Category: Reportagens

Reportagens, entrevista, resenhas, coberturas. Textos selecionados da minha produção diária no jornal.

Entrevista – Lúcio Maia

Chega uma hora que toda grande banda não consegue mais dar conta de todo seu potencial criativo. São tantas idéias e propostas, que inevitavelmente seus integrantes começam a fazer projetos paralelos para dar conta de todas as vontades que sentem em se expressar musicalmente. A Nação Zumbi talvez seja um dos melhores exemplos nacionais. Praticamente todos seus integrantes – até a turma da percussão – tem projetos a parte. De todos esses, além do 3naMassa do baterista Pupilo, o Maquinado é um dos que chama mais atenção. Em entrevista ao N’Agulha, Lúcio Maia – talvez o mais polêmico de todos integrantes da Nação – falou sobre o disco novo, trabalho e música.

No Maquinado, de certa forma, você começa do zero. Dá para sentir muita diferença de um artista montando sua carreira solo agora, com o que se passa com um grupo como a Nação Zumbi? Falo em questão de conseguir shows, espaços, venda de disco, etc.

Não dá pra comparar uma banda com vinte anos de carreira pelo mundo todo com um projeto de apenas dois discos. Covardia. Claro, a Nação tem o nicho próprio do ano todo, que conquistamos com bons shows e discos condizentes. Mas sinto uma semelhança muito grande com os dois começos. Tanto a Nação quanto o Maquinado, os show são frequentados por entusiastas da música. Ou seja, gente que procura coisas diferentes. Sendo assim, posso até ter uma boa perspectiva se continuar trabalhando sério.

Os projetos paralelos da Nação Zumbi começaram todos em clima de despretensão. Mas o Maquinado agora está no segundo disco, já aparece mais em festivais, propagandas de TV, etc. Esse é um resultado maior do que o esperado?

Trabalho com isso. Tudo que faço é música e daí tiro meu ganho. O Maquinado é um planejamento de anos, desde que comecei a tocar. Seria hipocrisia entrar nesse clichê de “simplesmente aconteceu!”, que é até mentira. Corro atrás do pão todo dia senão passo fome. Nação, Maquinado, Los Sebosos, Almaz, todos são desdobramentos musicais que servem de desafio e sustento.

As escolhas para esse segundo disco proporcionam um esquema que pode circular bem mais, e com mais facilidade, pelo país em termos de shows. Em que nível de prioridade o Maquinado fica hoje na sua carreira como Músico?

Aproveito as brechas da Nação neste começo de ano, já que estamos na entresafra de disco, pra tocar o Maquinado. Tudo eu planejei desde o ano passado. Sabia que teria tempo pra me dedicar ao Maquinado. Tento colocar as coisas de forma bem aberta com meus camaradas.

Quando Du Peixe cantou uma música sua no primeiro disco, parecia que ouviamos uma música da Nação Zumbi. Só que isso não seria mais possível com as faixas atuais, que seguem uma textura totalmente diferente. Suas “ansiedades musicais” hoje estão mais para o Fome de Tudo ou para o Mundialmente Anônimo?

Nenhum dos dois, pois ambos, neste exato momento, fazem parte do passado. Minha cabeça já está organizando as próximas incursões.

Apesar da programação e dos elementros eletrônicos estarem presentes, o segundo disco é bem mais orgânico que o primeiro. Isso, de certa forma, diz muito de seu momento atual como músico. O que você andou ouvindo quando pensava no disco? E que está ouvindo agora?

Muita coisa. Nem sei dizer. Resolvi gravar um disco ao tradicional. O primeiro foi um trabalho minucioso de produção e levou dois anos pra ficar pronto e neste fiz as músicas, gravei e finalizei o disco em seis meses. Os métodos de gravação e produção é que dão o direcionamento de um album.

Com o Maquinado, de certa forma, você está tendo ainda mais experiência na cena independente do que a Nação Zumbi. O que você tem achado desse mercado atual no Brasil? Esse dos festivais, selos e bastante download?

É tudo uma merda muito grande. Os festivais não querem pagar cachês as bandas iniciantes, passagem aérea é caro pra cacete e equipamento só viaja via carga que inviabiliza tudo. Os selos independentes não tem grana nenhuma pra investir na banda e querem duzentos por cento de comissão. As rádios e canais de tv tem coragem de ramsters pra investir em cultura, principalmente música alternativa. Disco não vende. O que mais eu posso acrescentar nesse bolo de bosta?

Quem chega no Recife nem acredita, mas Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Otto e nem 3naMassa, Maquinado ou mais ninguém toca em rádio. Só que isso acontece em quase todo o país. Já tem uma geração nova da música brasileira que cresceu sem ouvir rádio, mas reclama de não tocar lá. Isso faz falta para você? Você escuta rádio?

