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Cabaret x Nick Cave

Fã obsessivo de Nick Cave, Marvio dos Anjos – talvez a melhor voz hoje em toda música independente no Brasil – está em festa com o lançamento de Grinderman 2, segundo disco da nova banda do australiano. Para matar a ansiedade, sua banda, o Cabaret, fez um show tributo especial só com músicas de Cave, na ocasião do lançamento do novo livro “A Morte de Bunny Munro” no Brasil. Teve direito inclusive a convidados como Dado Villa Lobos e Letícia Novaes da banda Letuce.

O Cabaret, por sinal, tá com disco novo na agulha. Com produção de Iuri Freiberger, “A Paixão Segundo Cabaret” deve ser lançado no começo do ano que vem.

Festival Mundo 2008: Primeiro dia

Foto de Rafael Passos

Eu me devia uma visita ao Festival Mundo desde sua segunda edição. Naquele ano fui convidado para apresentar o Overmundo para o público da Paraíba e, por motivos pessoais, acabei tendo que voltar para o Recife logo após a conferência. Nos outros dois anos também não consegui estar lá, mesmo acontecendo em uma cidade vizinha. Problema corrigido esse ano. Sai do jornal direto para a rodoviária, encontrei com Montarroyos e seguimos em direção a João Pessoa. Por lá, já esbarramos nos Macaco Bongs, Calistoga e o pessoal do Cabaret, que terminava passagem de som.

Corremos com o check in no hotel e depois para o jantar, mas não foi o suficiente para pegar o show da primeira banda. Era a Outona, atração local que tocava hardcore melódico. Dei uma espiada lá no Foca e ele disse que não chamou atenção. Eu fico me devendo uma vista, já que a banda não usou metade do tempo que tinha de show. As fotos chamam atenção pelo visual bem cuidado deles. Coisa que fez falta em boa parte de outros mais experientes que passaram pelo palco.

Este ano o Festival Mundo se viu obrigado a diminuir de proporção. O lugar onde acontecia antes não podia receber um evento este ano por causa da eleição municipal. Num passeio rápido pelo Galpão 14, escolhido como substituto, já ficava evidente a importância que o evento tem em João Pessoa. Eles estão apertando o Fast Forward, descarregando informação em excesso para que o público local perceba o que está acontecendo nas cidades vizinhas. O vai e vem blasé das pessoas ficou entre as sensações mais angustiantes do evento.

As duas bandas potiguares não se deram muito bem na estréia que fizeram no festival, pelo mesmo problema da Outona. Como a programação é menor, dava mais tempo de apresentação para cada atração. E nem o Camarones Orquestra Guitarristica e a Calistoga pareciam preparados para um repertório de 40 minutos. A primeira, instrumental, divide as músicas com um começo mais rock, encerrando com reggae e versões para trilhas de desenhos animados. Resultado: esticaram a parte mais difícil de acompanhar, por ser mais lenta.

O mesmo aconteceu com o Calistoga. Acho eles uma das melhores bandas de rock do Nordeste hoje – entre as mais novas, claro! – mas o pique desandou da metade para o fim. Chegaram a terminar mais tímidos, quando deviam levantar e instigar o público cada vez mais. Não vou me meter a produtor de banda aqui, mas de repente escolher algum cover conhecido ajudasse. Sem isso, acabaram perdendo as pessoas que assistiam tudo da frente do palco. Por sinal, nessa primeira noite, o Festival Mundo teve cerca de 300 pessoas conferindo os shows.

Coube a Star 61 dar o primeiro suspiro de esperança da noite. Tocando em casa, começaram brincando um pouco com folk, quase escondendo o potencial glam do vocalista Flaviano. Ele sabe comportar no palco como poucos e, rapidinho, faz caretas, pulas e jogas as plumas para cima, tira a roupa e transforma totalmente a falsa primeira impressão do show. Me lembrou o que escrevi no Boom Bahia sobre se levar a sério. Eles conseguem fazer escracho e ultrapassar o limite do rídiculo sem precisar pagar de personagem.

Isso é a chave central. É impossível não se contagiar quando Flaviano sai para o meio do público, sobe o muro e ensaia um strip tease. O Star 61 consegue existir nos limites no bom senso e, ao mesmo tempo, soar agradavelmente pop. O constrangimento é zero, enquanto a diversão e as músicas já não podem se medir em notas. Eles são uma prova de que o Festival Mundo está tentando mostrar uma realidade rock que já existe na cidade, só precisa ser disseminada.

