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Calango 2009: Cobertura parte dois

calango

CUIABÁ (MT) – O termometro nas ruas da cidade marca 40 graus. É tanto calor em Cuiabá que os turistas chegam a tirar foto junto ao medidor, apenas para provar para os amigos, com o sorriso coberto de suor. O clima seco e quente no centro geodésico da América do Sul parece combinar com a efevercência da cena musical local, que nos últimos anos lançou dois dos mais importantes nomes no país, as bandas Vanguart e Macaco Bong. Motivo suficiente para atrair a atenção de todos para o que acontecia aqui. E no caso da música, o centro vira o Festival Calango, que aconteceu no último fim de semana na capital do Mato Grosso.

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Calango 2009: Programação

walverdes

O Calango está longe de ser um modelo de festival que o público comum está acostumado a ouvir falar. Com exceção ao ano anterior, quando teve patrocínio da Petrobras, é um dos únicos que nunca esteve associado a nenhuma grande marca. Parte de uma posição política rigida, que transforma eles em um dos eventos mais influentes do país. Aqui, a atração principal tem que ser independente, assim como toda a programação, que nunca recaí em medalhões ou artistas de grandes gravadoras.

Poderia ser só mais um festival curioso, mas nos últimos anos, duas das bandas mais legais do país viearam de Cuibá: o Vanguart e o Macaco Bong. E esse ano ainda tem Walverdes (na foto), Cassim e Barbária, Devotos e duas bandas que ainda não vi ao vivo e estou ansioso para ver, que é a Venus Volts e a Holger. Por essas e outras, a programação deles sempre merece atenção especial:

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The Melt

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De: Cuiabá-MT
Selo: Independente
Para quem gosta de: Queens of the Stone Age, MQN, Amp

Cuiabá já deu mais que bons motivos para prestarmos atenção ao que vem de lá. Seus dois maiores expoentes, Macaco Bong e Vanguart, não apenas estavam no sentido contrário do que estava em evidência quando começaram, como conseguiram transformar seus gêneros – rock instrumental e folk – no centro das atenções desse meio. Sendo assim, quem começa a aparecer na programação de festivais de fora e no horário nobre dentro de casa, como a The Melt, vira motivo de grande expectativa.

Quando o trio começou em 2003, tinha outro nome e outra formação. Se chamava Headache e chegou a já chamar atenção da cidade nesse primeiro momento. Tanto que, em 2005, o nome deles criou eco até a cidade vizinha, Brasília, onde outro grupo com o mesmo nome ameaçou eles de processo caso não organizassem outra cerimônia de batizado. Quando viraram a The Melt, já tinham parte dos integrates originais fora. Quando foram convidados para tocar no Calango no ano seguinte, passaram a achar que podiam chegar mais longe. Passaram então por mais mudanças, para formar então essa banda que aparece aqui agora.

Esse vai e vem de integrantes também refletiu na música deles. A proposta original de rock garagem, simples e cru, se transformou em uma experiência pesada de stoner rock. Não é tão parecido assim com aquele que a Macaco Bong marcou na região, mas um que é mais rápido e direto, cantado em português e inglês. Com pouco tempo, chega até ser arriscado dizer que esse é o som definitivo da banda, já que eles nem lançaram o primeiro EP ainda, mas o fato é que por onde eles passam, chamam atenção. Bastou tocaram na mesmo noite do MQN para a própria banda Goiania subir no palco e cumprimentar eles.

Sendo de Cuiabá, capital nacional dos coletivos, eles também estão envolvidos com as ações do Espaço Cubo. A relação com a política da cidade conseguiu render um apoio financeiro para eles quando foram convidados para tocar no Bananada. Coisa que não acontece com bandas que nem lançaram mais do que três músicas no MySpace. No bate papo rápido que eu tive com eles, falaram sobre a história deles, sobre essa relação política e o que acontece lá no Centro Oeste do país. Quem respondeu foi o Diego Oliveira, guitarrista e backing vocal da banda.

O que vocês escutam por ai, quando não estão tocando e ensaiando? O que é que faz a cabeça da The Melt?

Ah gostamos muito de Kyuss , Melvins , QOTSA , Led zeppelin , Nebula , Amp , Mqn , Macaco Bong, Black Sabbath , Deep Purple , Jimi Hendrix , Motorhead , Dozer , MC5 , Nação Zumbi , Black Drawing Chalkers , The Atomic Bitchwax , Beatles , Pink Floyd , Cream , Mutantes , Foo FIghters , AC/DC , Fuzzly , Desert Sessions , Rhox , Lopes , Alice in Chains e ai vai..

Lembro que antes mesmo de gravar um primeiro EP, vocês já tinha conseguido apoio da prefeitura para comprar passagens até o Bananada. Como é essa relação das bandas de rock de Cuiabá com a política pública?

