Category: Discos

Recebo uma tonelada de discos, baixo outra tonelada. Aqui eu posso escrever com mais tranquilidade

Orquestra Contemporânea de Olinda

Quem conhece a música que é feita em Pernambuco percebe com facilidade como a cidade de Olinda emula noções de um gênero próprio. Existe uma estética própria que vai muito além da música unindo bandas como a Eddie e o Bonsucesso Sambaclube. Dois casos onde explicar a cidade é muito mais fácil que dizer que tipo de música que eles tocam. Parece complexo, mas é só mais um daqueles casos só-vendo-pra-entender. De um certo modo, é a música feita por essas bandas que se espera ouvir quando falamos que determinado grupo vem daqui.

E é exatamente por isso que qualquer mudança significativa na música daqui vai vir de uma dessas bandas. Sem muito alarde, a Orquestra Contemporânea de Olinda começou o fim de semana avisando que o primeiro disco já está pronto e vai ter lançamento pelo selo Som Livre Apresenta. Eles fizeram um dos melhores shows no Abril Pro Rock do ano passado, mas como não tinham nada lançado da maneira tradicional, acabaram não criando tanto barulho na cidade (em comparação a, por exemplo, um Vitor Araújo ou como a própria Academia da Berlinda fez quando lançou disco), mas emendaram com ótimos shows tanto no Festival de Inverno de Garanhuns quanto no Recbeat desse ano.

Essa é a primeira mudança. A Orquestra desafia o agendamento que tranqüiliza a vida dos jornalistas. Ninguém estava mandando release para avisar que eles estavam trabalhando. Sinal de que acompanhar uma cena local já exige muito mais trabalho (que na minha opinião, ainda não é feito). E Mombojó, Nação Zumbi e Vitor Araújo a parte, essa notícia é do tipo bombástica. Som Livre, para quem não se tocou ainda, é a maior gravadora nacional em atividade, a única que não está choramingando por crise. Afinal, funciona dentro da maior rede de comunicação do país, a Globo.

A união é perfeita, porque a Som Livre também desafia esse mesmo agendamento. Eles mandam CD e até marcam entrevistas, mas seus artistas ainda estão presos num limbo entre o independente e o mainstream. Não tocam na novela, nem estão nos festivais. Melhor exemplo para observar é a excelente dupla gaúcha Tom Bloch. É natural esperar uma grande estratégia de Marketing, considerando a quem eles respondem, mas em termos de estratégia, o selo parece ser muito mais cauteloso que qualquer Deckdisc ou Biscoito Fino.

Na verdade eles estão legitimando o modo de trabalho em que o artista precisa fazer um pouco mais do que apenas tocar (algo que ainda é confuso entre os independentes). E com uma música que é consciente da delimitação geográfica que faz parte, mas despida de qualquer clichê do mesmo, a Orquestra (fundada por Gilsinho, ex Bonsucesso Samba Clube) tem agora além de potencial, ferramenta para ir além desse nível dos festivais.

Só esbarram um pouco no azar, pelo menos em termos de momento mercado. A música que eles tocam está na maior fase de divas, enquanto na orquestra estão doze homens. É verdade que uma voz feminina, em termos estéticos, acrescentaria muito pouco as atuais composições (o que é natural, afinal, foram compostas para voz masculina), mas os parâmetros para estar na televisão ou numa trilha sonora são sempre baseados em termos esquisitos. Do tipo “queremos lançar uma nova diva”.

Falamos de momento, claro. Nada que a banda não tenha mostrado ainda que sabe trabalhar muito bem. Não precisamos esperar chegar dezembro para destacar o que deve ser o melhor disco lançado em Pernambuco em 2008. Até lá, é só para constatar se essa será mesmo a nova maior banda. Sem trocadilho com a quantidade de integrantes.

No MySpace da banda dá para ouvir seis músicas. Mas nada de downloads por enquanto.

3naMassa – Na Confraria das Sedutoras

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O amor sempre foi o tópico mais recorrente na música popular. Ouvindo algumas canções, é possível observar como o homem vai ficando mais frio, mais permissivo e seus valores em relação ao sentimento mudam com o tempo. Nossa época é muito peculiar para pensar no assunto, principalmente quando a sensualidade é trazida em destaque. Nada mais é explicito e a tensão sexual deixou de ser uma negociação de olhares e carícias entre homem e mulher para ser uma simples questão de tempo. Pupillo e Dengue, ambos da Nação Zumbi, junto com Rica Amabis (Instituto) desafiam um pouco desse contexto, reformulando o conceito do sensual no formato da banda 3naMassa. E o que era apenas projeto paralelo ganha agora disco e tratamento refinado pela Deckdisc.

