Category: Reportagens

Reportagens, entrevista, resenhas, coberturas. Textos selecionados da minha produção diária no jornal.

Nação Zumbi com Fome de Tudo

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Nas últimas semanas, a imprensa oficial e não-oficial de todo o mundo descarregou uma tonelada de informação (muitas repetidas) sobre o tão aguardado sétimo disco do grupo inglês Radiohead. No Brasil, talvez um único lançamento este ano tenha a mesma capacidade para criar igual movimentação entre jornalistas e entusiastas da música. “Fome de Tudo”, também sétimo disco, só que da Nação Zumbi. A data oficial de lançamento, segundo a Deckdisc, nova gravadora da Banda, é dia 25 de outubro. Mas você fica sabendo de tudo primeiro aqui.

FOME DE TUDO | Faixa a Faixa• “Bossa Nostra”

• “Infeste”

• “Carnaval”

• “Inferno”

• “Nascedouro”

• “Onde Tenho Que Ir”

• “Assustado”

• “Fome de Tudo”

• “Toda Surdez Será Castigada”

• “A Culpa”

• “Originais do Sonho”

• “No Olimpo”

Como ainda não pode ser ouvido, ninguém melhor que Jorge Du Peixe, vocalista da Nação, para explicar o que está por vir. A conversa foi um dia antes do show que a banda fez no PE Music Festival. “A fome percorre o disco em várias músicas”, explica, avisando que apesar da referencia este é um dos primeiros discos que eles gravam sem um conceito fixo. “Eu gosto de brincar com as letras, com o som da banda, mas ter que explicar é sempre um saco. Um pintor nunca explica porque escolheu um tom de azul, por exemplo”, diz o músico que, apesar da declaração, já nos explica bastante.

O disco agora está bem mais orgânico que o Futura, não usamos tantos samplers. Quer dizer, eles estão lá, mas como algo ambiente”, adianta. “A capa é um corpo de mulher com uma faca numa mão e um garfo na outra, meio que uma ‘Senhora Fome’”, diz Peixe, que assim como no disco passado é o autor da arte da capa. Outra diferença é que “Fome de Tudo”, que será lançado em Digipack – formato de papel grosso que valoriza mais o encarte – e terá todas as letras. A banda tentou suprir elas no “Futura” para experimentar mais o site, resultado que acabou sendo pouco positivo.

A intenção é dinamizar mais o site”, conta Jorge Du Peixe. “Quem está fazendo é o Ricardo Magrão, que já tinha feito clipes nossos e tem mais trabalhos em outros encartes”, conta. Segundo o vocalista, a idéia é usar muitos links externos em sites como Youtube e MySpace, para que tenha sempre conteúdo novo para quem visite. Uma prévia já pode ser vista no endereço www.fomedetudo.com. A música que toca em loop de fundo é a introdução de “Inferno”, já do novo disco.

O disco vai ter 12 faixas, num total de 47 minutos, e deve chegar nas lojas com tiragem de 20 mil exemplares (o dobro do “Futura”), custando R$ 24,90. “A diferença é algo primordial para a Nação, por isso os discos têm que ser diferentes. É complicado explicar as músicas novas porque ainda estamos muito dentro do processo do estúdio”, explica Du Peixe. “Fome de Tudo” foi gravado inteiro em nove dias, tempo recorde da Nação Zumbi, “a bateria foi toda gravada em um dia”, conta.

A produção é do norte-americano Mario Caldato Jr, responsável por quase todos os discos do Beastie Boys, além de artistas brasileiros como Marcelo D2 e Bebel Gilberto. “Mário é que conseguiu tirar os melhores sons de tambor até hoje, tinha feito isso no disco do Soulfly e fez de novo conosco”, comenta Du Peixe, que diz não ter ouvido nenhuma outra música enquanto fazia o disco para não sofrer influências. “Só hip hop mais underground, eu sabia que não ia ter nada disso lá mesmo”, diz. “Isso e uns vinis de frevo que comprei no sebo. Quando bate o banzo [saudade] do Recife, só Expedito Baratcho para salvar”, conta ele que também está baixando cada vez menos música na Internet, “é muita coisa, quase não dá para escutar nada direito”.