Não ouço rádio nem vejo tv, mas tenho consciência que pra ganhar grana de verdade você tem tramitar nesses veículos de massa. Um conselho que eu dou a quem quer viver de música: esqueça o radicalismo.

Sem falar em mercado e dinheiro agora, mas de música. Do que você tem ouvido por onde passa pelo país, o que te deixa inquieto na música brasileira, tanto positiva quanto negativamente? O que está bom e o que está faltando?

Eu não pagaria um centavo pra ver um Jamaicano tocando blues ou um americano tocando polca ou um argentino fazendo reggae. Penso que o Brasil perde muito com essa falta de nacionalismo musical, no bom sentido. O samba não uma intituição e sim uma materia prima que pode sofrer moldes infinitas vezes sem perder a assência. Mas é mais fácil entrar na onda da vez e aproveitar os poucos quinze minutos. Quem empurrou a música brasileira pra frente e conseguiu tem seu lugar garantido, por menor que seja. Eu prefiro estar no dicionário da música popular que na revista caras.

Você fez parte de algo que mudou a história da música no Brasil. E o Maquinado, em sua própria forma, continua misturando referências com um resultado que parece ser novo, no sentido que a gente não escuta duas bandas iguais a sua. Quando você escuta música, faz alguma cobrança nesse sentido de inovação / ineditismo, etc?

Pra mim o ponto crucial pra gostar de uma banda é o ineditismo do som. Cópias são um saco. Tanto que não consigo gostar do Frans Ferdinand porque tenho todos os discos do Talking Heads. Se eu perceber qualquer semelhança do que faço com outra música ou banda, abandono a idéia. Não estou aqui pra dizer o que é certo ou errado. Cada um faz o que tem vontade. Mas se não fosse um curioso que pesquisasse os fungos não teríamos a penicilina…

Em 2006 eu entrevistei Lúcio Maia sobre o começo do Maquinado. Quem quiser conferir é só seguir o link.

Quem quer dinheiro?

Esse texto é parte 1 de 4 na série Álbum Virtual

Quando o baterista do Trio Mocotó, João Parahyba, descobriu sobre a existência e o resultado das ações da Rede Música Brasil, iniciou-se um grande debate entre músicos, produtores, público e jornalistas na internet. Ainda hoje, o seu texto de desabafo, publicado no site Scream & Yell (www.screamyell.com.br), acumula comentários de gente que concorda e discorda de suas considerações preocupadas com a figura do músico não ser a central na cadeia produtiva da música. Parahyba reclama que o coeficiente mais importante na equação não é o público, mas o artista.

A Rede, para quem ainda não ouviu falar dela, é uma aglutinação de todas as associações relacionadas a música existentes no país, que até então nunca dialogavam. Um esforço para unificar o discurso de gravadoras, rádios, músicos e todos os envolvidos nesse processo. O resultado obtido a partir do relatório publicado pela rede Música Brasil não é exatamente inédito. Ele apenas amplia a realidade vigente no mercado de música do país, ao pedir um aumento de políticas públicas que patrocinem a produção nacional.

Como resultado, órgãos como a Funarte ampliaram seus fundos e programas de fomento a cultura com uma atenção especial a música, igual como era feito até então com o cinema. Parahyba é categórico. Esse dinheiro vai para o produtor, que muitas vezes não paga quanto o músico gostaria – e acredita que merece – receber. Do outro lado, os produtores defendem um artista que entenda que seu valor se mede em público, e que um cachê alto só se justifica através de uma grande quantidade de ingressos vendidos. Mesmo quando o evento é patrocinado e não depende da venda de ingressos.

Mas o patrocínio público só resolve uma parte dessa complicada equação. O dinheiro chega para quem produz, sejam músicos ou produtoras, mas os discos continuam sem vendas significativas nas lojas. Os festivais também atingiram uma meta média difícil de subir entre 1,5 mil a 2 mil pessoas nos bons dias de evento. A única parcela que não entrou no troca-tapas pelo dinheiro, o público, segue desamparada. Mesmo com patrocínio, principalmente no que diz respeito a gravação de música, os discos são lançados com valores altos e inacessíveis. E se pensassem em um patrocínio pelo público?

Essa série de matérias foi publicada originalmente no jornal A Tarde.

E se patrocinarem o consumo?

Esse texto é parte 2 de 4 na série Álbum Virtual

João Marcelo, da Trama: "Tivemos sucesso com o Álbum Virtual". Foto de Rogério Alonso

Gravar, reproduzir e distribuir: o problema que as gravadoras e editoras conseguiam resolver até metade da década de 90, já deixou de ser um problema. Enquanto uma considerável parcela dos artistas brasileiros ainda estão atrás de subsídios para dar conta dessa primeira etapa do processo, a gravadora Trama comemora dois anos de um formato diferente, que aposta exatamente no patrocínio pelo consumo. O Álbum Virtual, como é chamado, tem o slogan “de graça para você, remunerado para o artista”.

