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Recbeat 2007 – Segundo dia

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Com o transito louco do carnaval, todos os ônibus escoando pelas mesmas ruas, tudo bem infernal, é quase impossível chegar na hora planejada nos pólos. Me atrasei no segundo dia do Recbeat e peguei apenas o “boa noite!” de despedida do Rivotrill. Uma agonia quando isso acontece, porque metade do caminho entre minha casa e o Recife Antigo é preciso ser feito a pé nessa época. E quando se está na ponte, vendo o palco de longe, com as luzes vermelhas e fumaças, é algo bem próximo à sensação de ver seu ônibus ir embora num dia de chuva. Você fica olhando, cerrando a vista, tentando ativar a supervisão, dá uma corridinha e quando finalmente se aproxima constata: é, perdeu.

Nessas horas, o que resta é perguntar. Uma parte me diz que a banda foi super chata, outra me diz que foi excelente. Não por acaso, ambas argumentam usando os mesmos motivos. Como sai perguntando mais aleatoriamente, não me atentei muito ao gosto de quem opinava. Vai parecer um comentário genérico, mas vindo de quem não assistiu ao show não podia ser diferente. Um som com muita informação no palco, misturando jazz e referências folclóricas, e que – isto foi de comum acordo a todos – teve uma ótima resposta do público. Fico na dívida aqui de ver um show dos caras.

Algo fundamental a se considerar nesta noite do Recbeat. Na outra ponta da ilha, o Marco Zero recebia um mix de Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Marcelo D2, Pitty e Lenine. No Recife, estes nomes juntos formam o melhor sentido para a palavra confusão. Nas ruas paralelas estava impossível. Terceira vez consecutiva que vejo venda e consumo de crack no meio da rua, em plena mesa de bar. Muita briga, arrastão, colegas apanhando pelo descuido. Abortei qualquer intenção de chegar próximo ao palco principal do Recife Antigo já no começo da noite.

Volta então, no turbilhão da confusão, para o Recbeat. Era uma banda de pós-rock no palco? Breeders, Pixies? Canja Rave, guitar band de Porto Alegre. Parecia surpreender, mas ao mesmo tempo, indie demais para um palco de carnaval. Talvez isso + a cabeça ainda atordoada das ruas laterais fizeram do show um pouco confuso. Não mais confuso que Isca de Polícia. Show chato, descartável, desnecessário. Até agora, único erro real dessa programação.

Forçando a barra para uma reflexão… acho que a programação do Recbeat ficaria ótima se seguisse uma unidade. Canja Rave teria mais clima numa noite com o Mellotrons; Digitaria com o Montage; Bonde do Rolê com Mister Catra. Tudo bem que essa coisa de “noite por ritmos” tem muita cara de Abril pro Rock, mas ainda acho que seja algo que funcione melhor.

Por isso, Digitaria foi um show totalmente passável. Eletrônico, alto, muito alto, que afastou mais público do que poderia suportar. Frente do palco vazia, mesmo com toda a macaquice que eles tentavam fazer para animar. Tinha gente empolgada sim, claro. Quem ficou para ver eles, não fez esforço. Dançou com vontade, mas ainda não vi um show de música eletrônica ao ar livre – exceção do Fatboy Slim – que tenha realmente se dado bem no Recife. Posso estar errado, mas o inferninho apertado ainda é preferência para as pistas.

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Eu já vi shows suficientes do Bonde do Rolê para ter certeza que aquele seria mais outro fracasso. Surpresa. Aliás, surpresa fantástica. Eu posso falar bastante, mas não escrevo palavrão por qualquer coisa. E preciso dizer que rock-funk-curitibano do trio, ali naquele palco, foi simplesmente do caralho. Vou rebaixar aqui qualquer tentativa cabeçoide de uma analise aprofundada para me resumir a esta única avaliação: do caralho.

