Category: Discos

Recebo uma tonelada de discos, baixo outra tonelada. Aqui eu posso escrever com mais tranquilidade

Gal Costa – Hoje

Outro resultado positivo do êxodo que os medalhões da MPB estão fazendo para as gravadoras independentes, Gal Costa faz sua entrada com classe e muito estilo em “Hoje”, disco que é lançado este mês pela Trama. Produzido em parceria com Cesar Camargo Mariano, presente também nos teclados, é um disco que mistura inéditas com interpretações que passam do pernambucano Junio Barreto ao esperado Caetano Veloso.

São 14 músicas que mostram uma Gal que estava em débito grande com os fãs. Muito mais à vontade, com variação e afinação de voz de fazer inveja. Verdade que o repertório contribui bastante para o sucesso que esse disco deve fazer. A poesia simples e rimada de Nuno Ramos, Moreno Veloso e Carlos Rennó são embaladas por uma mistura boa e sutil de samba tranqüilo e percussivo com um pouco de bossa e pagode.

O trabalho é audivelmente minucioso. Resultado que não poderia ter chegado com a pressão engessada de uma gravadora de grande porte. Já em “Mar e Sol” encontra a perfeição que tanto persegue a fama de César Camargo. Mistura instrumentos acústicos com elétricos sem criar ruídos. Passa do reflexivo para o romântico de “Voyeur”. Gal Costa incorpora o verdadeiro sentido de interprete e dá alma às músicas.

E faz um trabalho muito mais que justo em “Santana”, música de Junio Barreto que, mesmo já cantada por Maria Rita em shows, custa para circular no País. Nos versos simples “a santa de Santana chorou sangue / chorou sangue / chorou sangue / era tinta vermelha”, Gal dá energia contagiante e excessivamente contida. Como numa dança forte e cronometrada, que exige disciplina mesmo de quem ouve.

A expectativa para um novo disco de inéditas era grande, mas Gal e Mariano chegam mesmo a brincar com essa tensão. Voz e melodia fazem uma mistura quase tropicalista, como só a musa do gênero conseguiria conduzir. Consegue ser pura poesia em “Nada a Ver”, onde canta “tudo parece ser / um precipício / nem sei dizer…” e também auto-referente em “Luto”, de Caetano, que fala “A minha mente está na Castro Alves / Na Rio Branco / No Marco Zero”, sem perder o compasso.

Mas é na que dá título ao disco, com muito trocadilho, que melhor indica a Gal de hoje. “Não vou mudar nada / de tudo que eu fiz”. Diferente apenas quando fala da lembrança. Lá, não deve haver um “nós” como melhor parte dela. Mas quando esse “nós” é Gal Costa, Cesar Camargo e o ouvinte, este disco é, sim, o que tem de melhor.

Entrevista: Ultraje a Rigor

Quando surgiu na década de 80, cantando “Inútil” nas festas da boate Noites Cariocas, o Ultraje a Rigor ganhou destaque pelo rock debochado, mas ainda assim de protesto, um que todos esperavam no período já decadente da ditadura. Era o reflexo de uma época que conheceria em breve os Titãs e Legião Urbana. É irônico então observar que hoje, passados mais de 20 anos, a banda continua sendo reflexo da modernidade do rock, cada vez mais devagar e cansado. Cada vez mais acústico.

“A gente teve que se adaptar a tocar os violões, eles são mais duros, são mais incômodos, dá microfonia ao vivo”, comenta o vocalista Roger, em entrevista por telefone. “No início pensamos até em não fazer, achamos que não soaria bem o Ultraje com violão”, completa o guitarrista Sérgio Serra. Mas, apesar da resistência, foi de comum acordo que o resultado é positivo. “A gente estava se ouvindo melhor e conseguiu manter o peso da banda”, refletem.

Mesmo longe de se desplugar, a tendência é diminuir os ruídos. “A sonoridade ficou tão interessante que a gente está pensando em usar mais violões num disco posterior. Acho que vai ter uma influência muito grande a partir de agora”, adianta Sérgio. Esse novo trabalho, no entanto, ainda é incerto. O processo criativo da banda está todo em Roger, que não tem pressa para lançar um disco novo por ano.