Alguns dos nomes das 12 faixas de “Fome de Tudo” já foram revelados, assim como participações especiais. “Colocamos Céu no Inferno”, diz sorrindo, sobre a música “Inferno”, que tem participação da paulistana Céu. Júnio Barreto participa em “Toda Surdez Será Castigada” e Money Mark, tecladista do Beastie Boys, também está no disco. “Ele fez uma participação rápida, mas muito eficiente, a convite do próprio Mario”, conta. Outra participação de destaque é do Maestro Ademir Araújo na música “Nascedouro”, feita antes de saber que o próprio seria homenageado no Carnaval de 2008.

Falando em festa, a turnê de “Fome de Tudo” está marcada para começar em novembro, em São Paulo. Nação Zumbi só deve passar pela cidade natal no mês seguinte, em dezembro, encerrando um ciclo de exato um ano de shows no Recife com o repertorio do “Futura”. O novo disco, agora na Deckdisc, foi feito com o dobro do orçamento que o anterior teve disponível na gravadora passada, a Trama. Informação que fica de cereja no bolo de tantas novidades.

Uma coletiva de imprensa foi marcada para o dia 30 de outubro, em São Paulo, onde será feito o anuncio oficial do disco e de todas as novidades que a banda preparara na nova casa para o ano de 2008. Aqui, você já escuta a primeira música do repertório “Bossa Nostra”, com participação do Money Mark dos Beastie Boys.

No box acima, você já confere o nome de todas as músicas e a ordem do repertório do disco. Abaixo, já pode escutar a música “Bossa Nostra”, com participação de Money Mark, dos Beastie Boys.

E mais Coquetel Molotov

Há mais ou menos três meses, entrei bebado na piscina com meu celular. Ele voltou a funcionar tem poucos dias, não sei como (talvez se eu tivesse testado antes, ele teria voltado antes :P). Para comemorar e testar as funções, fiz umas entrevistas no Coquetel Molotov. Acabou ficando legal! A música da Vamoz, que toca no começo, é a “Target of Rock” e não aquela que diz no final.

Edição surpreendente, essa última do festival, hein? Acho que o show do Love is All na primeira noite foi o mais representativo. Uma banda que ninguém conhece, ninguém estava falando, não apareceu em canto nenhum desde que foi anunciada, mas com o público inteiro desesperado na frente do palco, dançando e até arriscando cantar. Receptividade como não se via no Recife já tem bastante tempo.

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Representativo, mas não bastou isso. Na segunda noite, recorde de público antes da metade do festival. Os ingressos esgotaram e as pessoas não param de chegar mesmo assim. Fila como nunca se vê no teatro da UFPE. Se não fosse proibido ultrapassar, eu arriscaria que tinha mais gente do que cabe no teatro. Gente da cidade falando que aquela era a primeira vez que estava indo para Coquetel Molotov, gente de outros estados (Bahia, João Pessoa, Natal, etc), que disse nunca ter vindo antes ao Recife. Realmente, algo surpreendente.

Quando o Coquetel Molotov começou, era um festival esquisito. Hoje, parece que sua fase de transição passou e agora é difícil imaginar como a cidade era antes. No final da banda Vamoz! um menino que não devia ter passado dos 16 reclamava com os amigos dizendo “que absurdo! Viu o que o vocalista falou no palco? Que era um show de rock, eu sai na mesma hora que ele avisou”. Novos tempos, novos públicos. Mesmo com um som deficiente – muito deficiente, pelo que parece, esqueceram de tirar a regulação do Nouvelle Vague qdo começaram os show – a Vamoz fez bonito. Detalhe que o público nem sempre repara, ainda mais com a presença de palco super profissional do trio.

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Nessa hora, deixei de ver os shows para fazer essas entrevistas do video. Vi duas músicas só do Wado e pareceu tão bom quanto estava deslocado. Era a atração que mais trazia informação nas músicas, coisa que o público realmente não conseguiu processar. Quem curtiu, tem a boa nova de que ele já tem um novo show marcado na cidade, junto com a elogiada Inquilinus. Coloco os detalhes aqui em breve. O clima por trás do palco era muito, mas muito agitado. Alguns vários convidados assistiam o show de Cibelle por trás do palco, todos vidrados, sem tirar os olhos dela. O cineasta Leo Falcão ficava no laptop cuidando do telão que projetava imagens.