Considerado tanta gente de periferia que estava lá, a resposta do público ao pancadão é quase imediata. Complicado apenas porque o Bonde é uma banda com muita referência sonora, letras complicadas. Num determinado momento, dava para ver que o publico realmente funkeiro e de cabeça rosa e amarela simplesmente parou de dançar e ficou olhando para o palco. Tudo parecia muito louco, muito complexo. Boa parte desistiu, pelo “ainda bem” do restante das pessoas claramente assustadas com o risco de pancadaria iminente.

Os fotógrafos são um ótimo parâmetro de quão surpreendente foi o show. Em todos os outros, eles se entediavam na primeira música e já iam embora com uns poucos cliques. Durante o Bonde, ninguém quis sair. “Claro! Num show desses tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer”, disse um deles, Ivan Alecrim, do Jornal do Commercio. E durante o Rolê, rolou de tudo. Deles descendo em pleno show para beijar as meninas, a um coro do público “vai Marina, mostra a vagina!”. Marina, a vocalista do trio, não mostrou. Mas não deixou de ser tudo muito memorável.

Programação de hoje

17h00 RECBITINHO: CIA TEATRO RASGADO
19h30 MELLOTRONS | PE
20h30 VANGUART | MT
21h30 RAIES DANÇA TEATRO | SP
23h00 MR CATRA | RJ
00h00 INSTITUTO canta Tim Maia Racional | SP
01h00 MONTAGE | CE

Música nova no Recbeat

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Está na moda dizer que existem “festivais” e “festivais”. A palavra, de repente, ficou complexa demais para ser uma simples definição para a reunião de várias bandas sob o mesmo teto. A nova programação do Recbeat ilustra bem como essa mudança é sutil. Este ano, deixou de ser festival no sentido mega, com um nome que até nossos avós conhecem encerrando cada noite; para se tornar um festival que – mesmo sendo oficialmente um palco da prefeitura – atende o formato independente. Nomes desconhecidos, com noites para conhecer nova música.

O leitor regular do Pop up não deve ter se surpreendido com muitos dos nomes na programação. Quase todas as atrações passaram pelas páginas deste caderno durante o começo de suas carreiras. Dois, em especial, valem bastante a pena serem revisitados e conferidos no palco. Respectivamente as bandas Zefirina Bomba e o Bonde do Rolê.

Quando o Zefirina, banda da Paraíba, se mudou para a São Paulo e gravou o primeiro disco, revelou por aqui que acreditava fortemente que nada ia mudar. Não mudou mesmo. “Tá certo, mudou uma coisa”, confessa o vocalista Ilson, “agora depois do show a pessoa pode levar a gente para casa em CD, o que antes não tinha como”. O trio foi a última contratada pela gravadora Trama sob o selo Trama Virtual. Eles tocam um rock que não tem medo de negar a referência super forte ao Nirvana, mas com um forte sotaque brasileiro.

No mais, a banda continua fazendo shows da mesma maneira que fazia quando começou. Sem setlist. “As vezes eu tentava escrever as músicas no braço, mas suava e nem apagava”, lembra Ilson. Agora, eles sobem ao palco, trocam olhares e decidem tudo ao vivo. “Vamo aquela! e mete a porrada”.

Sendo uma banda que nasceu tão próxima do Recife, tocar aqui era sonho para Ilson e os amigos. “Acho que é porque é a cidade mais próxima e mais projetada”. Quando fez isso pela primeira vez, nos idos do concurso Claro Q é Rock, a emoção não deixava se esconder com a tremedeira que eles estavam no palco. “Todo ano eu ia para o Recbeat”, lembra, “pegava a estrada com os amigos e voltava de madrugada, o show do Mudhoney foi um dos que mudaram minha vida”, completa.

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A história andou diferente para o trio de funk curitibano – sim, funk curitibano – Bonde do Rolê. Em entrevista para cá, o cabeça do grupo, Rodrigo Gorki, não negava, “cara, a gente sabe que o que a gente faz é um bando de porcaria. O Bonde sabe, mas a mídia nacional, aparentemente, não. Depois de fazer uma das piores apresentações que já passaram pelo palco do cultuado Tim Festival, o grupo foi eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte como o melhor show do ano em 2006. Eles concorriam com gente do top de Caetano Veloso e Marisa Monte.

