Category: Discos

Recebo uma tonelada de discos, baixo outra tonelada. Aqui eu posso escrever com mais tranquilidade

Amp – Pharmako Dinamica

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A primeira década deste novo milênio termina com uma crise de identidade na música de Pernambuco. Existe uma ansiedade em proporção nacional para que o novo saia mais uma vez desse estado, mesmo que não exista mais continuidade daquilo que começou na década de 90. Associar imagens e sons a região se transformou em uma tarefa ingrata, na medida em que referências vão se distanciando desse “caráter multicultural” que, forçosamente, está determinado a carimbar todos os passaportes do estado.

Talvez, nessa ansiedade, tenhamos esquecidos que um dos aspectos do novo é de ser, antes de inédito, desafiador. E a Amp, formada por Capivara (guitarra e voz), Djalma (guitarra e voz), Dudu (baixo) e Crika (bateria) é a configuração musical mais desafiadora da estética local que surgiu nesse primeira década dos anos 2000. Sua música é a metáfora perfeita para aqueles filmes de ficção científica onde um monstro gigante devasta completamente uma cidade indefesa.

Seus passos largos representam a velocidade em que o quarteto avança na maturidade da música que fazem. O disco de estréia, Pharmako Dinâmica, não é rock para guetos, mas sim para multidões. Sem cara de produto reprocessado, mas assim como esses, milimetricamente planejado para conquistar espaços maiores. Trabalho do produtor musical Iuri Freiberger, ferreiro do rock nacional que imprimiu sua marca em discos como o da banda goiana MQN.

O grito grave do monstro é o baixo de Dudu, que faz pressão contra os ouvidos em cada nota, quase como um prenúncio apocalíptico. A parede sonora da Amp está toda em seu instrumento, que deixa inegável a referência que a banda tem ao rock do Helmet e Queens of the Stone Age. A metáfora encerra nos versos da própria banda que, quase ironicamente, descobre que ouvir suas músicas tem o mesmo efeito de presenciar essa invasão: “uma dose de adrenalina”.

Lançado pela Monstro Discos, Pharmako Dinâmica é apenas uma cereja no bolo do talento da Amp. As poucas músicas que lançaram no MySpace já garantiam a eles o prestígio de uma das melhores bandas de rock da cidade. Antes mesmo do disco sair, apenas com a promessa de reunião de alguns do melhores músicos de rock da cidade, rendeu a eles convites para tocar em festivais como o Abril Pro Rock (PE), Bananada (GO), Porão do Rock (DF), Goiânia Noise (GO), DoSol (RN), Calango (MT) e outros do circuito independente.

Sem a pressão de re-inventar a roda que tanto encerra carreiras em Pernambuco, Amp se destaca com o básico. Sexo, drogas e rock, muito rock, em riffs e refrões divertidíssimos. Sabe aquelas noites mais loucas, onde o sol nasce ainda ao som de guitarras, com amizades reforçadas, novos amores surgidos e ocasionais desventuras no banheiro? Essa é a trilha sonora perfeita dessas noites. A música que toca quando, por um breve instante, fechamos os olhos e sentimos o mundo girar e a vida acontecer ao nosso redor. Uma overdose de alegria.

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Esse, na verdade, é o release que eu fiz para o disco da banda, que começa a ser divulgado agora pela Monstro. Mas fiz de graça e portanto o sentimento é 100% honesto. Por isso estou publicando aqui entre outras resenhas. Seria o que eu realmente escreveria sobre eles em qualquer outra ocasião. Aproveitando, agradeço o convite para fazer o texto, fiquei felizão com a lembrança!

Móveis Coloniais de Acaju – C_mpl_te

Em um mercado profetizado que a grande renda do artista seriam os shows, a maior crítica que era feita aos Móveis Coloniais de Acaju é de que o grupo brasiliense não era uma banda de discos. O incomodo crescia na medida que eles traziam para o mercado independente o conceito de espetáculo, enquanto a maioria das bandas tocava como se estivessem trancados em um estúdio. Ou pior, como se nem suas próprias canções os empolgassem. Entre os pessimistas, aquela orquestra de sopros podia sair correndo de uma ponta a outra do palco quanto quisesse, que o público se lembraria apenas do alvoroço, mas não das músicas.

