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Resenhas – Coquetel Molotov 1

MQN – Bad Ass Rock’n'Roll
Guitarras bem altas e vocais perto do berro. Quem duvida da fórmula despretensiosa de rock’n'roll do MQN, basta conferir o nome de faixas como “Come Into This Place Called Hell” e “My Baby Sold Her Heart to the Devil”. Barulheira super afinada pela banda de Goiânia que faz do segundo disco um manual sobre como se divertir com um tipo de rock cada vez mais raro entre os independentes de destaque. Daqueles que a gente dá carreira, bate cabeça, funga o nariz e cospe no chão.


Totonho e os Cabras – Sabotador de Satélite
Exemplo mais clássico da criatividade nordestina em reprocessar suas batidas regionais com os samplers eletrônicos. O segundo disco de Totonho, primeiro gravado e lançado 100% pela Trama, com produção de Carlos Eduardo Miranda, rima com a vontade de experimentar de vizinhos como Chico César, Cordel do Fogo Encantado e Otto. Em alguns momentos seria bobo, se não fosse muito divertido falar versos como “o peito da morena / quando aperta faz fom fom”.


We Are Scientists – With Love and Squalor
“If you wanna use my body / go for it”. Prova inegável que existem nerds no Reino Unido, o We Are Scientists fez de seu disco de estréia item necessário na prateleira de quem não resiste fechar os olhos e fazer pose quando escuta o Weezer. A comparação é inevitável, ao ponto de dizer que eles já são o equivalente britânico da banda de Rivers Cuomo. Não faltam, no homônimo, riffzinhos instigados e músicas que devem virar cartaz de festa muito breve.


Diplo – Florida
A compilação de remixes e experimentação nas 12 músicas é de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizante. Se Displo faz sucesso na pista, o disco dele é para uma degustação muito mais tranquila. Nos EUA, a Flórida costuma ser pousada dos velhinhos, mas para essa aqui, tem que ter as idéias ainda novinhas na cabeça. Tem ainda um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco.

Abril pro Rock 2006: Primeiro dia

O 14º Abril pro Rock começou ontem, no Centro de Convenções, e já é a edição mais peculiar de todas. Sem muitos rodeios, este foi o ano com mais interesse da mídia pelo evento e com menos interesse de público. O que leva pensar que muita gente, no fim das contas, não faz um bom show. Mas pouca gente definitivamente faz um show ruim. E o pavilhão nunca esteve tão vazio. E isso nunca foi tão incomodo.

Quem chegava ao Centro de Convenções percebia de cara a novidade. O pavilhão onde o Abril pro Rock acontece todos os anos estava fechado. Uma área menor fazia um “palco 3” logo na entrada, onde aconteceriam todas as apresentações da noite.

Sim, essa foi a tal noite eletrônica. Depois dela acho que dá para concluir duas coisas. Ou esse público aqui é muito pequeno, ou ele não serve para nada. Porque às 23h, quando o Montage subiu no palco, não tinham nem 300 pessoas ainda para conferir o que seria uma das melhores apresentações da noite. Mesmo com uma estrutura de som péssima que só rendia ruídos, Daniel, uma mistura de Brian Molko-David Bowie-Vive la Fete, roubou a cena com uma presença de palco para lá de divertida.

A música não trazia muita novidade. É aquele eletrônico afetado, meio rock, feito com uma guitarra e um computador. Letras em português e inglês, que não fariam tanta diferença, não fosse o público já cantando elas de cor, colados no palco. Pensar em Internet é pensar que o público do Abril está mais refinado e, talvez por isso, tão restrito. Quando a apresentação terminou de meia noite, o pavilhão continuava com o clima vazio.

A disposição da programação do Abril pro Rock é bem engraçada. Este ano, o que eles têm de atração forte, ficou no meio e não no fim da noite. Na sexta, pareceu que eles quiseram entregar logo as cartas, mostrar o que tinham trazido de melhor e pior logo de cara. Porque depois do Montage, subiu uma das escolhas mais infelizes do evento, a dupla Kook and Roxxy. Supostamente alemã, já que a menina, a Roxxy, é daqui do Recife.

Com declarações de que “é muito lindo tocar em casa”, a dupla não acrescentou muita coisa além de caretas na cara do público. O “Palco 3”, inaugurado clandestinamente pelo The Playboys ano passado, agora é oficial e também muito pequeno. A aparelhagem técnica tinha melhorado o som da dupla, mas o espaço parecia pouco para a menina que não parava de dançar esquisitamente no palco.

Hora de lavar a alma, com o toque da meia noite no relógio e a dupla Stereo Total se organizando no palco. Não tem como negar um sorriso para a simpatia dos dois. Uma mistura de Walter Matau com Kramer (do Seinfeld) e uma professora de colégio americano, mais o delicioso sotaque inglês (eles são da Alemanha) e uma hora de música eletrônica-minimamente-fofa.

O show mais legal da noite teve ainda o pessoal que estava na frente do palco subindo, tocando os instrumentos, dançando e cantando junto. Tudo num clima ótimo e bem divertido, desses para guardar como boa lembrança. Talvez por isso, pareceu demorar muito mais que a uma hora que teve duração. Perto das mil pessoas, o Abril pro Rock chegava ao seu ponto alto. O que fez valer a noite.

Diplo funcionou como uma espécie de divisor de águas da noite. Com a injusta tarefa de se apresentar em uma hora, o DJ americano fez um set pra lá de misturado. Com o esperado funk a remixes legais das velhas músicas de sempre. Divertido, mas naquele momento, a noite começava a ficar mais segmentada. Algumas pessoas já iam se afastando, cientes que não conseguiriam nada melhor que aquilo. Teria sido muito legal, não fosse a inocente idéia de Diplo de homenagear Chico Science. Desnecessário.

Nos bastidores, o DJ, bem eufórico, disse que tinha sido uma de suas melhores apresentações. Não entendeu, no entanto, porque o público não tinha gostado tanto da homenagem que ele fez a Chico Science. Bem vindo ao Recife, Diplo. =)

Quando o DJ Dolores entrou com seu bloco Mega Hits já eram três da manhã. Pouquíssima gente, um calor infernal. A idéia de Helder Aragão (alcunha que um dia foi o nome verdadeiro de Dolores) é muito, mas muito legal. Também é totalmente deslocada da noite do Abril pro Rock. Uma orquestra de verdade, da Bomba do Hemetério (um dos bairros barra pesada do Recife), tocando aqueles sucessos mais batidos de uma festa cansada. Depeche Mode com Eye of the Tiger (isso mesmo, a trilha da cine-série Rocky).

Bizarro, o ator Mateus Nachtergaele, completamente louco, subiu no palco e tentou cantar (ou era recitar?) alguma coisa.

Quando a noite entrou na reta final, já era dia. Quatro da manhã, João Gordo e Iggor Cavalera no palquinho, Black Sabbath na caixa. A dupla fez o set hetero do Abril pro Rock. Som pesadão, com hip hop e muita guitarra. Mas depois da maratona, era preciso muita boa vontade para agüentar mais uma hora de música. Pelo menos nesse contexto bem irregular que foi o repertório da sexta-feira.

Diplo – Florida

Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

Publicado originalmente em 01.10.05