Category: Reportagens

Reportagens, entrevista, resenhas, coberturas. Textos selecionados da minha produção diária no jornal.

Economia solidária da música

Quando um grupo de amigos decide montar uma banda, ensaiar, gravar um EP e, quem sabe, arriscar alguns shows, quase sempre não faz idéia de quanta gente está envolvida em todo esse processo. Do vendedor de instrumentos ao dono do estúdio, passando pelo produtor da casa de show e o próprio público, todos estão em uma mesma cadeia produtiva. E todos estão sempre com um mesmo problema em comum: a falta de dinheiro.

Ao perceber que tantas pessoas estavam conectadas, um grupo de bandas independentes do Cuiabá, em Mato Grosso, decidiu montar um sistema de cooperativa inspirado em modelos de economia solidária. “Hoje em dia até para ser egoísta você tem que pensar coletivamente”, brinca Pablo Capilé, a frente do Espaço Cubo. Formado em 2002, a idéia inicial deles era viabilizar um circuito onde os grupos podiam se apresentar ao longo do ano inteiro.

“Eu troquei um carro em um estúdio e passamos a convidar algumas bandas para ensaiar lá”, lembra Capilé de como foi o começo de tudo. Nesses encontros, ele começou a conversar sobre política pública com as bandas locais. “O que era uma secretaria municipal, o que é um conselho”, conta. De lá, eles montaram mais duas frentes. A Cubo Eventos, para organizar shows, e a Cubo Comunicação, para dialogar com a mídia.

Para viabilizar isso, eles criaram uma moeda própria, o Cubo Card. “As bandas se apresentam e recebem um número X de card para utilizar uma série de serviços”, explica Pablo Capilé. “Elas usam para ensaiar; alugar nossa casa de shows, fazer eventos e ficar com a bilheteria; pagam a segurança com card, alugam o som”, lista. Hoje, eles articularam ainda mais usos para a moeda. “Já tem plano de saúde com card, curso de inglês, alimentação em restaurante, compra de roupa e locação de dvd com card”.

Essa estrutura deu base para lançar duas das principais bandas do circuito independente hoje no país. Vanguart e Macaco Bong são presenças confirmadas na programação de qualquer festival, enquanto a primeira já começa a alçar vôos maiores ao assinar com a gigante Universal. “Aqui em Cuiabá, quando as bandas começam já passam a formar coletivos”, diz Pablo Capilé. “Cada integrante vai fazer parte de uma comissão, seja de eventos, sonorização e comunicação, para a banda aprender a se auto-gerir”.

A espinha dorsal dessa articulação é o Festival Calango, um dos principais do circuito independente do país. “Quando os eventos vão agregando um valor maior, você consegue trazer o investimento da iniciativa privada. Não em dinheiro, mas em produtos”, explica o produtor. “No festival, gastamos quase R$ 15 mil em alimentação no restaurante e, em contra partida, ele passa a fazer parte de nosso sistema financeiro”.

Pablo Capilé, que estará em Salvador, na próxima quinta-feira (13), durante o Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, para falar sobre cooperativismo na música, encerra explicando que “essas iniciativas fez surgirem mais bandas e, consequentemente, fez esse mercado girar. Com o tempo, as próprias empresas passaram a investir mais em produto e em espécie na cena de Cuiabá”, uma lógica de mercado que ele acredita ser ainda mais viável no Nordeste.

* Publicado originalmente no Caderno Dez! no jornal A Tarde

Festival Mundo 2008: Segundo dia

Essa dívida antiga com o Festival Mundo me forçou fazer uma loucura das grandes. O show do Macaco Bong (que explicou a história do amp no post anterior) terminou perto das 4h da manhã e sai de lá direto para a rodoviária. Voltei para o Recife, fui trabalhar no jornal e sai de lá de volta para a Paraíba. Direto, sem dormir e sem parar para comer. Tudo porque me comprometi com um dos debates da programação, que acontecia logo após uma mesa com o pessoal do Macaco Bong sobre o dia-a-dia de uma banda independente. Cheguei no centro histórico às 16h e o pessoal ainda estava lá, em circulo, conversando.

