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Crowdfunding e cultura da colaboração

Os fãs de Jill Sobule pagaram pela gravação do disco dela

Artigo publicado na Revista Continente. Edição 115 (julho/2010)

Existe uma chance muito grande de você nunca ter ouvido falar em Jill Sobule. Cantora e compositora que nasceu em Colorado, como muitos outros que tentaram a sorte com a música e chegaram “quase lá”, Jill é o que a indústria da música chama de “one-hit-wonder”. Ela só conseguiu ter uma música, lá no distante 1995, nas paradas de sucesso e nas rádios, impulsionada pela trilha sonora do filme “As Patricinhas de Beverly Hills”. Depois disso, foi recusada por duas gravadoras e chegou a assinar com outras duas que abriram falência logo depois. Mas um sucesso foi suficiente para ela.

O que Jill percebeu é que aquela única canção, “I Kissed a Girl”, fez com que ela conquistasse uma mina de ouro que poucos artistas conseguem dar a devida atenção. Uma base sólida de fãs. Quase 15 anos depois de tentar o modelo antigo para sobreviver de música, a cantora lançou o site “Jills Next Record” e convidou o público a patrocinar seu próximo álbum. A meta era conseguir US$ 75 mil para todo o processo que incluia contratar o produtor com quem ela mais queria trabalhar em estúdio. Mesmo com pouca fama, Jill conseguiu o dinheiro em menos de dois meses. 54 dias para ser exato.

O plano de Jill poderia parecer um absurdo para muitos que esbarrassem por acaso em seu site. Para atingir a meta proposta, a cantora ofereceu vários pacotes de patrocínio que variavam de US$ 10 (onde o doador ganhava uma cópia digital do mesmo) e US$ 50 (ganhe o CD semanas antes de todo mundo com um “obrigado” personalizado no encarte) a valores como US$ 1 mil, onde você ganha uma música tema personalizada, para pôr na sua secretária eletrônica, por exemplo; e US$ 5 mil, onde ela viajaria até sua casa e faria um show particular.

A cantora chegou a, por pura brincadeira, criar um selo único de patrocínio no valor de US$ 10 mil. Nele, o comprador poderia cantar uma faixa no disco. Para a surpresa de Jill, uma fã no Reino Unido comprou esse selo, viajou até Los Angeles e agora a voz dela está lá no álbum “California Years”. O disco recebeu resenha positivas em todas as revistas especializadas, com direito a Rolling Stone americana tratar o retorno dela como uma artista mais sábia e com grande potencial pop. O modelo usado por Jill Sobule, chamado de crowdfunding, começa a se desenhar como uma das novas tendências quando se trata de produção cultural.

A ideia de uma economia de colaboração não é exatamente nova. O sociólogo americano Peter Kollock a desenvolve desde o começo da década de 90. Alguns dos princípios que ele trata falam de presentes e bens públicos no ciberespaço para que exista uma cooperação online. Valores fundamentados em “reciprocidade, prestígio, incentivo social e incentivo moral”. Isso explicaria, entre outras coisas, por que alguém distribuiria de graça algo que custou de dinheiro. Mas também diz muito sobre a nova participação do público no processo editorial.

Esse desvirtuamento do processo das cadeias produtivas mostra que, se o público não está interessado em ficar apenas aguardando pelo consumo, ele talvez se interesse em participar também das várias etapas de produção. Jill Sobule assinou o nome de quem patrocinou seu disco como “produtores executivos”, e isso faz parte da relação de prestígio na economia da colaboração, que é proposta pelo professor norte-americano Howard Rheingold.

“É a preocupação que a contribuição de um indíviduo cresça ao ponto que seja visível por toda a comunidade”, explica o professor. “Como consequência, cada uma das características que encorajam reciprocidade – interação, persistência, conhecimento de causa e forte ligação na comunidade – também funcionam para promover a criação de reputações em uma comunidade”, completa Kollock em seu ensaio. O processo todo se torna um novo ciclo. O público contribui para ser notado e, ao ser notado, promove um consumo maior na comunidade onde está inserido.

Foi o que percebeu o jornal The New York Times. O periódico é conhecido por promover o que chama de “fundo para os casos de maior necessidade”. São matérias especiais, sobre casos específicos de pessoas com problemas de saúde e desemprego, que ao ser públicadas podem receber doações dos leitores. O jornal faz a parte burocrática de repassar para instituições ou indivíduos relacionados ao assunto e publicar os nomes e histórias das pessoas que ajudaram. A iniciativa fez que os editores experimentassem um passo adiante na colaboração.