Estavam todos lá. O pessoal do Supercordas, do Love is All, as meninas do Hello Saferide e o Suburban Kids with Biblical Names. O clima era de confraternização, junto com gente de outras bandas da cidade, alguns jornalistas de fora da cidade que estavam cobrindo o evento. Quando começou o Nouvelle Vague, parecia uma festa inteira a parte, menor apenas da catarse causada no público que, tá ok, talvez nem soubesse o que era o Bauhaus, mas entrou no clima nas versões sempre deliciosas que a banda francesa faz das músicas. Fiquei pensando até onde aquilo era um cover de luxo, até passar a pensar o quanto eu estava pensando bobagem. :P


No segundo dia, o karaokê indie armado pela patrocinadora Tim tinha virado atração-mor do festival. Até os caras do Love is All ficavam assistindo as perolas do público. Tudo só aumentava a zona livre do festival, que dava proporção de que aquela era mesmo a edição mais numerosa. Perto do último show, algumas bancas de camiseta já estavam vazia.cibell.jpg


Teve bronca no bar. A polícia apareceu para proibir a venda de bebidas que estavam fazendo do lado de fora do teatro e teve até gente sendo presa. Resultado, acabou a bebida no meio da noite. O pessoal foi agil e conseguiu repor, mas por latas ainda quentes. Bronca com cerveja, aliás, é um clássico em festival de música. Com exceção do Tim Festival, onde a bebida custa mais caro que duas garrafas. Aí ninguém bebe mesmo :P

Rupturas na cena do Recife

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Para o acadêmico Howard Becker, os grupos sociais são criados a partir de regras, cujas infrações constituem um desvio comportamental aplicadas a um grupo. Ou seja, o outisder – aquele fora do padrão de comportamento – não é o individuo, mas sim a forma como as várias pessoas se comportam a partir de suas transgressões. Sob quase todos esses aspectos, o grupo de produtores – geralmente chamados de coletivo – do Coquetel Molotov são os mais sinceros novos outisders gerados em Pernambuco.

Em 2004, ano que aconteceu seu primeiro festival, o público de música jovem e “tradicionalmente alternativa” do estado tinha duas opções de diversão. O festival Abril pro Rock, no mês que carrega no nome, e o palco pop do Carnaval, chamado Rec Beat. Ambos, em suas histórias, com o apoio conquistado da mídia tradicional como rádio e tv. Até então, uma banda como a escocesa Teenage Fanclub não tinha motivo para ser comentada na cidade. Seus fãs, esses próprios uma representação social fora do comportamento comum, jamais imaginariam vê-los ao vivo no Recife.

“Tivemos a oportunidade de trazer a banda e pensamos que seria legal montar um festival para isso”, lembra uma das pontas de uma pirâmide que muda constantemente de posição, Ana Garcia. Naquele tempo, o grupo de estudantes de jornalismo que tinha se conhecido na Universidade Católica de Pernambuco apresentava um programa de rádio – como extensão das atividades universitárias – e distribuía um fanzine de papel pela cidade. Outras bandas, que tinham como referência não apenas a escocesa, mas outros grupos de fora do circuito de rádios, também jamais pensariam fazer parte de um festival. “Profiterolis e Mellotrons só tinham demos, nunca tinha tocado além de festas pequenas”, comenta Ana.

Foi o mesmo período que o grupo decidiu lançar um site. “Acho que quando as pessoas se referem a nós como coletivo, falam de um coletivo de atividades diferentes”, reflete o jornalista Jarmeson de Lima. Hoje, além dele e Ana Garcia, o grupo também é formado pela jornalista e mestre em comunicação social Tathianna Nunes. Outros membros entraram e saíram ao longo dos anos, “mas na verdade não são apenas três pessoas, porque trabalhos juntos à Mooz, uma equipe de designers, e nossas famílias que também participam das nossas produções”, reforça Ana. Seus pais, o maestro Rafael Garcia e a pianista Ana Altino são os responsáveis pelo festival Virtuosi, que acontece há 10 anos no Recife.

A partir deste momento, o grupo começou a tomar proporção na cidade. Bastante similar ao que o sociólogo Dick Hebdige delimita quando dá o conceito de subculturas, foi criada uma tensão fundamental entre aqueles no poder para fazer algo acontecer no Recife e aqueles que até então eram condenados – nas palavras de seu “Subculture: the meaning of style” – a vidas de segunda classe. “Foi tudo muito natural, começamos fazendo algo com bandas que nos gostávamos e foram aparecendo outras pessoas”, comenta Tathianna. “Uma cena não nasce de uma pessoa só, é preciso pré-disposição para isso, com várias coisas funcionando ao mesmo tempo”, completa Jarmeson.