Novamente ficava a sensação do quanto o Festival Mundo é necessário para a atual cena de João Pessoa. Estava lá a banda que talvez mais circule hoje pelo Brasil tocando em festivais, disposta a entregar todo o ouro sobre como se inserir nesse circuito e como dar um sentido muito maior nessa história de ter banda. E a presença local era mínima, até de quem estava escalado para tocar no evento. O Mundo faz mesmo um trabalho didático e, pelo visto, dando murro em ponta de faca.

Desta vez consegui acompanhar tudo desde o começo. Deu para se surpreender desde o primeiro show, com a banda Cerva Grátis. Rock bem simples, desse mais cru que você encontra na esquina com qualquer Rock Rocket. Sim, eles dão cerveja de graça no palco, o que achei o máximo. Nem peguei, na verdade, mas me parecia que o nome da banda não passava apenas de uma idéia em comum com os amigos. Mas eles acrescentam isso na mis-en-cene e funciona que é uma beleza. Depois dessem do palco e continuam bebendo o que sobrou =P

Falar em palco, o som no segundo dia melhorou substancialmente.

A Paraíba se parece muito com o Recife de alguns anos atrás quando o assunto é a cena rock. Parece que eles ainda estão no processo de definir sua identidade – com pequenos surtos de uma Zefirina Bomba ganhando destaque, de vez em quando – e, enquanto o fazem, dão um constante ar de semelhança a outras bandas nacionais. Ficava impossível não associar a Elmo com o Dead Fish, principalmente pela semelhança na voz de Júnior, que dava vida ao grupo.

Olhar para o próprio país me parece ser uma boa opção. Pelo menos assim as bandas da cidade encontram espaço para amadurecer sem esbarrar constantemente em questões mais bobas como letras em inglês e outros purismo que nunca fizeram sentido nesse meio independente. Assistindo a Elmo e a Cerva Grátis, não vi também muita pretensão de sair – pelo menos por hora – desse esquema de shows locais. Sei que isso não justifica o ritmo lento da cena paraibana, mas pelo menos explica muito bem o contexto do cotidiano desses grupos.

Quem parece romper timidamente com isso é a Nublado. De todas as de rock local (com exceção da Star 61, claro), eles são as que melhor caminham para uma identidade própria. Isso quando arriscam em fazer músicas próprias, porque o show no festival foi quase todo de covers. Tocaram Radiohed, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys… e Superguidis! Mais uma vez, acabo esbarrando em um comentário que só faria sentido se eu fosse produtor de bandas, mas arrisco a dica: talvez se o baterista Rayan Lins (que também é um dos produtores do Festival Mundo) seguisse nos vocais, eles chamariam ainda mais atenção.

Talvez pela adrenalina e correria de organizar um evento desse porte, quando ele começou a cantar Malevolosidade dos Guidis o show cresceu. Parecia outra banda, mais rápida e agitada, como se os próprios integrantes da Nublado tivessem se contagiado pela animação da mudança de vocalista. Se eu tivesse que apostar em um dos grupos de rock para sair dessa programação e figurar em festivais vizinhos, seriam eles.

O Festival Mundo não caiu no clichê comum de padronizar os dias e, após duas bandas instrumentais na primeira noite, na segunda teve outra, O Garfo. Já falei deles por aqui antes. De Fortaleza, criada a principio para ser cantada, eles conseguem fazer uma música que eu gostaria de ouvir em qualquer boa festa. Pop, rápido, dançante, eles ficam sem dever nada a outros grandes nomes instrumentais como Pata de Elefante e Retrofoguetes. Formada por parte da Fóssil, eles são daquele tipo de banda que já nasce pronta.

O segredo do Garfo está nos timbres do baixo afogando a distorção da guitarra. Parece uma disputa amigável, com ambos os instrumentos tentando sobreviver de acordo com o ritmo da bateria. Sem virtuosismo e caras e caretas, a banda conquista pela repetição, aquele grande segredo escondido da música pop. A gente percebe fácil as estruturas da canção e, com um pouco de atenção, dá até para acompanhar junto. Eles já são revelação do ano, mesmo tendo tocado pouquíssimo.

