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Entrevista – Nando Reis

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Nando Reis está no top 10 dos artistas nacionais mais complicados de entrevistar. Depois de toda historia que viveu com os Titãs, ele já aprendeu todas as manhas dos jornalistas. E o mais grave, sabe muito bem que precisa pouco deles. Por isso, não se intimida em lançar um disco no formato mais cansado da indústria brasileira, um acústico MTV, reprocessado na forma de um lual. Numa agenda de entrevistas entre vários veículos de mídia de todo o país, o músico parece se divertir muito mais que aproveitar a divulgação extra. Coisa de quem quer passar a imagem de estar sempre por cima.

Por isso a conversa com ele é sempre intercalada por longos “hmmmm“, encerrando em curtos “sim” ou “não“. Por quê? “Ah, por que sim“. Arrancar frases inteiras é um desafio. E depois muito cutucado, ele decide ceder. Diz que “na verdade não é acústico porque estou planejando um show onde vão ser usados instrumentos elétricos. Vai ter uma transição“. Também não é um lual. O programa da MTV foi gravado debaixo de um forte sol carioca. E, claro, na turnê que ele planeja agora, vai se apresentar em ambientes fechados.

No fundo, o que se passa é que Nando Reis aproveita ambos conceitos para lançar um de seus discos mais definitivos. São todos seus principais sucessos, num climão de que ele está  tocando violão bem ao lado do fã, com direito a vários convidados para encher a bola da festa. Ter certeza de onde mirar para acertar costuma ser sinônimo também para disco mais preguiçoso. O fã pode até estar ao lado, mas ele quer também novidades, por mais que Nando Reis negue isso.

Mas ele justifica que “os fãs sempre pedem músicas do Titãs quando eu toco“. E vai além numa longa defesa, explicando que “também pedem Cássia Eller, Marisa Monte, e de várias outras pessoas. Eu não gosto de ver minha carreira como algo seccionado, e sim como minha maneira de interpretar minas composições. Então não vou deixar de tocar algo da minha antiga banda só porque estou em carreira solo. Não funciona assim para mim“.

Discurso de um tipo raro de artista, aquele que tem liberdade total dentro da maior gravadora do pa¡s (e do mundo), a Universal. “Eu acho que o mito é outro. As gravadoras não manipulam seus artistas, mas existem alguns que querem, gostam e se permitem serem manipulados. Se a gravadora te contratou, então pressupõe que ela gosta de seu trabalho, não existe essa história de tentar mudar“, afirma, no que deve ser o maior desafio já  lançado até agora ao discurso contra as grandes corporaçäes da música.

Nando Reis usou essa liberdade para ditar seu próprio repertório e chamar os convidados que queria. Essa é, certamente, sua grande contribuição para o formato acústico, já que sempre são convidados apenas artistas da própria gravadora do músico em evidência. Isso, e o fato que, no fim das contas, Nando Reis ainda é um dos grandes compositores da música pop nacional, consegue transformar a questionável idéia de um lual num bom disco. 

Lenine – Acústico MTV

No recém lançado musical “Alabê de Jerusalém”, Altay Veloso faz uma narrativa pessoal para a história de Jesus Cristo. Dois pernambucanos interpretam papéis fundamentais no conto. Um deles é Lenine, vestido como “o ateu”. Veloso diria mais tarde que ninguém seria mais perfeito para o personagem. Essa verdade se potencializa este fim de semana, quando Lenine lança a primeira parte do seu Acústico MTV. Trabalho que começa com o próprio músico desbancando a crença no formato “se o microfone está ligado, não é acústico”.

Sendo mais reflexivo, Lenine lembra que essa imagem do acústico, como uma apresentação de volume mais baixo, tem raízes na sua própria origem. “Acho que era mais um produto diferenciado porque era direcionado para as bandas de rock”. E ele, de novo, desafia as crenças. “Para mim foi mesmo uma oportunidade de evidenciar minha banda e me divertir no processo”, diz, sempre num tom tranqüilo de voz. “Eu me diverti muito”, garante.