Por hora, a preocupação do Ultraje a Rigor é o lançamento do DVD, que sai em setembro com cinco músicas a mais que o disco. Até lá, preparam também a turnê do Acústico MTV. Show que, apesar de simples, não deve chegar aqui no Recife ou mesmo no Nordeste, já que Roger não anda mais de avião.

Acústico MTV

Em “Rebelde sem causa”, o Ultraje cantava “Como é que vou amadurecer sem ter com o que me revoltar?”, brincando com a classe média alta que assumia pose contra a sociedade, ao mesmo que tinham todo conforto em casa. É exatamente o que acontece no Acústico MTV. Bem à vontade no palco armado pela emissora, a banda contesta pouco e aparece madura. É a revolução da postura da década de 80 no cenário do banquinho e um violão. Com um monte de palavrão também.

Apesar da discografia curta para uma banda com mais de 20 anos, escolher o repertório para um show definitivo do Ultraje não é um trabalho justo. Existem poucas que não viraram um hit nas suas devidas épocas. Mas a MTV costuma ser generosa no espaço que dá aos acústicos e a banda conseguiu definir bem as músicas. São pelo menos duas músicas de cada disco, além de uma inédita. “Ciúme”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube” são algumas da velha guarda, juntas com “Me dá um Olá” e “Agora é Tarde”, do mais recente.

Mesmo tendo lançado um disco menos rock e mais surf music em 2002, o impacto do acústico é grande. O Ultraje funciona no violão e parece a vontade com os novos arranjos. Mas apesar das lembranças serem divertidas, são as músicas novas que fazem o ponto alto da qualidade do show. Como é tradição na história dos acústicos da MTV, eles costumam representar um ponto de virada importante da banda (quando não o próprio fim). As mudanças no som já é uma prévia do que pode acontecer no caso do Ultraje a Rigor.

Publicado originalmente em 31.08.05

Los Hermanos: 4

Os fãs do Los Hermanos acabam de ganhar um motivo de verdade para chorar nos shows. Motivo que deve se manifestar de maneiras diferentes, todas através do novo disco “4”, que deve estar esgotado nas lojas até próximo fim de semana. Disco que marca, talvez, a fase mais introspectiva do grupo e reflete a idéia pouco necessária de se trancar dois meses numa fazenda para conseguir criar.

Já é tradição dos quatro barbudos, que só lançam disco no intervalo de cada dois anos, trazer uma face nova em cada trabalho. Eles estão numa fase MPB, com presença dos sintetizadores e também percussão perdida nas guitarras sem distorção. De resto, faz lembrar bastante a época da música de praia e das letras literatas em excesso de Chico Buarque.

Se não por isso, será pelo fato que “4” é o disco mais difícil do Los Hermanos. Não se deve escutar ele de surpresa, tampouco levar para uma festa. Escutá-lo é um quase ritual. Tentativa boba, já que esse “difícil” é, na verdade, quando se tenta associar aos discos anteriores, “4” é um trabalho simples, enxuto e visivelmente parte de um momento pessoal. Se as músicas trazem algum sentido escondido, é apenas para eles.

Das 12 faixas, sete são assinadas por Marcelo Camelo e cinco por Rodrigo Amarante. As diferenças entre elas são fortes, já que o primeiro sequer chega a formar sentenças inteiras. Apesar do impacto da primeira audição, onde tudo demora a deixar de ficar tão lento, “4” é um disco bem executado.

Existe ainda uma divisão bem evidente, de ordem cronológica. A primeira metade de “4” é toda de melancolia em excesso e, em alguns momentos, chega ao exagero de ter segundos de silêncio. É onde se encontra um Los Hermanos mais à vontade e até mais criativo. Com excessão de “Paquetá”, música perto de uma valsa, essa primeira parte tem uma caracterísitica saudável. Ponto para a banda, que vai evitar frases de efeito nesse trabalho. A segunda metade chega com uma sensação forte de obrigação. Músicas animadas e letras fáceis. É nessa leva que está “O Vento”, de trabalho que está tocando nas rádios. E o provavel é que saiam daí os principais sucessos em clipe e shows.

Publicado originalmente em 30.07.05

MTV Apresenta Otto

De braços abertos em pose de cristo, usando uma manta bege, colares e seu tradicional óculos escuros, Otto coloca Pernambuco no mapa do projeto “Apresenta” da MTV. O show-DVD, gravado no Avenida Club, em São Paulo, deve entrar como uma das peças mais ambíguas da carreira do cantor. Ambígua porque existem duas maneiras bem claras de se ver o material, uma apenas como show, outra como DVD para guardar em casa. E uma delas não é uma opção muito boa.

