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Nação Zumbi – Futura

Mais aguardado na música independente nacional do que o resultado da CPI do Mensalão, o novo disco da Nação Zumbi chega nas lojas do País na segunda-feira. “Futura”, que já tinha uma prévia circulando pela Internet no último mês, é o sexto da banda que estava há três anos sem novidade na praça. Período que rodou o mundo, absorveu referências, influências e transformou seu som em pleno palco.

A espera foi longa, mas antes de apertar o “play” é preciso se livrar de qualquer expectativa do que pode ser encontrado nas 12 faixas de “Futura”. O maracatu da Nação Zumbi perdeu uma tonelada, está menos percussivo, mais elétrico e até mesmo eletrônico. O pé, ainda com um cheiro forte de mangue, está fincado agora com muito mais força no dub, numa experiência linear, reflexiva e dançante. Sinais que a banda já mostrava no anterior homônimo.

A expectativa não vale nem sequer para a primeira impressão de “Hoje, Amanhã e Depois”, hit fácil e certo que já é trabalho de divulgação. O que segue no disco está mais contido, melancolico, conduzido de forma elétrica da marcação do baixo e guitarra. Em segundo plano, a percussão é acompanhada por efeitos e rebites eletrônicos que vão de VK7’s, TR808 (teclados sintetizados) a sons de videogames.

O primeiro grande surto vem na faixa sete, “Expresso da Elétrica Avenida”. Puxada por uma batida eletrônica, quase feita para as pistas de dança não fosse o grave da voz de Jorge du Peixe. Dela em diante, o disco fica agitado, com batidas mais fortes, chegando a lembrar os trabalhos anteriores da banda. “Pode Acreditar”, nome da penúltima música, é a palavra de ordem para “Futura”. Nação Zumbi surpreende, tirando o excesso regional do rock pernambucano.

Na sua fase mais psicodélica, a Nação Zumbi não só deu um tempo na batida do maracatu, como também dosou os instrumentos. “É um pouco da técnica do gringo que está trabalhando com a gente. Ele já tinha feito um pouco disso no anterior, só que agora ele estava com a gente desde o início”, explica o baixista Dengue, em referência a Scott Hardy.

“A gente procurou fazer umas levadas mais livres, não está mais preso a um certo regionalismo”, comenta. Depois de três anos na estrada, fazendo o show do DVD, ele reflete que esse é, provavelmente, o disco mais pensado por toda a banda. “A gente teve tempo de conversar bastante, na hora que entrou em estúdio ainda conversou mais. E isso fez uma diferença muito grande no ‘Futura’”.

Dos planos da banda para esse disco, ficou de fora o sampler com um discursso de Che Guevara, porque a gravadora não conseguiu os direitos do áudio. “Foi um discurso antigo que ele fez em Cuba, algum universitário acabou prensando em vinil. Precisamos tirar em cima da hora para não perder a música”, lembra. Agora, a banda prepara a turnê de divulgação de “Futura”, que deve chegar no Recife em dezembro.

Publicado originalmente em 12.10.05

Diplo – Florida

Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

Publicado originalmente em 01.10.05

Los Hermanos: 4

Os fãs do Los Hermanos acabam de ganhar um motivo de verdade para chorar nos shows. Motivo que deve se manifestar de maneiras diferentes, todas através do novo disco “4”, que deve estar esgotado nas lojas até próximo fim de semana. Disco que marca, talvez, a fase mais introspectiva do grupo e reflete a idéia pouco necessária de se trancar dois meses numa fazenda para conseguir criar.

Já é tradição dos quatro barbudos, que só lançam disco no intervalo de cada dois anos, trazer uma face nova em cada trabalho. Eles estão numa fase MPB, com presença dos sintetizadores e também percussão perdida nas guitarras sem distorção. De resto, faz lembrar bastante a época da música de praia e das letras literatas em excesso de Chico Buarque.

Se não por isso, será pelo fato que “4” é o disco mais difícil do Los Hermanos. Não se deve escutar ele de surpresa, tampouco levar para uma festa. Escutá-lo é um quase ritual. Tentativa boba, já que esse “difícil” é, na verdade, quando se tenta associar aos discos anteriores, “4” é um trabalho simples, enxuto e visivelmente parte de um momento pessoal. Se as músicas trazem algum sentido escondido, é apenas para eles.

Das 12 faixas, sete são assinadas por Marcelo Camelo e cinco por Rodrigo Amarante. As diferenças entre elas são fortes, já que o primeiro sequer chega a formar sentenças inteiras. Apesar do impacto da primeira audição, onde tudo demora a deixar de ficar tão lento, “4” é um disco bem executado.

Existe ainda uma divisão bem evidente, de ordem cronológica. A primeira metade de “4” é toda de melancolia em excesso e, em alguns momentos, chega ao exagero de ter segundos de silêncio. É onde se encontra um Los Hermanos mais à vontade e até mais criativo. Com excessão de “Paquetá”, música perto de uma valsa, essa primeira parte tem uma caracterísitica saudável. Ponto para a banda, que vai evitar frases de efeito nesse trabalho. A segunda metade chega com uma sensação forte de obrigação. Músicas animadas e letras fáceis. É nessa leva que está “O Vento”, de trabalho que está tocando nas rádios. E o provavel é que saiam daí os principais sucessos em clipe e shows.

