Category: Discos

Recebo uma tonelada de discos, baixo outra tonelada. Aqui eu posso escrever com mais tranquilidade

Kings of Leon: Aha Shake Heartbreak

Se as lojas de discos fossem perfeitas e as prateleiras descrevessem o gênero ideal das músicas, “Aha Shake Heartbraker”, novo disco do Kings of Leon, estaria na seção “trilhas sonoras para uma tarde longa”. A reunião de guitarras e baixos repetitivos, em clima do retrô-moderno em alta (The Strokes, White Stripes, etc), não pode ser apreciada às pressas ou correndo pelas faixas. Segundo disco do quarteto de irmãos americanos mostra que eles agora estão muito mais seguros onde pisam, o rock’n’roll cru que conquistou as paradas da MTV.

“Slow Night, so Long”, música que abre o disco, vende o material de cara. Tem a velocidade certa, com a repetição dos instrumentos em volume altíssimo, superado apenas pela voz de Caleb Followill. Mas, já na próxima, “King of the Rodeo”, a banda entrega que este ainda não é o disco da novidade. Assim como o primeiro “Youth & Young Manhood”, eles continuam forte nas notas puxadas do rock sulista americano.

Apesar de transparecer uma qualidade que dificilmente é atribuída a um grupo com faixa etária média de 22 anos (eles soam bem mais velhos), o disco tem seus momentos baixos. Duas faixas, “Milk” e “Day Old Blues” mostram que o Kings of Leon não tem potencial para ser melancólico. Bem destoante do restante do CD, as músicas comprometem o trabalho final, mas estão longe de mostrar uma tendência futura da banda tentar mudar de identidade.

A falta de novidade aqui cai bem melhor como uma demonstração de estabilidade. O susto do primeiro disco do Kings of Leon foi tanto que as previsões eram duas: salvação da música ou carreira curta. A passos curtos, eles preferiram aproveitar ainda o clima de receptividade positiva e gravar um disco modesto o suficiente para não passar despercebido.

New Order: Waiting for The Sirens Call

Uma curiosidade em se falar do novo disco do New Order é que a associação da banda com os anos 80 é tanta, que parece que eles estão realmente a 20 anos sem gravar nada depois de sucessos como “Bizarre Love Triangle”. Longe da verdade, o grupo inglês é o único sobrevivente daquela safra que tem boa parte da discografia lançada na década de 90. Por isso, “espanto” está longe de ser o melhor adjetivo para associar a enorme qualidade do novo “Waiting for the Siren’s Call”, que só chega agora no Brasil com o atraso de praxe.

O disco abre com “Who’s Joe”, quase uma sequência do que se ouvia no disco anterior “Get Ready”. Nas dez faixas que seguem, mostram uma evolução bem clara no trabalho das músicas, que conseguem manter o mesmo clima da década de 80 sem soar saudosista. Boa parte disso se dá aos esforços de Phil Cunningham, novo tecladista que faz sua estréia no disco. Seu instrumento é não menos que fundamental numa banda como o New Order, e é ele mesmo que coloca um pé moderno no som.

Para os fãs, basta dizer que este é o melhor trabalho do grupo desde Republic, albúm de 93 que foi responsável pela maior estouro da banda. Para quem não conhece, cabe explicar então que “…Siren’s Call” mostra a evolução que bandas mais jovens, como o Strokes, White Stripes e Libertines, devem se apoiar. Façanha exclusiva do New Order, que com 24 anos de estrada, consegue continuar ditanto regra tanto para o velho, quanto para o novo.

Publicado originalmente em 10.05.05

Bonsucesso Samba Clube

Atenção: Isso aqui não é nem resenha, nem crítica, nem nada. É um texto velho do meu blog antigo, que postei aqui apenas de teste. Não tomem o que está escrito como uma opinião crítica minha. Foram só coisas que escrevi a medida que surgiram na cabeça.

Algumas bandas conseguem criar uma imagem maior que o próprio trabalho. A Bonsucesso Samba Clube conseguiu isso junto com a Eddie, ao transformar em música um discurso que a cidade de Olinda era bastante carente. Isso nem sempre é bom. Não é bom porque o público, geralmente, acaba esperando bem mais, uma sequência do clichê “o samba chegou / original olinda style”. O CD da banda chegou hoje no jornal em nome de outra pessoa, que acabou me entregando no horário de maior correria e barulho. Fugi para escutar com calma. Senti que perdi meu tempo.

“Tem arte na barbearia” é um disquinho sem muita comoção. A banda costuma dizer que começou mais bossa e parece que estão querendo voltar para lá. Ruim, para quem lança um CD na véspera do carnaval. Acho que a melhor analogia a fazer é que, escutando o primeiro disco da banda, a gente sentia que algo estava acontecendo ali. Era um som bom, mesmo que não fosse novo. Tinha um texto local, que se recita sorrindo com o tamanho da verdade. Este caminha pela contramão.

A banda está se garantindo mais nos instrumentos. A gente não escuta efeito, nem rebite nenhum na música. Isso é bom. Mas eles aproveitam para diminuir o volume num ponto que fica dificil pensar em um show com repertório que cante a Bonsucesso de antes e depois. Tirando uma faixa que chamou atenção, o resto parece ser bem preguiçoso.

Não gosto dessa cena de Olinda. Tudo me parece muito decadente, eles não articulam um site, não soltam uma mp3, não fecham um show decente. Isso porque nesse samba jovem, Pernambuco só tem espaço mesmo para Mundo Livre. Estas outras tem uma função mais social. Tomar cerveja é pretexto para jogar conversa fora, ouvir Bonsucesso é pretexto para tomar cerveja. Logo, você escuta baixinho, de fundo enquanto joga conversa fora.