Várias coisas sim, quase todas partidas do próprio Coquetel Molotov. Hoje o grupo tem controle sobre a fomentação de seu próprio publico, organizado shows mensais na Livraria Saraiva, um programa de rádio semanal na Universitária FM, uma revista trimestral, o festival, um selo para lançar e distribuir bandas (Bazuka discos) e um circuito de shows anuais chamados “Invasão Sueca”, onde trazem bandas da Suécia para turnês no sudeste do Brasil. Paralelamente, passaram a fazer também assessoria de imprensa para os festivais Virtuosi e Recbeat. Por fim, também estão começando a organizar eventos em casas noturnas da cidade.

O Coquetel Molotov vira então exemplo para a própria crítica de Michel Thorton ao conceito de subcultura de Dick Hebdige, quando entram no campo da desterritorialização. As ações do grupo de produtores não é mais uma subversão do fluxo principal da cultura. A participação do público nos eventos do coquetel não é para gerar oposição a outros eventos, mas para construir um coletivo próprio. “A carência da cidade é tão grande que quase não temos críticas”, confirma Tathianna.

Uma das poucas críticas relevantes feitas ao trabalho do grupo é a programação – do festival e da rádio – baseado em bandas que estão fora do alcance para quem não tem acesso, por exemplo, a Internet. “Sempre nos colocamos como público, então trazemos bandas que queremos ver, mas em determinado momento sentimos necessidade de pesquisar por mais coisas e com isso os gostos vão mudando naturalmente”, explica Ana Garcia. Apesar da crítica ter seu valor, os produtos do Coquetel Molotov têm a participação de artistas nacionais numa proporção ainda superior aos de fora.

A contrapartida que o Coquetel aponta para a questão é que existe um aproveitamento das bandas que vem de fora. “Trouxemos o Berg San Niples para o festival, marcamos uma data também em São Paulo e eles acabaram sendo convidados para fazer a trilha sonora de um dos desfiles da São Paulo Fashion Week”, comenta Ana Garcia. As trocas também funcionam para as bandas de Pernambuco e, se antes nunca esperavam sair do circuito de festas de amigos, hoje bandas como as Backing Ballcats Barbis Vocals e Profiterolis têm um currículo com apresentações em São Paulo, são representados por um selo e conseguem até projetos em leis públicas.

Hoje o Coquetel Molotov pode ser considerado uma das potenciais produtoras de música em Pernambuco. Em 2007, pela primeira vez, o festival conseguiu o apoio do Funcultura, patrocínio gerado pela Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), além da participação privada de empresas como Redbull e Tim entre os patrocinadores do evento. Se no Recife, as ações cresceram, eles agora entram num estágio em que são menores em relação ao Brasil, não fazendo parte, por exemplo, da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin).

“Já existem novas bandas que tem o perfil do Coquetel Molotov, mas que conseguiram conquistar espaço independente de nós e isso é algo legal de se perceber”, aponta Tathianna, no que Jarmeson de Lima completa “hoje as bandas tem tomado mais iniciativas, sem esperar por festivais, vendo que as coisas podem acontecer”. E como formadora de uma nova cena, a equipe do Coquetel já aponta novas carências da cidade, “principalmente em shows internacionais que passam por São Paulo e Rio de Janeiro, mas não chegam ao Nordeste, mesmo tendo público aqui para isso”, diz Ana Garcia.

Mesmo com a nova proporção local, o Coquetel Molotov não se vê antagonista de outras cenas. “Naturalmente éramos mais fechados no começo, porque conhecíamos poucas pessoas, mas fomos amadurecendo e começando a interagir”, explica Ana Garcia. “Concorrência de mercado sempre existe, claro, mas Recife ainda tem espaço para outros eventos”, completa Jarmeson. Questões maduras, que agora fazem parte do cotidiano de um grupo que começou na tentativa de trazer uma banda que gostavam para tocar em sua cidade.

Matéria publicada na revista Continente Multicultural de setembro de 2007

Goiânia: Cidade do Rock

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Em tempos de debates sobre a cadeia produtiva da música, o Recife ainda agoniza em busca de um método de trabalho. Discos estão sendo lançados de forma aleatória e individualizada, sem aproveitamento nas rádios e no palco. Enquanto, por aqui, o CD passa a ganhar o sentido de cartão de visitas, em Goiânia, o mesmo já funciona como passaporte para bandas cada vez mais conhecidas no circuito dos festivais. À frente dessa guerrilha, a Monstro Discos lança três discos de projeção nacional.