Eu queimei a língua a profetizar que a Sweet Fanny Adams faria o melhor show da noite. Talvez por assumir um pouco do orgulho pela banda local. Não que eles tenham feito uma apresentação ruim. Longe disso, estavam lá com o pique do artista pronto, daquele que você pluga os instrumentos e eles descarregam quase uma hora de show insandecido. Quando tocaram, já davam dica de que o público da noite passaria das mil pessoas. E eles estavam bem interessados no que acontecia no palco.

A verdade é que a associação Garfo + SFA foi muito bem feita. O clima já era de festa total, com gente pulando ao som da ótima versão que eles fazem para Wolf Like Me do TV On The Radio. A mesma que fizeram no Boom Bahia semanas antes e que, depois, me disseram ser uma versão criada pela própria TV on The Radio. Consegui pegar o audio da mesa e quem quiser baixar, fica ai o link:

Mas eles não foram o sucesso da noite. Pelo mesmo motivo que explicava porque o rock na Paraíba ainda caminha devagar. Quando a local Burro Morto, outra banda instrumental, subiu no palco, tudo ficou claro. Com cara de “música do mundo” (que é como o pessoal da World Music tem pedido para ser chamado agora) eles deram o saque para a catarse da noite. Já era impossível circular na frente do palco com tanta gente tentando existir ao mesmo tempo no mesmo lugar. E ficar lá tinha regra: tem que dançar.

É impossível ver a banda de perto e não se contagiar com a música deles. Esse show foi ainda melhor do que o que eles fizeram no Coquetel Molotov, mesmo sem a ajuda de um ambiente mais lotado. E digo isso sem vergonha de deixar claro que essa sonoridade quase hippie está bem longe de me agradar. Mas não tem como não virar cúmplice do que eles fazem. Se eu tivesse que escolher apenas uma banda de todo o Festival Mundo para ver, seria o Burro Morto.

Lembra que falei do saque? A Cabruêra já entrou no palco dando o corte. Nunca tinha visto o show deles, apesar de já terem tocando centenas de vezes no Recife. Dali pra frente foi jogo ganho. Já tinha gringo, gente que nem fazia idéia que aquilo ali era um festival e só tinha aparecido para ver a banda. “É aqui que vai ter show da Cabruêra?” Era pergunta principal na bilheteria. E acabou nesse clima de festa, com eles esticando o repertório, chamando um grupo de amigos da Itália para cantar junto. Tudo bem memorável. Como todo bom festival, o Mundo teve nesse seu momento histórico.

Depois disso pluguei meu computador no som de lá e entrei no momento autista. Fui de R.E.M a Common People, tocando apenas para mim mesmo, enquanto o lugar esvaziava. Me diverti um monte. Fiz vídeo de tudo lá, com audio bem horrível. Depois publico aqui.

Toda as fotos desse post são de Rafael Passos

Festival Mundo 2008: Primeiro dia

Foto de Rafael Passos

Eu me devia uma visita ao Festival Mundo desde sua segunda edição. Naquele ano fui convidado para apresentar o Overmundo para o público da Paraíba e, por motivos pessoais, acabei tendo que voltar para o Recife logo após a conferência. Nos outros dois anos também não consegui estar lá, mesmo acontecendo em uma cidade vizinha. Problema corrigido esse ano. Sai do jornal direto para a rodoviária, encontrei com Montarroyos e seguimos em direção a João Pessoa. Por lá, já esbarramos nos Macaco Bongs, Calistoga e o pessoal do Cabaret, que terminava passagem de som.

Corremos com o check in no hotel e depois para o jantar, mas não foi o suficiente para pegar o show da primeira banda. Era a Outona, atração local que tocava hardcore melódico. Dei uma espiada lá no Foca e ele disse que não chamou atenção. Eu fico me devendo uma vista, já que a banda não usou metade do tempo que tinha de show. As fotos chamam atenção pelo visual bem cuidado deles. Coisa que fez falta em boa parte de outros mais experientes que passaram pelo palco.

Este ano o Festival Mundo se viu obrigado a diminuir de proporção. O lugar onde acontecia antes não podia receber um evento este ano por causa da eleição municipal. Num passeio rápido pelo Galpão 14, escolhido como substituto, já ficava evidente a importância que o evento tem em João Pessoa. Eles estão apertando o Fast Forward, descarregando informação em excesso para que o público local perceba o que está acontecendo nas cidades vizinhas. O vai e vem blasé das pessoas ficou entre as sensações mais angustiantes do evento.

