Category: Reportagens

Reportagens, entrevista, resenhas, coberturas. Textos selecionados da minha produção diária no jornal.

A cultura da troca – Parte um

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O ano de 1999 foi cabalístico para a música. Aliás, para o mundo todo em geral. De certa forma, ele definiu boa parte de uma cultura global que vivemos hoje. Muito diferente do que foi previsto por Stanley Kubrick em 2001 uma Odisséia no Espaço (o filme começa sua história em 1999), esse foi o ano em que George W. Bush anunciou a candidatura a presidência dos Estados Unidos. O Euro começava a circular e, com um ano de atraso, a Microsoft lançava o Windows 98, enquanto a Apple dava início a sua revolução – e o retorno a era Steve Jobs – com o primeiro iBook.

É um período que diz muito sobre nossa cultura pop hoje. Matrix foi lançado (e tinha a história ambientada) em 1999. Assim como o primeiro episódio de Bob Esponja abria as portas para a geração pós-Ren & Stimpy de desenhos animados. Foi quando o Strokes lançou o primeiro disco em Nova York, dando início a corrida pelo indie rock e, no Brasil, foi o ano de lançamento do primeiro disco dos Los Hermanos. Last Night e Anna Julia eram hits irmãos, que tocavam em toda rádio, toda festa e todo top da MTV.

Foi o ano do “bug do milênio” e o Brasil viveu sua paranóia apocalíptica de várias formas, principalmente no famoso “apagão”, que forçou o país a entrar em alerta. A rede Manchete saia do ar, dando lugara para a RedeTV, enquanto a rede Globo estreava a primeira edição do Mais Você, com Ana Maria Braga. Também descobriamos, com grande atraso, o quanto que o episódio 1 de Star Wars era uma bela bosta. Em meio a tantas grandes transformações, a chegada do novo milênio também foi acompanhada pelo lançamento de um novo programa para a internet, o Napster.

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Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju

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O Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, tem um significado quase místico no cenário do novo rock brasileiro. Foi lá que o monstro da cena independente ganhou vida, personaficado na forma dos festivais Goiânia Noise e Bananada; e do selo que lançou quase todas as bandas que ainda importam no país até agora. Hoje, os palcos que ocupam o que antes eram duas caixas d’água da cidade, são uma das silhuetas da própria Abrafin, a Associação Brasileira dos Festivais Independentes. Passear por lá, de noite, é também uma atividade de contemplação.

Enquanto os poucos privilégiados a entrar no local antes de começar o show descansam em uma das mesas de plástico, 11 figuras seguem frenéticas num eterno vai e vem do portão até o palco. Os integrantes da banda Móveis Coloniais de Acaju tinham vivido um dos momentos mais importantes de suas carreiras em menos de 24 horas, mas nem tiveram tempo ainda de processar toda a informação. De um show que foi além do lotado em Brasília, com direito a apoio do governo local, eles tinham lançado o novo disco, C_mpl_te, com a cidade inteira já cantando todas as músicas.

Mas os heróis locais dormiram menos de cinco horas e partiram direto para a capital vizinha de ônibus. Acompanhados pelos Black Drawing Chalks, Macaco Bong e Galinha Preta, a comitiva carregava toda comissão de frente do independente nacional, com direito ao próprio Fabrício Nobre, que nessa hora não era nem vocalista do MQN, nem presidente da Abrafin, mas produtor contratante do show do Móveis.

É muita informação para ser processada em pouco tempo. Cumprimentos de integrantes da já finada Bois de Gerião, da dupla Lucy and the Popsonics, entre outros de toda a cena da capital nacional – e até o Senhor F, Fernando Rosa – passaram quase como um vulto até esse momento. Sem descanso, eles seguem para um lado e para o outro, carregando o equipamento, montando o próprio palco, afinando o próprio show. São 11 músicos e 11 roadies ao mesmo tempo, numa espécie de micro-empresa musical. Facilita, mais também complica. No Habibs mais próximo, o empresário Fabrício Ofuji desenbolsava o montante para alimentar uma frota inteira com dezenas de pizzas e esfihas… e um kibe.