Publicado originalmente em 30.07.05

MTV Apresenta Otto

De braços abertos em pose de cristo, usando uma manta bege, colares e seu tradicional óculos escuros, Otto coloca Pernambuco no mapa do projeto “Apresenta” da MTV. O show-DVD, gravado no Avenida Club, em São Paulo, deve entrar como uma das peças mais ambíguas da carreira do cantor. Ambígua porque existem duas maneiras bem claras de se ver o material, uma apenas como show, outra como DVD para guardar em casa. E uma delas não é uma opção muito boa.

Com alguns dos melhores talentos do Recife no palco, este “Apresenta” é, provavelmente a melhor configuração de show que Otto já fez até hoje. De longe um dos melhores repertórios, onde ele emplaca alguns sucessos esperados (“TV a Cabo” e “Bob”) e também músicas que nunca entraram nas suas apresentações (nada inédito, no entanto). Também apresenta, sem trocadilhos, um Otto que está extremamente a vontade com seu lado favorito da música, que é a percussão. São quatro batuqueiros no palco.

A seqüência de abertura do show é tão bem escolhida que deveria ser usada ao vivo por, pelo menos, um semestre inteiro de apresentações. “Anjos do Asfalto”, “Lavanda” e “Tento Entender” é Otto em sua melhor forma. Em alguns momentos para de cantar, se junta a percussão e quase entra em transe. Um dos poucos músicos nacionais que consegue transmitir uma inocência grande no palco, ele consegue fazer esse transe contagiar.

Mas do ótimo, o DVD “Apresenta” cai para o regular no quesito imagem. O show usa o mesmo formato de cenário escuro, valorizando certas cores, usado no recém lançado Simoninha canta Jorge Ben, que chega desgastado pela repetição. Mostra também um público que responde pouco as músicas, não dança, não mostra comoção. Em certo hora, num momento de refrão de música, a câmera vira para mostrar a desnecessária cena de um grupo de amigos bebendo próximo ao palco.

E é provavelmente este dedo da MTV que deixa o disco tão subaproveitado. As câmeras são muito pouco a nada ousadas, com uso excessivo de plano americano (aquele que filma da cintura até a cabeça) no músico. Um contraste enorme, por exemplo, ao DVD da Nação Zumbi, que é rico em arte e planos criativos. Além de cenas desnecessárias, como a esposa de Otto, que é filmada mais de três vezes. A salvação vem no único extra, uma entrevista com cenas interessantes de ensaio.

Publicado originalmente em 23.07.05

Matanza: To Hell With Johnny Cash

Antes de ouvir o disco novo do Matanza, é preciso entender que a banda é o tipo de grupo de rock que o Brasil precisa. Eles fazem o tipo Motorhead, com a pose, roupas, bigodões e um som meia boca que gruda feito chiclete. O tipo de coisa que a MTV pode apresentar para lavar as mãos dizendo que dá atenção a alguma vertente underground do rock nacional. A banda fez uma homenagem ao cantor country Johnny Cash num produto bem interessante, metade CD, metade DVD.

“To hell with Johnny Cash” são 13 músicas com o vocal rouco puxado do sul dos estados, com a distorção de guitarra dando nova roupagem. Em certos momentos, até a bateria acelera em ritmo hardcore fazendo a mistura ficar mais estranha. São canções rápidas, dessas que fazem voltar uma faixa ou outra para ouvir de novo os trechinhos que ficam na cabeça com facilidade.

Os fãs de Cash vão sentir falta de algumas músicas. “Cocaine Blues”, por exemplo, é uma das canções perfeitas para acelerar no rock’n'roll. Além da clássica “Walk the Line”, que também ficou de fora. Bom mesmo acaba sendo “I Got Stripes”, que encerra o disco. A seleção ficou mais direcionada para o fã obsessivo, que conhece todas as músicas perdidas. Talvez o disco ficasse mais divertido se fosse uma doutrina rock para o country.

Dentro do que se propõe, o Matanza faz um som competente. E eles existem num cenário bem conveniente para atingir essa competência, já que outras bandas do porte dificilmente conseguem qualquer destaque no país. As músicas, todas em inglês, estão bem distante da idéia de inferno que traz no nome e capa e lembram muito o mote do disco anterior da banda, chamado “músicas para beber e brigar”.

Nesse cenário Harley Dayvidson, o Matanza se destaca muito mais pela atenção que a banda dá ao mercado que pelo próprio som. O disco de mídia dupla, lançado pelo selo Deckdisc se mostra uma opção bem interessante para evitar problemas com pirataria. Infelizmente, afeta muito o preço do produto final.

Publicado originalmente em 20.06.05