Category: Reportagens

Reportagens, entrevista, resenhas, coberturas. Textos selecionados da minha produção diária no jornal.

Paradão do camelô

Todos os meses, a Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD) envia para a imprensa e gravadoras um relatório dos CDs mais vendidos em território nacional. Paralelamente as principais lojas do país também divulgam suas próprias listas, como um guia para os clientes interessados. Bem distante da realidade do consumidor brasileiro, as primeiras posições são ocupadas por produtos com valor entre R$ 200,00 e R$ 40,00. A Folha de Pernambuco fez uma comparação dessas listas com outra bem mais polêmica e acessível ao público. A das carrocinhas de CD’s piratas no centro do Recife.

“Você quer saber isso mesmo? Porque isso aqui é ilegal”, disse espantada uma vendedora entrevistada. A reação mostra que as gravadoras travam hoje uma batalha. Um comprador da mesma carrocinha entrou na conversa defendendo sua posição, “Você devia colocar lá que é para eles venderem disco mais barato. A gente quer comprar disco hoje e não pode, porque custam em média R$ 40,00”.

Assim como na ABPD, a relação de vendas dos camelôs é nacional. Mas, existem diferenças grandes, sendo o maior destaque a presença de bandas locais lado a lado. O motivo é o perfil do público, já que nas lojas predomina consumidores de classe A e B, enquanto nas carroças atrai público B e C. O volume de vendas é o mesmo de uma loja de médio porte. Os piratas também recebem extensas listas de encomendas.

Por outro lado, o gosto popular está bem distante da classe média alta. De 16 vendedores de ruas entrevistados, todos concordam com o número um da lista, “Á Vera”, novo disco de Zeca Pagodinho. Com preço médio de R$ 32, sequer aparece na lista das vendas em lojas. O perfil de quem compra discos originais hoje se reflete no terceiro mais vendido nas lojas, uma coleção com 12 CDs da década de 70 de Roberto Carlos, com preço médio de R$ 280,00. São os produtos mais vendidos que também ficam expostos na vitrine, em casos como esses, até intimidando a entrada do cliente que pode encontrar produtos mais acessíveis.

A maior surpresa da lista fica mesmo a cargo das bandas locais, esquecidas no comércio. Muitas vezes, dependendo dessa relação oficial para conseguir conquistar o espaço merecido nas rádios, elas já podem começar a pensar em maneiras mais criativas de fazer seus lançamentos chegarem a população. Um que já tomou a iniciativa foi Arnaldo Batista, que passou a fazer pequenos shows no centro do Recife para ajudar na venda dos discos.

Top 10 dos camelôs

  1. Zeca Pagodinho
  2. Calcinha Preta
  3. Alcione
  4. Trio Nordestino
  5. Cavaleiros do Forró
  6. Ana Carolina
  7. Rock Internacional de Novelas
  8. Zezé di Camargo & Luciano
  9. Limão com Mel
  10. Simple Red

Top 10 ABDP / Lojas

  1. Maria Bethania
  2. Tom Zé
  3. Pra Sempre – Década de 70 – Roberto Carlos
  4. Skank
  5. Tom Jobim
  6. Adriana Calcanhoto
  7. Zezé di Camargo & Luciano
  8. Placebo
  9. Jack Johnson
  10. Zeca Pagodinho

Abril pro Rock 2005

Já são 13 anos de Abril pro Rock, festival que começa hoje no pavilhão do Centro de Convenções e, mesmo com todas as controvérsias envolvidas, continua mantendo seu público. De hoje até domingo, a expectativa é que passem pelos shows cerca de 5 mil pessoas por dia, superando os números do ano passado, que somaram uma média de 13 mil pagantes no evento. Idealizador e organizador do Abril, Paulo André confirma o esperado, “só nas vendas antecipadas já superamos a sexta-feira de 2004”.

O aumento acontece graças a iniciativa dos organizadores de privatizar a programação do festival. Uma parceria com a operadora de celular Claro garantiu a passagem da turnê da banda inglesa Placebo pela cidade (conquistando uma carência geral do Recife em shows internacionais), enquanto o concurso Microfonia conseguiu reascender o interesse de um público já distante da faixa etária alvo do Abril pro Rock.