Sócio fundador e atual presidente da gravadora, João Marcelo Boscolli tem sempre cuidado de responder, ao longo da entrevista, “nada contra patrocínio público”. “Fácil não é”, avalia João, que vem de uma linhagem de músicos que desenha a própria música popular brasileira – seus pais, Ronaldo Boscolli e Elis Regina, dispensam apresentações assim como a irmã, Maria Rita – “mas se você considerar que [em um ano] o mercado lançou declarados 64 álbuns, nos estamos lançando 14”.

É um modelo que está bem longe de ser inédito, como admite o próprio Boscolli. “Nada mudou desde 1928, data de lançamento do primeiro programa de jazz apresentado coast to coast nos Estados Unidos, que era patrocinado pela Nabisco”, lembra o músico. “As pessoas ouviram de graça, patrocinados por uma marca, que olham sempre audiência e envolvimento emocional das pessoas com música”. Com essa proposta, a Trama já conseguiu aproximar empresas como Volkswagen, Audi e Brandili. A última, no ramo de tecelagem, aproveitou o patrocínio para lançar uma linha de camisas de artistas novos, a Xtreme Days.

A mecânica do Álbum Virtual começou com um sistema que a gravadora lançou no site Trama Virtual chamado de “Download Remunerado”. Nele, qualquer artista que se cadastrar no site pode participar de um esquema parecido com os royalties. Supondo que o valor reunido dos patrocínios cheguem a R$ 10 mil em um mês que o site registre 100 mil downloads, cada artista receberia R$ 0,10 por download. Parece pouco a princípio, mas através de campanhas e marketing direcionado, bandas como o Dance of Days (SP), já chegou a faturar R$ 2 mil por mês no site.

“É uma das propostas mais interessantes entre as formas de se distribuir música”, comenta o produtor Fabrício Ofuji, da banda Móveis Coloniais de Acaju, que teve o disco “C_mpl_et_” lançado no formato. “Desde 2003 que o Móveis disponibiliza MP3 grauita no site, então a parceria com a Trama foi algo natural para nós”. A banda bancou uma parte da gravação do disco, que teve produção de Carlos Eduardo Miranda.

“Hoje, com mais de 500 mil músicas baixadas, acho que tivemos êxito com o Álbum Virtual”, completa o produtor, lembrando que o disco ainda foi lançado em formato físico depois. A banda usou o patrocínio para financiar versões diferenciadas do disco, como um formato digipack, que é vendido nas lojas e shows. “Acho importante essa flexibilidade”, comenta Ofuji, “é um projeto da Trama, mas pode ser usado como plataforma por outros artistas, como foi com o Macaco Bong e o Autoramas”.

“Mas é tudo muito específico de um nicho”, explica o analista de mídias sociais Luiz Rangel. “Apesar de ser um modelo com resultados positivos, seria difícil ter esses números com artistas que tem pouca relação com a internet, como um medalhão da MPB ou um forrozeiro pé-de-serra”, comenta. Rangel lembra o fato de que um grupo como o Dance of Days, e o emocore, gênero que está inserido, nasceu e existe basicamente na internet.

O Álbum Virtual opera nesse espaço, trabalhando imagens de artistas com imagens de marcas maiores. Entre os lançamentos, além de bandas que estão em sintônia com a web, como Cansei de Ser Sexy e Móveis Coloniais de Acaju, estão artistas como Ed Motta e Tom Zé. “Outros selos e gravadoras, como a Warner, estão nos apoiando e em breve iniciaremos outros lançamentos”, defende Boscolli, com a promessa de que “serão centenas”.

Em termos práticos, comparado com um programa de patrocínio como o da Petrobras, que ano passado destinou R$ 1,3 milhões para gravação de discos, os valores trabalhados pelo projeto da Trama não são tão diferente. “Temos no nosso plano operacional a meta de faturar R$ 900 mil até o final do ano”, revela Bôscolli. A ação, apesar de operar em fase de testes por dois anos, só entra em atividade comercial de fato a partir de agora, após a abertura do modelo ao público.

“Ser de nicho não é exatamente uma crítica”, complementa o analista Luiz Rangel. “O que aconteceu aqui é que uma gravadora entendeu como seu público específico funciona e encontrou uma maneira de trabalhar com ele”, complementa, com a provocação de que “o modelo pode não funcionar para outras gravadoras, mas caba a cada uma delas pensar em seu formato”.