As duas bandas potiguares não se deram muito bem na estréia que fizeram no festival, pelo mesmo problema da Outona. Como a programação é menor, dava mais tempo de apresentação para cada atração. E nem o Camarones Orquestra Guitarristica e a Calistoga pareciam preparados para um repertório de 40 minutos. A primeira, instrumental, divide as músicas com um começo mais rock, encerrando com reggae e versões para trilhas de desenhos animados. Resultado: esticaram a parte mais difícil de acompanhar, por ser mais lenta.

O mesmo aconteceu com o Calistoga. Acho eles uma das melhores bandas de rock do Nordeste hoje – entre as mais novas, claro! – mas o pique desandou da metade para o fim. Chegaram a terminar mais tímidos, quando deviam levantar e instigar o público cada vez mais. Não vou me meter a produtor de banda aqui, mas de repente escolher algum cover conhecido ajudasse. Sem isso, acabaram perdendo as pessoas que assistiam tudo da frente do palco. Por sinal, nessa primeira noite, o Festival Mundo teve cerca de 300 pessoas conferindo os shows.

Coube a Star 61 dar o primeiro suspiro de esperança da noite. Tocando em casa, começaram brincando um pouco com folk, quase escondendo o potencial glam do vocalista Flaviano. Ele sabe comportar no palco como poucos e, rapidinho, faz caretas, pulas e jogas as plumas para cima, tira a roupa e transforma totalmente a falsa primeira impressão do show. Me lembrou o que escrevi no Boom Bahia sobre se levar a sério. Eles conseguem fazer escracho e ultrapassar o limite do rídiculo sem precisar pagar de personagem.

Isso é a chave central. É impossível não se contagiar quando Flaviano sai para o meio do público, sobe o muro e ensaia um strip tease. O Star 61 consegue existir nos limites no bom senso e, ao mesmo tempo, soar agradavelmente pop. O constrangimento é zero, enquanto a diversão e as músicas já não podem se medir em notas. Eles são uma prova de que o Festival Mundo está tentando mostrar uma realidade rock que já existe na cidade, só precisa ser disseminada.

Tanta purpurina acabou complicando o meio de campo para o Cabaret. Afinal, a proposta das duas bandas eram a mesma. E quando Marvel, vocalista da banda carioca, cantou “O Vira” do Secos e Molhados numa ponta do show do Star, ficou claro que ele não ia vencer na disputa da imagem. Mas acho que isso só não passou de um bom desafio… O Cabaret precisaria, talvez pela primeira vez em festival, mostrar que pode chamar atenção além do cênico.

Mas além de performer, Marvel – codinome que Márvio dos Anjos usa no palco – canta como poucos. Aliás, depois de rodar o país em festivais, vendo para lá de mais de 200 bandas diferentes, me sinto seguro em dizer que o cenário independente ainda precisa correr muito para chegar no nível do que eles conseguem fazer no palco. Mesmo nessa, que foi uma apresentação regular, com direito a falha no microfone quebrando a concentração da banda, o Cabaret surge como principal nome de fora nessa edição do Mundo.

O Cabaret é uma banda de hits, algo que ainda faz muita falta no circuito de festivais. É impossível sair do show sem ficar com pelo menos umas duas músicas no repeat mental. Acho que bandas como essa evidenciam a necessidade de um novo meio termo entre a cena independente e o mainstream, já que ela tem competência para transitar entre os dois meios sem pertencer necessariamente a nenhum deles. Mas não deixa de ser divertido imaginar o estrago que eles fariam com uma projeção maior.

Ao contrário do que acontece com o Macaco Bong, que tocou logo em seguida. Esse choque entre o pop e o experimental acabou não sendo bem assimilado pelo público, que ao não entender quando uma música começava e outra terminava decidiu deixar o local. Confesso que essa mistura de virtuosismo com stoner rock não consegue fazer muito sentido para mim, apesar de reconhecer o quanto a banda é foda no palco. Vi poucos shows dos Bong até hoje (acho que três), e ainda acho que não vi a mesma a banda que tem sido elevada ao patamar da cena independente.