As duas empreitadas permitiram a renovação do festival, saindo da fórmula engessada, que estava desagradando o público. Algumas atrações, como DJ Dolores e Mombojó, já sobem no palco do evento há mais de dois anos seguidos e acabavam ditando um perfil de bandas que já não condiz com a realidade da cidade. O mesmo para as atrações nacionais, que se revezavam sempre entre Los Hermanos, Sepultura (presente esse ano) e O Rappa.

Este ano, assim como no passado, uma decisão judicial reforça que adolescentes entre 12 e 18 anos só podem entrar no pavilhão do Centro de Convenções se estiverem acompanhados de algum responsável. “Algumas pessoas entenderam a decisão como o responsável sendo os pais. Mas, pode ser qualquer responsável, como um amigo ou um irmão”, explica Paulo André.

A produção do festival conseguiu que os três estacionamentos do local fossem abertos. Isso garante acesso ao local via Estrada de Belém e também pela rua ao lado da Nordeste Segurança de Valores.

Programação
Sexta, 15 de abril – 21hsSuzana Flag (PA)
Zeferina Bomba (PB)
Star-61 (PB)
Bugs (RN)
Rádio de Outono (PE)
Los Hermanos (RJ)
Placebo (UK)

Sábado, 16 de abril – 17hs
Sepultura (MG)
Shaaman (SP)
Dead Fish (ES)
Massacration (SP)
Retrofoguetes (BA)
MQN (GO)
Matanza (RJ)
Chaosphere (PE)
Silent Moon (PE)

Domingo, 17 de abril – 17hs
Orquestra Manguefônica (Nação Zumbi + Mundo Livre SA) (PE)
DJ Dolores: Aparelhagem (PE)
Mombojó x Arto Lindsay (PE)
Gram (SP)
The Legendary Tiger Man (Portugual)
Leela (RJ)
Superoutro (PE)
Volver (PE)
Daniel Belleza e os Corações em Fúria

Entrevista: Biquini Cavadão

Com material suficiente para gravar um novo disco só com inéditas, o Biquini Cavadão decidiu esperar um pouco e, em comemoração aos 20 anos da banda, lançar um “dois em um” de CD e DVD ao vivo. Gravado em dois dias durante o Ceará Music Festival, o show traz um repertório com todos sucessos que uma pessoa gostaria de encontrar num show desde “Tédio” à “Janaína”, nenhuma fase do grupo foi deixada de lado.

“É a vantagem de uma banda com 20 anos de estrada. Você pode planejar as coisas com bem calma, pode lançar como e quando quiser”, explica o guitarrista e produtor do DVD, Coelho. “Estávamos querendo gravar esse ao vivo há muito tempo, mas esperamos chegar o festival em Fortaleza, que é um público com quem temos uma história muito longa e fazer também uma homenagem a eles”, completa.

As imagens confirmam. O público de 38 mil pessoas se mistura na faixa etária e acaba sendo um próprio reflexo da trajetória da banda. Mesmo assim, o vocalista Bruno não se ilude, “O Biquini nunca se valeu pelo mercado. Se fosse assim, a Festa no Apê seria considerado boa música”. Ele não mede a qualidade do DVD em números, mas na qualidade das canções, “tem que ter uma proposta sincera”.

O repertório do CD e DVD tem ordem diferente – a original do show ficou para a versão com vídeos. Além da razão óbvia, que é criar produtos diferentes, a estratégia de CD é bem mais interessante, colocando os sucessos mais esperados já no início. Mesmo estando num festival com grandes nomes, a única participação nas faixas é de Papa Winnie, que veio ao Brasil apenas para participar da gravação.

Nos extras, uma série de entrevista com a banda mostra a relação deles com Fortaleza e uma explicação faixa-a-faixa de todas as composições. É o momento mais curioso, que faz valer o DVD. Lá ficam conhecidas as histórias de Janaína, Dani e todas as garotas cantadas pelo Biquini.