Pois é, a gente conseguiu a grana de apoio aquela vez. Mas só que até hoje não nos pagaram, ja to até ameaçado de morte hahahaha! Com a gente foi só essa vez mesmo, mas tem varias bandas que já captaram essa grana dos órgãos públicos , melhorou bastante em relação aos anos anteriores a 2003 onde só apoiavam banda de pagode, sertanojo, lambadão e os estilos típcos como o siriri e cururu. Eu fico puto da vida quando vejo bandas de sertanejo que realmente consegue viver mesmo recebendo esse apoio da prefeitura e do governo estadual. Poxa, se eles já tem a grana necessária para gravar, viajar e fazer shows gigantescos aqui, porque não deixam o pouco que tem pra quem realmente precisa, como as bandas de rock que contam na maioria das vezes com garotada nova que ainda estuda e faz faculdade e não tem condição de pagar R$ 5 mil pra gravar um disco.

Acho até que em função disso acaba desestimulando vários talentos que largam a musica pra trabalhar e estudar e garantir algo mais denso. Mas mesmo com tudo isso tudo, o que está acontecendo no cenário rock Cuiabano é graças ao apoio da Prefeitura e do Governo estadual. O Festival Calango, a Semana da Musica e vários outros Festivais aqui são graças a esses apoios que vem crescendo de forma positiva e organizada. O Espaço Cubo é um guerreiro que luta bravamente nessa questão e que faz de tudo pra melhorar o cenário não só local más o cenário nacional.

A banda está começando a tomar forma agora. Vocês já tocaram fora de casa, já estão no horário nobre dos festivais locais. Até onde pretendem chegar com a The Melt? A banda já está vindo antes do trabalho?

Pois é, o ano de 2008 foi excelente pra banda. Foi o ano que nós estávamos muito bem envolvidos com o cenário local, participamos praticamente de todas as produções dos eventos que aconteceram em Cuiabá. Desde carregar caixa até timbrando guitarras, mas só que começaram as cobranças em casa. Do tipo “e ai não vai arranjar um emprego pra ajudar a pagar as contas?”, “Não vai fazer faculdade?”. Neste momento o Fornalha (baixista) está trabalhando das 8h às 6h; eu estou fazendo faculdade e o nosso baterista, o Edson, está terminando o segundo grau. Em função disso estamos fazendo tudo na medida que não atrapalhe os estudos e o trabalho, mesmo porque infelizmente não da pra viver ainda da nossa musica.

E tudo isso que vocês conquistaram foi sem lançar ainda um disco. Vocês acham que ainda é importante lançar um álbum completo? Como vocês estão programando essa parte da carreira da banda?

Não, não achamos que seja importante lançar um disco completo de 12 faixas, confesso que estávamos empolgados em lançar um esse ano, mas nosso projeto foi negado pela secretaria estadual e nos impossibilitou de realizar o nosso CD e em função disso. Estamos preparando um EP de quatro a cinco faixas com ótima qualidade sonora pra esse ano ainda. Estamos batalhando pra conseguir captar dinheiro necessário para gravação que não é muito barato. Estamos falando de estúdio especialista no gênero rock, que são muito poucos e caros, mas acredito que esse ano sai algo sólido do The Melt.

Dois dos principais nomes hoje do cenário independente vieram de Cuiabá. As pessoas passaram a esperar mais da cidade. Isso influência vocês de alguma forma? Existe uma pressão para saber quem vai ser o próximo Vanguart e Macaco Bong?

É, Cuiabá já esta sendo um grande revelador de talentos. E te digo que não são poucos. Isso nos influência no sentido de fazer musicas com qualidade e de nos reinventar a cada momento que se compõe uma musica. Não queremos ficar taxados num único estilo, como vem acontecendo ultimamente dizendo que somos stoner (N.D.E.: Ops!). Apesar de glorificar esse estilo queremos aparecer sempre com coisas novas. Cara acho que essa pressão para saber quem vai ser o próximo Vanguart ou Macaco Bong pode acabar atrapalhando no desenvolvimento da banda, então a gente não fica arrancando os cabelos por causa disso, queremos o reconhecimento pela nossa musica.

Pensando nisso, quem vocês recomendam ai de Cuiabá para nós ouvirmos? Quais são as bandas legais da cidade que ainda não chamaram atenção dos festivais, jornais e blogs?

Aqui em hell city o que mais temos são bandas boas podemos citar Rhox, Snorks, Fuzzly, Lops, etc. O difícil é essas bandas não chamarem a atenção, porque estão sempre trampando e levam super a sério a questão musica/banda. Por isso sempre estão sendo vistas por blogs, jornais, etc…O lance é trampar para fazer a parada foda, para chamar atenção mesmo porque quem não é visto não é lembrado.