Usando o site Spot.Us, o jornal conseguiu reunir US$ 6 mil dólares de cerca de 100 leitores interessados em uma matéria sobre o tapete de lixo formado no Oceano Pacífico. Entre os doadores estavam Craig Newmark, fundador da Craiglist, e Jimmy Wales, co-fundador da Wikipedia. O dinheiro permitiu que uma repórter embarcasse em uma viagem junto a um navio que iria inicialmente estudar o impacto que o lixo estava causando na fauna. Vários sites, além do Spot.Us, se dedicam hoje a promover o crowdfunding, ou o financiamento pelos fãs, como o Creat a Fund, Cat Walk Genius (voltado para moda) e Sell a Band.

Este último foi o que permitiu que a banda americana We Are The City lançasse o primeiro disco. Um trio recém saído de uma escola no município de Kelowa teve duas opções quando decidiu sair do amadorismo: pedir um emprestimo ao banco ou fazer um pedido aos fãs. Os fãs foram mais rápidos e menos burocráticos, conseguindo os US$ 3.500 pedidos pela banda, que retribuiu a arrecadação fazendo vídeos para cada uma das pessoas que contribuiu e os publicando no site YouTube.

Apesar dos casos de sucesso, o Crowdfunding está longe de ser uma solução para a indústria. O cineasta Kevin Smith dedicou uma grande parcela de tempo esperando doações de fãs para seu filme “Red State”, uma paródia de terror sobre a igreja batista homofobica dos Estados Unidos. Após ver que sua arrecadação estava longe do necessário, decidiu avisar aos seus quase 2 milhões de seguidores no twitter que “o único dinheiro que vou precisar dos fãs agora será nas bilheterias”, oficializando que seu projeto sairia da independência – uma das marcas autorais de Smith – e seria entregue para uma produtora de Hollywood.

O mesmo aconteceu com a banda de rap Public Enemy. Inspirados pelos casos de financiamentos pelos fãs, decidiram entregar ao público a conta do próximo disco, que nunca chegou a ser a paga. O pedido deles também não foi modesto. Queriam US$ 250 mil para produzir um disco e, em abril deste ano, divulgaram que tentariam fazer um com US$ 75 mil (coincidência ou não, o mesmo valor da cantora Jill Sobule).

Apesar de alguns desses exemplos já estarem completando a primeira década, o crowdfunding ainda não tem nenhum grande caso brasileiro. Em parte porque o novo artista brasileiro ainda encontra uma grande barreira no tato com o próprio público e, no caso das empresas de mídia, porque diferente do que acontece em países de primeiro mundo, muitos jornais aqui sobrevivem de patrocínio público. Mesmo a política não se motivou com o recente caso da campanha de Barack Obama para presidente, que teve parte do financiamento angariado pelo público, através da internet.

A Guerrilha das Novas Mídias

Apenas o titulo da obra de José Luiz Braga seria suficiente para entender o contexto do momento em que vivemos hoje na comunicação. O livro se chama “A Sociedade Enfrenta sua Mídia” e traz uma atualização ao debate cada vez mais datado das teorias da comunicação que focam no processo de emissor, mensagem e receptor. Num mundo de grandes conglomerados de mídia, ficamos acostumados à idéia de que tudo termina no público. Mas na última década, ficou evidente que esse processo é continuo e cada vez mais conectado.

“Superamos já uma percepção de que os usuários dos meios ditos ‘de massa’ seriam homogêneos, passivos e, portanto, facilmente manipuláveis”, postula Braga, “reconhece-se hoje uma possibilidade de resistência, baseada em mediações culturais extramidiáticas”. O que Braga fala fica mais evidente na Internet. Nos últimos cinco anos, os principais endereços que a Rede consolidou como fonte de informação tem seu conteúdo inteiro produzido pelo leitor. Seja a enciclopédia colaborativa Wikipidia – que numa última pesquisa recente, tinha mais verbetes corretos que a Britannica – ou no site de vídeos YouTube, que possui um acervo de memória da televisão brasileira que a Rede Globo nunca disponibilizou.

Esta é a principal lógica por trás do decrescente índice econômico das indústrias de publicações. Jornais têm cada vez menos leitores, porque os próprios se tornaram uma fonte de informação muito mais confiável. Algo compreensível a partir do conceito de Economia da Colaboração, proposto pelo norte americano Peter Kollock. Quem colabora mais, com mais conteúdo de qualidade, recebe mais prestigio pelos outros consumidores. Uma prática que era comum numa sociedade baseada na comunicação, mas até então sem a devida evidência, já que essas práticas – os antigos fanzines e rádios piratas – não tinham tanta relevância assim de alcance.