Selos ainda não topam patrocínio

Esse texto é parte 3 de 4 na série Álbum Virtual

Escritório da Monstro Discos, em Goiânia

A banda lançada desta vez pelo Álbum Virtual se chama Pata de Elefante. Um grupo instrumental do Rio Grande do Sul que é bastante cultuado no cenário independente. Eles já passaram por festivais como Goiânia Noise, Abril Pro Rock e a Virada Cultural de São Paulo. Antes disso, os primeiros dois discos do trio teve o selo da Monstro Discos, gravadora de Goiânia que, estatísticamente comprovado, é uma das gravadoras que mais lança discos hoje no Brasil. O Retrofoguetes, da Bahia, teve seus primeiros discos lançados por lá.

Apesar de ter artistas em comum, o modelo da Trama não parece algo muito amigável para os selos que andam próximos da gravadora. “Não pensamos em operar assim não. O esquema é muito legal e tal, mas acho que não é o jeito que a Monstro pretende”, comenta o diretor comercial da Monstro, Leo Bigode. “Eu particularmente acho que você acaba ficando refém de um esquema que não é o real, não é o verdadeiro. Depender de um patrocinador todo mês em um país burro com a cultura como o Brasil é arriscado demais para mim”, provoca.

Uma das bandas mais representativas do selo, a roqueira MQN, já chegou a abandonar oficialmente os álbuns em CD. “Custos altos, subordinação ao estabelecido, problemas de distribuição e mais”, eram alguns pontos listados por Fabrício Nobre, sócio da Monstro e vocalista da banda, ao lançar o manifesto “Fuck CD” e declarar que “o MQN está abandonando o formato de compact disc e tudo que ele representa”. O formato adotado por eles era mais saudosista: o vinil.

Além do MQN, a Monstro lançou artistas com o Wry e Uncle Butcher em compactos de vinil. “Eu não acho que isso virou uma realidade ainda no Brasil porque o preço ainda está muito além da nossa realidade e isso dificulta”, comenta Leo Bigode. Segundo o produtor, “a relação do vinil com a Monstro vem antes de toda essa onda começar a rolar. Nós começamos trabalhando com vinil em 1998, então estamos voltando a trabalhar com o formato independente de moda, porque adoramos ele”. Para os sócios da gravadora, uma das esperanças ainda está na PolySom, que voltará a produzir vinil no Brasil.

Apesar disso, Leo Bigode reconhece que os CD’s lançados pela gravadora sempre tem algum retorno. “Retorno instituicional não vale, né? , brinca. “Retorno financeiro não são todos. Alguns sim, outros não, um título acaba vendendo mais que o outro”, e ainda arrisca uma comparação inusitada. “Vender discos é como vender macarrão. O Spaghetti vende mais que que o penne e um acaba bancando o outro”.

Apesar da corrida pelos formatos, o que a Mostro Discos está focada é na relação com o público. “Nossa estratégia esse ano é estabelecer uma relação diferente. Os CD’s, músicas, merchandising e etc serão feitos como sempre fazemos. A relação com o público é o lance onde pretendemos fazer diferente”, explica o produtor.

Mas a realidade dos patrocínios não é tão distante desses selos. Além de lançar discos, a Monstro Discos produz eventos como os festivais Goiânia Noise e Bananada, centrais no atual circuito independente do país, e o primeiro com patrocínio de empresas locais, além de eventuais apoios da Petrobras através de editais. Quem opera de maneira similar é a produtora DoSol, de Natal, que esse para esse ano já garantiu patrocínio da operadora Oi e da Petrobras para o festival que realizam no segundo semestre.

“Desde que paramos de lançar discos físicos desistimos de tentar ganhar algum dinheiro com isso”, explica o produtor Anderson Foca, quando indagado se já pensaram em concentrar esse esforço no selo. “Acho que temos outras maneiras de fazer isso, usando o áudio como uma isca, camisetas, ingressos, adesivos e por ai vai”, comepleta. O DoSol NetLabel, declaradamente virtual, já fez mais de 40 lançamentos virtuais até hoje.

Periferia conectada

Publicado originalmente no jornal A Tarde, de Salvador

lanhouse

A palavra “sucesso” se tornou um dos verbetes mais complexos do vocabulário da indústria do entretenimento nos últimos 20 anos. Sem os parâmetros tradicionais que antes elencavam um artista, cada um encontrou maneiras diferentes de eleger – além da estética da própria música, claro – quem está ou não em destaque. Uma das saídas mais honestas parece ter sido a da mídia tradicional de dar mais atenção ao próprio público e onde eles estão clicando na internet em buscas de novidades. “Parece”, porque em termos concretos, a mídia parece estar sempre atenta ao público errado.

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