Mas nessa noite, especificamente, tive a primeira decepção real com a banda. Um amp do palco estourou quando inventaram de esfregar a guitarra nele. E tive que ver os caras saírem do palco com cara de quem não queria saber, falando de forma bem ríspida para a produção do evento que “festival é assim, isso é normal”. Para uma turma que faz tanta questão em falar de cadeia produtiva, deviam saber que ferraram o dono do som, deram prejuízo ao festival e prejudicaram as bandas do dia seguinte. E não, isso não é normal.

Conversei com o pessoal da banda e eles explicaram o acontecido. Segundo Bruno Kayapy, o que aconteceu é que o amp sofreu um arranhão e o responsável pelo som do festival exigiu um novo. A banda até topou oferecer um novo, mas apenas em troca do que teria sido “danificado”. E ele acabou não aceitando e deixando a história para lá.

Fotos de Anderson Silva e Rafael Passos.

Boom Bahia 2008: Segundo dia

Apesar do ritmo light, com menos bandas e terminando em horário cedo, o Boom Bahia também teve clima de maratona. Mal deu para descansar direito a tempo de ver o começo dos shows no Pelourinho. Tive que fazer uma escolha e optei por perder a conferência Slavoj Žižek, o “Elvis da teoria cultural”, que fez parte do Espaço Digitalia – nome dado ao circuito de debates do festival – sobre Psicanálise, Cinema, Gozo e Ideologia, assuntos tratados no livro “A Visão em Paralaxe” que ele veio lançar no Brasil. Programado originalmente para 100 pessoas, o evento paralelo contou com cerca de 450 no Icba.

Žižek tenta atualizar um pouco da crise marxista a partir do declínio do antigo argumento do materialismo e, como a assimilação desse conceito acabou favorecendo o surgimento de uma nova esquerda. Uma que não é mais tão fundamentalista quanto aquela que, por muito pouco, não pregou a pobreza. Alguém ai falou em PT? O legal é que é ele pega essas questões, de bases puramente filosóficas e aplica em produtos como a série Guerra nas Estrelas e a animação Procurando Nemo.

Enquanto ele dava sentido a isso, a Starla dava inicio aos trabalhos no palco. Foi a melhor surpresa para mim, porque pude ver uma banda que cresceu um monte do que tinha escutado apenas pelo MySpace. Fiquei até sem jeito de ter recebido o EP deles e nunca dado a devida atenção. A banda é bem na linha do que gosto de ouvir, afinada com indie rock e, de quebra, um integrante que é cara do Mini. Mas, gosto a parte, eles deixaram esta segunda (ok, na verdade terceira) noite do Boom Bahia com uma boa primeira impressão.

Talvez o ponto mais negativo fosse a constante semelhança que as músicas tem com o Muse. Quando o vocalista Ricardo Longo chega a um agudo – e todas as músicas têm isso – fica praticamente a mesma coisa. E um dos integrantes usando uma camisa do Muse não ajudou muito. Mas é uma referencia muito boa. Talvez se eles tivessem mais direcionamento em questões além da música – do tipo não ir fazer show com a roupa que tava assistindo TV em casa – já teria chegado bem mais longe.

Eu não curti tanto a Yun-Fat, uma das mais comentadas da noite. Grindcore sem muito que acrescentar. Os caras se garantem, afinal quem oscila entre tantos graves e agudos berrados e continua falando, logo em seguida, como se nada tivesse acontecido, no mínimo tem talento. Mas só isso não é o suficiente. Talvez o que me incomode mais é que bandas desse gênero sempre me soam como uma piada contada pela terceira vez. E bandas como o Are You God?, estabeleceram um certo nível que é difícil de atingir e impossível não comparar. Mas a versão baiana também não estava muito ai com isso, o que conta como ponto para eles.

Confesso que fui carregado de preconceito com o que poderia ser o show do Estrada Perdida. Paulo André (aquele, do Abril Pro Rock) chegou a falar que ele era o tipo de cara que faz falta em toda banda de rock. Não sei se é para tanto, mas concordo com a idéia em geral. Aliás, deixando claro, Estrada Perdida não é nome de banda, mas do cara, que tomou alguma coisa que todo mundo ficou atrás depois. Porque ele tava meio maluco, entrando no palco rindo e falando “já começou foi?”. Dali para o final, tirou quase toda a roupa, sempre dançando sem parar.