A última peça desse quebra cabeça vem de uma lógica da ciência da administração. Uma, em específico, que dizia que apenas 20% de uma produção cultural era responsável por 80% de todo consumo de cultura. O índice menor vem daqueles artistas expostos nas vitrines e os programas de televisão em horário e canal nobre. Ou seja, os 80% restante da produção não tinham consumo porque simplesmente não tinham espaço para existir. Seja na prateleira de uma loja ou na grade de programação de uma grande rede de televisão. Espaço que, na Internet, não é mais um problema. Os nichos passam a ter visibilidade e relevância.

Juntar essas peças é entender as novas mídias que convivemos com cada vez mais freqüência. Temos agora acesso ao nicho, um conteúdo que é produzido por consumidores como nós, que passa a ser muitas vezes mais relevante que um grande veículo de comunicação. “Já ouvi o melhor elogio que alguém pode ouvir que é ‘pô, como é que eu não pensei nisso antes?’. Isso me envaidece. A maior parte desse retorno vem de pessoas que trabalham com comunicação”, comenta o jornalista carioca Bruno Maia, que comanda o programa de rádio “Aleatório”, veiculado 100% na Internet. “O piloto do programa foi feito em casa e ficou bem bacana”, lembra. Hoje, ele grava nos estúdios da Rede Globo, com o Aleatório sendo transmitido pelo site da rádio Multishow.

Bruno não ganha um centavo para fazer o programa, que tem participação passiva do público. “Qualquer coisa que está na Internet pode ser link do Aleatório, da wikipedia a blogs”, conta. “Toco música para passar informação, não como moeda de troca para colecionar CD’s”, alfineta. A situação dele é parecida com a de um grupo do Recife, o Coquetel Molotov, que circula sua informação em uma revista e programa de rádio. “Sempre seremos leitores”, conta Ana Garcia, parte da equipe. Hoje, na quarta edição, a revista já tem além de leitores, até artistas que produzindo o conteúdo impresso por vontade própria “um deles está fazendo um top 20 de capas e tomando tempo para passar no scanner uma por uma, isso é bem recompensador para nós”, completa.

O lucro agregado aparece como uma das grandes vedetes dessa economia da colaboração. Assim como Bruno conseguiu, com o programa de rádio, entrar no maior sistema de comunicação do país e o Coquetel Molotov articular um festival com atrações que não tocam em rádio, em Natal (RN) as novas mídias deram sobrevida ao selo DoSol, que transformou o site da gravadora (www.dosol.com.br) num portal de notícias sobre música. “Foi uma maneira de aproximar mais usuários do nosso conteúdo, já que passamos a disponibilizar tudo de graça”, conta o produtor potiguar Anderson Foca. “Antes tínhamos 50 visitas por dia, hoje temos quase 700, estatisticamente são mais pessoas que baixam nossos discos e assistem nossos vídeos”, lista.

Voltando a Braga, o pesquisador reconhece uma crítica dentro da própria observação que faz. “Se o ‘receptor’ resiste, isso não significa necessariamente que faça as melhores interpretações, os melhore usos”. Essas novas mídias ainda têm um forte caráter de guerrilha, e se o público descentralizado que conquistam traz relevância para elas, o mercado ainda as observa por um filtro de um modelo tradicionalista. “O mercado é muito fechado”, conta o escritor Wellington Mello, autor de um livro de poesias que conheceu leitores primeiro através de um blog, “Para poesia de autor novo, então, nem pensar. Preciso publicar meus livros sempre em papel”, completa. O próximo livro dele, “Desvirtual Provisório”, também sairá em versão digital.

Apesar das novas mídias terem encontrado legitimidade no público, elas ainda não estão totalmente inseridas dentro das lógicas de mercado. Similar à produção artística, o que se forma é uma cadeia produtiva própria, com características exclusivas do meio independente, muitas vezes ignorando etapas que seriam impossíveis contornar por um grande “publisher”. Uma fase que, se ultrapassada, pode influenciar no próprio consumo da cultura que tratam, já que esses novos produtores de conteúdo – ou seja, o próprio público – tem uma relação com essa produção que dá nos nervos da indústria. Nunca se consumiu tanto, ao mesmo tempo em que nunca se vendeu tão pouco. E onde a mídia tradicional enxerga baixa nas vendas, as novas reconhecem crescimento de espectadores.

Publicado originalmente na Revista Continente Multicultural