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O primeiro significado por trás do nome do segundo disco deles, lançado no formato Álbum Virtual da Trama, com produção de Carlos Eduardo Miranda, é o de encontrar essa outra metade. “C_mpl_te“. Todas as oportunidades que a banda teve de se pronunciar a respeito, aproveitou para reforçar que seria um álbum de canções, pensado para ouvir em casa. Para garantir, chegaram a lançar uma versão ao vivo de cada faixa, algumas até com andamento diferente e mais acelerado. No final das 12 músicas essa angustia deles pelo formato canção é totalmente sanado.

C_mple_te não reinventa a roda sob nenhum aspecto. É um álbum pop que tem como tema central o amor, composto e produzido seguindo regras bem perceptíveis. Soa, acima de tudo, como um disco de trilhas sonoras. Da mais lenta “Adeus” até aquelas que parecem feitas apenas para os shows, como “Sem Palavras“, a imagem de reencontros e desencontros apaixonados parecem completar essa experiência do móveis com o ouvinte-indivíduo. Com a parede de sopros mais baixa e a voz de André Gonzales valorizada, a banda constrói diálogos na forma de canção. Quase como se estivesse perguntando ao fim de cada faixa se você não concorda com o que acabou de ser dito.

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É um repertório que já garante a eles, fácil, pelo menos uma das três primeiras posições entre os melhores discos lançados este ano, mesmo sabendo a quantidade da novidades programadas para o segundo semestre. A sequência de hits “Lista de Casamento” / “O Tempo” / “Cão-Guia“, descarrega energia bruta e traz uma maturidade sonora até então nunca experimentada nesse contexto dos festivais onde o Móveis nasceu. Elas trazem o resumo de tudo que aconteceu e são as que dão mais segurança para arriscar essa futurologia. Dá para ouvir e vislumbrar que o naipe de metais parou de correr, mas a fanfarra continuou.

O Móveis encontra o equilibro entre esses dois mundos, o gravado e ao vivo, sem medo de usar efeitos e recursos que delimitam o disco como uma experiência totalmente própria e a parte. “Café com Leite” e “Para manter ou mudar” são dois desses “momentos fone de ouvido” que podem causar estranhamento aos antigos fãs. No entando, “C_mpl_te” não é sobre encontrar aquela mesma banda que é vista no palco, mas sim um produto derivado daquela apresentação. Encontrar um novo ponto de vista sobre uma banda que tem uma identidade tão forte está entre os grandes prazeres desse disco.

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Mas talvez a maior contribuição desse trabalho sejam as provas que ele dá que o formato álbum não se esgotou. O Móveis não conseguiria existir em termos de audição individualizada apenas com um ou dois singles. Toda a obra se completa e, com pouco de otimismo, ao fazer isso dá direções para onde deve rumar a música popular brasileira em termos de longo prazo. Dá para baixar de graça no site da Trama, mas esse é para aguardar um pouco mais e comprar.

March to Sickness – A Brazilian Tribute to Mudhoney

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É fascinante como o Brasil, mesmo recebendo shows de produções gigantescas, de diversas bandas lendárias, teve seu sua cena rock afetada, controversamente, pela passagem de bandas menores no circuito dos Estados Unidos. Talvez porque nessas passagens o contato com o público e outros grupos tenha sido mais forte. Mas desde a primeira vez que nomes como o Mudhoney e Man or Astroman passaram por aqui que fizeram surgir, no rastro, novas bandas, novos festivais e até mesmo novas cenas. Fazer um tributo a alguma delas, portanto, só parecia parte natural do processo.

March to Sickness, que está sendo lançado pela Monstro Discos, tem além dessa justificativa, os 20 anos de formação da banda, a turnê de volta que o ícone grunge Mark Arm e o Mudhoney fez pelo Brasil em outubro passado e as ações de comemoração de 10 anos do selo. Foi a quarta vez que a banda passou pelo país e, coincidência ou não, todas as outras vezes (2001, 2005 e 2007) marcaram transformações na cena independente. Seja estéticamente, quando uma nova geração rock lançava as primeiras gravações em 2001, ou em termos de mercado, quando a Associação de Festivais Independentes se formou em 2005.