Dos três, um é sério concorrente a disco do ano. Pop, bom de fazer acabar a pilha de qualquer som de tanto que dá vontade de repetir, o terceiro disco do Violins se chama “Tribunal Surdo”. A banda ainda não teve passagem pelo Recife, mas já começa a se aproximar do horário das atrações principais em outros palcos. Neste novo trabalho, cantado em português, eles têm 14 hits certos, o tipo de coisa que falta nas novas bandas independentes. Polêmica, “Grupo de Extermínio de Aberrações” traz o ouro do repertório, com um protesto bonito em sua complexidade, numa letra que lista os medos velados da classe média.

Os arranjos pesados e um flerte com programação eletrônica escondem o disco mais político da banda. Letras que eles também disfarçam para o desatento, em versos como “Solitária para você é ficar longe da sua mãe / mas solitária para mim é ficar vivo para te ver”. O “Tribunal Surdo” julga a todos, sem distinção de gênero, cor e nacionalidade. Passa incólume pelo batido exército americano, os loucos do manicômio e encontra conforto no anti-herói da classe média, aquele que morre para defender os bens que comprou a prestação.

De carona nas referências do Violins, a Valentina leva as influências para fora do Brasil. A banda já tocou no Abril pro Rock e traz um CD que supera, em muito, o show. Escuta-se fácil os ecos de New Order e Jesus and Mary Chains nas faixas, que tem produção de Iuri Freiberger, novo ferreiro disputado para lapidar o rock nacional. A estrada percorrida antes do disco, com shows de Brasília a Porto Alegre, fez da banda uma estréia madura suficiente para passar na peneira de grupos que começam a aparecer primeiro na Internet. Chamar atenção numa terra como Goiânia não é fácil. Como o próprio vocalista do Black Drawing Chalks, terceira banda na lista de lançamentos, já falou certa vez em entrevista, “aqui tem uma banda para cada dois habitantes”.

Das três bandas, o Black Drawing Chalks tem a estréia mais tímida. “Big Deal” tem uma sensação constante, e por vezes incômoda, de “primeiro trabalho”, ainda atirando para lados opostos entre as faixas. É possível vislumbrar o futuro da banda a partir de algumas das músicas, mas não do álbum como todo. “Big Deal” é faixa que batiza o CD e, quando abre o repertório, chama a atenção. Mas entre as dez canções que seguem, acaba se perdendo muito do pique. Tudo para chegar em “Suicide Girl”, que retoma o fôlego apenas para encerrar o que poderia ter sido um bom começo de carreira.

TRABALHO SUJO
A Monstro não lança apenas os discos, também faz um trabalho constante com as bandas. À frente da gravadora, estão os produtores Leo Bigode, Leonardo Razuk e Fabrício Nobre. Este último, também é o atual presidente da Associação Brasileira dos Festivais Independentes e vocalista da MQN. “O lance é ajudar as bandas tocarem o máximo possível, se articularem via Internet e mandar material para imprensa”, explica Nobre. A lógica de trabalho, segundo ele, é simples: “show, disco, show, investir na continuidade da carreira, trabalho diário, correria, Internet, camiseta, tudo!”.

Como também estão na estrada e nos palcos, escolher quem vai se juntar ao selo vira trabalho mais fácil. Segundo Fabrício Nobre, “estamos sempre viajando e vendo as bandas em ação, além de receber discos e links o ano inteiro”. A Monstro tem um programa em uma rádio local chamado “97 Noise” e organiza os festivais Goiânia Noise e Bananada. No último, são escaladas bandas de todo o Brasil e até de fora do país, mas a atração principal de cada noite é sempre uma banda local. A formação de público é real e se comprova com vista cheia na hora dos shows.

Projeto parecidos, valores diferentes

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No ano passado, a Secretaria de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife distribuiu, através do Sistema de Incentivo a Cultura (SIC), um total de R$ 329.947,48 entre 11 projetos ligados à área de música. Aproveitando a recente lista dos aprovados para este ano, a reportagem da Folha de Pernambuco foi conferir cada um dos projetos aprovados na edição anterior. Na primeira matéria dessa série (publicado dia 04/07), foi mostrada a dificuldade que alguns projetos tem em captar recursos, sinalizando uma possível mudança no perfil do sistema. Nesta, será observado os detalhes dos projetos da área de música.