No pique de quem tomou uma injeção de café, eles não demonstram sequer sinal de cansaso. Quando terminaram de montar tudo e de fazer a passagem de som – e devorar as pizzas, claro – foram direto para as mesas para dar essa entrevista. E, dela, sairam direto para o palco já para fazer o show. Quem também participou dessa conversa, além da banda e o empresário Fabrício Ofuji, foi o gente finissima Tiago Agostini, que também estava lá a convite deles, mas com o distintivo da Rolling Stone.

TEVE ALGUM MOMENTO QUE “DEU UM CLIQUE” E A BANDA DEIXOU DE SER UM HOBBY E VOCÊS DECIDIRAM SE DEDICAR COM MAIS SERIEDADE?

ANDRÉ – A banda começou em 98, no dia 10 de outubro. Começamos completamente sem pretensão, algo bastante jovem por conta de referências de bandas da cidade mesmo, como o Bois de Gerião. Mas em 2003, a gente tocou no Brazillian Music Festival…

ESDRAS – … a gente ganhou um concurso para tocar no festival. Ai mudamos nossa lógica de trabalho, procuramos um produtor, etc. Foi um festival grande que teve em Brasília, com Alanis Morrissete e Simply Red. Selecionaram uma banda através de um concurso e ganhamos a parada. Obrigatóriamente a gente teve que virar uma banda que precisou arrumar iluminador, produtor, etc, pelo menos para fingir que era uma banda séria. Porque eles ficavam sempre perguntando ‘cadê o produtor?’ Só falo com o técnido de som de vocês’.

ANDRÉ – O Ofuji tava trabalhando nesse festival na assessorial de imprensa. A gente já se conhecia antes de colégio e tal, mas ai nessa época ele entrou e começou a fazer assessorial também para a banda. E logo depois ele assumiu o posto de produção.
O segundo momento foi o disco Idem. A gente já podia falar de profissionalização e entender a banda não só como uma banda. Porque o disco foi lançado por a gente de forma independente, até chegamos a conversar com alguns selos, mas foi um projeto que a banda acreditou. E ai fizemos o show de lançamento organizado por nós mesmo e percebemos que eramos capaz de produzir shows também.

Daí em 2005 a gente fez o primeiro Móveis Convida. A banda tinha vários potenciais incubados e foi descobrindo isso com essas necessidades. No lançamento do Idem já tinham tres potenciais produtores de eventos como sao hoje em dia, mega experientes. A banda virou um modelo de negócios referencia porque é o lado artístico e burocrático junto.

ESDRAS – O estalo foi um processo. As coisas vão acontecendo, ficando mais interessantes. Sempre é um processo. É um trampo nosso.

BRUNO – A banda foi tocando, demandando mais ensaios e dedicação. E ai veio a necessidade da gente se profissionalizar. Porque isso tava tirando tempo e dinheiro de outras coisas, então pensamos que isso tinha que dar certo. Foi bem natural.

ANDRÉ – Já a parte artistica, o show principalmente, foi um processo. A gente foi descobrindo nossa performance, nossas interações e isso resultou no que a gente é hoje…

ESDRAS – … É, a gente sempre foi muito de inventar moda a cada show. Nesse de 2003 o iluminador inventou de içar o vocalista no meio do show.

ANDRÉ – Uma hora antes de tocar tavam os caras me leventando num palco de mais de 12 metros de altura e eu morro de medo de altura. Morro de medo… Teve show que a gente foi de Branca de Neve e os Sete Anões. A gente entrou com um bolo e eu sai de dentro dele vestido de Marilyn Monroe.

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E EM RELAÇÃO A FAMA? TEVE ALGUM MOMENTO QUE VOCÊS CHEGARAM A PENSAR “CARAMBA, TÁ ACONTECENDO. TÁ MAIOR DO QUE A GENTE PREVIU”?

ESDRAS – Tocar no Mada foi muito importante, foi um festival que apostou na gente. A gente encarou como sendo muito bem recebido. Dos anteriores para o Mada teve um salto de posição no festival. Não teve nenhum BUM, FOI AGORA. A gente tava sempre trabalhando todo dia e as coisas foram acontecendo, etc.