Mesmo para alguém que lança o terceiro disco seguido ao vivo, escolher um repertório não pareceu tarefa complicada para Lenine. O acústico dá um tempo nas músicas do anterior InCitté, mas vem recheado dos lugares comuns de sua carreira. “Jack Soul Brasileiro”, “A Ponte” e “Hoje eu Quero Sair Só” pontuam esses momentos. O que impressiona mais são os convidados, como Iggor Cavaleira, Julieta Venegas, Richard Boná e Gog. Mas esses só farão mais diferença para o público quando chegar o segundo momento do projeto, que será o DVD.

A maneira diferente de Lenine fazer acústico – tocando com orquestra e em um tom muito mais alto, quase elétrico – é exemplo fundamental de sua posição hoje na música. Ele é o único artista do Estado que não tem “pernambucano” como adjetivo. Fica cada vez mais difícil demarcar uma geografia nas músicas que ele faz. “É música e ponto. Contemporâneo e ponto”, como ele mesmo bem encerra o assunto.

Entrevista: Ultraje a Rigor

Quando surgiu na década de 80, cantando “Inútil” nas festas da boate Noites Cariocas, o Ultraje a Rigor ganhou destaque pelo rock debochado, mas ainda assim de protesto, um que todos esperavam no período já decadente da ditadura. Era o reflexo de uma época que conheceria em breve os Titãs e Legião Urbana. É irônico então observar que hoje, passados mais de 20 anos, a banda continua sendo reflexo da modernidade do rock, cada vez mais devagar e cansado. Cada vez mais acústico.

“A gente teve que se adaptar a tocar os violões, eles são mais duros, são mais incômodos, dá microfonia ao vivo”, comenta o vocalista Roger, em entrevista por telefone. “No início pensamos até em não fazer, achamos que não soaria bem o Ultraje com violão”, completa o guitarrista Sérgio Serra. Mas, apesar da resistência, foi de comum acordo que o resultado é positivo. “A gente estava se ouvindo melhor e conseguiu manter o peso da banda”, refletem.

Mesmo longe de se desplugar, a tendência é diminuir os ruídos. “A sonoridade ficou tão interessante que a gente está pensando em usar mais violões num disco posterior. Acho que vai ter uma influência muito grande a partir de agora”, adianta Sérgio. Esse novo trabalho, no entanto, ainda é incerto. O processo criativo da banda está todo em Roger, que não tem pressa para lançar um disco novo por ano.

Por hora, a preocupação do Ultraje a Rigor é o lançamento do DVD, que sai em setembro com cinco músicas a mais que o disco. Até lá, preparam também a turnê do Acústico MTV. Show que, apesar de simples, não deve chegar aqui no Recife ou mesmo no Nordeste, já que Roger não anda mais de avião.

Acústico MTV

Em “Rebelde sem causa”, o Ultraje cantava “Como é que vou amadurecer sem ter com o que me revoltar?”, brincando com a classe média alta que assumia pose contra a sociedade, ao mesmo que tinham todo conforto em casa. É exatamente o que acontece no Acústico MTV. Bem à vontade no palco armado pela emissora, a banda contesta pouco e aparece madura. É a revolução da postura da década de 80 no cenário do banquinho e um violão. Com um monte de palavrão também.

Apesar da discografia curta para uma banda com mais de 20 anos, escolher o repertório para um show definitivo do Ultraje não é um trabalho justo. Existem poucas que não viraram um hit nas suas devidas épocas. Mas a MTV costuma ser generosa no espaço que dá aos acústicos e a banda conseguiu definir bem as músicas. São pelo menos duas músicas de cada disco, além de uma inédita. “Ciúme”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube” são algumas da velha guarda, juntas com “Me dá um Olá” e “Agora é Tarde”, do mais recente.

Mesmo tendo lançado um disco menos rock e mais surf music em 2002, o impacto do acústico é grande. O Ultraje funciona no violão e parece a vontade com os novos arranjos. Mas apesar das lembranças serem divertidas, são as músicas novas que fazem o ponto alto da qualidade do show. Como é tradição na história dos acústicos da MTV, eles costumam representar um ponto de virada importante da banda (quando não o próprio fim). As mudanças no som já é uma prévia do que pode acontecer no caso do Ultraje a Rigor.

Publicado originalmente em 31.08.05