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Completando o eixo

A Banda de Joseph Tourton. Foto de Flora Pimentel

Em dezembro eu comentei aqui no blog que a turma do Fora do Eixo estava montando um circuito de shows completo no Nordeste. A idéia era aproveitar as cidades de interior e proximidade geográfica para garantir um calendário diário – isso mesmo, todos os dias – de shows. Agora, a rota se juntou ao do sudeste em um número quase assustador: 35 shows em 40 dias. A banda argentina Falsos Conejos, junto com a pernambucana A Banda de Joseph Tourton, já passaram por 18 cidades em outubro e começo de novembro. A primeira aproveita para lançar um disco via Compacto.REC, plataforma também do Fora do Eixo para álbuns virtuais; enquanto a segunda lança o disco gravado com patrocínio da Petrobras.

A turnê chega hoje ao Nordeste, onde eles passam por mais 14 cidades. O calendário aproveita alguns “eventos satélite” como o festival DoSol em Natal e o Festival Mundo, em João Pessoa. Somente em Pernambuco que as bandas não passam por nenhuma cidade do interior e tocam apenas na capital, Recife. O resultado da articulação é realmente impressionante. Afinal, por mais que alguém vá questionar a quantidade de público em cidades de interior ou noites no dia da semana, chegar lá e fazer essa rota acontecer no Brasil é um avanço importante para pensar em um “mercado independente” sério.

Quem quiser acompanhar o bate-perna deles, olha o restante das datas:

05/11 – Vitória da Conquista (BA) – Viela Sebo Café
06/11 – Feira de Santana (BA) – ArtBrasil
07/11 – Salvador (BA) – Espaço Cultural Dona Neuza
08/11 – Aracaju (SE) – Rua da Cultura
09/11 – Maceió (AL) – Banga Bar
11/11 – Campina Grande (PB) – Bronx Bar
12/11 – Cajazeiras (PB) – Praça da Prefeitura
13/11 – João Pessoa (PB) – Festival Mundo – Usina Cultural Energisa
14/11 – Natal (RN) – Festival DoSol – Casa da Ribeira
15/11 – Pium (RN) – Festival DoSol – Circo da Luz
16/11 – Mossoró (RN) – Quintura Bar
17/11 – Fortaleza (CE) – Buoni Amici’s
18/11 – Crato (CE) – Terraços
19/11 – Recife (PE) – Canal das Artes

A Banda de Joseph Tourton

Pensando no que falar sobre o lançamento do disco da Banda de Joseph Tourton, fui buscar o histórico de passagens deles aqui pelo blog. Ainda em 2008, quando surgiram no Microfonia, foram finalistas com outras 15 bandas novas do Recife. Nesse curto espaço de tempo de dois anos, pelo menos dez grupos da lista encerraram atividade. Algumas outras, seja por azar ou algum outro motivo, não chegaram a dar nenhum passo adiante de onde estavam. Isso diz muita coisa sobre a cena de uma cidade e porque algumas bandas dão certo e outras não.

Apenas dois anos se passaram e, daquela lista inteira, talvez por exceção da Candeias Rock City, a Banda de Joseph Tourton de hoje parece ter uns dez anos de experiência a frente de todas. O disco deles chega em formato virtual, onde você pode baixar inclusive as faixas abertas para remix. Algo quase nunca praticado nesse mundo pós-Creative Commons. Tem participação dos Mombojós, os metais do Móveis Coloniais de Acaju e Vitor Araújo. Uma mistura de quase tudo que presta hoje no independente nacional.

A produção de Felipe S e Marcelo do Mombojó poderia soar perigosa, já que antes o som da Tourton já mostrava uma influência pesada do grupo. Mas, pelo contrário, eles conseguiram ajudar a nova banda a lapidar uma identidade própria em cada música. Se antes dizia que a banda soava como X ou Y, a partir desse disco é capaz de vislumbrar que novas bandas vão surgir inspiradas por Joseph Tourton. Além disso, eles trazem uma contribuição fundamental para a cena instrumental nacional, que é saber soar experimental, sem ser cansativo, chato e complicado. Existe uma amarra pop por trás de tudo, que faz a degustação de cada faixa ser bem mais prazerosa.

O disco tem patrocínio da Petrobras. Por sinal, fiz parte da comissão desse edital e, vendo o resultado, fico feliz de ter contribuído para algo tão positivo. Tomara que os outros contemplados cheguem nesse mesmo nível. As músicas, fotos e demais novidades estão no novo site da banda: www.josephtourton.com.br

Finalistas do Microfonia 2008

Finalmente saiu a lista das bandas finalistas do Microfonia. O concurso escolhe uma banda para tocar na próxima edição do Abril Pro Rock, mas na verdade isso é só a cereja do bolo. O primeiro lugar ainda ganha R$ 3 mil em dinheiro, horas de gravação em estúdio, videoclipe, bolsa de estudos, fotos de divulgação e até um release bonitinho. Em edições passadas, o Microfonia encontrou bandas como a Volver e Sweet Fanny Adams, dando um impulso na carreira delas, que hoje circulam o país em festivais independentes.