Teorias de conspiração a parte, o Mudhoney ficou umbilicamente ligada a cena brasileria. Quase como uma daquelas bandas amigas, só que mais velha e com aparições mais raras ao longo do ano. E, nesse processo, acabou influênciando uma série outras menores bandas do país. Como o Walverdes, que abre esse tributo com Suck You Dry, primeiro single do disco “Piece of Cake“, que foi lançado um ano antes da banda gaúcha ganhar vida. Mas as conspirações são mesmo a parte no repertório que segue mais livre.

O mais legal do March to Sickness é que cada banda mostrou como uma música do Mudhoney ficaria se tivesse sido criada por eles. Um desavisado acharia que Poisoned Water era mesmo do MQN, ou que Well Well Song é uma baladinha eletrônica do Lucy and the Popsonics. Nesse clima, a melhor de todas fica com o Autoramas, que fizeram um versão space rock para In’n'Out of Grace, seguido pela Vamoz, com um rock on-the-road para Pokin’ Around, que transforma a gaita em guitarra em uma versão quase épica.

Também chama atenção os paulistas Detetives, cantando em Blinding Sun em espanhol. Além da arte do disco, um tributo inteiro a parte, assinada por “Márcio Mechanics”, que canta uma das versões mais clássicas do Mudhoney em todo o repertório, Here Como Sickness. O CD já está nas lojas em formato digipack, o que dá ainda mais charme ao pacote completo.

É claro que não dá para forçar a barra e dizer que a geração inteira daquele começo até hoje tem referências diretas ao Mudhoney. As versões de  Pitty e da já finada The Sinks são distantes demais e parecem muito mais experiências próprioas com os pais do grunge apenas como pretexto para tocar algo novo. Já as paulistas Holger e Debate levam essa idéia ao extremo e a associação já fica impossível. Mas talvez esses pontos de vistas totalmente alienigenas sejam a parte mais rica desse tributo.

O Mudhoney não deu origem a um “grunge brasileiro”, já que qualquer tentativa para esse lado puxou direto dos canônes Nirvana e Pearl Jam, mas acrescentou peso e atitude nas bandas que surgiram ao longo dos anos 90. Agora é esperar que os heróis dessa nova geração também se tornem bandas amigas, com voltas sempre repetidas pelo Brasil. Fico pensando aqui qual será o tributo que vamos ouvir no final da próxima década.

A foto que abre o post é de Daigo Oliva

Para ouvir | Vamoz – Pokin’ Around

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Para comprar | Monstro Discos

Vamoz – Damned Rock n’Roll

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Talvez essa seja uma associação baseada demais em experiências pessoais, mas não consigo ouvir as músicas de Damned Rock n’Roll, o segundo disco da Vamoz, e não pensar que são canções solitárias. A ausência do baixo nunca é compensa por guitarras graves, o que sempre reforça temas melancólicos como o de “You are Right”, que abre o repertório. “Este é o rock, ele nos fez livre” é uma exaltação a própria condição da banda, o que me dá um pouco de conforto em pensar que minha suspeita sobre um disco solitário não seja apenas reflexo meu como interlocutor.

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Porque naquele ofurô da década de 90 tiveram algumas bandas que navegaram sentido contrário. Decidiram trocar as alfaias por ainda mais guitarras e seguir cantando em inglês. Mas apenas a Vamoz levou isso realmente a sério. Talvez a solidão se encontre ai, enquanto eles cavavam sozinhos um pequeno espaço na parede sonora de Pernambuco, abrindo espaço para surgir algumas das bandas mais legais nessa primeira década. A sensação de que o trio não estava confortável na condição de heróis da resistência aparece escondida em trechos como “looks like everybody’s talking about you” e “hype music is a bogus show”.

Mas Damned Rock n’Roll não é sobre mensagens secretas ou entrelinhas. É uma constante auto-afirmação ao amor pelo rock. O gênero é um tópico tão recorrente nas canções quanto a própria frustração pelo amor não correspondido ou desencontrado. Eles aparecem como antagonistas aqui, com uma canção que diz “found me crying deeply” e “I got snow reminding me how I miss you dear” em oposição a “the Sonic Youth is here today” e claro, a grande máxima da banda, “rock n’roll saved my soul again”.