E HOJE A BANDA JÁ FUNCIONA COMO UMA EMPRESA. COMO É ESSA DIVISÃO DE VOCÊS, ONDE CADA UM FICA RESPONSÁVEL POR UMA ÁREA?

FÁBIO – A banda é uma empresa, já temos um CNPJ. Foi de nossas conquistas em 2008. É uma banda empreendedora, a diferença é essa. O Móveis reune muito bem o lado artístico e o burocrático. Acho que a gente tem até potencial para virar uma grande empresa.

OFUJI – Tentamos aproveitar que somos uma banda de muitos integrantes. O Gabriel é arquiteto de informação, então ele trabalha no nosso site. O Borém e o André são designers, tem quem trabalha com a parte de finanças, etc.

ANDRÉ – Isso tambem foi um processo natural de organização. Porque é muita gente, se a gente nao conseguisse de organizar seria um problema. Tem bandas de quarto pessoas que nao conseguem ensaiar! A gente tem vários amigos que perguntam como a gente dá conta dos ensaios. Na época que isso era um hobby apenas, era um problema.

ESDRAS – No final das contas, todo mundo bota a mão na massa. A gente nao faz porque somos mega-não-sei-o-que, mas porque somos muitas pessoas e a gente quer tocar. Se a gente nao fizer isso a gente nao toca.

VOCÊS COMEÇARAM GRAVANDO AO VIVO, DEPOIS MUDARAM PARA UM PROCESSO DENTRO DO ESTÚDIO. QUAIS FORAM OS PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DESSAS DUAS EXPERIÊNCIA?

BORÉM – O Miranda falou que não tendo vídeo, nao sabia se justifica fazer uma produção ao vivo. Que não compensaria apenas por ser uma produção mais simples…

ANDRÉ – Mas ai a gente falou “pô, vamos fazer ao vivo e vamos fazer o discão!”

BRUNO – A vantagem disso é que o disco foi muito bem gravado. Pegamos os melhores microfones, a melhor pele de bateria, melhor estúdio, melhor tudo. O projeto era bem mais simples, mas era bem mais barato. Depois virou um processo mais caro, mas também bem mais trabalhado. Tenho certeza que valeu a pena. Essa estratégia de lançar as músicas antes, ao vivo, valeu muito a pena por que a gente acabou ganhando outro produto.

BORÉM – Falando da sonoridade, eu acho que é uma mudança muito drástica do que a banda era no Idem e do que é o Móveis ao vivo. O novo está muito bem produzido, com muito efeitos em vozes, guitarras, etc. É um disco composto e arranjado pelo Móveis, mas com o olhar de um produtor. Uma proposta artística. Estamos lançando um produto que é uma cara do Móveis, enquanto nosso show é outra, por exemplo.

ESDRAS – O Idem, que foi produzido pelo Rafael Ramos, representa um retrato de seis anos da banda. Sem muita produção até então. Naquela época já entramos no estúdio na hora de gravar. Foi legal pra caramba, mas com o Miranda a gente passou quase um ano trabalhando nesse disco. Até chegar o final demorou muito. E o resultado é o Móveis fazendo canções e com nossa cara. Isso era algo que ele sempre falava, que a gente tinha que trabalhar a cara da gente.

ANDRÉ – O Miranda trouxe foco para a banda. Deu um norte pra gente seguir. Ele deu 40gb de música pra gente ouvir antes de começar o processo. E sempre foi muito aberto, falando que a gente precisava fortalecer a identidade da banda e criar um album com unidade e com uma cara própria.

ESDRAS – No primeiro encontro ele já sacou como ele queria a cara do disco. Nós já tinhamos umas musicas prontas e pensavamos que o repertório sairia dali e já começariamos a gravar já no mês seguinte. E ai de cara o Miranda chegou e só destacou cinco, que nem eram as que a gente mais gostava, nem as que estavam mais prontas. Eram as versões mais toscas. Eram músicas muito ruins. E a gente só tinha mostrado porque o Miranda tava vindo para brasília e a gente precisava mostrar trabalho e falamos “ó, vamo dá um migué aqui nele e tal, pegamos uma músicas para parecer mais”. Ai qdo ele ouviu, pirou nelas e só falava “vei, essa é uma das melhores”. Tinha música que a gente tinha tocado ao vivo e já considerava como nossa e ele falou “essa é muito ruim” e acabaram saindo.