Tanta purpurina acabou complicando o meio de campo para o Cabaret. Afinal, a proposta das duas bandas eram a mesma. E quando Marvel, vocalista da banda carioca, cantou “O Vira” do Secos e Molhados numa ponta do show do Star, ficou claro que ele não ia vencer na disputa da imagem. Mas acho que isso só não passou de um bom desafio… O Cabaret precisaria, talvez pela primeira vez em festival, mostrar que pode chamar atenção além do cênico.

Mas além de performer, Marvel – codinome que Márvio dos Anjos usa no palco – canta como poucos. Aliás, depois de rodar o país em festivais, vendo para lá de mais de 200 bandas diferentes, me sinto seguro em dizer que o cenário independente ainda precisa correr muito para chegar no nível do que eles conseguem fazer no palco. Mesmo nessa, que foi uma apresentação regular, com direito a falha no microfone quebrando a concentração da banda, o Cabaret surge como principal nome de fora nessa edição do Mundo.

O Cabaret é uma banda de hits, algo que ainda faz muita falta no circuito de festivais. É impossível sair do show sem ficar com pelo menos umas duas músicas no repeat mental. Acho que bandas como essa evidenciam a necessidade de um novo meio termo entre a cena independente e o mainstream, já que ela tem competência para transitar entre os dois meios sem pertencer necessariamente a nenhum deles. Mas não deixa de ser divertido imaginar o estrago que eles fariam com uma projeção maior.

Ao contrário do que acontece com o Macaco Bong, que tocou logo em seguida. Esse choque entre o pop e o experimental acabou não sendo bem assimilado pelo público, que ao não entender quando uma música começava e outra terminava decidiu deixar o local. Confesso que essa mistura de virtuosismo com stoner rock não consegue fazer muito sentido para mim, apesar de reconhecer o quanto a banda é foda no palco. Vi poucos shows dos Bong até hoje (acho que três), e ainda acho que não vi a mesma a banda que tem sido elevada ao patamar da cena independente.

Mas nessa noite, especificamente, tive a primeira decepção real com a banda. Um amp do palco estourou quando inventaram de esfregar a guitarra nele. E tive que ver os caras saírem do palco com cara de quem não queria saber, falando de forma bem ríspida para a produção do evento que “festival é assim, isso é normal”. Para uma turma que faz tanta questão em falar de cadeia produtiva, deviam saber que ferraram o dono do som, deram prejuízo ao festival e prejudicaram as bandas do dia seguinte. E não, isso não é normal.

Conversei com o pessoal da banda e eles explicaram o acontecido. Segundo Bruno Kayapy, o que aconteceu é que o amp sofreu um arranhão e o responsável pelo som do festival exigiu um novo. A banda até topou oferecer um novo, mas apenas em troca do que teria sido “danificado”. E ele acabou não aceitando e deixando a história para lá.

Fotos de Anderson Silva e Rafael Passos.

Festival Mundo 2008: Programação


Outubro vai ser um mês bem movimentado no Nordeste, pontuado pelos festivais DoSol, Boom Bahia e Mundo. O primeiro já divulgou sua programação aqui – com direito a The Donnas e Forgotten Boys – e agora é vez do Festival Mundo, que acontece em João Pessoa, na Paraiba. Dois dias de shows, mas que também inclui debates, exposições de arte e oficinas.

Uma das coisas que mais gostei é que o Festival Mundo repensa um pouco a proposta de maratona de shows. No lugar de 20 bandas se esmagando no tempo para tocar 20 minutos, uma programação mais enxuta traz menos atrações em favor de shows maiores e mais proveitosos. O que também aumenta o mérito de entrar numa escalação.

Ah sim, esse também tem eu! Estarei participando de um dos debates sobre indústria fonográfica. O outro é sobre produção e será com o pessoal do Macaco Bong.

Sem mais delongas:

Sexta – 17/10 - A partir das 19hrs

Macaco Bong | MT
Cabaret | RJ
Calistoga | RN
Sem Horas | PB
Camarones Orquesta Guitarrística | RN
Outona | PB

Sábado – 18/10 - A partir das 19hrs

Cabruêra | PB
Burro Morto | PB
Sweet Fanny Adams | PE
O Garfo | CE
Nublado | PB
Elmo | PB
Cerva Grátis | PB

MOSTRA AUDIOVISUAL

A mostra audiovisual exibirá a evolução do rock em João Pessoa, com documentários e videoclipes de bandas locais, com destaque para o lançamento do primeiro videoclipe da banda paraibana Burro Morto, além de exibição de curtas-metragens.