Esse misto de fúria e desolação chega a um ponto em comum na música que dá nome ao disco. Nela, quem escuta é deixado a sua própria interpretação, enquanto a batalha entre as guitarras segue as coordenadas da bateria sem nenhuma letra ou voz de acompanhamento. É quando todas as referências sonoras que passaram pelas canções são reunidas, mostrando como a Vamoz consegue processar tanto o folk rock e o hard rock sem se transformar em um frankstein desorientado.

Nesse embate entre a desilusão do amor e a paixão ardente pelo rock, talvez a última vença. Já que passadas as sensações em jogo, percebe-se que Damned Rock n’Roll não é um projeto solitário. Do quarto membro escondido, Felipe Vieira, que assina quase todas as letras, ao encarte recheado de logomarcas de diferentes estúdios, diferentes selos e até instituições de ensino, percebe-se o coro que se juntou para dar voz a este segundo disco da Vamoz. Esse ensaio de indústria, a sintonia dessa cooperação toda, é coisa rara de ser vista em uma cidade como Recife.

Talvez seja essa sintonia que defina a Vamoz com a banda de rock mais importante em atividade na cidade. Que coloque o trio Marcelo Gomão, Henrique Müller e Pedro Henrique como – com o perdão da repetição – heróis da resistência da cena local. Esse disco carrega o DNA de bandas como Sweet Fanny Adams, Amp e The Keith, que começam a dar nova vida a um Recife que passou muito tempo sob o regime do regionalismo.

Lançado em 2007, Damned Rock and Roll acaba de ser liberado totalmente para download pela banda. Tem um faixa a faixa no site oficial, mas eu reuni todas aqui em um único arquivo para quem quiser baixar o pacote completo. Lembrando que essa é apenas metade da experiência do “rock danado” (como Gomão sempre enfatiza). O disco original vem ainda com um DVD, com uma apresentação ao vivo da banda em show acústico, batizada de “Vamoz na Montanha”, um documentário sobre a gravação do disco, além de clipes e extras.

The Playboys – Chega de Niilismo

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Eu sempre vou ter dificuldade ao situar o The Playboys em um contexto específico das cenas de Recife. Eles datam daquela época esquisita das bandas de colégio quando eu estava no colégio, tocando em shows com os extintos a longo tempo Malkavianos e Jack in the Box, até criando contato com uma geração seguinte, com a Play Damião (que mais tarde se transformaria na Mombojó). Era um tempo em que punk rock parecia algo realmente sério na cidade e, daquela turma, eles começaram a aparecer nos panfletos com o Fogo Morto e Proletários, naquelas tardes esquisitas em que o Galetus Bar (que mais tarde se transformaria no Garagem) se divida entre shows, mostras de fanzine e bate papos sobre comunismo e fanzine (!!).

E mesmo remetendo a o que agora já é tanto tempo, eles continuam uma banda contemporânea. Foram por um tempo o suporte aos shows de Wander Wildner no Recife, fizeram história com o hit “Paulo André não me Ouve” e até entraram na lista de apelos de Lúcio Ribeiro por uma escalação no Tim Festival. Não chegou a tanto e durante esse período seguiram a risca do agir localmente e pensar globalmente. Cantaram sobre coisas tão particulares do Recife, como as garotas do Burburinho e o próprio produtor do Abril Pro Rock, que foram compreendidos em todo o país.

Agora eles lançam um disco novo chamado “Chega de Niislismo“. Não traz tantas novidades assim, mas registra oficialmente algumas músicas que aparecem em seus shows já algum tempo. Particularmente, senti falta de mais letras de João Neto, que é de longe um dos compositores mais inteligentes do rock pernambucano. Reflexo do momento da banda, já que ele está morando em São Paulo terminando um doutorado em Filosofia (pode ser mestrado e eu me confundi). Tem participação de Wander.

Mas, mesmo nas antigas, os Playboys continuam contemporâneos. Eles disponibilizaram tudo para download no site oficial da banda. Ou você pode pegar o disco aqui mesmo.

O link vai para o site do Playboys. Não estou hospedando o arquivo (já avisando, caso eventualmente o link pare de funcionar)