Acabou se tornando uma boa surpresa. O Estrada faz um rock bem simples, desses que nossos pais ouviam antes da gente nascer e, mesmo assim, nós continuamos gostando. É representante da velha, velha (velha, velha) guarda de Salvador. Não sei ao certo a história dele, mas pela cara, deve ter visto ainda novo um monte de show de Raul Seixas na cidade. Talvez soe clichê, vindo de um grupo com mais idade, mas eles deram aula no Boom Bahia de como fazer um show animado, descompromissado e divertido. Valeu só pela descontração.

A Declinium, que tocou logo em seguida, assim como a Starla, é uma banda que deveria sair mais vezes de Salvador. Tipo de caso que faria Stuart Hall ovular. Vindos do interior do estado – três periferias ai, cidade, estado e país, disputando espaço – com uma produção que, sem exagero, se equipara ou até supera boa parte das referencias internacionais. O indie rock deles é quase soturno de tão carregado. São crias da própria geração indie baiana e estampam um orgulho pela brincando de deus em camisas e constante citações sonoras.

Infelizmente, nessa hora eu já precisava começar a programar minha partida de Salvador. Por isso, perdi o show da Berlinda. Entretanto, você sempre pode recorrer aos comentários de Luciano e Foca em um caso desses. :)

Voltei já na segunda música do SubAquático, que é uma banda que anda bem falada em Salvador. Junto com a Yun Fat, foi a segunda banda que não gostei no festival inteiro. Me pareceu superestimada. No show as músicas são imensamente superiores ao disco, que já tinha ouvido na época que eles foram finalistas para tocar no Abril Pro Rock. Ainda assim, me pareceu mais uma banda de rock dessas que a gente encontra em qualquer esquina. E, só por isso, não casou tanto com um evento que só mostrou tanta banda diferente na programação.

Não sei até onde o Curumin era conhecido na Bahia, já que essa foi a primeira vez que ele tocou lá com esse formato de banda. Mas o jogo já estava ganho para ele antes mesmo de soltar o primeiro “boa noite”. Eu gosto a forma como a música dele destoa do que é ouvido normalmente nos festivais independentes, ao mesmo tempo em que acaba funcionando bem melhor. O circuito foi unido pelo rock, mas parece que vai precisar ceder cada vez mais para uma certa brasilidade no som.

Basta perceber como isso começou com os Móveis Coloniais de Acaju e seguiu exatamente na mesma linha agora com o Curumin. Por onde o paulista passou, seja na praia de Natal, no Carnaval do Recife, na terra central do rock (Goiânia, claro) e, agora, em Salvador, essa turma tem agradado muito mais, levado muito mais público e repercutido muito mais os próprios festivais que participam. Por hora é um surto, mas não vai demorar para isso trazer a tona aquele velho papo sobre até onde vale cantar em inglês e se entupir de guitarra, que recheou a cena independente no fim da década de 90.

Nem precisei ver o show do Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta para saber que ele também é exemplo dessa mudança. Mas, na verdade, não pude ver porque já estava na hora de correr para o aeroporto e voltar para o Recife. Mas lá, eu sei que catarse é o mínimo que o show dele causa no público.

Na sequência, os vídeos. Prometo. As fotos são de Mariana Neri.

Boom Bahia 2008: Primeiro dia

O Pelourinho, como todo bom clichê turístico, não é freqüentado pelo baiano típico. Ali é reduto para turistas e, salvo algumas raras exceções, sequer existe motivo para ir até lá durante um fim de semana. Apenas isso já seria um enorme tiro no pé para quem decidisse escolher o cenário para um festival de rock. Começando às 15h, então, é suicídio. Só que encontrar o palco do Boom Bahia já cheio de gente, em plena tarde de sábado, era apenas uma das surpresas reservadas para o fim de semana.