Com alguns dos melhores talentos do Recife no palco, este “Apresenta” é, provavelmente a melhor configuração de show que Otto já fez até hoje. De longe um dos melhores repertórios, onde ele emplaca alguns sucessos esperados (“TV a Cabo” e “Bob”) e também músicas que nunca entraram nas suas apresentações (nada inédito, no entanto). Também apresenta, sem trocadilhos, um Otto que está extremamente a vontade com seu lado favorito da música, que é a percussão. São quatro batuqueiros no palco.

A seqüência de abertura do show é tão bem escolhida que deveria ser usada ao vivo por, pelo menos, um semestre inteiro de apresentações. “Anjos do Asfalto”, “Lavanda” e “Tento Entender” é Otto em sua melhor forma. Em alguns momentos para de cantar, se junta a percussão e quase entra em transe. Um dos poucos músicos nacionais que consegue transmitir uma inocência grande no palco, ele consegue fazer esse transe contagiar.

Mas do ótimo, o DVD “Apresenta” cai para o regular no quesito imagem. O show usa o mesmo formato de cenário escuro, valorizando certas cores, usado no recém lançado Simoninha canta Jorge Ben, que chega desgastado pela repetição. Mostra também um público que responde pouco as músicas, não dança, não mostra comoção. Em certo hora, num momento de refrão de música, a câmera vira para mostrar a desnecessária cena de um grupo de amigos bebendo próximo ao palco.

E é provavelmente este dedo da MTV que deixa o disco tão subaproveitado. As câmeras são muito pouco a nada ousadas, com uso excessivo de plano americano (aquele que filma da cintura até a cabeça) no músico. Um contraste enorme, por exemplo, ao DVD da Nação Zumbi, que é rico em arte e planos criativos. Além de cenas desnecessárias, como a esposa de Otto, que é filmada mais de três vezes. A salvação vem no único extra, uma entrevista com cenas interessantes de ensaio.

Publicado originalmente em 23.07.05

Nine Inch Nails – With Teeth

Poucas bandas têm a competência do Nine Inch Nails para soar depressiva sem que o som pareça rasteiro ou bobo. Qualidade que o grupo liderado por Trent Reznor não perdeu em “With Teeth”, sexto disco que chega agora nas lojas brasileiras. A verdade é que hoje (a banda estava há seis anos sem gravar), já não se precisa de tanto esforço para isso. Se prestar atenção, o legado deixado por eles se resume ao pop gótico pouco convincente do Evanescense e afetado de Marilyn Manson (referências que destacam a importância de se ouvir este novo disco).

São 13 músicas, que marcam a fase mais calma da banda. Estão presentes todas as fases da banda, desde o industrial ao eletrônico, tudo dosado ao excesso. No fim da equação, o resultado é mesmo a voz de Reznor, única coisa que permanece imutável na banda. Aliás, voz e texto, já que o discurso do Nine Inch Nails, ainda bem, não se alterou. O disco abre com a distorcida “All the Love in The World”, que esconde as remixagens que dão o tom das outras músicas.

O segundo ponto alto é quando Dave Grohl, do Foo Fighters, aparece na bateria de “You Know What You Are?”, trazendo energia que também se confunde com o que está por vir. Por um triste acaso, as duas músicas abrem o repertório, o que pode enganar um pouco a primeira impressão do CD. De resto, “With Teeth” é disco médio, bom de ouvir, mas que adiciona muito pouco para quem é fã ou quer conhecer a banda. Principalmente no cenário de bandas como Linkin Park, responsáveis por grande parte do novo público que precisava de um lançamento desses em sua coleção.

Assim, Nine Inch Nails perde a oportunidade de educar essa nova geração para assumir uma posição de “velhos” e “exóticos”, desses que todo mundo vai procurar escutar para poder dizer que está naquela desde o começo. O que reforça a questão de exigência. Para quem estava há tanto tempo sem dar as caras, se esperava, pelo menos, algo no mesmo nível. Talvez por medo da associação com essa nova fase do rock industrial, Trent Reznor volta tímido e até mesmo cansado.