Tagged: 80s

Capital Inicial – Aborto Elétrico

Não é difícil imaginar que o Capital Inicial e o Legião Urbana nasceram de uma banda de punk rock. Os três acordes clássicos foram escola de quase todo bom músico de rock no País (e fora dele). Difícil é pensar que a primeira ramificação, hoje linha de frente do pop nacional, consiga fazer o caminho contrário. Mas a MTV, campeã em fazer o que não deve, decidiu testar. Lança em CD e DVD “Aborto Elétrico”, com o Capital Inicial cantando as músicas que despontou a cena de Brasília.

O começo assusta. Tem até a contagem clássica “1, 2, 3, 4”, chamando para “Tédio (com um T bem grande pra você)” e, por breves dois minutos e 20 segundos, chega a dar idéia de que a voz puxada e já caracterizada de Dinho Ouro Preto vai dar espaço para a música rápida. Explicando, a vertente “Capital” do Aborto Elétrico eram a bateria e baixo dos irmãos Fê e Flávio Lemos. Talvez pelo excesso de músicas inéditas, o resultado final acaba lembrando a mesma banda na sua época pré-acústico.

Existe uma produção e cuidado audível no novo “aborto elétrico” que simplesmente não combinam com esse tipo de música. Um tratamento pop para a música punk. Opções equivocadas, como gravar a primeira música de Renato Russo, “Benzina”, totalmente instrumental. A letra dizia “não quero cocaína, não quero benzedrina, não quero heroína, vou cheirar benzina”. Mas o aborto da MTV é politicamente correto.

Pelas nove faixas que não são inéditas, só o projeto de um registro do Aborto Elétrico já seria suficiente para ser louvável. Funcionaria melhor, entretanto, com as atuais bandas da cena punk de Brasília prestando a homenagem. É verdade que não chamaria tanta atenção quanto ter a imagem bem comportada do Capital Inicial na capa do disco, mas ao menos teria sido mais merecido. Pelas outras nove, as inéditas, fica uma lembrança que Dinho Ouro Preto & Cia já foram menos melosos. Seriam mais que bem-vindos a voltar essa época.

Publicado originalmente em 08.11.05

Nenhum de Nós – Pequeno Universo

Perto de completar 20 anos de existência, a banda Nenhum de Nós é hoje protagonista de um dos maiores contrastes na música brasileira. Foi deixada de fora do movimento feito pela MTV que colocou as bandas gaúchas em alta no gosto do público ao mesmo tempo que preparava um de seus melhores trabalhos, “Pequeno Universo”, disco que acaba de chegar nas lojas. Lançamento que marca também o retorno para valer do grupo aos selos independentes.

Apesar da brincadeira feita no mini-encarte, solto dentro da caixa do CD, o disco está longe de ser pequeno. Décimo primeiro da discografia oficial, “Pequeno Universo” segue a linha de músicas enxertadas de influências e elementos reprocessados, tão comum na carreira da banda. Mas depois de alguns anos na estrada, apenas com lançamentos de “Ao Vivo’s”, o Nenhum de Nós conseguiu elevar esse perfil à décima potência.

O resultado é um disco difícil, que precisa passar por, pelo menos, três a quatro audições para começar a surtir efeito. Diferente dos sucessos fáceis que marcam o repertório do Nenhum de Nós, as 13 músicas encontradas aqui são todas de poesia e melodia construídas com muito mais detalhes que os inevitáveis versos da antiga “Camila”. Inevitável também para a banda são as versões. A mais marcante é uma de Jorge Aragão, compositor que sambou tanto o rock e agora é vítima do efeito contrário.

É difícil, mas também muito positivo. Se conseguir passar pelos fãs mais ansiosos, este novo disco do Nenhum de Nós vai entrar para o filão dos peixes grandes que estão deixando as grandes gravadoras e agregando qualidade cada vez maior ao cenário independente. Pequeno Universo chega como um balanço entre os excessos da MPB e o rock que os selos estavam carentes há certo tempo.

Publicado originalmente em 13.09.05

Entrevista: Ultraje a Rigor

Quando surgiu na década de 80, cantando “Inútil” nas festas da boate Noites Cariocas, o Ultraje a Rigor ganhou destaque pelo rock debochado, mas ainda assim de protesto, um que todos esperavam no período já decadente da ditadura. Era o reflexo de uma época que conheceria em breve os Titãs e Legião Urbana. É irônico então observar que hoje, passados mais de 20 anos, a banda continua sendo reflexo da modernidade do rock, cada vez mais devagar e cansado. Cada vez mais acústico.

“A gente teve que se adaptar a tocar os violões, eles são mais duros, são mais incômodos, dá microfonia ao vivo”, comenta o vocalista Roger, em entrevista por telefone. “No início pensamos até em não fazer, achamos que não soaria bem o Ultraje com violão”, completa o guitarrista Sérgio Serra. Mas, apesar da resistência, foi de comum acordo que o resultado é positivo. “A gente estava se ouvindo melhor e conseguiu manter o peso da banda”, refletem.

Mesmo longe de se desplugar, a tendência é diminuir os ruídos. “A sonoridade ficou tão interessante que a gente está pensando em usar mais violões num disco posterior. Acho que vai ter uma influência muito grande a partir de agora”, adianta Sérgio. Esse novo trabalho, no entanto, ainda é incerto. O processo criativo da banda está todo em Roger, que não tem pressa para lançar um disco novo por ano.