Publicado originalmente no dia 13 de abril de 2005

Entrevista: Rappin’Hood

Esse é um dos meus textos favoritos até hoje

Antônio Luiz Júnior, 33 anos, natural de São Paulo, tem como sonho viver de música. Entra na sede da Ordem dos Músicos, preenche os formulários, mas é vetado no teste. O motivo, ele queria fazer a prova de canto com um rap. “Tive que cantar um samba, porque eles não aceitavam que eu, como rapper, cantasse um rap”. Naquela época, quem aplicou a prova pode até ter feito piada, mas hoje, se for descoberto, vai morrer de vergonha do que fez. Antônio Luiz, hoje o Rappin Hood, já tinha provado que é músico e agora, quando lança “Sujeito Homem 2”, segunda parte de uma trilogia, começa a provar que o Rap é parte da Música Popular Brasileira.

“Eu quero ser brasileiro. Meu RG é Made in Brasil!”, fala empolgado, enquanto explica as misturas do novo disco, recheado de samba e músicas da velha guarda. “Cada vez eu fui me misturando mais, me sentindo a vontade ali dentro daquela atmosfera”, lembra o artista, que já tinha feito a experiência só que com muito mais modéstia no primeiro disco da série. “Em cima da cadência do samba, eu vou rimando. Não quero ser cópia de um rapper americano”, se defende.

Ele não está sozinho na empreitada. Nas faixas, Caetano Veloso, Jair Rodrigues e Cláudio Zoli são só algumas das vozes que se rendem as batidas de Rappin Hood, que assume o capuz e literalmente entrega a música dos ricos, aos pobres. “Eu não faço nada que não seja minha cara! Meu trabalho eu só faço o que quero, seja na gravadora onde for!” argumenta logo antes que alguém invente dizer que as participações são algum tipo de contrato. “Foi algo que aconteceu, fui encontrando as pessoas e trocando idéias. A única coisa proposital é que eu não quis convidar nenhum rapper dessa vez. Todas as rimas são minhas”.

Com essa reinvenção do rap, o artista continua na batalha para desassociar a música da violência. “Dizem que é som de ladrão e, na verdade, existem até pessoas de dentro do movimento que se confundem”, comenta em tom triste. “Eu não quero que o irmão escute e se revolte, que queira quebrar tudo. Quero que ele aprenda a contestar, perguntar, tudo de forma organizada”, reflete.

Agora, ele entra em temporada de divulgação do novo trabalho. “Já tenho alguns show programados em Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Queria muito conseguir ir para Recife, porque tenho vários amigos ai. Os parceiros do Faces do Subúrbio e Sistema X”, explica, sem esconder que a vontade não é restrita só na música. “Quero conhecer o Alto José do Pinho, o Pina de Copacabana, Boa Viagem e todas as histórias que chegam até aqui em São Paulo”.

VINCULADA – O rap reinventado na batida do samba

O segundo ato de “Sujeito Homem” abre com uma música incidental, tema da novela “Escrava Isaura” e um recado falado contra a cultura do “mão na cabeça” e repressão. Toda e qualquer semelhança com algum rap que você já ouviu em sua vida encerra aqui, no momento após o silêncio onde Rappin Hood anuncia a faixa dedicada a Martin, o filho que aparece na capa. Para não causar impacto forte, a transição começa devagar, com a ainda um tanto comum “Us Guerreiro”, faixa que faz uma dobradinha com outra um pouco mais adiante.

Mas é na terceira, que curiosamente não foi escolhida para trabalho, que o rapper começa sua revolução. Ele já prepara o ouvinte que essa “é para entrar na história”. A música, em parceria com Jair Rodrigues, mistura o rap com “Disparada”, canção que ganhou primeiro lugar no festival da Record 1966, com uma harmonia tão grande que assusta. Para manter o fôlego, “Us Playboy” e “Ex-157” voltam ao mote mais modesto. É o momento em que MPB e Rap começam a se misturar na cabeça do ouvinte.