Eu acho que a sensualidade ainda existe sim na música brasileira“, comenta Pupillo, que recentemente passou a grafar o apelido um L a mais. Coisa de artista. É no mínimo curioso imaginar que fazer parte da mais bem sucedida banda do cenário independente ainda não permite que eles mudem seu “modus operandi” de outras que ainda estão arriscando ao se mudar para São Paulo. “Foi uma coisa pensada por nós três mesmo, a gente divide apartamento aqui em São Paulo e ficávamos pensando em fazer algo bem diferente mesmo“, contextualiza, “Só com meninas.” Talvez ele nem perceba a malícia inteira que se esconde ao associar mulheres já adultas com meninas, um dos grandes segredos desse disco.

Acho que isso é aflora no disco porque estávamos muito preocupados com a interpretação, como se a gente tivesse invadindo a vida íntima de uma menina“, explica. Além dos três, a massa também tem letras de Jorge du Peixe (Nação Zumbi), Junio Barreto, Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Bacteria (Mundo Livre), Felipe S e Marcelo Campelo (Mombojó), China e o jornalista Alex Antunes. “Chamamos nossos amigos e pedimos que eles escrevessem as músicas como se fossem meninas, tentando pensar dessa forma“, conta o baterista, “Pensamos em algo temático, como uma trilha de um filme que não foi feito“.

As “meninas”, na verdade, são um time de primeira divisão. Leandra Leal, Thalma de Freitas, Céu, Karine Carvalho, Pitty, Simone Spoladore, Nina Becker, Cyz, Alice Braga Geanine, Nina Miranda, Karina Falcão e Lurdes da Luz. Algumas, os mais atentos vão perceber, são as respectivas dos próprios compositores. Pensando sempre nesse conceito de cinema, Pupillo se refere a elas sempre como atrizes. “Lógico que tem ótimas cantoras ali, mas as chamamos também por serem mais descompromissadas com técnicas vocais, isso era fundamental para o que a gente dirigiu em estúdio, de uma sensualidade sem ser vulgar, deixada na entrelinha“.

Já de cara, na primeira faixa, com Leandra Leal sussurrando em francês nos ouvidos, saltam as referências a Serge Gainsbourg. “A gente tava ouvindo muito ele em casa e como foi um disco feito em casa mesmo…“, conta Pupillo. “Fomos usando imagens de coisas que a gente curte para elas, então foram desenvolvendo novos temas, todo mundo participou trocando idéias, então foi muito fácil principalmente para as atrizes“, completa. Apesar do saudosismo carregar a memória direto para a França dos anos 60, existe algo de mais contemporâneo, principalmente na forma como cada cantora (aliás, atriz) é usada de forma diferente nas faixas. Quase como uma versão brasileira para a banda inglesa de trip hop Massive Attack.

Agora que saiu da sala de casa, o 3naMassa além de disco já começa a planejar os primeiros shows. “A idéia era fazer uma trilha, mas queremos levar isso para frente mesmo“, adianta Pupillo. “No lançamento aqui em São Paulo vamos tentar ter o máximo de atrizes no palco, mas a idéia é viajar com algo mais enxuto“, explica. “A coluna vertebral somos nós três mesmo“. Se já é perigoso ouvir a banda com um fone, com todas essas mulheres sussurrando no ouvido, depois da primeira impressão é inevitável não pensar no tamanho charme que deve ser com essas músicas ao vivo.

N’Zambi – Kaya, mas se Oriente

Muito antes da experiência de ouvir, apenas contemplar o primeiro disco da banda N’Zambi já é algo que causa um pouco de fascínio. Fascínio de se perguntar quanto tempo faz que o Recife ensaia uma das mais promissoras cenas de reggae do País, com shows sempre lotados e uma grande quantidade de opções de bandas locais. Todas, até agora, presas entre o momento mais mambembe de ensaios em garagem e pouca postura profissional. “Kaya Mas se Oriente” rompe um pouco do conceito de “cartão de visitas” para virar também um grito de liberdade. O reggae pernambucano agora brinca como gente grande.

No detalhe das 12 faixas, está um disco simples, mas muito bem acabado. O N’Zambi sempre esteve no olho do furacão dessa cena reggae local e aproveitou alguns visitantes ilustres que a cidade recebeu para rechear esse primeiro trabalho. Quem assina a produção do CD é o guitarrista da banda Ponto de Equilíbrio – principal novo nome do gênero hoje no Brasil – Ras André. Além dele, que toca também na música “Canto ao Alto”, estão presentes também o tecladista da Ponto de Equlíbrio Thiago e, de Cabo Verde, o músico Tchida, da banda Coração di Nêgu, João Zarai (Massativa) e a cantora Carla D’Anunciação.

Natural de um primeiro disco, o N’Zambi ainda peca um pouco em detalhes que saltam aos olhos. Como resumir algumas poesias das músicas a trocadilhos com o vocabulário do reggae (caso da primeira música, que também batiza o disco). Não por acaso, eles mostram seu melhor momento quando deixam de lado essas referências e cantam sobre uma realidade própria. George de Souza (voz), Gustavo Bola (guitarra), Diego Ilarráz (baixo), Mauro Delê (percussão) e Paulo “Baba” Ricardo (bateria) fazem um divertido e curioso reposicionamento da Várzea no Grande Recife a partir de experiências próprias. E como dita a antiga regra das aldeias globais, cantar sobre sua aldeia é cantar sobre o mundo.