A curadoria é feita por mim, Paulo André (do Abril), dois professores do curso de Produção Fonográfica da Faculdade e por William do estúdio Mr. Mouse. E, vou te dizer, esse ano foi bem difícil. O número de inscritos caiu, mas a quantidade de banda ruim aumento gigantescamente. Foi feito tirar leite de pedra chegar nesses 16 nomes abaixo. Mas no fim valeu, teve umas boas surpresas que voltarei a falar mais tarde por aqui.

Olha ai a lista:

01. A Banda de Joseph Tourton
02. A Comuna
03. Black Flowers
04. Candeias Rock City
05. Caravana do Delírio
06. Gandharva
07. Gigantesco Narval Elétrico
08. Ilíada 1
09. Javacafé
10. La Garantia
11. Love Toys
12. Seu Fulô e a Fuleragem
13. The Haze
14. The Keith
15. Ugly Boys
16. Voyeur

Cobertura: Coquetel Molotov 2008. Primeiro dia, parte dois

- O texto abaixo foi a cobertura do primeiro dia que fiz para o Jornal, em versão competa, porque na final saiu super editado. Como o espaço já era curto originalmente, precisei fazer algumas escolhas, entre elas não falar do show da Julia Says.

- Mas te digo, achei a apresentaçao deles muito boa. Eu gosto como o Julia Says é contraditório na opinião pública. Metade ama, metade odeia, nunca se chega num meio termo. Fico cada vez mais no primeiro time. Mas ainda acho que falta algo ali para eles irem ainda mais longe. 

- No primeiro dia também foi distribuida a nova edição da revista Coquetel Molotov. Tem resenhas minhas de todos os dicos que peguei no Bananada. De Sapobanjo (Ska) a Bad Folks (folk, claro). A feirinha do festival estava incrível, por sinal. Comprei até duas camisas lá.

- Cheguei cedo nesse dia e peguei a passagem de som de Marcelo Camelo. Mallu Magalhães ficou sentada com cara de fã, em cima do palco, o tempo todo. Depois levantou e ficou brincando com os refletores :P

- Só fiz fotos no segundo dia. Preciso de uma câmera de verdade. Mas segura as pontas ai, porque vai ter um vídeo igual o que rolou ano passado =)

Quando o assunto são os festivais de música independente, a sensação é de que o Recife ainda não conseguiu assimilar bem a idéia de um evento pensado para conectar as pessoas e não as atrações. Mas no começo do show da banda Burro Morto, da Paraíba, pareceu que o No Ar Coquetel Molotov, que encerrou neste sábado no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco, conseguiu em sua quinta edição ultrapassar esse limite. Muito mais do que a pura experiência musical – o “vou para ver tal banda” – o espaço ficou lotado cedo por pessoas que apenas queriam estar ali e fazer parte daquele momento.

Esse descompromisso é chave fundamental para uma recepção extremamente positiva de quem passa por lá para tocar alguma música. Tudo é muito novo, não apenas em tempo de formação, mas em casos de bandas como a Guizado, de São Paulo, com a melhor apresentação da noite, que se apóiam em instrumentos jamais utilizados pelo universo pop. E, por isso, tudo também sempre soa muito bom. O perfil tradicional do público que vai para questionar dá espaço para uma geração nova com o interesse sincero em apenas aproveitar uma boa noite de shows.

A cumplicidade criada permitiu boas estréias para a banda de Joseph Tourton, instrumental de marcação pop, com integrantes que sequer atingiram a maior idade. E deu aos cearenses do Cidadão Instigado – escalados de última hora para substituir o Vanguart – um merecido excelente show na cidade, limpando o histórico que Fernando Catatau & Cia (que em horas vagas acompanha também a banda de Vanessa da Mata e Otto) teve de apresentações no Recife que, até então, eram sempre prejudicadas por questões técnicas e deslizes de produções. O próprio, nos bastidores, era apenas sorrisos. “Foi legal mesmo, né?”.