Bolado pelo Aparelho Cultural, que tem à frente uma das figuras mais importantes do indie nacional, Messias Bandeira, o festival acontece com o mínimo de apoios possível. O orçamento, se comparado até a outros independentes, deve chegar no máximo ao do cachê de uma das atrações internacionais de um Abril Pro Rock. Então é um cenário de constante superação, que envolve as bandas e figuras da cena local no fortalecimento da idéia de que a Bahia é uma das terras prometidas do rock.

Na verdade, o Boom Bahia não começou no sábado. O primeiro dia foi no Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba), com debates e dois showcases de abertura. Estive na primeira mesa, sobre jornalismo e música, junto com Luciano Matos , Chicão, Braminha (representante da MTV em Salvador) e Mário Sartorello (rádio educadora), mediado pelo professor do Doutorado da UFBA Jeder Janotti Jr. O papo começou tímido, mas terminou mais acalorado quando chegou no deve-não-deve criticar a cena independente.

Todos os eventos foram de graça. Nessa primeira noite circularam cerca de 200 pessoas pelo local, naquele clima de “its all happening” com direito a troca de CDs, contatos, cartões, etc. Um encontro da Abrafin Nordeste deu seqüência na noite que contou com Anderson Foca, Paulo André, Ivan Ferraro, Rogério Bigbross, mediação do próprio Messias e participação ainda de Gilberto Monte, da Fundação de Cultura da Bahia.

Da maratona de shows, fica evidente o fato de que a qualidade das bandas baianas são muito, mas muito acima da média do que acontece no Nordeste. Em nenhuma das outras capitais – nunca estive em Fortaleza, então talvez eu possa me enganar em relação ao que acontece lá – seria possível montar uma grade com tantas atrações locais, todas com bons shows.

Existe uma relação de auto-estima local na Bahia que é muito importante. O público vibra por atrações da casa, marcm presença e canta junto. E isso era visto até na mais nova do sábado, Vivendo do Ócio, que fez uma das melhores apresentações de todo festival. Novo rock, cantando em português, com personalidade própria. Tudo sem muita pretensão, com um vocalista que toca guitarra igualzinho ao Alex Turner.

A pegada folk dos Culpados manteve o bom nível do dia. Nessa, minha teoria sobre a média das bandas ganhou reforço. O rock da Bahia não é concentrado em nada e encontra interlocução (boa) em todos os seguimentos. Seria muito mais fácil encontrar um punhado de clones de Pitty e Novos Rauls, pegando carona no que se espera ouvir ao associar o gênero à cidade. É legal ver como essas diferenças convivem bem… Não consigo pensar numa banda folk sobrevivendo numa cidade como Recife.

De fato, não consigo lembrar de banda folk nenhuma no Nordeste inteiro. Ainda mais uma que consiga segurar a onda antes de um show de hardcore. A Lumpen, que subiu ao palco logo depois, entrou no top 5 de melhores apresentações do Boom Bahia (que, por sinal, foi rigorosamente pontual). A banda, que tem um cara que é praticamente um clone dos integrantes do Bad Brains nos vocais, trouxe as primeiras rodas de pogo do festival.

Acho que é sempre importante para uma banda que canta música de protesto não se levar tanto a sério assim. A Lumpen consegue perceber que, antes de tudo, tem gente ali para se divertir e não para ouvir sermão, coisa que estraga 10 em cada 10 bandas de hardcore, principalmente no Nordeste. Eles, pelo contrário, promoveram a celebração antes de tudo, brincaram no palco e garantiram o clima do festival.

Nesse show, eu vi uma figura ensandecida no público. Figura baixa, camisa vermelha, com um sorriso que devia ser maior que a própria cara. Ele não parava de gritar “TOCA RAUL!” para as bandas. Era o próprio Lázaro Toca Raul, figura do rock baiano que talvez só não seja mais comentada quanto o próprio ídolo por quem ele sempre esperneia.

Quando os Irmãos da Bailarina começaram a tocar, a noite também já ensaiava sua entrada no cenário. Foi um show muito mais baixo, que mesmo em uma noite tão eclética, acabou servindo um pouco como balde de água fria no público. Mesmo com músicas mais densas do que as que estão no MySpace, teve poesia em excesso para o ritmo de um festival. Muita gente decidiu circular na hora. O que eu vi, curti. Apesar de achar que, diferente do Lumpen, eles se levam um pouco mais a sério que o permitido no palco.