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COMO FOI ESSE MOMENTO DE MOSTRAR AS MÚSICAS PARA O MIRANDA, COM ELE DIZENDO QUE NÃO CURTIU?

ESDRAS – Foi “engole o choro! a gente chamou ele para isso!”

ANDRÉ – É, a gente viu duas opções. Ou não trabalha com ele, ou confiávamos no que ele estava falando. Não dá para ficar batendo de frente, também. Tem que deixar ele fazer o trabalho dele, afinal esse disco é também um disco dele.

ESDRAS – …do mesmo jeito que ele dava total liberdade para a banda, em certas músicas ele era bem sincero. Falava “vei, eu nao sei tocar nada. Nao sei como você deve fazer acorde, nao vou falar de arranjo. Eu vou falar ‘tá bom’ ou ‘tá ruim’. E vou te mostrar como pode ficar bom”.

Tinha música que ele reconstruia toda, botava introdução no meio, mandava uma parte com sopro. Algumas horas a gente ficava confuso. No final tinhamos 10 músicas, estavamos terminando uma e faltava fazer outra. Dai ele foi embora, marcou os estúdios e etc, e fizemos a música da noite para o dia. Chamavamos ela internamente de “12″. É a última do disco.

E NO MEIO DESSE PROCESSO A BANDA FOI FICANDO CADA VEZ MAIS FALADA E MAIS VISTA, TOCANDO EM TODOS OS PRINCIPAIS FESTIVAIS DO PAÍS. CHEGARAM A RECEBER PROPOSTA DE GRAVADORAS?

BORÉM – A gente chegou a receber uma proposta em 2007. Mas conversar com todos, desde major a selos. Mas nenhuma tinha muito sentido, nem pra gente, nem para a gravadora.

ESDRAS – Mas na Trama a gente muita liberdade, porque já tinhamos colocado o Idem para baixar lá. O lance foi liberdade mesmo. A gente falou que queria fazer um vídeo de cada música e colocar na internet antes de lançar o disco, eles falaram “massa!”. Deram incentivo para todas as nossas idéias. Inclusive para nossa idéia de disponibilizar na internet e vender barato depois.

OUTRA COISA QUE FOI FICANDO MARCANTE FOI O FORTE APELO VISUAL DOS SHOWS. ISSO CHEGOU A PESAR QUANDO COMEÇARAM A PENSAR COMO SERIA ESSE NOVO DISCO?

ESDRAS – Pensamos em fazer uma coisa separada mesmo. Esse é o disco, o show é outra coisa. Vamos criando e variando as músicas com o tempo.

BRUNO – Teve um processo muito importante que foi o da arte do disco. Coordenado pelo Borém, Renato e André, mas que teve a participação de todo mundo. A gente fez uma oficina de dois dias, cortando fotografia, parecia aula de educação artística. E dali eles tiraram alguma coisa. O conceito do “Complete” também está presente ai. A partir dessa arte a gente também está pensando no show. Já tem alguns elementos de cenário, de figurino. A gente tá testando esses elementos, vendo o que funciona. É espontaneo mesmo…

BORÉM – Acho que o visual vem a reboque da música. A música é o mais importante. Pensamos como vamos tocar a música, como vamos nos relacionar quando tocamos a música. E ai entra a relação com o público. Eu acho que visual não tem como não ser, principalmente pelo número de cabeças que tem no palco. É uma coisa visualmente forte, é uma multidão. Somos uma banda que tem um nome for a de lugar, um humor meio ácido também. O caso visual era botar alguma coisa que de certa maneira está fora de seu lugar, como as lixeiras como abajur, no nosso palco atual.

NOS VÍDEOS QUE ANTECEDIAM O DISCO, DAVA PARA VER A BANDA EM UM PROCESSO MATEMÁTICO, ESTRUTURANDO A MÚSICA NO QUADRO. AQUILO ERA SÉRIO MESMO OU SÓ TIRAÇÃO DE ONDA?