E como já mostraram que não são bestas, o Bonde do Rolê vestiu bonito a camisa do “hype”. Foram produzidos pelo DJ norte-americano Diplo, empurrados numa turnê nos Estados Unidos, paqueraram com a Europa e estão sendo estampados pelas revistas internacionais com o som legal que o Brasil ainda ignora. O som, por sinal, é curioso mesmo de ouvir em casa, longe do ambiente do show. Gorky e cia remixam clássicos do rock em ritmo de funk. Casam o pancadão com os acordes pesados do AC/DC, e conseguem fazer soar legal.

São duas bandas que ganharam evidência nos últimos meses, e que o público do Recife vai poder conferir juntas no palco do Recbeat. Se elas são mesmo tudo isso, vai caber a uma das audiências mais críticas do país – fama infame que nossa cidade ganhou lá fora – julgar. E mesmo deixando de ser festival, para ser festival – sem confusão! – o Recbeat deixa as edições anteriores de lição que o clima de carnaval também pode ser um bom cúmplice de guitarras pesadas e a batida forte do funk.

A entrevista completa com o Zefirina Bomba eu publiquei no RecifeRock!

Programação Recbeat 2007

Foi divulgado oficialmente hoje, com coletiva no Recife (mesmo tendo sido liberado antes para a Folha de São Paulo, o que pessoalmente desaprovo).

Programação bem melhor que ano passado – o que não chega a ser um mérito. Agora bem mais coerente, com atrações que valem a pena segurar a madrugada.

Sábado – 17/02

19h30 – DJ Big & Confluência (PE)
20h30 – Erasto Vasconcelos (PE)
21h30 – Digital Groove (PE)
22h30 – Supergalo (DF)
23h30 – Zefirina Bomba (PB)
00h30 – Z’Africa Brasil (SP)

Domingo – 18/02
16h30 – Concentração do bloco Quanta Ladeira
20h30 – Canja Rave (RS)
21h30 – Rivotrill (PE)
23h00 – Isca de Polícia (SP)
00h15 – Digitaria (MG)
01h20 – Bonde do Rolê (PR)

Segunda – 19/02

17h00 – Recbitinho: Cia Teatro Rasgado / “O Pequenino Grão de Areia”
19h30 – Mellotrons (PE)
20h30 – Vanguart (MT)
21h30 – Raies Dança Teatro (SP)
23h00 – Mr. Catra (RJ)
00h00 – Instituto canta Tima Maia Racional (SP)
01h20 – Montage (CE)

Terça – 20/02

18h30 – Maracatu Nação Camginda Estrela (PE)
19h30 – João do Pife e Banda Dois Irmãos (PE)
20h30 – Parafusa & Trombonada (PE)
21h30 – Curumin & The Aipins (SP)
22h00 – 2IN-Par (Esp)
00h00 – Macaco Bong (MT)
01h20 – Tom Zé (BA)

Os melhores segundo a APCA

A Associação Paulista de Críticos de Arte escolheu seus melhores do ano. Abaixo, vai a lista dos melhores em Música Popular Brasileira.

Eu discordo do Cê e da Erika Machado. Mas principalmente, discordo do Bonde do Rolê. Foi, de longe, um dos piores shows que eu vi durante todo o ano. E olha que eu vi muito show ruim.

Disco: Cê – Caetano Veloso
Artista: Marisa Monte
Compositor: Lirinha (Cordel do Fogo Encantado)
Show: Bonde do Rolê
Grupo: Mombojó
Revelação: Érika Machado
Projeto especial: CD Tributo a Odair José

Votaram: Bruno Yutaka Saito, Inês Fernandes, José Flávio Jr, Marcus Preto, Pedro Alexandre Sanches

Fazendo minha lista (tá num post anterior), me dei conta que não escrevi sobre praticamente nenhum dos melhores discos que ouvi em 2006. Na verdade, só escrevi sobre um, que foi o do Moptop.

Entra na lista do projeto para 2006 publicar uma resenha por dia aqui. Tá tudo meio paradão assim porque estou sem computador. Filando aqui do jornal…