Por hora, a preocupação do Ultraje a Rigor é o lançamento do DVD, que sai em setembro com cinco músicas a mais que o disco. Até lá, preparam também a turnê do Acústico MTV. Show que, apesar de simples, não deve chegar aqui no Recife ou mesmo no Nordeste, já que Roger não anda mais de avião.

Acústico MTV

Em “Rebelde sem causa”, o Ultraje cantava “Como é que vou amadurecer sem ter com o que me revoltar?”, brincando com a classe média alta que assumia pose contra a sociedade, ao mesmo que tinham todo conforto em casa. É exatamente o que acontece no Acústico MTV. Bem à vontade no palco armado pela emissora, a banda contesta pouco e aparece madura. É a revolução da postura da década de 80 no cenário do banquinho e um violão. Com um monte de palavrão também.

Apesar da discografia curta para uma banda com mais de 20 anos, escolher o repertório para um show definitivo do Ultraje não é um trabalho justo. Existem poucas que não viraram um hit nas suas devidas épocas. Mas a MTV costuma ser generosa no espaço que dá aos acústicos e a banda conseguiu definir bem as músicas. São pelo menos duas músicas de cada disco, além de uma inédita. “Ciúme”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube” são algumas da velha guarda, juntas com “Me dá um Olá” e “Agora é Tarde”, do mais recente.

Mesmo tendo lançado um disco menos rock e mais surf music em 2002, o impacto do acústico é grande. O Ultraje funciona no violão e parece a vontade com os novos arranjos. Mas apesar das lembranças serem divertidas, são as músicas novas que fazem o ponto alto da qualidade do show. Como é tradição na história dos acústicos da MTV, eles costumam representar um ponto de virada importante da banda (quando não o próprio fim). As mudanças no som já é uma prévia do que pode acontecer no caso do Ultraje a Rigor.

Publicado originalmente em 31.08.05

The Veils: Runaway Found

Não é justo que “Runaway Found”, novo disco do The Veils, lançado em 2004 e que só chega agora no Brasil pela Trama, dure tão pouco tempo. São pouco mais que 40 minutos de duração, nas 12 faixas de uma das melhores descobertas musicais dessa primeira década do novo milênio. Uma mistura de tudo que já foi feito de melhor na linha Suede, Smiths e Placebo, com uma identidade impagável, na voz de Finn, um inglês que desde os 19 anos (hoje tem 23) vem transformando as poesias que escrevia em música.

Do melancólico ao “levemente agitado”, as músicas conseguem ter uma carga triste sem se apoiar em letras pesadas, dessas que falam de suicídio, morte ou dores de cotovelo. Tem amor sim, mas desses que a proximidade machuca e, ainda assim, são difíceis de se livrar. Como em “The Leavers Dance”, onde ele fala que “não é nosso desejo, mas fomos feitos para cair juntos”. As faixas foram todas produzidas por Bernard Butler, ex-Suede, que não conseguiu deixar um toque de sua banda de fora.

Dois pontos opostos no disco, “Lavinia”, música para se ouvir de olhos fechados, se preparando para conter a energia que ele descarrega já no último minuto, e “The Tide That Left and Never Came Back”, mostram a pluralidade que a banda tem ao mostrar suas mensagens. A segunda, sempre agitada, é hit certo para qualquer DJ que se preze, junto com “More Heat Than Light”, ambas de vida útil longa. Podem tocar por uns dois anos nas festas que não deve ficar datado.

O melhor de “Runaway Found” é que as músicas conseguem fazer parte de toda essa atmosfera sem cair no comum de ser chamado de “fofo” ou adjetivos similares. The Veils é uma banda séria, uma versão bem madura do que o Coldplay vem tentando emplacar nos últimos discos. Este primeiro lançamento, chega no Brasil pela Trama, que fechou contrato com a Rough Trade (selo que lançou The Libertines), com preço pouco distante da realidade, R$ 29,00.

New Order: Waiting for The Sirens Call

Uma curiosidade em se falar do novo disco do New Order é que a associação da banda com os anos 80 é tanta, que parece que eles estão realmente a 20 anos sem gravar nada depois de sucessos como “Bizarre Love Triangle”. Longe da verdade, o grupo inglês é o único sobrevivente daquela safra que tem boa parte da discografia lançada na década de 90. Por isso, “espanto” está longe de ser o melhor adjetivo para associar a enorme qualidade do novo “Waiting for the Siren’s Call”, que só chega agora no Brasil com o atraso de praxe.

O disco abre com “Who’s Joe”, quase uma sequência do que se ouvia no disco anterior “Get Ready”. Nas dez faixas que seguem, mostram uma evolução bem clara no trabalho das músicas, que conseguem manter o mesmo clima da década de 80 sem soar saudosista. Boa parte disso se dá aos esforços de Phil Cunningham, novo tecladista que faz sua estréia no disco. Seu instrumento é não menos que fundamental numa banda como o New Order, e é ele mesmo que coloca um pé moderno no som.

Para os fãs, basta dizer que este é o melhor trabalho do grupo desde Republic, albúm de 93 que foi responsável pela maior estouro da banda. Para quem não conhece, cabe explicar então que “…Siren’s Call” mostra a evolução que bandas mais jovens, como o Strokes, White Stripes e Libertines, devem se apoiar. Façanha exclusiva do New Order, que com 24 anos de estrada, consegue continuar ditanto regra tanto para o velho, quanto para o novo.

Publicado originalmente em 10.05.05