TODOS – Era sério mesmo!

ESDRAS – Tinha horas que o Miranda nao estava no estúdio. Falava “vou ali comprar uma coca e umas revistas”. Quando isso acontece, entravamos naquela lá. Falavamos “vamo repetir essa trecho aqui nessa outra parte!”…

ANDRÉ -  … só que a parte que repetia mudava o lado, indo para outro tom, então não encaixava. Então ficávamos lá construindo a estrutura da música.

BORÉM – Quando aconteciam essas discussões o Miranda falava “bah! nao sei porque vocês tão discutindo isso, sou eu que decido no final”. No final daquele vídeo, a proposta do André é exatamente a mesma com que começamos a discussão. Ele teve a mesma idéia com que a gente começou tudo.

ESDRAS – Na banda nem todo mundo sabe harmonia, nem sabe escrever melodia, nem todo mundo sabe escrever letras. Então a gente botou um quadro no estúdio para cada um ir escrevendo suas idéias.

Nessa hora do papo, um dos integrantes chegou puxando os outros. “Já é o show da Galinha Preta! As músicas são curtas, termina rápido”. Nessa, Esdras já levanta da mesa falando “tem problema não, a gente chega lá no palco e toca!”.

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Móveis Convida X: Cobertura

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O Móveis Coloniais de Acaju nunca foi exatamente o modelo de banda que a gente pensa que vai dar certo. É como se existisse um manual das coisas certas a se fazer – pouca gente na banda para facilitar a viagem, nome curto e fácil de lembrar, aceite as propostas de gravadoras e selos – e eles tivessem decidido fazer tudo ao contrário. Talvez seja por isso que eles sejam tão alegres no palco, sempre correndo de um lado para o outro. Aquela prazerosa sensação de “rir por último” que todo mundo sempre precisa sentir um dia na vida, eles sentem sempre que estão tocando.  E isso nunca foi tão forte agora, quando eles lançam “C_mpl_te”, o segundo disco da carreira e que afirma eles como a principal banda do atual cenário independente nacional.

O reforço disso vem no Móveis Convida, festival que a banda produz em Brasília e que chega em sua décima edição (não é um evento anual). O mote podia até ser o disco, que ainda vai ser lançado oficialmente pelo selo Álbum Virtual da Trama, mas quando a noite encontrou seu climax com cerca de cinco mil pessoas, todas cantando e dançando, ficava claro que era também uma grande celebração ao próprio Móveis. Quando os portões se abriram perto das 22h, numa capital totalmente debaixo de chuva e sob o aviso de que “aqui, quando chove, ninguém sai de casa”, um pequeno amontoado de gente já fazia questão de garantir a beira do palco, mesmo que custasse encarar uma maratona de outros três shows.

Quem abriu a noite foi a banda Black Drawing Chalks, não por acaso, aposta desse ano entre os novos nomes que surgem no país. Esse foi primeiro show deles no Brasil após voltar do South by Southwest e Canadian Music Week, além de turnê quase sem fim nos Estados Unidos e no Canadá. Já no começo do show a sensação é de que a bagagem que eles trouxeram de lá não foi sucifiente para caber o intensivo de rock e experiência ao vivo que apresentaram de volta em casa. A banda conseguiu dar um avanço de quase 100% do que foi visto nos últimos festivais que participou. Está redondinha, com um show que mete porrada no ouvido de quem arrisca ficar perto. Sem falar que conseguiram construir uma imagem forte no palco, conquista rara na cena independente, sempre composta por bandas visualmente bem parecidas.

Esse retorno também dá sinais do som definitivo da banda, que passa a tomar forma a medida em que o segundo disco se prepara para ser lançado pela Monstro em maio. Menos obtuso e até um pouco dançante, o Black Drawing Chalks se aproveita cada vez mais dos agudos do vocalista Victor Rocha em contraste ao baixo cada vez mais pesado de Denis de Castro, ritimado pela bateria acelerada de Douglas de castro. E isso reforça um pouco do hard rock a brasileira – ou “rock duro” na sua melhor tradução – como tem acontecido com bandas como a Amp e até o próprio MQN, que estão cada vez mais distintas do modelo norte-americano.

