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Banho de água fria na cena de Natal

sinks

Duas das principais bandas de Natal encerraram – ao menos temporariamente – as atividades agora no começo do mês. A The Sinks, que estava na disputa para ser uma das principais convocações em festivais independentes desse ano, junto com a Camarones Orquestra Guitarrística, anunciaram que seus integrantes (que são quase os mesmos) decidiram deixar a banda. O motivo principal foi para se dedicar ao grupo original deles, o Calistoga. Ambas passaram, respectivamente, pelo Abril Pro Rock do ano passado e o Rec-Beat desse ano e representavam quase tudo que se escuta de Natal nesse circuito.

Quem se prejudicou nessa foi a The Sinks. A banda precisou cancelar uma turnê de 19 shows em 16 datas pelo Brasil (eles fariam o circuito do interior de São Paulo que já foi comentado aqui no Pop up). Uma delas, inclusive, já movimentava o burburinho em São Paulo sobre a volta de Chuck Hipólito, do Forgotten Boys, aos palcos. Ele se apresentaria com o Sinks em um show no Club Belfiori. Chucky era fã declarado da banda e chegou a remixar o primeiro EP deles.

Perguntei a Anderson Foca – produtor do festival DoSol, mentor das bandas e baixista do Sinks – sobre o que acontece agora. “Não sei se o Sinks vai continuar com esse nome, mas vou dar continuidade no trabalho junto com Chucky, já que queríamos fazer algo juntos a muito tempo. Não sei se vai ser uma banda, deve ser mais um projeto já que somos bastante ocupados com nossas coisas, eu em Natal e ele em São Paulo. Mas a idéia é que possamos compor e fazer coisas juntos esse ano”.

Quanto ao Camarones, “com a Saída de quatro integrantes vai ser difícil reformular. A banda deve mesmo acabar. Ana deve tocar baixo junto com uma cantora local chamada Camila Masiso”. Até lá, Natal fica sem produto de exportação – e todas as atenções vão acabar se voltando ao Calistoga, que será a próxima banda da semana aqui no Pop up. Mas, mesmo com desfalque nas bandas, a cidade segue com o Festival DoSol e Mada, além de uma programação de rock no ano inteiro como só acontece lá.

A apatia é grande e a crise é geral

timfas

O Tim Festival acabou. Certa vez, um amigo me falou que me achava um xiita da cena independente. E agora eu começo a pensar que ele talvez tenha um pouco de razão, já que a notícia acabou me dividindo um pouco entre tristeza e alegria. Eu cheguei a fazer cobertura das edições de 2006 (quando tirei essa fotinha ai de cima) e 2007, e vi alguns vários shows internacionais lá que, na época, acho que teria sido impossível de ver. E essa é a tristeza nesse final. Mas uma tristeza light, já que, nos últimos três anos, cada vez mais bandas de fora vieram cá através de outros festivais corporativos.

A felicidade é um tanto maldosa. Fica pela constatação de um discurso dos festivais independentes que foi tanto críticada no passado. A de que as grandes corporações não se importavam tanto com a música quanto parecia (a Tim também cancelou o seu prêmio). E enquanto eventos como o Goiânia Noise e Abril Pro Rock enfrentam diversas crises, seguem perto de completar duas décadas de existência. E o Tim engrossa o coro do Claro Q é Rock e vários outros festivais corporativos que com muita sorte passam de cinco anos.

Fica a esperança que a Dueto Produções (que fazia o evento) e Monique Gardenberg (a produtor a frente do festival) encontrem outros patrocínios. Elas já adiantaram que, para este ano, ficou totalmente inviável ter um festival.

Menos um selo independente

Olha o email que chegou hoje de tarde:

Depois de 31 anos dedicados à melhor música brasileira, a gravadora independente carioca Kuarup Discos decidiu encerrar suas atividades nesta virada de ano.

Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download da internet. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade.

Agradecemos aos nossos funcionários, representantes, amigos, clientes e fornecedores, e sobretudo aos nossos artistas, que continuarão a carregar a bandeira desta música brasileira que ajudamos a divulgar durante todos estes anos.

Uma pena. A Kuarup tinha um dos catálogos mais interessantes de música brasileira. Entre eles, o acervo completo de Shangai, difícil de encontrar até em blog de MP3.

Academia x Realidade

Às vezes espanta comprovar como a academia é realmente distante do mundo real. Durante o último fim de semana acompanhei um encontro na Universidade Federal da Bahia que rendeu algumas pérolas que merecem destaque. Frases do tipo “a gravadora Sony/BMG”, quando a última foi comprada pela Universal mês retrasado; “o Creative Commons é um site”, sobre a ONG; “sem o Ecad o músico NÃO recebe o dinheiro”; e “o DRM não faz diferença”, sobre a licença de música digital que chega a proibir que você escute um um disco do Gorillaz ou Marisa Monte.

Mas o mais espantoso foi participar de um grupo sobre “novas tecnologias da indústria fonográfica” onde ninguém presente conhecia o LastFM. Serviço online que há cinco anos já revoluciona o conceito de rádio na Internet, recentemente comprado pela gigante da comunicação CBS e com uma filial funcionando no Brasil. Enquanto a falsa idéia de uma “crise na música” (falsa porque ninguém parou de ouvir música, e sim passou a ouvir mais) divertir essas pessoas, os debates devem continuar nesse clima atrasado.

Crise?
Indústria significa processo. As grandes gravadoras estão em crise, mas elas não são a indústria, e sim parte desse processo. Se a Sony deixar de existir hoje, ninguém vai deixar de ouvir nenhum de seus artistas. Se uma nova banda surge amanhã, não precisará da Sony para ser ouvida. Acreditar que existe uma crise geral é tão perigoso quanto afirmar isso.

Casa Nova
A Nação Zumbi saiu definitivamente da gravadora Trama e agora faz parte do cast de artistas da Deckdisc. É a mesma gravadora da Pitty, Cachorro Grande, Matanza, Dead Fish, Gram e Ratos de Porão. O novo disco da Nação deve sair em outubro e quem está cotado para produzir é Mário Caldato, que já assinou trabalhos do Beastie Boys e Beck.

Internet
O MySpace tá cheio de boas bandas pernambucanas que ainda não estão no circuito de shows. Quem estiver disposto a conhecer, vale a pena visitar os endereços do Pescosso Colorido, Bantorra e Electrozion. As duas primeiras são de rap, a terceira, como o nome já dá a dica, é uma mistura de reggae, dub e samplers que é bem curiosa.