Aliás, esse é o único ponto negativo da Lou. A nova vocalista, Danny Nascimento, deu uma melhora de 300% na banda. Já conhecia o trabalho dela solo, que teve pouca força depois que ela participou do ídolos (sim, aquele programa da Globo. Ou era Fama?). Apesar da vibe um tanto Pitty na banda, elas conseguem passar um toque próprio nesse tipo de rock que hoje tem mais cara de baiano. A presença dela de palco ajuda um monte. Danny cresce mais que a própria banda quando canta com a voz de quem engoliu um afinador.

Junto com os Irmãos da Bailarina, a próxima banda que se apresentou fez parte do time low-profile do festival. Theatro de Séraphin representa uma geração anterior do independente soteropolitano. Formado inclusive por um ex-brincando de deus. É quase inevitável, portanto, a grande quantidade de referências ao rock dos anos 80. As músicas mais lentas acabaram dando uma sensação de que o show durou mais que os reais 30 minutos.

Uma coisa que o Boom Bahia faz e que não seria de tão mal ser implementado por outros festivais é o rigor do horário. A Sweet Fanny Adams anunciou o penúltimo show e o relógio ainda batia as 21h. Tudo organizado para terminar cedo. Claro, precisa levar em consideração que a cidade ainda tinha muito mais festa e shows próprios para oferecer para quem quisesse ver o sol nascer na rua.

A única atração de fora do primeiro dia, os Sweet fizeram um show – por falta de termo melhor, vou usar um que odeio – bem redondinho. Lembro quando vi os primeiros shows da banda, quando eles levavam meia hora tentando entender o que estava acontecendo no palco entre uma música e outra. Acho que uma vez cheguei a ir ao banheiro e voltar nesse intervalo. Agora, eles estão no pique de fazer um bom show precisando apenas plugar os instrumentos.

Mandaram uma versão de Wolf Like Me, do TV On The Radio, além de músicas dos dois EPs. Já tinha gente lá na frente do palco que sabia cantar boa parte do repertório, o que foi legal de ver. Dentro do contexto do independente, acho que já dá para colocar eles no patamar das bandas médias. Próximo ano, se mantiverem o pique, devem subir no horário da programação dos festivais. Mas, confesso, nem estão no meu top 5 do Boom Bahia.

O trabalho de encontrar palavras para descrever um show do Retrofoguetes tocando em casa parece ser tão ingrato quanto desnecessário. O do encerramento do festival teve uma novidade para mim. Subiram os três de macacão vermelho, com uma nova logomarca da banda. Algo que eles parecem fazer sempre em Salvador, mas que nunca tinha visto nos oito shows que já vi deles em outras cidades. E visual bem cuidado sempre foi uma das raras coisas que sempre achei que faltava no Retro.

Morotó, que agora tem na prateleira o prémio Dodô e Osmar de melhor guitarrista do Carnaval da Bahia – disputado com figuras do Axé e tudo mais – quebrou as cordas já na primeira música, de tanta vontade de destruir no show.

O Retrofoguetes consegue fazer você cantar no show. E isso apenas já é suficiente para explicar porque eles são uma das melhores bandas instrumentais do mundo. De surf music, a melhor com certeza. Sem medo de mandar um hit como Dick Dale and his Del-Tones (aquela do Pulp Fiction, sabe?) eles te deixam duas opções apenas: dançar e pular feito louco, ou cantar os trechos da música, imitando os instrumentos, ou até inventando uma letra, igual um louco fez, encostado na parede mais próxima do palco, totalmente em transe.

Tudo isso terminou antes das 22h. Uma boa parte de quem estava ali nos bastidores acabou indo para a festa Baile Esquema Novo, na Boomerangue. Uma parte para o Balcão, outra para o Postudo. De todas as cidades que já visitei, Salvador foi a única que tinha mais de duas opções do que fazer para continuar a noite após um festival. Acho que se o Boom Bahia conseguisse se conectar com essa vida noturna rica, cresceria ainda mais.

Logo mais tem o texto sobre o segundo dia. Na sequência, videozinho dos shows. As fotos são de Mariana Neri.