OFICINAS

Home Studio
Data: 18 e 19 de outubro (sábado e domingo)
Local: Estúdio 24h (Praça Antenor Navarro – Centro Histórico)
Horário: 14h às 18h (carga horária de 8hrs)
Conteúdo: Oficina musical básica sobre técnicas de gravação, edição e mixagem em um computador pessoal; noções de hardwares e softwares; pré-produção; dicas e truques.
Inscrições Gratuitas | 10 vagas 

Ministrantes: Leo Marinho, Ruy Neto e Daniel – Sócios do Estúdio 24 (PB). Haley – Técnico do Estúdio Peixe-Boi (PB). (Todos são também músicos e integram a banda Burro Morto – PB).

Produção de videoclipe com baixo orçamento

Data: 14 a 17 de outubro
Local: Ksa Rock (R. Duque de Caxias, nº73, Centro)
Horário: 15h às 19h (carga horária de 12hrs)
Conteúdo: Estética de som/imagem; edição; manejo de equipamento; como trabalhar com baixos orçamentos e, como resultado, início de produção de um vídeo clipe com a turma.
Inscrições Gratuitas | 15 vagas 
Ministrante: Carlos Dowling – Cineasta e Presidente da ABD-PB (Associação Brasileira de Documentaristas).

Inscrições para oficinas pelos e-mail festivalmundo@gmail.com até dia 11 de outubro.                                   

DEBATES

I- Profissionalização de bandas no mercado independente

Data: 18 de outubro
Local: Intoca (Centro Histórico)
Horário: 14h às 16h
Vagas: 30
Gratuito

Conteúdo: Explanação e debate sobre o mercado independente e suas tendências; dicas de produção e divulgação para bandas novas; circuito de casas de shows e festivais independentes no Brasil; intercâmbio e troca de experiências; caminhos para sobreviver e crescer no independente, tomando como base a experiência da banda Macaco Bong (MT).

Convidados: Bruno Kayapy, Ynaiã Benthroldo e Ney Hugo – Integrantes da banda Macaco Bong (MT) e fazem parte do Instituto Cultural Espaço Cubo, onde são produtores musicais e co-realizadores de eventos e festivais. Também são militantes da Volume (Voluntários da Música).

II- Rock: contracultura e produto de mercado

Data: 18 de outubro
Local: Intoca (Centro Histórico)
Horário: 16h às 18h
Vagas: 30 vagas
Gratuito

Conteúdo: Pontos de vista sobre o que aconteceu efetivamente nos últimos 10 anos e o que há por vir; Rumos da indústria fonográfica e a produção independente deste gênero de música que revolucionou o mundo.

Convidados: Bruno Nogueira (PE) – Jornalista especializado em crítica cultural e mestre em comunicação social, onde desenvolveu pesquisa sobre indústria fonográfica e internet. Trabalhou na Folha de Pernambuco, Jornal do Comércio e está no Diário de Pernambuco. Colaborou com as revistas Continente Multicultural e Coquetel Molotov e é um dos colaboradores do site RecifeRock. Cobriu alguns dos principais festivais do país. Fez curadoria para o Abril Pro Rock 2008 e para o projeto Pátio do Rock. Foi professor da Faculdade Barros Melo (Aeso). 

Marcus Alves (PB) – Jornalista, Mestre em Comunicação Social e Doutor em Sociologia. Desenvolveu pesquisas sobre a cultura pop/rock do Brasil nos anos 80. Autor do livro “Cultura rock e arte de massa”. É professor da Faculdade IESP, no curso de publicidade e propaganda. Foi professor do curso de extensão sobre “Pop/rock e a cultura brasileira” na faculdade IESP.

Cabaret no Jô Soares

Para quem perdeu ontem:

Isso bate com uma coisa que, volta e meia, eu falo aqui pelo blog. Sobre as tensões entre a cena independente e o que vai se tornar o mainstream pop brasileiro. A aproximação que existe hoje entre bandas e a produção de festivais independentes não é muito saudável. Poucas bandas conseguem diferenciar que para aquele produtor, atingir algo como a Abrafin é realmente um ponto muito alto. Mas para quem apenas toca não. E por isso tem muita gente arriscada em morrer no circuito de festivais, achando que o lance é realmente chegar ali e pronto. Não é difícil eu encontrar uma banda que vem me falar que não vai conseguir crescer, porque não está fazendo parte dessas escalações. Quando ainda existe muito mais.