No SIC, música não é apenas a área com o maior número de projetos aprovados, como é também a que tem os maiores valores. Seguido de teatro, que em 2006 aprovou dez projetos. No total, todos os aprovados somaram R$ 1,200,000 (um milhão e duzentos mil), que equivale a 1% da arrecadação do município. Parcela que ainda é considerado pouca para a maioria dos produtores, que defendem um recorte maior dessa arrecadação.

Para ter uma idéia de quanto representa este valor, consultamos o técnico de som Leonardo Domingues, do estúdio Mr. Mouse. Segundo ele, um disco com média de 12 faixas, gravado e mixado em estúdio, com uma prensagem de mil cópias, tem custo médio hoje de R$ 20 mil. O que significa que com o valor total arrecadado poderiam ter sido gravados, por exemplo, cerca de 17 CDs. Para o SIC, custos de lançamentos devem ser suprimidos, o projeto tem que ter a cultura como um fim e também uma contrapartida social.

Os 11 projetos observados tem diferenças entre os valores específicos. Os horários de gravação, por exemplo, estão custeadas entre R$ 40 e R$ 80, sendo o último valor cobrado por menos que quatro estúdios da cidade. Os mais requisitados pelos artistas que aprovam no SIC, o Fábrica e Mr.Mouse, tem valor tabelado respectivamente de R$ 70 e R$ 60, sendo sempre negociado de acordo com o cliente. Apresentam também valores diferentes para a prensagem dos CDs, serviço que só é oferecido por duas empresas, ambas cobrando o mesmo valor de R$ 4.

Segundo as regras de pontuação do SIC, esses detalhes técnicos tem peso 1 na decisão da aprovação do projeto. Para o secretário de cultura da cidade, João Roberto Peixe, “não se pode padronizar todas as áreas, cultura é algo que tem uma flexibilidade muito grande, então não teríamos como ter todos os discos ou obras de arte feitas com o mesmo valor”. A garantia que a Prefeitura pode dar é estabelecer um limite de R$ 50 mil por projeto. “Um projeto diferenciado requer um custo diferenciado por ser tecnicamente diferente, não temos como estabelecer critérios para isso”, explica.

Apesar disso, existem subjetividades relevantes entre os projetos aprovados. Enquanto o disco “Coque: Arrebentado Muros Invisíveis” pediu R$ 24.084,91 para um projeto que incluía ensaio, transporte e gravação de oito bandas diferentes, o disco “Maestro Ademir Araújo – O Mestre da Banda” conseguiu quase o dobro, R$ 49.999,09 (havia pedido R$ 71,590,79). Sem especificar transportes ou horas de ensaio, a única diferença entre os dois projetos é que o segundo previa o pagamento de direitos autorais no valor total de R$ 3 mil.

Observando os projetos concluídos, foi percebido que existe também um acumulo das funções propostas. Muitas vezes o próprio músico é o projetista, captador de recursos e, principalmente, produtor musical e executivo do projeto do disco. Situação que é comum na cadeia produtiva da música independente, quando as funções existentes no modelo de uma grande gravadora são suprimidas. No Sic, juntas, essas funções somam cerca de R$ 10 mil em quase todos os projetos.

Uma outra subjetividade delicada diz respeito a contrapartida social proposta pelos projetos. Em quase todos os projetos referentes a gravação de disco, é oferecido a doação de uma parte da prensagem. O grupo Sá Grama, por exemplo, destinou 150 cópias, de uma prensagem de 3 mil CDs, ao Instituto Social à Criança, presidido pela dama do Recife. Já o CD “Onde o Amor foi Demais”, que aprovou um valor de R$ 48.232, ofereceu a contrapartida na forma de “Gerar empregos diretos e indiretos … porque a gravação vai ser feita em nossa cidade”.

Segundo sociólogo, compositor e professor da pós graduação em sociologia da UFPE Paulo Marcondes, “a contrapartida é válida, porque o CD é o material que o artista dispõe e, apesar de ser um produto estético, é também de mercado”. Numa reflexão em primeira instância, entretanto, ele também opina que “seria mais válido que fossem determinados um número de shows pagos, com a renda revertida para essas instituições, porque hoje em dia o artista fatura verdadeiramente com o show e não com o disco”.