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Nessa hora dava para ver como o Móveis educou bem seu público local. Ninguém estava ali em busca de rock pesado, mas entrou fácil no clima das bandas, dançando, pulando e sempre aplaudindo. Platéias calorosas parecem ser uma das marcas registadas do Centro Oeste brasileiro. Acho que a receptividade do público só não supera o que a gente costuma ver em Goiânia, que intercala shows do Mundo Livre com Sepultura, A Besta com Mallu Magalhães, e ainda parecer que é um mesmo único evento.

Se o público esperava pelo Móveis, nos bastidores ninguém falava outra coisa senão que naquela noite também teria um show da Galinha Preta. O nome estava na boca de todo mundo, mesmo de quem ainda nunca tinha ouvido a banda de brasília, que existe a tanto tempo quanto os anfitriões da festa. Era a banda do Frango, talvez o principal coordenador de palco e técnico de som de Brasília, que é contratado quando nomes como o Iron Maiden e o Heaven and Hell (aquela mistura do Black Sabbath + Dio) passam por lá. É uma daquelas clássicas figuras locais que consegue arrancar risada de todo mundo com as hitórias que conta quando viaja com outros artistas. E no meio tempo, ele toca numa das melhores bandas de hardcore que eu já tive oportunidade de ver na vida.

O Galinha Preta é rápido e sarcástico de uma forma muito inteligente. O segredo é a simplicidade. Ele consegue fazer piada do Padre Quevedo Aderli de Carli (lembra, né? O do balão) sem soar mórbido e reclamar do funcionarismo público (imagina cantar isso logo em Brasília) sem parecer que está dando lição de moral em ninguém. O bom humor não atrapalha em nada você entender muito bem o sentido real por trás de cada crítica. Essa preciosidade brasiliense quase nunca toca fora de casa, principalmente porque o Frango está sempre no palco de algum outro mega show trabalhando. Mas fica a dica para os festivais que querem inovar esse ano… levem o Galinha Preta!

Aliás, falando em bastidores e trabalho no palco, surpreendente ver os Móveis funcionando enquanto empresa. A banda é grande, o que faz deles também uma grande equipe que não pára um segundo de trabalhar. Cada integrante fica responsável por um pedaço do que está acontecendo ali. Uns vão buscar alvará para uso do espaço, outros estão no receptivo, enquanto uns fazem a contabilidade, a identidade visual, etc. São 10 integrantes, o que faz deles uma das poucas bandas do país com 10 roadies. Ninguém está ali para brincadeiras.

Depois dele foi a vez do Macaco Bong trazer sua parcela de destruição aos ouvidos. É impressionante o quanto a banda cresce quando se apresenta em boas condições de som – tudo bem, isso é comum em uma banda instrumental, mas no caso deles o efeito é ainda maior. Eles são o bom exemplo do que foi falado antes sobre o público. Com um rock ainda mais inacessível, pegaram um público ainda maior e mais ansioso pelos Móveis, mas ainda assim conseguiram prender a atenção de todo mundo até o final. Aliás, esse foi o primeiro show da banda que eu vejo e que eles resolveram falar entre algumas músicas. A presença do trio de Cuiabá dava a noite um ar de sucesso garantido, sem nenhum show ruim na programação.

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Mas impressionante mesmo é o tamanho do Móveis Coloniais de Acaju em Brasília. Esse era seu show ideal, afinal, estavam com todos os recursos que precisavam para se apresentar. O que incluia até um painel de led no fundo, fazendo projeção de imagens que brincavam com as cores do novo disco. A estrutura maior deles deu direito até uma contagem regressiva, acompanhado em um único coro por todo o público.

Todo o show era intercalado por pausas a cada três músicas. Começou com “Cão Guia“, “Lista” e “Descomplica“. Três inéditas já avisando que esse repertório seria quase todo com enfoque no novo disco. André, o vocalista e nosso próprio Wilson Simonal 2.0, diz que a idéia é tocar tudo na integra. No C_mpl_te a banda parece agora estar mais plural, o que era a principal falha do anterior “Idem“, onde o Ska as vezes soava repetitivo em várias faixas. O Móveis brinca mais com os extremos do próprio som, dando idéia que seu próprio universo de referências agora parece ser bem maior.