O que existe a mais, aos poucos, começa a ser demonizado por essa própria cena. Vide casos como o da Pitty e do Los Hermanos. Existe uma suposta perda de autenticidade tanto para o público quanto para outras bandas quando um artista atinge mais. Como se ser cooptado por um grande veículo de mídia fosse uma força contrária a tudo que alguém constrói numa carreira.

Está se criando uma troca de valores e o novo máximo definido para uma banda atingir caiu bastante de conceito. São idéias muito generalistas (isso é óbvio, mas é sempre bom esclarecer). Mas se aplicarmos esse raciocínio a todas as outras bandas que fogem dessa lógica – curiosamente, as bandas que mais aparecem na programação dos festivais hoje – vamos perceber que esse é um dos grandes motivos para novas bandas terminarem tão cedo hoje. Ser notado, uma parte do processo que antes parecia ser impossível, agora passou a ser ignorado com a facilidade trazida pela Internet. Com isso, a ambição é pouca e a frustração é ainda maior.

Se por um lado, é triste ver uma banda conseguir chegar nesse ponto, tocar em dois ou três importantes festivais independentes e então não crescer em mais nada; é sempre algo incrível ver uma banda “passando de fase” para um nível maior. Não que tocar no Jô seja uma mega conquista, mas acho mesmo que essa participação representa essa divisão para o Cabaret, uma banda que sempre me pareceu predestinada para muito mais. Basta agora eles saberem utilizar a exposição.

Festivais, festivais, festivais

O bolso vai chorar muito agora no fim do ano com as novas atrações que estão sendo anunciadas para se apresentar no Brasil. Depois do Planeta Terra confirmar o Tokio Police Club, Kasabian e Pato Fu junto aos shows do CSS, Lily Allen, Devo e Supercordas, foi o Goiânia Noise que deu só um gostinho do que está vindo por ai com 10 atrações para a edição deste ano. Seis delas são gringas: Battles, The Legendary Tigerman, o duo chileno Perrosky, The DTs, o argertino Sebastian Rubin e os uruguaios do Motosierra. Para completar a prévia, tem também MQN, Mechanics, Ecos Falsos e Mundo Livre S/A.

O 13º terceiro Goiânia Noise será entre os dias 23 e 25 de novembro, apenas 15 dias após o Planeta Terra e um mês após o Tim Festival. O show do Battles e os DT’s estão na listas de imperdíveis do ano. Já o Tigerman, eu tive oportunidade de assistir numa edição passada do Abril pro Rock e não foi tão empolgante assim. Teve um pouco a ver com o público reduzido e o fato de que informação demais – o show dele tem muita informação, com filmes e garotas seminuas no palco – sempre choca na primeira impressão. Quem sabe agora ele tem mais sorte.


Essa abundância de festivais me lembra muito o fenômeno da cauda longa. Aquele que diz que os mercados de nicho estão desbancando o de massas. Tem tanta informação circulando, com tanta gente absorvendo, que simplesmente existe um público impressionante atrás de boa música. Eu falei aqui do Coquetel Molotov, mas se
liga só como foi o Se Rasgum no Rock, que rolou lá no Pará:


Cabaret é favorita aqui da casa, então sou suspeito para dizer que quem perdeu, já tem motivo para se arrepender. Enquanto Marvel – que virou muso-pop-trash por três dias no finado papelpobre – vomitava glitter no público, os Astronautas transformavam Minas Gerais no espaço sideral quando tocavam no Jambolada. Olha só as fotos:astronautas.jpgE no Multiply da Adreana tem muito mais foto do que rolou por lá.


Enquanto isso, em João Pessoa, o Festival Mundo mostrava que a cidade tem muita competência para ter uma grande estrutura de shows. E saiu com um saldo muito mais positivo que o esperado, graças as pessoas que acreditaram nesse potencial da região. No pique que está, o Nordeste vai ficar um lugar pequeno demais com tantos shows e bandas conseguindo um bom espaço.fossel.jpgE tem um montão mais de fotos do Mundo no flickr do Anderson


Sou só eu que acha impressionante quatro festivais de médio porte tão legais acontecendo ao mesmo tempo ao redor do país? Acho que não. Confere lá a cobertura que o Luciano Mantos fez do Se Rasgum.Esse mês ainda rola o Garimpo, organizado pelo pessoal do programa de TV Alto Falante em Belo Horizonte, e em novembro tem o Demo Sul, em Londrina. Mas depois dessa enxurrada de eventos, quem vai povoar os festivais do próximo ano? No fim de semana eu dou umas dicas de gente que anda atualizando o MySpace de música nova e de qualidade. Fica atento!