível. A formação de mercado.

Não aquele mercado local, com discos de bandas lançados com patrocínio público. O Coquetel Molotov incorpora todas as funções de um selo e lança no Brasil seu primeiro artista internacional. Hell on Wheels foi uma das bandas que tocou no primeiro festival, chamando até mais atenção que aguardada escocesa Teenage Fanclub. Eles estão de volta ao Brasil – mas não vão passar pelo Recife – numa turnê de bandas suecas. “Agora estamos mais bonitos, é verdade”, já brinca o vocalista e frontman do grupo, Rickard.

“The Odd Church” mostra uma nova fase da banda, que agora brinca mais com as próprias possibilidade de inovar o rock. “Queríamos fazer um disco que soasse mais como o power trio que somos, sem muitas bobagens no som”, comenta. “Algumas músicas foram gravadas diretamente ao vivo, então estão um pouco mais sujas que o normal”, adianta. A ‘igreja estranha’ que dá título é referência a uma que foi construída na cidade natal deles. “Ela foi um divisor de águas”, dica de Rickard sobre o que o disco vai representar.

ENTREVISTA | Rickard Lindgren, vocalista do Hell on Wheels

Você podia apresentar um pouco do Hell on Wheels, já que ela ainda não é uma banda muito conhecida no Brasil?

Hell on Wheels é uma banda bem experiente de Estocolmo (Suécia). Nos estamos tocando desde 1994, sempre dedicando nosso tempo ao grupo. Somos três (dois rapazes e uma moça) e nos fazemos músicas que grudam. Mas que grudam meeeeesmo. Power pop, indie rock, chame do que quiser. Mas nós fazemos o que sentimos vontade coma música, somos livres!

A maioria de seus fãs brasileiros conheceram a música do Hell on Wheels na Internet. Pode parecer um assunto já batido, mas vocês sentem necessidade de lançar um disco completo?

Fazer um disco completo é uma forma superior de arte, sem dúvida. Afinal, qualquer pessoa tem chance de encontrar pelo menos uma música decente. Só acho que isso não influência no formato que você vai escolher para usar. A música em MP3 tem uma vantagem em relação ao preço, mas o vinil têm um som superior ao Cd, o CD tem um som superior ao MP3. Sem falar que nada ainda é tão legal quanto os K7.

Mas eu acho que nós gostamos do desafio de fazer álbuns, sim!

Como é fazer música em Estocolmo? Vocês tem influência na cena local?

Não acho que seja diferente de fazer música em qualquer outro lugar. Mas existem várias bandas inspiradoras em Estocolmo (e em toda a Suécia) agora. A maioria delas já roubou uma ou outra música nossa, já que estávamos lá primeiro (haha!). As vezes parece que todo mundo que gosta de nossa música lá acaba montando uma banda.

Algumas bandas de rock Européias tem feito grande sucesso saindo do formato tradicional de guitarra-baixo-bateria. Isso afeta o Hell on Wheels de alguma forma?

Bem, eu acho que nós fazemos parte dessa tradição, mas não somos limitados a ela. Usamos teclados, entre outras coisas. Escutamos a muitas bandas novas e a velhas também! O que posso dizer é que para nós, tudo acontece de maneira bem natural. Não temos muita habilidade para imitar os outros, então mesmo que um dia fizéssemos algo que pareça com Lionel Ritchie, eventualmente ia parecer com Hell on Wheels.

A última vez que vocês estiveram por aqui tiveram oportunidade de conhecer muitas novas bandas. Alguma causou boa impressão?

Existe muita música legal no Brasil, nem sei por onde começar. Aprendemos muito na última turnê, compramos um monte de discos também! Eu queria falar um português melhor para entender algumas letras. Não que isso faça diferença desde que a música tenha seu ritmo legal.

Cabaret

O rock é pura pose. Kurt Cobain de cabelos assanhados quebrando a guitarra, Angus Young sem camisa descendo no sino do AC/DC. Iggy Pop sem roupa, o Kiss de cara pintada. Tudo pose, afeto, performance. A tropicália era rock, cheio de pose como os Titãs, Raul Seixas e Chico Science, que fazia pose até de carangueijo. E se fosse uma disputa, esses ai seriam todos os mais novos perdedores. Por trás da banda Cabaret, que chega do Rio de Janeiro com toda pose necessária para salvar o rock mais uma vez, por mais um fim de semana.

Quando Marvel sobe no palco, lembra uma mistura de David Bowie com Jim Carrey e Freddie Mercury. Sorriso enorme, com dentes enormes. Cheio de maquiagem e glitter – purpurina mesmo – ele convida o público para uma orgia de rock. Faz isso acompanhado de Peter Glitter, Sid Licious e Myself Deluxe. Personagens – sim, mais pose – que dão a cara da banda. Essa explosão de perfomance e rock rápido e agressivo eles lançam agora, com um pé flertando com o freio, no primeiro disco. Homônimo, ele é lançado pelo selo independente Rastropop e anunciado como “A última grande farsa do rock”.

“É uma banda feminina formada por homens, que alia uma sensualidade e uma sexualidade ao rock”, debocha Marvel – codinome do original Márvio dos Anjos. Ele acha que essa história de CD é uma coisa brega, sem graça, que ficou no passado. “Em uma das músicas eu canto ‘ela só levou roupas e CDs’, já preciso trocar a letra para MP3s”, confessa. Mas ser brega é uma coisa que ele já faz muito bem. “O rock maquiado é a coisa mais velha do mundo”, lembra. O Cabaret não abriu suas portas para a novidade, apenas para o bom gosto.

O Cabaret usa a feminilidade para deixar a frescura de lado no rock. Desperta para o metrossexual de ônibus lotado no centro da cidade, fala do desejo e do despejo, sai dessa história cansativa da vontade e vai direto para a ação. Faz isso em 12 faixas, com frases do calibre de “o rock não pode ser pouco”, “um milagre na horizontal” e a mais posuda de todas, “meio metro acima do bem e do mal”. O mais divertido é como eles se encaixam dentro disso tudo, cantando sobre como uma menina deixou a vida para trás, “por um rockstar, ela se foi”.

E piadinhas a parte, Marvel e companhia fazem tudo isso muito bem. A banda faz uma música de plástico, mas o som que sai daqueles instrumentos e, principalmente, a voz que embala os versos, é bem real. As cordas vocais de Márvio dos Anjos são o maior tesouro do Cabaret. Viciantes. No disco parecem um pouco escondidas. Desmeceridas até, do que aparece quando eles estão se apresentando ao vivo.

O disco está nas lojas e também na Internet. Pode ser comprado no endereço (também super posudo) www.radiocabaret.com.br além das lojas. Eles passaram pelo Nordeste este ano, quando se apresentaram festival Musica Alimento da Alma (o MADA, em Natal). E ficam como um nome mais que recomendado para entrar na programação de algum futuro Abril pro Rock.

Escuta ai: Cabaret – Rockstar Baby

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