Com 19 músicas, o repertório ainda trazia as melhores do disco anterior. “Copacabana“, “Esquilo não samba“, “Perca Peso“, “Seria o Rolex“, “Cego” e “Aluga-se-vende” estão todas lá. O público segue tudo com quem foi seriamente doutrinado, já cantando as inéditas – que estão no Youtube – e fazendo um coro que quase sufoca a banda no novo single “O Tempo”. A devoção até assusta umas horas, mas encanta na maioria do tempo. Nessa noite, via-se o respeito que o Móveis Coloniais de Acaju conquistou na própria casa, sendo prestigiado por várias bandas locais e até grandes figuras como Fernando Rosa, do selo SenhorF. É coisa rara ver uma banda atingir a auto-estima de uma geração e, nessa noite, foi isso que eles fizeram.

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Depois disso, a banda pegou o ônibus e todos seguiram para Goiânia. Na noite seguinte, eles repetiram a sequência de shows e a catarse do público no Centro Cultural Martim Cererê, onde acontece o festival Bananada e já teve edições do Goiânia Noise (onde a banda deve ser uma das atrações desse ano). Mas lá, o segundo tempo era o momento maior de diversão de todos, que sabiam que chegavam já com a partida ganha de goleada. Logo mais eu falo do disco novo e também mando uma entrevista com a banda.

Recbeat 2009: quarto dia

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Nos últimos dois anos, o festival Recbeat se viu obrigado a diminuir a proporção das atrações em sua programação, assustados com a reação agressiva do público. Era, na verdade, parte de um processo em que o evento começava a perder sua identidade e se transformava em apenas mais uma das tantas esquinas do Carnaval do Recife. No último dia da edição 2009, entrentanto, parece que toda a produção do evento já pode respirar mais aliviada.

Quando um público acima da média se concentrava já cedo para ver o Burro Morto, ficou oficialmente provado que o festival voltou a crescer, mas agora dono de sua própria marca. Aquelas pessoas não estavam ali apenas em busca da folia, mas sim porque sabiam que encontrariam uma programação diferenciada. E, na melhor apresentação que a banda paraibana já fez até hoje aqui em Pernambuco, é provável que absolutamente ninguém tenha se decepcionado.

A banda instrumental tem uma pegada de música do mundo e com um jeitão hippie, mas sem deixar essas referências atrapalharem a boa diversão. São uma cria bem resolvida da geração dos anos 90, com uma consciência de soar sempre mais pop que experimental, chamando até a atenção dos ouvidos desavisados. São um dos nomes da música independente para se olhar de perto em 2009.

Depois deles, foi a vez de Junio Barreto fazer um justo retorno ao Recife. Apesar do disco novo, ele cantou principalmente músicas do primeiro trabalho. Acompanhado por um time escolhido a dedo, com a baterista Simone Soul (que já tocou com Cássia Eller) e Dimas Turbo (Jumbo Elektro / Cérebro Eletrônico), ele parecia bem mais animado que o de costume no palco. Pulava, abraçava os músicos e até tirava uma onda nos instrumentos.

Não bastasse a surpresa que o Desorden Público trouxe na noite anterior, outra banda da América Latina cravou o nome nas melhores apresentações do Recbeat este ano. Foi a Bomba Estéreo, com um típico pop colombiano. Show bem pra cima, que conseguiu deixar o povo grudado no palco mesmo debaixo de chuva. Muito em parte pela presença de palco da vocalista Liliana Saumet.

Mas essa era a noite do Cordel do Fogo Encantado. Há 10 anos, a banda fazia uma estréia ainda mambembe no mesmo Recbeat, na época acontecendo na rua da Moeda do Recife Antigo. De lá para cá, eles se tornaram em um dos casos mais esquisitos da música independente nacional. De certa forma, continuaram sem ter grandes álbuns, nem tocar em rádios ou aparecer na MTV. Foram os únicos contemporâneos da geração Manguebeat que nunca chegaram a assinar com gravadora. E, mesmo assim, é a banda que mais cresce em público.