Escute a The Melt no MySpace
Veja fotos da banda no Fotolog

Economia solidária da música

Quando um grupo de amigos decide montar uma banda, ensaiar, gravar um EP e, quem sabe, arriscar alguns shows, quase sempre não faz idéia de quanta gente está envolvida em todo esse processo. Do vendedor de instrumentos ao dono do estúdio, passando pelo produtor da casa de show e o próprio público, todos estão em uma mesma cadeia produtiva. E todos estão sempre com um mesmo problema em comum: a falta de dinheiro.

Ao perceber que tantas pessoas estavam conectadas, um grupo de bandas independentes do Cuiabá, em Mato Grosso, decidiu montar um sistema de cooperativa inspirado em modelos de economia solidária. “Hoje em dia até para ser egoísta você tem que pensar coletivamente”, brinca Pablo Capilé, a frente do Espaço Cubo. Formado em 2002, a idéia inicial deles era viabilizar um circuito onde os grupos podiam se apresentar ao longo do ano inteiro.

“Eu troquei um carro em um estúdio e passamos a convidar algumas bandas para ensaiar lá”, lembra Capilé de como foi o começo de tudo. Nesses encontros, ele começou a conversar sobre política pública com as bandas locais. “O que era uma secretaria municipal, o que é um conselho”, conta. De lá, eles montaram mais duas frentes. A Cubo Eventos, para organizar shows, e a Cubo Comunicação, para dialogar com a mídia.

Para viabilizar isso, eles criaram uma moeda própria, o Cubo Card. “As bandas se apresentam e recebem um número X de card para utilizar uma série de serviços”, explica Pablo Capilé. “Elas usam para ensaiar; alugar nossa casa de shows, fazer eventos e ficar com a bilheteria; pagam a segurança com card, alugam o som”, lista. Hoje, eles articularam ainda mais usos para a moeda. “Já tem plano de saúde com card, curso de inglês, alimentação em restaurante, compra de roupa e locação de dvd com card”.

Essa estrutura deu base para lançar duas das principais bandas do circuito independente hoje no país. Vanguart e Macaco Bong são presenças confirmadas na programação de qualquer festival, enquanto a primeira já começa a alçar vôos maiores ao assinar com a gigante Universal. “Aqui em Cuiabá, quando as bandas começam já passam a formar coletivos”, diz Pablo Capilé. “Cada integrante vai fazer parte de uma comissão, seja de eventos, sonorização e comunicação, para a banda aprender a se auto-gerir”.

A espinha dorsal dessa articulação é o Festival Calango, um dos principais do circuito independente do país. “Quando os eventos vão agregando um valor maior, você consegue trazer o investimento da iniciativa privada. Não em dinheiro, mas em produtos”, explica o produtor. “No festival, gastamos quase R$ 15 mil em alimentação no restaurante e, em contra partida, ele passa a fazer parte de nosso sistema financeiro”.

Pablo Capilé, que estará em Salvador, na próxima quinta-feira (13), durante o Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, para falar sobre cooperativismo na música, encerra explicando que “essas iniciativas fez surgirem mais bandas e, consequentemente, fez esse mercado girar. Com o tempo, as próprias empresas passaram a investir mais em produto e em espécie na cena de Cuiabá”, uma lógica de mercado que ele acredita ser ainda mais viável no Nordeste.

* Publicado originalmente no Caderno Dez! no jornal A Tarde

Nordeste Independente #5

AE! O Podcast não tinha acabado. Só demos uma pausa – enorme, de um mês – porque eu fiquei sem computador e resolvi comprar um novo que não sabia usar totalmente. Nesta edição, eu e o Luciano Matos, de Salvador, conversamos com o Pablo Capilé. Para quem nunca ouviu falar, ele é produtor de Cuiabá (MT) e comanda por lá o Festival Calango, que acontece próximo fim de semana. Além disso, é um dos cabeças do Espaço Cubo e do Circuito Fora do Eixo. Conversamos com ele no começo do mês, então dêem um desconto para alguns tópicos que acabaram ficando datados.

Capilé também é uma das figuras polêmicas da Associação Brasileira dos Festivais Independentes, principalmente por sua postura bastante política dentro do grupo. Conversamos sobre isso e ele teve ainda oportunidade de explicar como funciona o sistema cooperado de lá. De quebra, era inevitável uma geral na própria cena de Cuiabá. Abaixo tem o tracklist:

1 – Vanguart – Miss Universe
2 – Calistoga – Silence is Too Loud
3 – Beto Só – O tempo contra nós
4 – Volver – Não Sei Dançar
5 – Macaco Bong – Noise James
6 – Matiz – Não vá rir
7 – Chambaril – Desculpa aí
8 – Cérebro Eletrônico – Pareço Moderno

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