Dai em diante ele segue fazendo misturas com “Odara, Preciso me Encontrar”, faixa onde faz uma breve dialogo com Cartola, acompanhado por Zélia Duncan. A proximidade com o samba se estreita mais em “Dia de Desfile II”, onde Rappin Hood canta a apoteose do rap da periferia durante o Carnaval. Com porte de respeito, as rimas do rap ficam mais de fundo e dão lugar aos scratchs que ditam o ritmo de “Favela” na voz de Arlindo Cruz.

O disco encerra dando reforço nas mensagens de paz. Essa última parte começa com uma reza junto a Gilberto Gil, que canta em “Axé” parte de sua “Andar com Fé”. Fica curioso a maneira como as batidas do rap agora voltam como um som natural para quem acompanhou todo o CD, prova de que, antes mesmo do show que encerrará o vindouro “Sujeito Homem 3”, Rappin Hood já pode declamar missão cumprida.

Publicadas originalmente no dia 12 de abril de 2005

Entrevista: Martinho da Vila

Até hoje fico impressionado e me repetindo q tomei uma cerveja com ele.Visto de longe, na tela de um Faustão, Martinho da Vila nem parece que é gente como a gente. Com 68 anos de idade e 38 de carreira, escreveu sambas que já atravessam gerações. Alguns refrães, como “vai vadiar”, a gente já pode correr o risco de dizer que, hoje, já se nasce no Brasil sabendo. Mesmo assim, o repertório dele não esgota. Pesquisador, mostra agora a segunda etapa de sua busca por novas poesias em “Brasilatinidade”.

Na varanda da piscina do hotel, Martinho esbanja uma simplicidade que afasta qualquer mito criado na imagem dele. De sandálias e camiseta, ele rende na cerveja, mas não economiza no cigarros – três cigarros durante uma conversa de 40 minutos. Tranquilo, ele dá a receita do novo disco, “fiquei pensando nas línguas, achei legal usar essa temática, de misturar a cultura latina”.

Nas 15 faixas, ele pega poesias da Itália, Espanha e até Romênia, traduz e dá contexto e som nacional. “Meu barato era fazer uma mistura, sem descaracterizar”, explica. Para ajudar a imprimir os arranjos de uma identidade externa no samba, Martinho contou com a presença de Robertinho do Recife. “De cara não achei que seria conveniente, até porque conhecia apenas o trabalho dele com guitarra. Mas descobri que ele tem um talento fora de série”.

Não demora muito para descobrir a genialidade e intimidade que Martinho da Vila tem com a música. “Gosto de pegar o mote da música quando estou batendo papo. Outro dia, um amigo pediu um suco de maracujá num bar e, na hora, comecei a pensar numa letra”, recorda fazendo referência a faixa nove do disco.

Para as músicas que traduzem poemas de fora, Martinho contou com a participação de artistas do país de origem de cada uma delas, todos cantando no idioma local. A exceção é “Dentre Centenas de Mastros”, de influência romena. A canção também é a única que é mais distante sonoramente do samba. “Foi um trabalho enorme para encontrar uma canção romena que combinasse com o projeto”, lembra o sambista, sempre empolgado com o resultado de suas pesquisas.

Mas longe de ser entusiasta, Martinho conhece bem os riscos de lançar um trabalho erudito. “Existe uma resistência quando eles acham que é requintado demais, algumas rádios até se recusam a tocar”, reflete. A preocupação veio do trabalho anterior, o “Lusofonia”. Mesmo com influência da chula de Portugal, um ritmo tão próximo do chote, a recepção não foi tão boa quanto esperada.

Para lançar “Brasilatinidade”, Martinho da Vila se prepara agora para lançar o DVD do disco. “Fizemos várias imagens nos países que inspiraram as músicas, junto com os artistas convidados”, explica. Fora a apresentação em São Paulo, para a gravação do material, a primeira turnê foi marcada na Europa e ainda está sem datas para começar a rodar o Brasil.

Publicada originalmente no dia 06 de abril de 2005