Parte da corrente do ineditismo, a sueca Shout Out Louds deve ter feito uma das melhores campanhas no palco. Pop simples, que muitas horas lembrava uma versão mais alegre do The Cure, caso tal comparação fosse possível. Fizeram o público do teatro se levantar e dançar e voltaram para a Europa com um considerável aumento de fãs. “Nunca tinha ouvido falar, achei incrível”, falava em tom de comemoração o estudante e músico Eric Barbosa, 23, que não se acanhou em confessar. “Não vi aqui atrás de show nenhum, foi mais para encontrar um pessoal e passear”. No bolso, ele levava dois CDs da banda e uma camisa.

Mas tanta gente assim, que esgotou os ingressos para o festival com quase uma semana de antecedência, se justificava também pela presença de Marcelo Camelo, que nessa noite livrou-se do estigma de “ex-Los Hermanos”. O músico agora existe efetivamente solo e o fez com uma estréia que já pode ser classificada como histórica. Começou em clima de João Gilberto, sentado com um violão, cantando baixo, até se deixar contaminar pela empolgação do público. Todas as músicas do disco “nós” que cantou já foram em coro.

Aquele não era o Camelo que descreveriam como o mais reservado da antiga banda. Ele chegou a cantar duas músicas do Los Hermanos. Em “Morena”, o teatro experimentou uma pequena catarse, sentimento que só aumentou quando a cantora Mallu Magalhães entrou no palco, sentou ao seu lado, pegou um violão e desabou em choro. A cena era honesta e multiplicou lágrimas em todo teatro. No fim, celebrou enérgico, igual um torcedor de futebol frente ao gol.

Coquetel Molotov 2008: Primeira noite

- Talvez o Coquetel Molotov seja o festival mais bem resolvido do Recife hoje. Eles sabem o que querem para o evento e é muito bom perceber como o público responde a isso. O clima do lugar esteve perfeito na quinta edição, ao ponto de que você poderia ir para lá e não assistir nenhum show e se divertir bastante.

- Perdi uma nota de R$ 100. Se você encontrou, não me diga.

- A quinta edição meio que fecha um ciclo. E nele, a tradição: o melhor do festival está sempre na sala Cine UFPE, nos shows gratuitos.

Eu lembro de me perguntar, no final da edição passada do festival No Ar Coquetel Molotov como eles conseguiriam repetir o feito de esgotar os ingressos do evento. Era o ponta pé inicial da minha dúvida sobre a presença de tanta gente ali. Era pelo que o evento tinha construido ou por uma atração específica? Quando cheguei no teatro da UFPE, perto das 18h, vi que isso estava longe de ser um problema esse ano. Espaço cheio, sala Cine UFPE já lotada com o começo do show do Burro Morto. E pela primeira vez consegui pegar a primeira atração do festival.

O Burro Morto é da Paraiba e não parece com nada que eu tenha ouvido até hoje de lá. Instrumental bem incrível, daqueles que você consegue distinguir quando uma música começa e outra termina. Aliás, parece que isso deixou de ser um problema nas novas bandas instrumentais. A lógica da canção pop venceu e isso é muito bom. Bastou ver o público dançando e respondendo imediatamente às músicas. Dos oito shows da noite, esse entra no meu top 3.

Por falar em lógica pop imperando, era genial ver um dos meninos da banda de Joseph Tourton com uma camisa do NOFX, tocando músicas que parecem ter saido de um ensaio secreto do Hurtmold. A banda fez uma boa estréia, com um pessoal incrivelmente novo e, mais uma vez, com um show instrumental. Poderia até ter ficado em horário mais nobre que não fariam feio. Sem falar que eles sinalizam uma mudança extrema na cena de novas bandas da cidade… era impossível pensar uma banda assim há, sei lá, seis anos.

O Bandini fez um show bom, mas foram prejudicados um pouco com o som da sala cine e um pouco pelo nervosismo de uma primeira apresentação fora de casa. Acabei sem conseguir ver o show deles inteiro porque foi nessa hora que percebi que havia perdido meu dinheiro. E sai na inocência de conseguir encontrar a nota perdida no chão. Não aconteceu.

Logo depois, o Guizado fez o melhor show de toda a noite. Eu lembro quando vi a banda pela primeira vez no Milo, em São Paulo, se não me engano na estréia deles. O negócio cresceu em proporções impressionantes. Não tem como ouvir dois segundos das músicas e não se contagiar e dançar. Podiam ter tocado no palco principal ou até mesmo encerrado a noite fora do teatro, em clima de festa, que seria foda.

Na mudança para o teatro, por sinal, ainda deu tempo de arriscar o Rock Band, que a Trident armou no centro do festival. A fila pro joguinho era quase tão demorada quanto a para entrar no teatro.

Depois eu falo de tudo que aconteceu no teatro, inclusive sobre esse vídeo ai acima. Sim, a Mallu tá chorando. Não, Camelo não pegou ela no final. (Mané)