A apresentação foi de quase duas horas de pura catarse. Com direito a participação de Canibal, do Devotos e uma formação praticamente inédita do Cordel no Recife. A banda ganhou um formato que parecia ser improvável, mas vendo ao vivo chega a ser inevitável pensar porque demorou tanto para eles passarem a se apresentar assim. Explicando: é que antes eles formavam um grupo apenas com percussão. Apenas depois de muito tempo incluiram um violão, mas agora viraram uma verdadeira Orquestra. Ao redor do maestro Lirinha, metais e vários instrumentos dão uma nova cara, garantindo fácil outros 10 anos para a banda.

Recbeat 2009: terceiro dia

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“João do Morro… no Recbeat… TOMA!”. Quando João do Morro gritou isso para uma verdadeira multidão em sua frente, ninguém ali desconfiava que alguns minutos antes ele estava sentado no camarim, ainda roco do show que fez no Galo da Madrugada, dizendo a todos que entravam o quanto estava nervoso e assustado para se apresentar. Passado a confirmação da aprovação de grande parte do público – que fez questão de aparecer cedo como nunca tinha acontecido antes, nos últimos 14 anos de evento – essa já pode ser definida como a escalação mais simbólica de todo o festival Recbeat.

Gutie, produtor do festival e empresário de João do Morro, fez questão de não esconder a felicidade que a apresentação trouxe. Dias antes, ele recebia ligação da Prefeitura do Recife, perguntando se ele iria mesmo escalar o cantor de pagode / swingueira no Recbeat. Penso que essa é uma primeira ruptura do conceito tão preso a estética que os artistas independentes sempre tiveram. São dois resultados para celebrar: do lado de lá, parece que um artista chegou um nível aceitável suficiente para conviver entre outras bandas de rock, tango e tec. Do nosso lado, cai um pouco da frescura em se misturar.

E, ainda de sobra, tem um outro grande trunfo. O público do Morro da Conceição, que compôs toda a comissão em frente ao palco, mostrou humildade em não ir embora logo após o show de João. Continuaram lá e fizeram questão de acompanhar todo o restante do Recbeat. Isso é algo que o público de festivais independente ainda precisam aprender com essa turma. Ainda mais considerando que a transição para o show da Nuages (Equador) não foi fácil. Era uma banda visualmente atrativa, mas instrumental e recheada de muito mais informação.

Só não aproveitaram melhor o clima da noite que a Ska Maria Pastora. Verdadeira revelação do Recbeat, o grupo (que não toca exatamente Ska, apesar do nome), foi a surpresa mais agradável de todo o festival. Banda redondinha, que estava escondida dos holofotes da imprensa, mas faziam pequenos shows pela cidade. Só precisam agora aproveitar a super-exposição para ganhar mais espaço. Se fizerem, esse deve ser um grande nome da música local para este ano.

A chuva torrencial que voltou logo depois do show deles me fez perder boa parte da apresentação de Sílvia Machete. O pouco que vi (as últimas duas músicas), lembrou bastante a passagem que vi dela em Salvador meses atrás. Tem toda um lado quase teatral, mas é um repertório 100% de covers. E isso sempre me soa negativo. O comentário da noite, que concordei, era que ela misturava Danny Carlos com Catarina Dee Jah. E essa não é uma boa mistura.

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Vendo o show do Desorden Público, da Venezuela, lembrando da apresentação que o Móveis Coloniais de Acaju fez ano passado, me fez pensar que o Recbeat deveria ter uma noite inteira dedicada ao Ska. Os vizinhos não fizeram apenas o melhor show da noite, mas de toda a programação do festival. Foi incrível a maneira como a música dele pulsava pelos braços e pernas de todos que a ouviam, quase que obrigando todo mundo a dançar enlouquecidamente. Nessa brincadeira de abrir as portas para a América Latina, esse já é pelo menos o terceiro grande nome que o Recbeat traz e que fica óbvia que deveria se apresentar aqui no Brasil sempre.

As fotos são de Caroline Bittencourt