“Kaya, Mas se Oriente” é lançado em formato SMD. Um disco que usa apenas a parte metálica gravada, diminuindo os custos de prensagem (com um encarte-revista, o do N’Zambi sai a R$ 6), iniciativa que apesar de elogiada, tem sido pouco usada por bandas de Pernambuco (o Rabecado foi outro grupo que também usou o SMD). O preço também coloca a banda com os pés no chão de quem quer se posicionar bem nacionalmente. A ambição do N’Zambi também é de gente grande e esse disco pode ser um passo fundamental para o reggae em Pernambuco passar a ter uma postura séria.

The Hives – Black and White

A febre dos rappers-produtores não poupa ninguém mesmo. Até o mundo restrito do indie rock se rende a eles no “The Black and White Album”, quarto de estúdio dos suecos do The Hives. Se antes, para chamar atenção, eles afirmavam que suas músicas eram escritas por um misterioso e desconhecido “Randy Fitzsimmons” (o sexto Hive), agora suas canções chegam carregadas pelas grifes Pharrel Williams e Timbaland. E, não deveria ser bem uma surpresa, fazem uma diferença enorme em atualizar o som da banda.

A expectativa por esse quarto disco surgiu ainda em outubro de 2007, quando “Tick Tick Boom” foi lançado como single, trilha do jogo “Madden NFL” (game de futebol americano) e da série “Survivor” (ou “O Sobrevivente” como exibido no Brasil). Ela ainda estava distante de prever o que álbum completo traria, em canções como “Puppet on a String”, tocada inteira com apenas um piano e o som de palmas; ou “A Stroll Through Hive Manor Corridors”, que usa um piano vintage com uma bateria eletrônica.

O Hives sente uma necessidade maior de experimentar, mas a banda continua com o mesmo nervosismo punk-garagem em suas músicas. Isso é inegável em “We All Right!” e “T.H.E.H.I.V.E.S.”, as duas faixas produzidas por Pharrel Williams (do grupo N*E*R*D*). No estúdio, eles chegaram a gravar cerca de 30 músicas, para chegar ao veredicto das 14 faixas escolhidas para o “The Black and White Album”, título que faz referência a obsessão da banda em sempre se vestir em preto e branco.

Como bom produto do século XXI, o melhor do disco não está em nenhuma dessas músicas, mas nas faixas bônus que o Hives espalhou pela Internet. “Fall is Just Something Grownups Invented”, que chegou a aparecer em comerciais do Cartoon Network e “I Can’t Just Give It To You” podem ser compradas – ou encontradas de graça com a ajuda de um jeitinho amigo – e mostram os suecos em sua melhor fase. Cheios de energia e recheados de refrões viciantes.

Eddie Vedder – Into the Wild

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Uma das piadas mais recorrentes ao grunge era a que seus fundadores não eram lá muito bons das idéias. Como uma espécie de punk reinventado na forma de adolescentes que não sabiam tocar ou cantar, fazendo barulho e muitas vezes chamando mais atenção pelas roupas – aqui, as grandes blusas xadrez – que pela música propriamente dita. Quase 20 anos se passaram para que um desses adolescentes, Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, se mostrasse um dos grandes cancionistas do novo século.

Vedder fez a trilha sonora para “Into the Wild“, filme de Sean Penn sobre um jovem bem sucedido na vida que decide morar na floresta. A história é baseada na vida real de Christopher McCandless, curiosamente passada no ano de 1992, época em que o Pearl Jam lançou seu mais importante disco, o aclamado “Ten“. E se a voz barítona do vocalista da banda não servia como trilha sonora para aquele momento, ela agora ressurge em canções Folk que remetem muito a Neil Young (com quem Vedder já gravou disco) e um pouco ainda a Bob Dylan. É tão diferente do que se espera, que impressiona.

Pensado como uma trilha sonora, o disco solo de Eddie Vedder tem um tom cinematográfico. “Setting Forth“, primeira das 11 músicas do repertório, soa exatamente como a abertura de um grande clássico do cinema. Aliás, chamar esse trabalho de solo seria uma grande injustiça, porque ele é acompanhado na maior parte do tempo pelo violão de Sleater-Kinney Corin Tucker, que também faz backing vocal em “Hard Sun“, num belo “um contra um” de instrumentos e vozes.

Diferente do grunge, esse é um disco de som limpo, quase cristalino. É mais simples, sem a raiva tradicional que acompanhava suas antigas letras. O violão as vezes dá espaço para o banjo e outros instrumentos comuns ao folk. “No Ceiling” e “Society” são exemplos extremos dessa face até então desconhecida de Eddie Vedder, em canções curtas e – na maior colaboração de seus anos de Pearl Jam – recheadas de conteúdo. De certa forma, Vedder conta sua própria versão para a história, romantizada também pelo escrito Jon Krakauer.